quarta-feira, 31 de julho de 2013

1155 - Soneto não gozado

Não rolou nada aqui hoje.

O poeta, na sua solteirice,
Dela não se envergonha
Ainda que difícil se ponha
Por mais que tudo o atice.

A mulher com a meiguice
Pueril ou a sem vergonha
A abrir pernas e ele sonha
E faz com que tudo se ice,

Se arme e deixe o desejo
Falar alto, mas vai ao brejo
Tudo. Fica só o entusiasmo.

O poeta fica sem presente,
Sem presentear e ausente
Nesse tal dia do orgasmo.

Francisco Libânio,
31/07/13, 6:24 PM

1154 - Soneto tossido

Deixa estar que seu dia chega.

Não dá. Bastar estar no cofe-cofe,
Tossindo até que o ar não venha
Para que um com isso se entretenha,
Veja o outro e deste bem galhofe.

Pois que ria. Solte o melhor bofe,
Deixe o bom humor fazer resenha
Da situação. Não, não se atenha!
A sua piada me alimenta a estrofe

E dá de comer a este soneto bobo,
Afinal uma vez que o homem é lobo
Do homem, mede uns paquidermes

A maldade ainda que bem humorada,
Mas digo e escrevo: Darei mais risada
Quando forem pra você meus germes.

Francisco Libânio,
31/07/13, 12:31 PM

terça-feira, 30 de julho de 2013

1153 - Soneto destrocado

Fazendo algo diferente.

Resolvi sonetear e ser diferente
Não por faltar tema ou inspiração
Nem para caçoar da boa tradição,
Apenas remodelei e fui em frente

Sendo assim, após esse quarteto,
Resolvi alternar e pôr este terceto
Para dar ao soneto uma aparência

Esdrúxula de saída, mas de repente,
Que agrade uma próxima geração
Já que ponho ousadia e preservação
Lado a lado. A troca foi congruente,

O trabalho foi sedutor e o resultado
Ficou esquisito, mas foi do agrado
E valeu com louvor essa experiência.

Francisco Libânio,
30/07/13, 3:35 PM

1152 - Soneto popularesco

Atrair o povo nem sempre é populismo. Quase sempre é competência.

Me surpreende ver que o popular
É chamado pelos seus detratores
De populista. Como se melhores
Fossem do que se põem a criticar.

Se o Lula é sucesso junto ao mar
De gente ou os odiados cantores
De funk levam pau dos sabedores
De tudo, populismo, coisa vulgar...

Só que esses que dão um cacete,
A eles tenho um singelo lembrete
E um conselho bom de se seguir.

Se não querem o dito populismo,
Superem-no. Mas sem fanatismo,
Façam melhor e o povo está a vir.

Francisco Libânio,
30/07/13, 9:40 AM

segunda-feira, 29 de julho de 2013

1151 - Soneto pós-papal

E agora, moçada, como vai ser?

Com o Papa de volta ao Vaticano,
Como aqueles que deram entrevista
Cedendo casa por gesto altruísta
Seja para um loiro seja para africano

Vão se portar? O coração humano
E católico destes seguirá a lista
De dicas papais ou vem o vigarista
Comportamento antifranciscano

De sempre que bate dura a porta
À cara da criança à rua semimorta
Que bateu ali atrás apenas de pão?

Porque ser católico, além de jornada,
É dar ao próximo a mão devotada
E não só para aparecer na televisão.

Francisco Libânio,
29/07/13, 5:55 PM

1150 - Soneto irracional

Não me representa nem ao meu agnosticismo.

Negar um deus, assumir ateu,
Tudo bem, é uma convicção.
Rejeitar o Papa e sua posição
Vem do arbítrio que se deu.

Ser pró-aborto é direito meu,
Amar outro homem é opção,
Genética, cabe boa discussão.
O que não pode é ter no breu

Da ideologia ter o desrespeito
Como mentor. Vez isso feito,
Nada que se creia tem valor

E tudo o que se faz é cretino,
Opção praticada em desatino
É cria da insensatez a melhor.

Francisco Libânio,
29/07/13, 11:29 AM

1149 - Soneto convalescente

Nem tem como escrever...

Estando gripado, não se soneteia
Nem se rima. Pesa muito a cabeça
Do poeta, logo a poesia é recessa
E o neologismo aqui bem permeia.

Mas se de lado, a poesia escasseia
De outro, o poeta tossindo à beça,
Concatena em meio à tosse a peça
Que aparece na sua cabeça cheia

De dor. Muito se gripa demais dói
A cachola, mas devagar se constrói
Algo para colocar no papel quando

A gripe se for e o soneto se permitir.
Até lá pensar em um é como parir
Tanto nos dói tossindo e espirrando.

Francisco Libânio,
29/07/13, 9:19 AM

1148 - Soneto de fim de férias

Dezembro tem mais.

Quando o domingo, via Fantástico,
Anuncia que amanhã já é segunda
Bate uma dorzinha algo mais funda,
Pois parece dito em tom sarcástico.

Para o jovem, já pouco entusiástico
Com a escola, essa dor vem, inunda.
Acabaram as férias e a vagabunda
Sensação de liberdade. Fim drástico,

Poucos dias para se fazer tanto nada.
Agora é voltar à velha e já manjada
Rotina de levantar cedo para estudo.

E mal sabe o imberbe inconformado
Que chia por pouco. Menos agrado
Terá com o compromisso de barbudo.

Francisco Libânio,
29/07/13, 8:59 AM

sábado, 27 de julho de 2013

1147 - Soneto pensativo

Enquanto não chega...

Ter ideia e trazê-la ao soneto.
Processo que de fácil não tem
Nada. A ideia, procuro-a além
Do impossível e ela passa reto.

Aí, penso e arranco esqueleto
De onde tiver. Aí, se ela vem,
Maravilha. Soneteia-se, e bem.
Mas não acontece isso direto.

