domingo, 31 de março de 2013

875 Soneto de dia de clássico

Tem moleza não!

Futebol, genuína paixão popular,
Time grande outro e sai faísca.
Favorito? Quem tem não arrisca,
No jogo, a coisa pode mudar,

Time em crise pode engrossar
O caldo. Torcedor que pisca
Não verá a arrancada arisca
Do adversário a abrir o placar.

Pronto! Olha aí seu time atrás
Correndo para o empate. Faz
Tanto que empata. Tem festa?

Porra nenhuma. Quer outro gol!
Se tem clássico, a paz no futebol
Complica. A derrota é indigesta.

Francisco Libânio,
31/03/13, 12:50 PM

874 - Soneto do brasileiro convertido

Achei excelente a matéria sobre esse cara.

No dia da ressurreição de Cristo
Agradou-me ler sobre o islamita
Brasileiro convertido e é um xiita
No Irã. Aqui o cara será malvisto,

Passará má impressão, um misto
De traição a Jesus Cristo e a dita
Pena de quem segue a proscrita
Fé dos aiatolás. Como pode isto?

Pois, eu, sem fiar fé numa religião,
Gostei do convertido, da conversão
E louvo sua fé bem como o respeito.

Acho que é o que a Páscoa ensina.
Crê, mas crê, pratica, e mais, atina
Ao amor. O Ensinamento está feito.

Francisco Libânio,
13/03/13, 10:38 AM

873 - Soneto perdoado

Só Jesus mesmo...

E Jesus disse lá do alto da cruz:
“Não sabem o que estão fazendo.
Perdoa!” Sabiam e estavam tendo
Prazer em dar o cacete em Jesus.

Mas a frase que hoje se reproduz
À farta não merece algum adendo.
Mas a quem diz não está fazendo
O dito. E se, acaso, serve o capuz

Na tua cabeça, fique aí tranquilo.
Ao lado de uns piores te perfilo
Ainda que, seu erro, não o admita.

Mas aceito. Perdoar exige dom,
Pede renúncia de descer o tom,
Não é qualquer um que se habilita.

Francisco Libânio,
31/03/13, 9:36 AM

872 - Soneto de caça aos ovos

Coisa mais gostosa.

Lembro quando eu era criança...
No domingo não podia faltar.
Reunir a molecada num lugar
E começar a louca andança

Atrás dos ovos. E se lança
Atrás de árvore. Um vai achar
E outro... Agora é empanturrar
Total na hora da comilança.

Brincadeiras bobas, divertidas
Que faziam as famílias unidas
E a Páscoa data inesquecível.

Hoje, quando como chocolate,
A lembrança de lá vem e bate.
Mais velho fico mais sensível.

Francisco Libânio,
31/03/13, 9:14 AM

871 - Soneto desargumentativo

Porque dar porrada em estudante é democrático. Imagina se fosse em Cuba.

E qual era, deles, a explicação?
Que, para evitar uma ditadura
Tipo cubana, necessária a dura
Atitude e uma heterodoxa ação.

Porque não é uma ditadura não,
Apenas uma preventiva postura
Que foi necessária àquela altura
Pra impedir arroubo do Partidão.

Houve excesso, mas foi pro bem,
Só morreu comuna. Gente de bem
Vivia em mais perfeita segurança.

Como se o despotismo de direita
A um de esquerda arruma e enjeita,
Azar se tem qualquer semelhança.

Francisco Libânio,
31/03/13, 8:54 AM

870 - Soneto pseudo-revolucionário

Mas foi deposto democraticamente, com o apoio do povo. Você duvida? Melhor não...

Eles põem as forças na rua
E aí roubam gradativamente
O poder. Seguem em frente
E, no poder, sentam a pua

Aí a democracia descontinua,
Eles depuseram o presidente
Eleito pela vontade da gente
E nos porões, a porrada nua

Surra, tortura, não raro, mata
A oposição que não se retrata
Do contrário e não faz sintonia.

Eles calam a opinião dominante,
Mandam e chamam o desplante
Despótico deles de democracia.

Francisco Libânio,
31/03/13, 8:31 AM

869 - Soneto do sábado de aleluia

Valeu a pena esperar.

Lá se foi a sexta-feira santa.
Abdicou da carne vermelha,
Teve-se, de cristão, centelha
E, de novo, peixe na janta.

Hoje a tradição se espanta,
Com ontem nada assemelha,
Já tem ali a carne na grelha
Já aqui, a cerveja se decanta

Mais gelada, mais saborosa.
Enquanto rola toda a prosa
Entre a cruz e a ressurreição.

