quarta-feira, 30 de setembro de 2009

VI - Caim


Extraído de http://3.bp.blogspot.com/_1Yi1Nqc7440/SRmpuXwSatI/AAAAAAAAA8E/8ayClowgV9Q/s400/jmm_1851_caim.jpg

Primogênito, primeiro sucessor,
Primeiro umbigo, primeiro filho,
Primeiro homem a deixar o rastilho
De violência como bem posterior.

Francisco Libânio,
30/09/09, 11:27 AM

terça-feira, 29 de setembro de 2009

49 - Pedir ao poeta explicar em detalhe


Extraído de http://lupoesia.vilabol.uol.com.br/amigos_poetas/img/fcummulher.jpg

Pedir ao poeta explicar em detalhe
Um poema é maldade, é um incontido
Querer de expô-lo ao achincalhe
E maior que ele ceda a tal pedido

E divague sobre cada verso a desnudar
O poema, algo naturalmente pudico
Empobrecendo com uma nudez vulgar
Algo que, vestido e secreto, era tão rico

Porque poema não se explica, se lê,
Se entende e conquista e se gosta ou não
E quem quer que se o explique não entende

De poemas e de sentimentos, apenas crê
Que o lido precisa ser alvo de discussão
Querendo ser tema o poeta que o atende.

Francisco Libânio,
01/08/09, 1:57 AM

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

V - A Mulher


Extraído de http://versusediversus.blogs.sapo.pt/arquivo/eva.gif

Parte do homem, projeto final,
Complemento dele, dotada de fertilidade
E de força à dor, criação perfeita.
Criada para obedecer, mas de tão afeita
Ao homem, de subjugada vira autoridade
Sobre ele com poder de bem e de mal.

Francisco Libânio,
23/07/09, 11:50 PM

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

A Arte da crônica

Extraído de http://api.ning.com/files/ty-c3J2g3pIyjKq6FXG4*3noTcy4JXH*EqEVEjl0wbkRsR00oLHGImIGKMgugwRMHNwbfouoM*pbFHbjpQ8MTx2hVt64Wggn/IdeaSwapIcon.jpg

Sempre que me sento pra escrever uma crônica é uma tarefa hercúlea pra mim. Algo assustador porque, quase sempre, não sei como começar. E quando sei não sei como ela vai terminar. E isso me inibe.

Veja só esta crônica que você está lendo. Ela já teve um parágrafo que eu pensei de antanho. Fora uma perfumaria ou outra, o sentido dele é esse mesmo. Mas não sei como vou chegar ao próximo. Aliás, não sei nem como já escrevi tanto neste. É preciso um mote, uma sobrevida para esta crônica porque ela, até aqui, não é sobre nada que não seja ela mesma. E não é muito legal ficar escrevendo algo que olhe pra si.

Pronto, findei mais um parágrafo pra começar outro. Estou indo bem. O primeiro parágrafo com uma idéia definida – a dificuldade de escrever crônicas – e o segundo esticado pra dar uma dissecada no outro. Este terceiro é um degrau a mais abaixo. O problema vai ser na hora de voltar por essa escada e de repente, uma avalanche soterrar o buraco que estou cavando. Para um cronista é tudo que ele precisa: Ser soterrado por algo que ele mesmo resolveu inventar. Para a ciência isso pode ser encarado como dar a vida por uma experiência na qual o cientista morreu acreditando. Para o cronista é a prova máxima de sua própria incompetência.

Caraca, quarto parágrafo! Pelo menos no terceiro, mais que enrolar, desenvolvi uma idéia. Muito vaga, daquela sem a qual a literatura universal viveria muito bem, mas foi uma idéia. A crônica vai se formando e criando corpo. Aos solavancos, consigo dizer algo. Não sei muito bem porque escrevi essa crônica. Era a vontade de desenvolver algumas frases ao invés de versos. Faltou combinar com a idéia. Mas as idéias e eu somos assim: marco delas virem me visitar e elas não vem. Aí resolvo escrever assim mesmo. Elas que se lasquem. Mas quando me vêem fazendo algo que julgavam fosse eu incapaz, cedem e ajudam. Não com aquela disposição voraz para tal trabalho duro, mas antes uma meia ajuda que nenhuma. E assim, pobremente ajudado, contrariado, mas resignado com a importância da crônica, toco-me a escrever. Não tem tema? Azar. Não sabe como começar? Enrola-se, fala-se do tempo, do jogo de ontem, enche a primeira linha de xxxxxxxxxxxxxx e a folha em branco deixa de estar em branco. O resto se arruma depois.

Assim, a crônica, não aquela braguiana que de tão lírica vira um poema em frases, mas a crônica dos homens normais se constrói. Tudo bem. Os homens normais são anônimos, têm dificuldades não só em escrever, mas com agruras do dia-a-dia. Rubem Braga, não. Esse podia até ser homem, mas como cronista, era uma espécie de Hércules, de Arjuna, de São Francisco de Assis. E ao quinto parágrafo, junto com o fim dessa crônica, leguei uma comparaçãozinha ridícula.