Por vezes, mais que se pense,
Vem só ideia que não convence
E se duvida de todo pensamento.

Como agora. De onde veio essa?
A quem esse negócio interessa?
Quem lerá esse rústico rudimento?

Francisco Libânio,
27/07/13, 5:45 PM

1146 - Soneto ostentativo

São mais felizes que o desejo urubusesco de quem os quer mortos.

Esses rapazes do funk ostentação
Têm um estilo que não me agrada,
Cultuam um comportamento nada
Aprovável. Adoram a coisificação,

A corrente de ouro, fazem louvação
Ao carro zero e à mulher mais dada
A quem a grana é a melhor cantada
E pelos funqueiros tem total atração.

Não gosto e nem toca no meu som,
Mas festejar a morte, alma marrom!
É infinitamente pior que o pior funk.

A tal ostentação é deslumbramento
Juvenil. Já festejar morte é nojento
Além de ser uma cretinice estanque.

Francisco Libânio,
27/07/13, 12:37 PM

sexta-feira, 26 de julho de 2013

1145 - Soneto sumo-malandro

Tudo bem, mas depois que eu for embora, você conserta tudo, tá?

Para o prefeito do Rio de Janeiro,
Engarrafamento é culpa do Papa.
E nem o Sumo Pontífice escapa
Quando o sujeito é bom caozeiro.

Engarrafamento tem o ano inteiro
E a Jornada o feio mais acaçapa,
Mas a cidade cintilando no mapa
E tendo esse trânsito costumeiro

Piorado, alguém que pague o pato.
Culpa do Papa? Ele aceitou o fato,
Pediu desculpa por toda essa zorra.

Bem esperto o Papa, saiu por cima.
Brincou com o fato, ganhou estima
E deu ao prefeito uma feliz desforra.

Francisco Libânio,
26/07/13, 7:05 PM


1144 - Soneto recém-namorado

Tudo é divino, maravilhoso... No começo.

Conheceram-se e rolou o lance;
Pintou o clima e o compromisso
Foi firmado e um quê submisso
Meio que tira a coisa do alcance

Do ponderável. O ar de romance
Do casal o deixa assim omisso,
Mas faz transparecer todo o viço
Até que tudo se ajeite ou canse.

O par que há pouco fez namoro
É bonito, esperançoso e sonoro
E faz até acreditar que, sim, amor

Tem existência outra vez provada,
Mas deixa pintar uma derrapada
E tudo que era antes perde valor.

Francisco Libânio,
26/07/13, 12: 45 PM

quinta-feira, 25 de julho de 2013

1143 - Soneto em roupas de baixo

Pelo menos, a mulherada adere.

Inventaram o lingerie day e olha!
Até a peça provocante tem dia.
As peças postas entre a alegria
E a imaginação as quais entreolha

Com a curiosidade nova em folha
Atravessando fácil toda ousadia
Que elas oferecem para a arrelia
Guardada quando aí se desfolha

Cada peça até o corpo já outonal
Estiver nu em pelo pedindo o mal
Para o qual a lingerie faz o convite.

Agora essa propagandista luxuriosa
Recebendo essa referência honrosa.
É pouco para o bem que ela permite.

Francisco Libânio,
25/07/13, 6:35 PM

1142 - Soneto escrito

Grande Neruda!

Neruda disse sabiamente
Que se começa a escrita
Com letra grande e finita
A faz pelo ponto presente.

Fim de escrita. É somente?
Não. Entre os dois tramita
Algo mais algo que se levita
E não escrito simplesmente.

Entre a letra prima e o ponto
Há uma tal zona de confronto
Além de uma longa odisseia.

A zona que parece tranquila
Pega o fraco e fácil o aniquila
Entre os dois precisa da ideia.

Francisco Libânio,
25/07/13, 12:40 PM

1141 - Soneto congelado

Feia a coisa aqui, mas eu adoro.

A ideia vem à mente, pronta,
Afinada, alinhada e já existe
O soneto como a ele assiste
O direito do papel. Desponta

Na cachola onde ele se monta,
Mas a sair ao papel ele resiste.
Pronto, o soneto quase desiste
De existir. Uma grande afronta!

A culpa não é dele, é dos dedos
Travados no frio. Os folguedos
De poeta esbarram nesse clima

De hoje, mãos doem e escrever
Exige esforço. Passo a entender
O soneto. Pouca coisa hoje anima.

Francisco Libânio,
24/07/13, 10:07 AM

terça-feira, 23 de julho de 2013

1140 - Soneto franciscado

Faltou um aí, mas tudo bem...

Cresceram nas maternidades
Os Franciscos nelas nascidos.
Tributos certamente aferidos
Ao Papa pelas religiosidades.

Acho legais essas afinidades
Entre os nomes escolhidos
E os personagens preferidos,
Conhecem-se as celebridades.

Roberto Carlos nos sessenta,
Fábio Júnior nos anos setenta
São os memes tidos por nome.

Hoje Francisco é in e agradeço.
Não sou o Papa e nem mereço,
Sou só um francisco com fome.

Francisco Libânio,
23/07/13, 8:16 PM

1139 - Soneto papalmente populista

Populismo? Acho mais simpatia e desprendimento

E o que falam desse Francisco!
Chamam na caruda de populista.
O papa. Ofensa vazia e malvista
De gente que nunca vira o disco

Ao xingar. Já eu nem me arrisco
A falar. Por ser quase um ateísta
E ser o inimigo um do moralismo,
Como desse negócio tão prisco

Que é a Igreja, eu meto o malho!
Mas o Papa? Esse não achincalho,
Ele que é Francisco e boa gente.

Defeito e vício, como todo prior,
Ele tem. Ser menos ostentador
É um deles? Não sei, de repente...