Porque sendo páscoa amanhã,
Os bichos, que tem alma irmã,
Por hoje nos darão seu perdão.

Francisco Libânio,
30/03/13, 6:33 PM

868 - Soneto do beijo oferecido

Nunca vem sozinho...

Prepara a boca e ela oferece
Um beijo gratuito. Desconfia.
Um beijo a ser o prato do dia
É estranho. Ao menos parece.

A boca doadora de beijo tece
Alguma trama e mais ela afia
A língua que dará a cortesia,
Mais ela induz a si o interesse

Certamente, a boca pedida,
Se aquiescer a essa investida
Terá que pagar o beijo dado.

E já negado o beijo oferecido,
A oferecedora arquiva o pedido
Não sem taxar o outro de veado.

Francisco Libânio,
30/03/13, 6:02 PM

867 - Soneto das empregadas

Esse tempo acabou sinhá. Quero meus direitos!

PEC das empregadas, se sou a favor?
A favor é pouco. Defendo com a vida.
Pensa as casas de madama sem a lida
Da empregada que pardieiro, que horror

Seriam. E se são solução, nada melhor
Que as madamas pagarem a referida
Conta, retribuição mais que merecida
Para a que salva a que nem sabe pôr

Panela no fogão do sufoco absoluto.
Além do mais, acabou o labor bruto
E pago por ou de graça. Exploração

Assim a Lei Áurea deu por acabada
Ou não seria o que era a empregada
Resquício do que era a escravidão?

Francisco Libânio,
30/03/13, 10:50 AM

866 - Soneto do Judas malhado

Tem coisa pior e mais difícil de malhar.

Malhação do Judas, todo ano
Tem o vilão da hora e da vez
Para apanhar do povo. Talvez
Seja o Renan, talvez Feliciano...

Seja qual for, tira-se um tirano
Para desafogar a desfaçatez
E aí soltar monstros e clichês
No disfarçado vilão de pano.

Agora, uma ideia interessante
Seria o tal Judas ser o gritante
Mal de quem tanto nele bate.

Assim se malha o próprio mal
Para crescer valorando o ritual
E vencer a si nesse tal embate.

Francisco Libânio,
30/03/13, 9:18 AM

sexta-feira, 29 de março de 2013

865 - Soneto do esquecido imortal

Não duvido que essa escabrosidade aconteça.

Fernando Henrique na Academia
De Letras? Piada, insossa piada!
O que o sociólogo da pá virada
Fez à literatura? Isso se um dia

For lembrado. Foi com maestria
Que ele relegou sua papelada
Escrita ao esquecimento. Nada,
Logo, merece qualquer simpatia.

Mas a Academia, diga, de velho
Perdeu fé. Com um Paulo Coelho,
Dando uma banana à norma culta,

Merval, Bob Fields, Roberto Marinho...
Tanta nulidade lá que, com carinho,
A Academia, o sociólogo, fácil indulta.

Francisco Libânio,
29/03/13, 1:17 PM

864 - Soneto crucificado

Participação especial

A cena era Jesus ali pregado
Depois de cuspe, de porrada,
A plebe ali, meia consternada,
Outra meia dá ao crucificado

Vaia. Outro profeta condenado.
Tantos ali. A Palestina infestada
De profeta com palavra sagrada,
De messias. Era tanto iluminado

Que Edison não traria novidade
Nenhuma com sua eletricidade,
Mas um deles da sua cruz jazia.

O Jesus deixava ali a sua vida
Para entrar na história, partida
Que Getúlio tentou fazer um dia.

Francisco Libânio,
29/03/13, 12:54 PM

863 - Soneto sem carne

Foi perfeito.

Mas se formos falar saudavelmente,
A sexta-feira santa vem bem e alivia
O estômago da glutonice que avaria
A saúde para o bel-prazer do vivente.

Este carnívoro contumaz e consciente
A sexta-santa não prefere ou aprecia
Só que, também, não vai mal jurar o dia
Por não ter um bife à mesa presente.

Carne também é a tal da carne branca,
Mais leve que à sua maneira estanca
A tal sanha carnívora desse sonetista

(Que nem é tanta assim, diga a verdade).
Como bacalhau não lhe faz a vontade,
Uma sardinha é banquete de hedonista.

Francisco Libânio,
29/03/13, 10:01 AM

862 - Soneto da sexta-feira santa

Amanhã, tu não me escapa!