Francisco Libânio,
23/07/13, 6:15 PM

1138 - Soneto nato-real

Igual a qualquer outro. Vão arrumar o que fazer

Nasceu o mais novo nobre
Da casa real na Grã-Bretanha.
Assunto que se torna a sanha
Até que não mais desdobre

O tema. Só se comenta sobre
Isso. A moça há pouco ganha
Bebê e a imprensa se assanha,
Se exalta mil atrás de um cobre

Mercantilizam o futuro reizinho
Que provocou tanto burburinho
Pela gente sem ter o que fazer.

Mas que coisa absurda. Natural
Ser mãe e a emoção. Seja real
A futura ou seja qualquer mulher.

Francisco Libânio,
23/07/13, 11:15 AM

domingo, 21 de julho de 2013

A Assembleia dos Bidus

Tizgrila... Errei de novo!

Primeiro, foram os erros seguidos sobre o fim do mundo. Depois, foram diversas mortes anunciadas que não aconteceram (nem safou ninguém dos processos movidos pelos “morrentes”), ainda tiveram os filhos anunciados que não nasceram (“Culpa dos pais incompetentes” se defendiam nos jornais) e, por fim, foram todas as previsões que restaram infrutíferas. Foi o bastante para o Grande Chefe da Ordem dos Videntes, uma confraria secreta, convocar uma reunião em caráter especialíssimo. Todos os videntes, gurus, bidus e ditos excepcionais tiveram que estar presentes.
A reunião foi num local secreto, completamente insuspeito: Um templo de uma igreja protestante. Por acaso, o pastor dessa Igreja também era um bidu, mas ninguém sabia. Para manter as aparências, a reunião seria um culto de dia todo. Estava tudo certo e as aparências seguiriam as mesmas.
Esperavam-se cerca de duzentos videntes. Até o começo das plenárias, só faltavam dois. Um dos que chegou atrasado alegou que tinha perdido o ônibus. O outro não tinha chegado três horas após a hora marcada. Resolveram abrir as conversas sem ele, que era justamente aquele que mais tinha errado previsões e sofreria sabatina rígida.
- Deve ter sido medo! – falou um. Ligaram para ele, mas o celular só dava caixa postal. Foi sem ele mesmo.
As conversas amenas e diplomáticas duraram só quinze minutos. Depois disso, o templo se tornou um verdadeiro campo de críticas. Primeiro entre os videntes e seus perseguidores, a imprensa, os clientes (alguns eram pagos por previsões. A maioria devolvia o dinheiro em juízo), os alvos de suas previsões.
- Eles não colaboram. Se aceitassem nossos oráculos sem chiar, certamente o destino deles seria muito mais camarada. Mas não, querem mudar o curso do rio. E quase sempre conseguem! Aí quem fica sem credibilidade somos nós! – levantou um!
- Sinal que o Destino não é tão imutável quanto dizemos. Não será hora de revermos esse axioma? – constatou outro!
- Jamais! – encolerizou-se um conservador que estava nas últimas fileiras – O Destino é imutável. Se nossas previsões não aconteceram agora não quer dizer que nunca irão acontecer. A vida é longa e o destino pode esperar o momento oportuno. – e citou a história do rei Acrísio, avô de Perseu para embasar sua razão. E não deu ouvidos para quem alegava ser mera mitologia. Outro, para defender a ideia de rever a flexibilidade do Destino, lembrou que havia previsões erradas há vinte anos que nunca se verificaram verdadeiras. Alguns daqueles de quem se previram morreram sem ser acerto dos videntes.
- É mentira! – insistiu o conservador! E não tinha fato que demovesse seu ponto de vista.
A flexibilidade do Destino já tinha convencido a maioria do auditório. Alguns até já refletiam sobre a necessidade dos videntes no mundo. O conservador e dois simpatizantes não agüentaram quando o presidente pôs em pauta a dissolução da confraria e a proposição que cada um levasse uma vida normal renunciando aos seus poderes.
- Canalha! Não se renuncia a uma dádiva! Somos escolhidos! – disse o conservador e partiu pra briga com o orador. A partir dali, o templo virou um palco de pugilato triste e patético. Senhores mais velhos e levemente conservadores trocavam socos com meninos. Mulheres e homens se digladiavam como iguais sem respeito algum. A confraria foi dissolvida e várias dissidências de dois, três videntes foram criadas. Saíram do templo sem se falar, Inimizades eternas, desafeições irreconciliáveis. O Grande Chefe da extinta confraria foi o último a sair depois de limpar os destroços no templo. Na rua topou com o vidente faltante cheio de roupas de marca e um BMW novíssimo na mão. Tinha acertado sua única previsão em toda vida. Os números da Mega-Sena e desistiu de ser vidente para curtir a vida sem preocupações.

Francisco Libânio,
04/06/11, 6:11 PM,
Mongaguá

Rebelde

Diga que não é verdade...