Sexta-feira santa, marco religioso,
Quem tem fé segue tudo à risca,
Quem não tem respeita ou petisca
Um filezinho um tanto orgulhoso

Pela subversão e pelo saboroso
Bom da carne que o dia confisca.
Este, que com religião não cisca,
Bem menos banca o xiita raivoso.

É dia de respeito, pois que guarde
A vontade. Sem carne sem alarde,
Por hoje, um peixinho me satisfaz.

Amanhã, enquanto o Judas malho,
Ele será a picanha que estraçalho
Com meu estômago cheio de paz.

Francisco Libânio,
29/03/13, 9:46 AM

861 - Soneto abacalhoado

Não me apetece, mas...

Sexta-feira santa, por excelência,
O prato do dia é o bom bacalhau.
Tê-lo à mesa pede um dado grau
Financeiro. Só que a eminência

Do peixe e a notável preferência
Fazem que se suba outro degrau,
Aperte o cinto sem se fazer mal.
Uma vez por ano não dá falência.

Há outras opções, um tucunaré,
Água doce, mais barato e dá pé,
Uma tainha bem feita nada deve

Ao rei da mesa na semana santa,
Mas, em tradição, nada suplanta
O salgado do ensopado bem leve.

Francisco Libânio,
29/03/13, 9:18 AM

quinta-feira, 28 de março de 2013

860 - Soneto democrático-ditatorial

Eu me manifesto e sou preso. Quer coisa mais democrática que isso?

Na casa dos representantes do povo,
Feliciano fala. Na verdade, ele tenta.
Mas o povo, ao qual ele representa,
Logo o cala. Feliciano tenta de novo,

Outra vez a galera manda-o ao ovo,
Manda-o à merda e ele não aguenta.
Deputado, com o poder que ostenta,
Manda prender o povo. Desaprovo!

E ainda apela e se diz democrático!
Além de ser homofóbico antipático,
Ele se faz democraticamente tirano.

Pois prender quem opinião manifesta
E dizer que é democracia, na testa
O nome de ditador do pior, o insano.

Francisco Libânio,
28/03/13, 1:34 PM

859 - Soneto de feriadão

Puta balada no feriado!

Pinta um dia a mais livre e veja.
A bagunça que vira a sociedade
Atrás da suposta tranquilidade
Deixando a cidade que pregueja.

A praia, quase sempre ela almeja
E vai. Correndo da urbe se evade,
Enfrenta outros iguais de vontade
Igual. Chega ao litoral e lá troveja,

Chove. Praia já era. Apartamento,
Um dia, dois, três. E o movimento
De volta. Na estrada mais uma fila.

Chega morto. Segunda não perdoa!
Três dias fracos, mas fica de boa
A sociedade que fica mais tranquila.

Francisco Libânio,
28/03/13, 1:18 PM

858 - Soneto junkie

O cara é fera.

Leio Mattoso, Bukowski e entendo.
Os poetas são seres já turbinados,
Pela inspiração e, bem aditivados,
A poesia aparece como dividendo

Para nós, para mim. Cá me emendo.
Com álcool, drogas e, inspirados,
Poetas viram maníacos depravados,
Vivem com mulheres e, dependendo,

Com homens as aventuras surreais
Delírios ora narcóticos ora sexuais
A encantar e deixar louco os leitores.

De mim, que de água, suco e leite,
Queria um poema que se respeite,
Mas temo esse circo de horrores.

Francisco Libânio,
28/03/13, 1:09 PM

857 - Soneto ventríloquo

Quem tá falando é ele. Nem vem.

Há quem me leia a procura
De algo que eu queira dizer.
E isso só farei se o disser,
Meu verso por mim não jura

Nem fala. Cesse a varredura!
Não dei ao soneto tal poder.
Ao curioso, quiser de saber,
Tenha a gentil compostura

De perguntar. Em meu colo,
O soneto diz de modo solo
As bobagens de sua autoria.

E as bobagens que ele diz
São só dele e ditas de feliz.
Ele só pouco me contraria.

Francisco Libânio,
28/03/13, 10:06 AM

856 - Soneto sem medo

Valeu a pena esperar...

No derradeiro encontro, decisivo,
Se travar agora, viramos história,
Com essa involuntária moratória
De prazer, eu só permaneço vivo

No relacionamento porque crivo
Dedicação, encho-a com a glória
Merecida, mas preciso de vitória
Na cama e lá ser mais persuasivo,

Presente e deixar o medo de lado.
Encontro-a. Vez com ela abraçado,
O negócio rola assim naturalmente.

O medo acaba, consigo ir até o fim.
Deu certo! Deu certo pra nós, enfim!
E agora está tudo ótimo para a gente.

Francisco Libânio,
28/03/13, 8:13 AM

quarta-feira, 27 de março de 2013

855 - Soneto do pobre rock

Esses caras fazem falta.

Passam anos e anos e o rock
Brasileiro bem pouco se renova.
O que pinta de novo comprova
Há cor demais, há ate o choque

Que parece reavivar o estoque
De boas ideias, mas uma ova!
O estilo vai rápido para a cova
Com cada enganação escroque,

Cada fajutice que o empresário
Empurra e o ouvinte, de otário
Que é, se deslumbra e fácil usa.

E a gente olha para o céu azul,
Pensa que sorte lá. Toca Raul
E compõem Renato e Cazuza.

Francisco Libânio,
27/03/13, 7:37 PM

854 - Soneto xinquentenário

Foi só um filme. O que ela fez com as crianças depois foi muito pior.

Xuxa faz cinquenta anos. Parabéns.
Cumprimento a pessoa pela data.
À apresentadora, lhe digo na lata:
Sai do teu posto, curte teus bens.

Ela, que fez de nós pobres reféns
Na infância com sua vozinha chata,
O programa chata, a forma caricata
Tomou de lá os muitíssimos vinténs

Que lhe garantem a fortuna e a fama.
Namorou Pelé? Senna em sua cama?
Os namoros não são da minha conta.

Se ela fez filme proibido. É a mancha
Que todos têm. Já, muito mais ancha
É a vergonha que a moça ainda apronta.

Francisco Libânio,
27/03/13, 7:12 PM

853 - Soneto sem vergonha

Fica calmo e faz como a Marta, relaxa e goza.

Mas aí estamos longe, eu e ela.
Provocá-la vira um tipo de jogo.
À vergonha de outrora a revogo,
E meu desejo vai dando a trela

Necessária já que dali é paralela
A vontade. Aumentamos o fogo,
Queremos estar perto, e é logo!
Eu quero despi-la, beijá-la e tê-la!

Não demora para a oportunidade
Aparecer. Vou saciando vontade!
Dispo-a. Linda! Beijo-a. Delícia!

Ela se põe à minha disposição,
Mas a vergonha ida é a reação
Quando ela me faz uma carícia.

Francisco Libânio,
27/03/13, 11:31 AM

852 Soneto do Jesus renunciado

Que porra é essa?

“E se Jesus renunciasse?” questiona
A faixa, entre todas, a mais surreal.
Para este antirreligioso, mas pessoal
Fã de Jesus, o debate vem à tona.

Se Jesus renunciasse, de carona
Na renúncia apareceria um boçal –
Ou dois ou três – se dizendo o tal,
O novo Messias e fazendo zona

Na Igreja como a fizeram depois.
Tudo se adiantaria. Por isso, pois,
Jesus, a tal renúncia, não a fez.

Só que o Feliciano não é Jesus.
Se fosse, bem mereceria a cruz.
Como não é, renuncia, dá a vez!

Francisco Libânio,
27/03/13, 9:43 AM

851 - Soneto para a oça ganhadora do programa

Mais uma rumo ao esquecimento.

Ganhou o BBB, ficou milionária!
Conta gorda sabe lá até quando.
Se ela mesma ficar ao comando
Da grana fica a moeda solitária,

Ela esquecida, mais uma otária
A sair do reality show abafando,
Aí depois as coisas mostrando
E viverá como uma imaginária

Celebridade que acreditará ser.
Depois sumiço sem ninguém ver
E nota no Ego, negócio forçado.

Ganhou o BBB, é bonita, e daí?
Loira construída tem muita por aí.
Espero, por ela, eu estar errado.

Francisco Libânio,
27/03/13, 9:16 AM

terça-feira, 26 de março de 2013

850 - Soneto sem certeza

Eu te adoro, meu amor, mas... Sei lá.

Gostar a gente gosta, dedicação se dá!
Adorar a gente adora, amar a gente ama,
Só que tudo isso me desperta tal chama
Que, no descontrole, quem a controlará?

A gente se imagina na cama. Uma vez lá,
Nem sempre acontece como é na trama
Imaginado. Ela aceita, mas pra si reclama
Meu não prometido. Mas afinal, o que há?

Gosto dela e a ela dedico todo o carinho
Que dedico a uma mulher, mas me aninho
Nos braços dela e alguma coisa ali falta.