- Então você é um rebelde? – perguntou surpreso.
- Fui. – respondi.
- Que massa! Achava que eles não existiam mais! Na verdade, achava que eles nunca existiram. Que era conversa de professor de História. Não acredito em professores de História.
(Depois soube que seu pai era professor de História, que nunca se deram bem porque o homem demorou a assumi-lo como filho e só o fez porque não tinha saída. Daí o descrédito, quase ódio.)
Aquele adolescente acabava de me ver como um herói só porque há muitos anos eu fui um rebelde. Queria ser também, mas faltava contra o que se rebelar. Tinha medo de parecer ridículo. Pra ele, o termo rebelde existia por existir. Rebelde só a novela e isso, para ele, era pejorativo. Se aquilo fosse ser rebelde, o mundo tinha acabado de vez. Não valia a pena. Da minha parte, essa repentina admiração não me envaidecia. Pelo contrário, me assustava. Cheguei a ter medo, mas se eu demonstrasse isso àquela hora um mundo em construção ruiria. Segurei as pontas:
- Olha, já faz tempo... – eu disse.
- Não importa! Importa que o senhor tem alma rebelde. Uma vez rebelde, sempre rebelde, né?
A admiração se personificou naquele “senhor” que antes era “você”. O moleque estava encantado. A responsabilidade dobrava. Só porque fui rebelde há anos.
E nem foi essa rebeldia de pegar em armas. Eu era pouco mais velho que ele quando fui rebelde. Era o governo do Figueiredo, aquele que dizia que prendia e arrebentava. Prendia nada! Arrebentava coisa nenhuma! Ele era mais bundão que eu. A ditadura estava morrendo de velha e senil e a democratização estava a caminho. Eu era auxiliar no jornalzinho da escola. Estava no colegial e, influenciado por alunos cujos pais tinham sido presos e torturados, mas tido a sorte de estarem vivos – ou não –, achava que já era hora dos fardados voltarem para os quartéis e deixar o povo tomar o poder. Olha como eu era bobo! Povo no poder! O que se seguiu nada tinha de povo. Mas eu acreditava nisso. Pintamos cartazes, gritamos frases de ordem. Teve as passeatas das Diretas. Fui a uma ou duas, mas mais pela bagunça e depois ia beber com alguns amigos. Alguns bem politizados. Outros eram iguais a mim, estavam na onda, mas eram metidos a líderes:
- Falta pouco, gente! Comeremos o peru desse Natal sob o discurso de um presidente dos nossos. Logo esse velho ranzinza vai ficar com os cavalos dele e nos deixará em paz.
Contei isso e mais detalhes ao garoto, que me ouvia imóvel. Parecia esperar que eu e uma milícia rebelde invadíssemos o Palácio do Planalto e tocássemos o Presidente dali debaixo de tapas e cassetetes. Notei que a narrativa, aos poucos, o frustrava, mas estava mandando a real. No entanto, detectei esperanças nele.
Esperanças que eu também tinha. No ano em que Tancredo morreu entrei para a faculdade de Economia. Eu ainda era bixo, calourão, mas era claro e cristalino que o Sarney com seus planos, seu corte de zeros, congelamento, tudo nunca ia conseguir combater inflação nenhuma. Estava perdido o bigodudo! A mensalidade da faculdade subia, o dinheiro do meu primeiro emprego ia todo nela e nem sempre dava. Queríamos nos rebelar e nos rebelamos. Fizemos protestos contra os aumentos. Não deu em nada. Quando eu me reunia com os antigos colegas do colégio o clima de decepção era flagrante. Os exaltados daquela época mantinham o discurso libertário e agressivo:
- Se tivéssemos elegido um presidente, esse coronel jamais estaria lá! Mas as eleições estão aí. Vamos dar nossa resposta na urna!
O garoto desviava o olhar. De repente, me vi o mais chato professor de História do mundo, mas era a minha história. Contei que eu tinha me formado às vésperas da eleição do Collor e foi durante seu governo que eu fiz minha pós-graduação. Logo, também pintei a cara, fui às ruas e vibrei quando derrubamos aquele cancro das Alagoas. Aí, fui para os Estados Unidos fazer meu mestrado, mas voltei sem concluí-lo. Como eu sempre manjei de Matemática, a escola em que eu estudei me contratou como professor. E veio Plano Real, Fernando Henrique, importações, privatizações, eu casei, tive filhos e aqui estou.
- Mas você só foi rebelde assim? – a admiração acabava. Respondi que sim.
O menino amuou. Não queria, como os da sua idade, se rebelar por bobagens adolescentes. Mas hoje não havia como se rebelar. Casas, talvez, até houvesse, mas será que vale a pena? Olhou fundo e me disse:
- Se é pra ser rebelde como você, tio, prefiro ficar com o meu Playstation. Eu estava certo. Rebelde é lorota de aula de História mesmo! – e foi embora puto com tanto tempo perdido. Seu mundo em construção tinha ruído. Talvez criasse antipatia por professores de Matemática agora, mas só pelos que dizem ter sido uma coisa que não foram.

Francisco Libânio,
06/06/11, 11:23 PM,
Mongaguá

sábado, 20 de julho de 2013

O namorado de dona Eustáquia


Me deixa em paz, diabo!