O tesão não é. Tenho por ela até demais.
Sentimentos também. Sinto mais e mais.
Mas se eu a vejo, algo de mim logo salta.

Francisco Libânio,
26/03/13, 7:43 PM

849 - Soneto de amizade colorida

sabe onde vai terminar isso, né?

Saem e se divertem. Vem o desejo,
Saem de novo, pra conhecer melhor
Aquilo já conhecem. Trocam calor,
Carícias; esquenta e num lampejo

Rola um motel e, após, um gracejo.
Evitam algo mais comprometedor,
Mas se veem se o tesão for maior
Que o comprometimento. Eu vejo

No chove-não-molha, couro-de-pica
Uma amizade que máximo se estica
Até à cama e depois de gozar volta.

São amigos? Não o são nem a pau!
E namorados? Fossem, fariam mau
Papel, mas são o que a libido solta.

Francisco Libânio,
26/03/13, 7:25 PM

848 - Soneto de final de programa

Um grande foda-se.

Acabou o BBB? Olha, que maravilha!
Quase três meses de programa a fio,
Programação fraca a encher o estio
E aí o tal reality show é que ladrilha

A programação, aproveita e encilha
Quem o assiste. E celebra o vazio
Humano, cheio de ardis e num cio
Sem fim. É aí quando mais brilha

Quem não brilharia em condições
Normais fossem exigidas aptidões
Além de bundas e peitos definidos.

Quem gosta, respeito, não critico
Mas acho o fim o sujeito ficar rico
Sem esforços ou méritos devidos.

Francisco Libânio,
26/03/13, 1:04 PM

847 - Soneto sem intimidade

Amigo bom é o House.  Nunca te desaponta.

Mas no final das contas, pra quê
Serve tanta intimidade e amigo
Íntimo? Se convivo mal até comigo,
Intimidade não é algo que se dê

Assim, beijado, ao primeiro que vê.
Quer ser amigo? Bem, não ligo,
Mas não pergunta muito. Não digo
Nada além do que cabe a você

Saber. Intimidade se conquista
E ela, por mais que seja altruísta
E dedicada, dá ao outro poder.

E sabendo de nós por demais
Viramos alvos frágeis e cruciais
Se dia a amizade desaparecer.

Francisco Libânio,
26/03/13, 12:45 PM

846 - Soneto da intimidade de anos

Uma ótima amizade é sempre muito bom.

Porque amigo não é só a empatia,
A coisa em comum, a identificação...
Amigo é isso tudo mais a atração
Da alma conhecida que não sabia

Existir e estava por aí e já existia.
O amigo vai te ouvir a lamentação,
Vai vibrar na mesma com a emoção
Da felicidade dizendo “Eu já sabia!”

O amigo ouvirá seu segredo quieto
Parecerá novidade, mas, discreto,
Lá dentro, ele também sabia disso.

Enfim, é o que te manda ao inferno
E você o manda à merda e, terno,
Ele vai, pois firmou o compromisso.

Francisco Libânio,
26/03/13, 8:48 AM

segunda-feira, 25 de março de 2013

845 - Soneto da intimidade recém-feita

É insuportável.

Me conheceu, batemos uns gostos
Casuais, afinou ideia e outra comigo
E ele já saiu por aí se dizendo amigo,
Que tinha notado em nossos rostos

Que éramos unha e carne. Supostos
Gostos esses, não defendo ou brigo;
Gosto, mas sem dar pela falta sigo
Se não os tiver. Tais pressupostos,

Que enraizaram a tal e recém amizade
Foram além da simples racionalidade
E o cara já exigia por direito seu lugar

Na agenda e estar nas redes sociais
Que frequento. E sem aguentar mais,
Pedi ao neoamigo e certo chato andar!

Francisco Libânio,
25/03/13, 7:20 PM

844 - Soneto de rima rasa

Tentando voar...

Pega um soneto e nele extravasa!
Escreve a seu modo, vira a mesa,
Solta toda a coisa aí dentro presa
E deixa que o teu soneto crie asa.

A rima? Junta um par que se casa,
Terminações que tenham a defesa
Certa. Não tiverem, saia à francesa.
Por rima, um soneto não se arrasa.

Escreve e, se necessário, pesquisa.
Rima parecida ou rima mais precisa
O bom poeta sabe como bem a usa.

E termina seu soneto em polvorosa.
Mas ao ler o soneto de si todo prosa
Percebeu que faltou a ele uma musa.