Não é que fosse uma mulher antipática ou grosseira, mas dona Eustáquia era uma senhora que, involuntariamente, conseguia ser o cúmulo da inconveniência. Aquela que falava as coisas mais impróprias nos momentos mais inoportunos. E isso juntava dois partidos em torno dela, o dos desafetos, que queriam ver o Diabo cantando Calypso e não a dona Eustáquia falando o que fosse e os que sentiam por ela uma compaixão do tamanho do mundo:
- É o jeitão dela. Deixa pra lá.
Já virando os quarenta e sete anos, dona Eustáquia continuava solteira. Suas colegas da escola se casavam, eram mães, as que pareavam em idade com ela já falavam até de serem avós e ela seguia lá sozinha. Dizia ser opção. Talvez fosse mesmo. Opção dos homens. As colegas da escola, da Igreja diziam pra ela maneirar, fechar a boca se ninguém falasse nada ou falar apenas seguindo o fluxo das conversas. Algumas até apresentaram partidos legais pra dona Eustáquia, mas não sobreviveram a um terceiro encontro. Sua lábia estragada punha tudo a perder.
Um dia, numa das festinhas de confraternização da escola, eis que aparece dona Eustáquia com um cacho pelo braço. Menino novo, pelo menos uns quinze a menos que ela, bonitão, alto, cabelos castanhos e um ar de intelectual. O choque foi grande. Logo dona Eustáquia, que não gostava de falar sobre política nem sobre assuntos mais densos arrumar um figurão desses? Foram conversar com a Eustáquia. Aí, hein? Demorou, mas desencruou. Ela estava toda pimpona. Era o assunto da mesa. O partido segurava a mão de dona Eustáquia apaixonadamente e dava beijinhos no rosto e selinhos discretos, afinal dona Eustáquia não era dessas que gostava de se expor. Verdade é que foi o único encontro da turma que andava com ela e o namorado. Dona Eustáquia se recusava a ir a qualquer outro lugar com o namorado e as amigas.
- Ah, é que agora quero curtir meu moço, vocês entendem, né?
Não entendiam. Achavam uma tremenda falta de consideração. Agora que namorava ficava que nem adolescente e esquecia as amigas? Não, isso não podia ser assim. Lembravam que ela nunca mais chamou ninguém para as quedas de buraco, para o café de fofocas e para as noites de vinho em sua casa. Agora, fim de semana com a dona Eustáquia só o namorado tinha pleno e irrestrito direito. Decidiram visitá-la de surpresa. Azar que dona Eustáquia estivesse vendo filme com o namorado no DVD, comendo pizza ou mesmo num amasso daqueles que deixava ela toda felizinha na segunda-feira. Não podia descartar as amigas assim. As amigas que salvaram de tantas saias justas. Elas podiam fazer um furdunço na casa de Dona Eustáquia, promover um vexame inesquecível, mas elas tinham direito de participar da vida da amiga.
Marcaram, então de bater na casa da dona Eustáquia às nove horas da noite e fazer uma surpresa. Deixaram os carros a uma quadra, foram em procissão. Ao chegar, luzes da sala apagadas e um barulho rouco vindo de algum lugar, duas vozes. Mas a voz não era a da dona Eustáquia e sim a do namorado. E a outra? Era de mulher. Achavam que ele estava aprontando. Forçaram o portão, acharam a porta aberta e entraram em turba casa adentro. Acharam dona Eustáquia na cozinha fazendo um jantarzinho especial e o namorado no quarto conversando com a mãe. Estavam armando o casamento da dona Eustáquia, que não gostou nada da surpresa, da invasão e muito menos da suspeita. Quando contaram a ela que cogitaram do namorado ter outra, ela tocou as amigas à vassouradas. Que absurdo. Nem mesmo a dona Eustáquia em seus momentos mais absurdamente inconvenientes e desagradáveis faria tamanha besteira e diria tamanha loucura. O casamento foi dali vinte dias e nenhuma das amigas da dona Eustáquia foram convidadas. Elas, no entanto, ficaram mais eustaquianas que a dona Eustáquia e todo dia aparecia uma fofoca nova. O clima na escola ficou insustentável.

Francisco Libânio,
18/02/11, 11:28 AM

Sem neuras

Meu brother, doutor!

- O senhor está me dizendo que esse homem que seus vizinhos pegaram é conhecido do senhor?
- Sim, delegado. Amigo da casa.
- Mas, então, por que ele forçou a porta?
- Ele tem a chave dessa casa, doutor. Certamente, precisava entrar urgente. Devia ter motivo, mas deve ter esquecido a dele.
- Vontade de ir no banheiro. – o capturado falou, mas foi calado a tapa por um halterofilista que o rendia. O delegado coçou o queixo e perguntou:
- Mas ele trazia uma televisão no saco que levava. Como pode?
- Delegado, sem neuras. A TV da casa dele deve ter ido pro saco. Ele sabe que pode contar com o irmão aqui.
- Que irmão! Além da TV, levava joias no pacote.
- Doutor, essas joias devem ser da senhora dele. Minha mulher vive pedindo emprestado e a patroa do meu camarada não dá de egoísta. Tá tudo na regra.
- E o que o senhor tem a dizer da arma?
- Que arma?
- Essa arma, meu amigo! Seu “irmão”, quando se viu cercado, brandiu o ferro. A sorte é que nosso amigo ali – e apontou para o halterofilista – imobilizou o gatuno e a turma o desarmou. Pense a tragédia que seria.
- Ó, doutor, meu amigo é gente do bem, tá ligado? Esse lance de arma aí, ele deve ter comprado pra se defender. O homem é boa praça, não é de violência. Quando viu todo mundo, deve ter assustado, pegou a arma, mas como não mata nem mosquito, ficou sem jeito. E tem mais. O doutor vai concordar que quatro contra um é covardia, inda mais com um mastodonte desses.
O delegado deu uma golada no seu café e tomou o nome de todos na cena até chegar na vez do meliante:
- Rodolfo dos San...
- Rodolfo?! – perguntou o outro – Escuta, você não é o Jeremias?
- Diabo Jeremias! Sou Rodolfo desde que nasci!
- Mas com esse cabelo... Você tá a cara do compadre Jeremias.
Apresentados, o assaltado assinou o boletim de ocorrência, xingou o assaltado e foi da delegacia para um oftalmo. Bem que a esposa vinha falando que os óculos estavam velhos.
  
Francisco Libânio,
22/12/10, 12:23 AM

sexta-feira, 19 de julho de 2013

1137 - Soneto amoroso-corporal

Muito homem vê assim.

O cara vê a mulher e nem vê mulher,
Vê uma churrascaria. Vê peito, coxa,
Lombo e tudo mais que desabrocha
Aquela vontade infindável de comer.

Mas pergunta. O cara fala com prazer!
Eu amo! E nem esconde que debocha.
Ama, mas só até a hora que desatocha
O seu dela. Amor de novo só se erguer

Diante de outra amada a fim na cama.
Se não erguer, está provado: não ama.
Mas fala que ama por uma outra vez.

Eis clássico safado de tesão instável.
Faz juras de amor pra boneca inflável,
A parceira certa para tamanha agudez.

Francisco Libânio,
19/07/13, 11:39 AM

1136 - Soneto amoroso-intencional

Hummm, que gostosa!

Ela tem uma bunda boa e poupança
Farta, mas a segunda está no banco.
Com ela não pode passar em branco,
Parta-se para conquistar a confiança,

A amizade, o coração e ter na pujança
Participação. É só ela abrir um flanco
E o sujeito se põe o sentimento franco
Fiando-se nesse amor toda esperança

De tirar o pé da merda. À bela bunda,
Fica a preferência sincera e profunda,
Mas o azulê no banco atrai bem mais.

Mas a moça, já graduada em canalhas,
Não perdoa as mais amadoras falhas
E faz demitir o tipo do trampo no cais.

Francisco Libânio,
19/07/13, 10:57 AM

quinta-feira, 18 de julho de 2013

1135 - Soneto amoroso-caozeiro

Você acreditou mesmo na música?

Ouve, se empolga com o Luan Santana
Quer dar o sol, quer dar o mar a agradar
O coração da Amada e o faz com o ar
De quem o faria facilmente. E se ufana:

Amo! Amo muito, demais, não há grana
Que pague meu amor. Tamanho do mar,
Para a Amada faço tudo. Tiver que amar
Mais, amarei. Ela é minha maior soberana!

A Amada acredita na intenção do rapaz,
Mas pede-lhe um beijo. Ele, o que faz?
Agora não que eu tô vendo meu futebol.

Pede pra comprar pão. Agora não posso!
E assim vai esse apaixonadíssimo moço
Que não dá um grão, mas promete o sol.

Francisco Libânio,
18/07/13, 6:57 PM

1134 - Soneto amoroso-indubitável

Você é a mulher da minha vida...

Perguntaram se a amava. Resposta:
Batata! Não ponha em dúvida isso!
Com minha gata é um compromisso,
Uma palavra e não há ideia oposta!

Foi quando lhe fizeram a proposta
Uma gata, o monumento submisso
Às vontades dele e boa de serviço
Estaria para ele ali, na mesa posta,

Pronta para servir e para a começão!
O amigo recuou, recusou a traição
E disse que mulher só servia a dele.

Já a mulher, alheia a esse discurso,
Mal sabia que o papo era o recurso
Para que ele mais fácil a engabele.

Francisco Libânio,
18/07/13, 3:55 PM

1133 - Soneto virtualmente indulgente

Siga-me e você será salvo.

O Vaticano mandou uma notícia
Que aproxima o sacro, o profano,
O moderno e o hábito mundano
Da realidade virtual quase factícia.

Segundo a grã-chefia cardinalícia
Basta apenas o bom paroquiano
Seguir o Papa nesse novo plano
Twitter ou mesmo um adventício

À Igreja seguir o Padre de Roma
Que tal atitude de pronto já toma
Tempo que ficaria no purgatório.

Forma heterodoxa de indulgência?
Parece mais estranha benevolência,
Mas um bom atenuante expiatório.

Francisco Libânio,
18/07/13, 9:20 AM

1132 - Soneto amoroso-indeciso

É que eu amo loira, morena... Eu quero tudo!

Se diz que ama, ame. Mas ame
Mesmo. Ame de fato, pra valer!
Não chegue duvidoso à mulher.
Tem a poesia pra ela? Declame.

Não se poupe, vá e se derrame.
Nunca deixe de fazer entender,
Como um que eu sei ama fazer,
E na frente da outra dá vexame,

Fica quieto, fala nada nem caga
Nem sai da moita, a coisa vaga
Que não ama, mas nem desama.

Pois é... O carinha teve uma chance
E perdeu. Pois agora que dance
Para aprender não repetir a trama.

Francisco Libânio,
17/07/13, 12:53 PM

terça-feira, 16 de julho de 2013

1131 - Soneto amoroso-pendular

Hoje não, amor. Semana que vem. Agora vou sair, tá?

Dizem que amor de pica
Bate e fica. Mas à solta,
Esse amor sem escolta
Bate, se vai e volta. Fica

Se lhe convier. Simplifica
A coisa, sem ter revolta
Ou mágoa. A reviravolta,
Se acontece, só retifica

Que o desejo é o forte
E é ele quem dá o norte
A tal sui-generis relação.

E se assim se orienta
O duo, a coisa cimenta
Sem ter que ouvir lição.

Francisco Libânio,
16/07/13, 7:47 PM

1131 - Soneto amoroso-retomado

Um cristal fica bonito de outra forma. Um casal também.

Quando se reata um relacionamento,
Seja uma amizade, seja um namoro.
Refaz-se o riso após vazar o choro
E crê-se num outro e novo momento.

A esperança é bonita, entendimento,
Se recíproco, vem após o bom foro
Do casal. O amor é rejurado em coro,
Reata namoro, revive-se casamento,

Mas é a tal coisa do cristal quebrado
Que não brilha como no outro estado
Vira mero vidro e não mais um cristal.

É verdade, em reatamento não creio,
Mas colado, ao invés de um vidro feio,
Por que não se faz da peça um vitral?

Francisco Libânio,
16/07/13, 12:51 PM

segunda-feira, 15 de julho de 2013

1129 - Soneto masculinão

Lindo bíceps, amor. Mas já lavou a louça?

Nada como ser homem, o dominante,
O macho alfa que manda na manada,
Comedor de xana, peluda ou rapada,
Não importa. Ser homem é o bastante

Para ser respeitado e seguir adiante
Sem ter essa liderança questionada
E se tiver, bem, vamos pra porrada
Que o mais forte sairá nela triunfante.

Ser homem é ser o cara, é ser foda,
É botar o fraco e o mulherio na roda
E ser sempre exemplo de líder feroz.

Ser homem é ser que já se foi um dia
Quando a modernidade de nada valia
Como era no tempo de nossos avós.

Francisco Libânio,
15/07/13, 6:58 PM

1128 - Soneto visto de baixo

Uma delícia!

Perto do chão e do paraíso
Da carne, eu mal via o rosto
Por conta seja do meu posto
Seja o farto peito que diviso

De baixo, vinha de improviso
A dona da perna que encosto
A cabeça para sentir o gosto
E perceber de cima o sorriso.

A visão era de uma pele lisa,
Um cheiro forte que catalisa
O momento e distrai do resto.

Perto do chão senti o robusto
E bom sabor, um preço justo
Pelo meu voluntário cabresto.