Francisco Libânio,
25/03/13, 12:25 PM

843 - Soneto de rima amarrada

Tá amarrado!

Rimar “ada” é fácil, mas rimar “eda”
Já deixa a coisa algo mais ardida.
A terminação, não muito preferida,
Deixa a inspiração bem mais azeda.

Mas rimar “ida” é, na mesma moeda,
Complicado embora fácil de partida,
A variedade é maior, mas descabida
E a “particípia” logo a boa ideia veda.

E chega-se aos tercetos com a foda
Missão de rimar “eda”, “ida” e cá “oda”.
Até que, no fim, a pior rima desnuda

E surge um “uda”, terminação já dada
E prevista. Só que, já quase acabada,
A missão, beija-se a rima dura e taluda.

Francisco Libânio,
25/03/13, 9:39 AM

842 - Soneto do encontro dos papas

Chico e Bento. Outro encontro desses nunca mais.

Parece ser coisa de fim do mundo,
Um acontecimento único e surreal,
Mas após a fumaça branca papal
Um encontro espiritual e profundo

Foi o de dois papas. Um oriundo
Da Argentina, um papa mais “legal”
E outro sisudão com cara de mal
Mas, que por saber mais a fundo

O que rolava dentro do Vaticano,
Pediu pra sair. Assim, o veterano
E o novato trocaram ideias papais.

Guarde bem esse acontecimento!
Papas só se reúnem no firmamento,
Na terra, um igual esse nunca mais.

Francisco Libânio,
25/03/13, 9:24 AM

841 - Soneto do sertanejo preso

Pensa se fosse, sei lá, o Dinho Ouro Preto...

Prenderam o Hudson todo armado,
Duas vezes! O sujeito é um perigo!
Vai ter um desses como seu amigo
E vai ver que o é estar bem ferrado.

Coleciona armas? Hobby amalucado,
Mas hobby e parece negócio antigo...
Mas sair armado é coisa pra castigo
E com arsenal forte, todo carregado

E chapado de droga? Faça o favor!
Prisão foi o mais brando e o menor
Castigo que merecia esse arruaceiro.

E vira noticia e sai dando entrevista.
Mas foi bom. Porrada no moralista
Que vê isso tudo coisa de roqueiro.

Francisco Libânio,
25/03/13, 9:11 AM

domingo, 24 de março de 2013

840 - Soneto alheiamente inspirado

Inspirei numa delas ai. Descobre você qual.

Escreve uma música ou um poema
E quem lê busca agulha no palheiro.
Lê, ouve, disseca o negócio inteiro
Atrás de saber: Quem ali foi o tema?

E mato de pronto esse bobo dilema.
O tema foi um pensamento fagueiro
Que veio, um tesão mais interesseiro
E juntei os dois e rolou o esquema:

O poema surgiu, a música deu liga
Com a letra. E vai vir quem te diga,
Mas o nome da música, vê, é Maria!

É porque o título é o que eu faço
Por último. Peguei o nome no laço
E arrematei. Era o que você queria?

Francisco Libânio,
24/03/13, 2:41 PM

839 - Soneto da burrice anticomunista

"É comunista e tem Internet e telefone celular!" ele berrou.

É de esquerda e vai pra Paris?
Prega Marx e mora muito bem?
Materialista dialético, mas tem
Conta corrente em banco xis...

Usa, abusa da internet, nela diz
Contra o tal sistema que retém
Para os ricos e não dá a quem
Não tem e prega: Há dois Brasis!

Dizer isso não é ser anticomunista
Nem bater no seu peito capitalista.
É padecer duma cretinice incurável

De adiantada. Ser comunista é lutar
Contra a ostentação atrás de lugar
Ao sol a todos e não ser miserável.

Francisco Libânio,
24/03/13, 2:28 PM

838 - Soneto pouco confiável

Não tem palavra, não abra a boca.

A palavra humana já teve mais valor,
O compromisso de homem teve dias
Melhores, mais cheios das fidalguias
E dizer e cumprir não merecia louvor

Porque era honra, era algo mui maior
Que fazer o prometido. Mas avarias
Morais e promessas mais que vazias
Transformaram a palavra e seu dador

Em meros falastrões e conversa fiada.
Quem fala e cumpre sua palavra dada
Surpreende e é menos pela confiança

Que sugere que pelo mero cumprimento.
Aí escrevo e se lê e cai no esquecimento,
Pois o poeta fala sem dar qualquer fiança.