Francisco Libânio,
15/07/13, 12:46 PM

1127 - Soneto visto de cima

Visão do paraíso

Entre ela e eu havia os seios
Que impediam a melhor visão
Do acontecido perto do chão
Em meus gostosos recreios.

Eles estavam ali mais alheios
A tudo, mas pediam atenção.
A boca embaixo e a atração
Do olhar aos belos recheios

Do farto sutiã, mas ela me via
E dava ordens. Era o seu dia
De mandar. Estava acordado

E eu não romperia o contrato.
Primeiro a boca depois o ato
E eis um casal bem extasiado.

Francisco Libânio,
15/07/13, 12:05 PM

domingo, 14 de julho de 2013

1126 - Soneto turd

Acha que tá arrasando e não passa de um trouxa.

E se a gringaiada espiona
Aqui nossa gente bananeira,
Devemos ter coisa maneira
Que algo lá os impressiona.

Mas vai e a gente pressiona
Pra explicar essa bandalheira
De xeretar, saber vida inteira
E a gringaiada vem mandona

E nos chama índios, macacos,
Pra piorar vem os puxa-sacos
Daqui mandando calar a boca!

Que vão ambas turmas à merda,
Não seriam uma grande perda
Qualquer coisa vale essa troca.

Francisco Libânio,
14/07/13, 1:18 PM

1125 - Soneto inexplicado

Como não querer cair de boca?

Sendo aquela moça tão farta
Em formas e bem avolumada,
Mesmo minha mão espalmada
Cobre pouco e pouco aparta

Daquele tudo. Fazer uma carta
Quase real e toda detalhada
Exigia a técnica mais apurada
Propondo terceira ou quarta

Dimensão. Realidade factual.
Para tanto e para o prazer real,
Eu a beliscava e ela – ai – gemia.

Posso descrever nessa escrita
O que foi, mas nunca a infinita
Excitação que a gente ali sentia.

Francisco Libânio,
14/07/13, 9:25 AM

sábado, 13 de julho de 2013

1124 - Soneto indie

Musicalmente passa, mas precisa ser cafona assim?

Com o silêncio atual dos metais
E a falta de bandas de esporro,
O jeito é procurar algum socorro
Em bandas algo menos guturais.

Não há riffs nem solos animais,
Há vestuário estranho. Recorro
Ao som agradável, mas corro
De quaisquer contatos visuais.

Na falta do tal rock de verdade,
Pra matar um pouco da vontade,
Os indies até quebram um galho.

Talvez por não ser adolescente,
O estilo agrada, mas sou ciente:
Indie só deslumbra um pirralho.

Francisco Libânio,
13/07/13, 7:26 PM

1123 - Soneto dito roqueiro

Calma, tio, ela não conhece Jethro Tull!

Quem ouvia nos anos sessenta
O rock e ouvisse vinte ou trinta
Anos depois sentiria fácil extinta
A tal chama que o rock sustenta.

Só que o rock evolui e se orienta,
Toma novas influências e repinta
Novas demãos com a nova tinta
Sem perder o tom que representa.

Hoje o sessentão desistiu. Já era!
Mas se ele não seguiu a quimera
Chamada rock, nunca foi roqueiro.

O estilo evolui, o moleque cresce,
Um se encareta, um outro aparece.
O rock transforma o tempo inteiro.

Francisco Libânio,
13/07/13, 2:17 PM

1122 - Soneto on the rocks

Tá certinha a Kiss.

Depois de um rock vem outro rock,
E assim uma rádio criou um lema
Para dar vazão à vontade suprema
Trazendo uma paulada a reboque

De outra sem deixar que se foque
Na qualidade sem propor o dilema
Um ou outro? E sem tal problema
É boa qualquer música que toque.

Porque o rock sempre é bem vindo,
Pois se neste soneto eu o brindo
Meu lado roqueiro aqui se manifesta.

É meu lado adolescente e pauleira,
De rebeldia juvenil indo toda faceira
De guitarra invisível fazendo a festa.

Francisco Libânio,
13/07/13, 10:17 AM

sexta-feira, 12 de julho de 2013

1121 - Soneto arguido

Um deles não lê nada que preste, só se informa pela Globo. E o burro leva a culpa.

Que eu fale demais e critique
O que acho errado, eu aceito.
Às vezes exagero no defeito
Ou negativo demais tonifique

O que não mereça. Crucifique,
Então! Enfie a lança no peito,
Porque digo, não sou perfeito,
Mas sou melhor que o chilique

Que dá quem ao ler o escrito
E bate sem saber o que o dito
Lá quis dizer ou já desqualifica

Sem um único pífio argumento.
Depois leio e penso no jumento
Que sem saber falar me critica.

Francisco Libânio,
12/07/13, 7:10 PM

1120 - Soneto desmedicado

Eu ir pro meio do mato cuidar de pobre? Me obrigue!

Médico tem que ficar é na melhor
Sala, ar condicionado, consultório
Bonitinho por inatacável território
Porque é tipo um deus, um doutor.

Médico não pode pensar em pôr
O pé na lama ou se dar ao inglório
Castigo de atuar em ambulatório
Com pobres e essa gente de cor.

E tem que ser o cabeça da equipe,
Ter a fama por menos que participe
Enfermeiro e todo resto, quem são?

Médico tinha que receber o colega
Cubano pra ver como se abnega
Pelos outros e aprender essa lição.

Francisco Libânio,
12/07/13, 11:38 AM

1119 - Soneto da passeata a passeio

Essa gente vendo lênins e stallins debaixo da cama e em qualquer lugar...

Quarenta e três pessoas na Paulista
E chamaram essa coisa de passeata,
Contra o comunismo era tal bravata
Deve ter sido engraçada essa vista.

Um grupelho celerado vai pela pista
Do MASP num medo tão aristocrata
E tão infundado contra essa cascata
Que eles veem. Revolução comunista.

Comunismo no Brasil? Falemos sério...
Para se acreditar em tal despautério
Precisa ser o suprassumo do imbecil.

Seria bom se fosse e ver a cambada
De derrotistas correndo em disparada
Sumindo de qualquer forma do Brasil.

Francisco Libânio,
11/07/13, 4:56 PM

1118 - Soneto para uma deusa normal

Gata que se acha aos milhares todos os dias. Melhor que muita übbermodel

Ela não era a gostosa da televisão,
Não tinha pele cheia de photoshop,
Plastificada dentro de um envelope
Platinado embalado pós-operação.

Ela era bem normal sem a explosão
De sensualidade que vem à galope
Das deusas que aumentam o ibope
Dos programas bem como o tesão

Masculino, mas o meu foi ao pico
Com os peitinhos, o jeito impudico
Que ela mostrou só na hora exata.

Como musa televisiva alguma faria.
Sei que ela, a mulher do dia-a-dia
Se revelou uma amante e uma gata.

Francisco Libânio,
11/07/13, 12:08 PM

quarta-feira, 10 de julho de 2013

1117 - Soneto pizzaiado

Cairia muito bem!

Dia da pizza, quitute italiano
Que saiu, correu mundo afora
Achando a casa promissora
No longínquo solo paulistano.

Prato que salva o dia mediano,
A pizza não se manda embora,
Não se recusa. Se viesse agora
Uma, certamente seria engano,

Eu não pedi uma, mas tudo bem.
Um pedaço a menos e ninguém
Dará falta. E que se comemore

Esse dia dela e oposto à famosa
Que nunca dá nada, a saborosa
Quero aqui e que não me demore.

Francisco Libânio,
10/07/13, 5:29 PM

1116 - Soneto aglobado

Muitos são assim!

Durante as manifestações
Se viu tamanha diferença
Entre o que se faz e pensa.
E mais entre as posições.

Nego vai pelas migrações.
Deu na TV, caiu na crença
E contrariar dá desavença,
Afinal se são os figurões

Da Globo a dizer, vai negar?
Quem acha que é, seu muar?
Vai peitar o Jornal Nacional?

O Bonner ou negar o Jabor?
Opinião feita com essa cor,
Não há grito contra esse mal!

Francisco Libânio,
10/07/13, 12:13 PM

terça-feira, 9 de julho de 2013

1115 - Soneto rapidamente sensual

Minutos que valem a pena.

Que tesão poderia despertar
Uma nudez flash, uma troca
De roupa, rápida que coloca
A roupa logo após desnudar?

Os seios nus dão seu lugar
Ao sutiã. Pouco se provoca
Com a bunda e nem enfoca
A xana, que só recebeu o ar

Necessário para a respiração.
Mas a muda pôs em posição
De ataque e ela reparou isso

E, na pressa, ergueu a camisa
No rápido strip que improvisa.
À noite, ela completa o serviço.

Francisco Libânio,
09/07/13, 6:39 PM

1114 - Soneto de fim de amizade

Chato, mas às vezes acontece.

Todo mundo falando de fim de amor
Como se com isso o fim do mundo
Batesse nesse coração vagabundo
E o sujeito fosse o maior sofredor.

Claro que o fim traz uma terrível dor,
Mas outro fim dói muito mais fundo
E, parecendo substituível, é rotundo
Até que não venha um outro melhor.

É quando se fina a amizade sincera,
Amizade inquebrantável que não era
De amigos, mas uma coisa fraterna.

A amizade acaba sem menos e mais,
Pro tal seu amigo não é nada demais,
Mas aqui algo da vida se desgoverna.

Francisco Libânio,
09/07/13, 5:30 PM

1113 - soneto sexo-reflexivo

E se bobear, leva outro!

Depois do beijo na nuca, a esperada
Reclamação. Você jogou sujo comigo!
Ela tinha razão. Ali eu era mero amigo
E eu nunca a quis como uma namorada.

Mas o beijo tão fácil com a nuca dada...
Não dá-lo me seria um terrível castigo.
Ela que chie e reclame que eu não ligo
Porque se pintar essa sopa, é barbada!

Dou outro beijo. É só sexo. Sem afeto!
Ela diz. Descompromisso acho correto.
Eu sabia das regras como sabia o erro.

Mas entre o descompromisso e o risco
De uma bronca, um beijo bom e arisco
Arremata bem essa amiga após o ferro.

Francisco Libânio,
09/07/13, 8:27 AM

segunda-feira, 8 de julho de 2013

1112 - Soneto sexo-revoltoso

I got you!

Não vai ter beijo na nuca, ela disse.
Então tudo bem. O abraço faminto,
O corpo no corpo e o abrir o cinto
Fizeram parte de toda a alcovitice,

Das preliminares e sem a denguice,
Tudo na base do mais puro instinto
E sexo cru. Demorado, mas sucinto.
Só sexo, com a medida de safadice,

Mas sem intimidade e sem nominhos.
Gozamos após corrermos caminhos
Que queriam nossos lados besta-fera.

Acabado o sexo, ela nua e oferecida,
Deixando parte da anatomia oferecida.
Beijei-lhe a nuca de rebelde que eu era!

Francisco Libânio,
08/07/13, 11:56 AM

1111 - Soneto surubo numérico

De casalzinho pra chocar menos.

Dizem que o onze é o número gay
Ao invés do vinte e quatro famoso.
É um atrás do outro num malicioso
Engate. Ao chegar aqui eu reparei

Em quatro uns colados. Escreverei?
Como não? Se o meu lado maldoso,
Ao ver tal disposição, entra em gozo
Como vendo o chiste transgredir a lei?

Quatro uns, um atrás do outro, seria
O quê senão a grandíssima putaria
Homossexual? Que bem se aproveite

A farra esses despudorados amigos
Cuidando contra excessos e perigos
No bem contado instante de deleite.

Francisco Libânio,
08/07/13, 7:01 PM