Francisco Libânio,
24/03/13, 12:56 PM

837 - Soneto da moça com transparência

Às vezes e sensual, outras é vulgar...

Entre o nu e a roupa daquela moça
Há um vidro? Ou será um espelho?
Vidro porque vejo e me avermelho.
Há um corpo lindo que me adoça

A vista e disfarço, a vista grossa!
Espelho, pois ao ver me assemelho.
Há um quê de maldade. O bedelho
Metido, pela transparência, endossa

Um desejo comum, uma saliência
Mal escondida pela transparência
Um sinal de ataque? A permissão?

Não sei. Mas o visto, ainda vestida,
Se é pra provocar ou coisa parecida,
Atingiu com muito sucesso a missão.

Francisco Libânio,
24/03/13, 11:34 AM

836 - Soneto do Chico convertido

E eu não gostava dele...

Assisto a um maravilhoso especial
Sobre o Chico Buarque. Ele é foda!
Reinventou a música brasileira toda
E sambou na fuça de cada general.

Poesia engajada, feminina ou trivial...
E eu, adolescente e cheio de moda,
Não o ouvia deixando fora da roda
Dos meus CDs. Roda viva e espiral

Da vida fizeram a inesperada muda.
Hoje ouço e, numa conversão aguda,
Adoro o cara. O moleque exaspera,

Não acredita e me vejo, quinze anos,
Eu inventando a escrita e com planos
Modernosos. Que bobo que eu era!

Francisco Libânio,
24/03/13, 11:16 AM

835 - Soneto do príncipe desencantado

E ele é tosco, feio, mas faz tudo pela amada. Qual você prefere?

Afinal, príncipe encantado pra quê?
Se o homem for minimamente gentil,
Algo atencioso e não for um imbecil
Machista babaca, a mulher até crê

Que príncipe é pra conto ou pra TV.
O homem-homem renuncia ao perfil
Onírico e fantasioso e quase infantil.
Homem de verdade, a mulher o vê

Em atitudes. Ele não repara a bunda,
Tamanho do peito ou outra imunda
Analise que qualquer perdigoteiro faz.

O homem real, como o Shrek, é feio,
Mas esta ao lado e faz todo o esteio
Para sua princesa encantada ter paz.

Francisco Libânio,
24/03/13, 11:02 AM

834 - Soneto do príncipe encantado

O do filme do Shrek era safado, vingativo e arrogante. Pode ser?

É romântico e chega a ser bonito
Sonhar com o príncipe encantado,
Nobre num alazão branco montado
E lindo, como sempre está escrito

Nos contos. Esse príncipe, acredito,
É o perfil de herói bem desenhado,
Bem construído e tão estereotipado
Que do dez com louvor no quesito

Nobreza de coração até a estrelinha
A iluminar nunca erra ou se desalinha,
Só vê a princesa e o amor contagia.

Príncipe encantado... A conversa fiada
Maior. Deve ser uma mona afetada
Ou deve viver no mundo da fantasia.

Francisco Libânio,
24/03/13, 9:25 AM

sexta-feira, 22 de março de 2013

833 - Soneto anônimo

Um movimento meio mascarado esse...

Vejo esses caras mascarados e penso:
Essa revolta atabalhoada sem direção,
O que eles querem? Cartaz? A atração
Do dia? Criar negócio inutilmente tenso?

Vejo-os protestando contra. Cadê senso?
Indignado também sou, mas há a situação,
Há culpados e alvos da minha indignação.
Ser contra por ser somente? Eu dispenso.

Ser acomodado e ser levado pelo que há
É inadmissível. Só a luta do povo mudará,
Mas também precisa saber quem é inimigo,

Quem está do lado. Bater indistintamente
Não é ser rebelde, é apenas ser o doente
Que olhar e quer que olhem o seu umbigo.

Francisco Libânio,
22/03/13, 8:58 PM

832 - Soneto da namorada da noite

Se eu tivesse grana e falta de senso...

Solidão é uma merda. Instinto pede
E o bolso, seu refém, ouve e gasta.
O jornal possibilita a estranha hasta
E a licitação, movida por essa sede

De putaria, me põe contra a parede.
A mulher contratada tem bem vasta
Experiência na atividade nada casta
E mais que ela faça, jamais excede.

A noite é boa, a solidão vira história.
Gozamos ambos. Momento de glória
Essa namorada valeu cada centavo!

Foda é que o melhor, que é sem preço
Não vem no pacote. Logo me esqueço,
Mas chafurdo na solidão que depravo.

Francisco Libânio,
22/03/13, 8:33 PM

831 - Soneto com vontade

Já quis muito isso enquanto escrevia.

Pôr em versos uma coisa qualquer
É estranho. E quando não se tem
O que se escreve é que não vem
A ideia. A falta absoluta do poder,

Da posse, do talento e do prazer.
O poeta se estertora e viaja além
Dos versos e entrega-os ao bem
Próprio. Eles que irão se escrever.

O poeta tem certo desejo de algo,
Mas à fleuma, ele banca o fidalgo
E não tem o que quer ou escreve

Sobre o que quer ter. E carentes,
Poeta e poesia são entrementes
Vítimas do querer que os manteve.

Francisco Libânio,
22/03/13, 12:54 PM

quinta-feira, 21 de março de 2013

830 - Soneto da pobre reinança

Impera apesar da feiura

Pega-se um soneto e o tortura
A fim de tirar dele o que preste.
Quero um soneto que refloreste
A inspiração e cuja semeadura

Encontre raízes, despeje fartura
E cresça ao alto, ao céu celeste.
Mas meu soneto nasce agreste,
Mirrado, acatingado, forma dura,

Mandacaru. Imponente, mas cru;
Verdejante, mas um mandacaru.
Não atingiu o céu qual eu queria...

Tudo bem. Sua feia imponência
Não mostra sua melhor essência,
Mas reina como um pinheiro faria.

Francisco Libânio,
21/03/13, 7:15 PM

829 - Soneto do último primeiro beijo

Pra ser inesquecível

De tantos que já dei e já ganhei, esse
Beijo, que nem foi entre eles o melhor,
Mas dado sinceramente, com tal calor
Que mesmo que eu não aquiescesse,

Recusasse e brigasse e me opusesse,
Certamente eu daria a falta. O frescor
Da boca não veio para mim com amor,
Desejo ou intenção, mas sua benesse

Foi simplesmente essa. Sem os orais,
Disse: Depois de mim nenhum mais!
Legal então. Se você falou, tá falado!

Maldito beijo sem nenhuma intenção,
Inocente até, mas que deixou menção.
Agora soneteio como um apaixonado.

Francisco Libânio,
21/03/13, 1:39 PM

828 - Soneto à mulher só de camisa

Não precisa de mais nada.

Uma mulher só de camisa. Nada mais.
Sem bermuda, calça, calcinha e sutiã.
Cobre só o essencial, mas não o afã
De se descobrir os mistérios demais.

A mulher só de camisa e a nua: Iguais.
Só que esta deixa fora de si um elã
Que naquela sobeja, Há um talismã
Que lhe confere tons muito sensuais.

A camisa pode ser despida. Pra quê?
O que se tapa é igual. Vez que se vê,
Tudo é igual a todas. Acaba a graça.

Aí, desejando a mulher só de camisa,
Quero ultrapassar a tão frágil divisa,
Quando ela beija e a camisa abraça.

Francisco Libânio,
21/03/13, 1:15 PM

827 - Soneto outonal

Outono só pra foto.

Outono de folhas ao chão, caídas,
Cenário de pintura, um plano ideal,
A expectativa que o inverno, afinal,
Chegue. Essas variações coloridas,

Vermelho e marrom; enverdecidas
Algumas folhas e o vento outonal
Levando por aí, movimento casual
Deixando outras folhas dormidas...

Isso é lindo, poético e maravilhoso,
Mas não é daqui. O mais gostoso
Do nosso outono é o tempo fresco,

Com expectativa de um inverno frio,
Fraquinho, mas que causa arrepio
Aos fãs desse outono carnavalesco.

Francisco Libânio,
21/03/13, 12:58 PM

826 - Soneto da burrice invejosa

Leitor d´O Estadão ocupado lendo o jornal.

Chefe do Estadão disse: O povo é burro!
Estranho. Isso soa desespero ou inveja
Desespero porque o jornal mais rasteja
Em venda e o deixa assim bem casmurro.

Inveja porque ele deu um pretenso murro
Na dita ignorância que, para ele, dardeja
Para o alto uma presidenta. Aí esbraveja,
Irrita, perde a razão e ainda chama zurro

A opinião que não afina com seu jornal.
Por tanto, se somos burros para este tal
Jornalista, talvez tenha ele lá sua razão.

Somos burros Mas antes que o parasita,
O urubu que torce contra e só regurgita
As burrices que saem direto no Estadão.

Francisco Libânio,
21/03/13, 12:41 PM