Francisco Libânio,

21/09/09, 5:36 PM


quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Das dívidas


Extraído de http://aeinvestimentos.limao.com.br/imagens/materia/especiais/devedor_materia.jpg

Sabia que tinha um compromisso,
Um não, vários. Não os negava nem os podia.
E de sonso, prometia pra “um dia”
Ao responder a quem pedia: “E eu com isso?”

Francisco Libânio,
16/09/09, 8:43 PM

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Soneto 01 - Num momento em que amei demais


Extraído de http://static.blogstorage.hi-pi.com/bloguepessoal.com/d/da/dark/images/gd/1219095969.jpg

Num momento em que amei demais
Ou talvez me faltasse algum amor
Prometi a ela que eu seria o melhor
E lhe pedi a mão para a minha paz

Enquanto estive sob efeito de tais
Exageros ou ausências, aquele calor
Aqueceu-me e foi, de todos, o maior
Amor e não quis do mundo mais

Mas quando voltei ao meu exato,
Vi que não era ela nem nunca seria
A famosa “mulher da minha vida”

Desse doce sonho fez-se amaro fato
E, certíssima, ele fez, a partir desse dia,
De mim, uma criatura horrenda e desvalida

Francisco Libânio,
23/09/09, 3:07 PM

terça-feira, 22 de setembro de 2009

IV - A Costela


Extraído de http://www.tagnet.org/jesuskids/licao/1-98/eva.jpg

Dormiu de novo. Acordou, nada havia.
Soube que parte sua fora extraída
Por um cirurgião com tal maestria
Que deu ao que era seu o dom da vida.

Francisco Libânio,
23/07/09, 11:43 PM

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

III - O Primeiro Homem


Extraído de http://farm2.static.flickr.com/1049/626461131_959b425c16.jpg?v=0

De barro se montou e se encheu,
Num sopro, abriu os olhos e viveu.
Obra prima, divina semelhança
Humana com imperfeições futuras,
O homem deitou-se qual criança
E auto-investido de poder, brincou de Deus
Dando nome às criaturas.

Francisco Libânio,
23/07/09, 11:37 PM

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Das dúvidas



Algumas são boas parideiras
De reprodução contumaz.
Podemos dizimar colônias inteiras
E sobrarão uma ou mais.

Francisco Libânio,
16/09/09, 8:37 PM

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Amaro Amor


Extraído de http://3.bp.blogspot.com/_IktkFVYq5N8/SgbVAzcjeTI/AAAAAAAAAS8/bUq-ljh0Cx0/s320/cristiane+campos+7.JPG

Amaro Amor de influências permanentes,
Dores profundas e eternas lembranças,
Diz como viver a ti em minhas andanças
E como revives dias idos nos presentes

Eu devo a ti homenagens entrementes
Teus augúrios suscitassem esperanças
Que não brotaram. Já planejei vinganças
Contra ti, já te vi com os olhos quentes

Da brasa da mágoa, mas quem sou eu,
Homem ingrato agora contra tuas decisões
Após tantas e bem injustas bonificações?

Amaro Amor, se me tomaste o que é meu,
Não te pergunto o porquê. Houve razão,
Mas peço-te pelo tomado uma compensação

Francisco Libânio,
16/09/09, 11:56 AM

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Tarde Demais


Extraído de http://rasco.zip.net/images/morte_poeta.jpg

Não dependia de mim não ser poeta.
Por mim, eu não seria. Nunca quis,
Escrevia sem saber falar como os doutores
Quem era eu pra incomodar os autores,
Verdadeiros poetas?, mas lá fui eu de feliz.
Li um, li dois e, atrevido, tomei uma caneta,
Escrevi uma quadrinha e outras mais
E quando não quis ser poeta... Era tarde demais.

Francisco Libânio,
20/07/09, 12:01 AM

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

47 - Ousou dizer um palavrão como bendissesse


Extraído de http://4.bp.blogspot.com/__6bBwTlXkQU/ST3cQD00G7I/AAAAAAAABoM/0kwny0cY5Dc/s320/Palavr%C3%A3o+-+Cara.jpg

Ousou dizer um palavrão como bendissesse
A melhor das sortes ao melhor amigo.
A grosseria lhe escapou deste abrigo
Incômodo que era a vergonha. Houvesse

Rompido antes a casca em que era envolta,
A grosseria deixaria ovos já eclodidos,
Seria mãe de outros nomes proibidos
E sua genética estúpida e suja estaria à solta.

Mas, ao mesmo tempo em que se arrependeu, ele,
De falar o indevido, aliviou a alma reprimida
E nunca algo condenável lhe fez tanto bem

Assim, quando se ferve, um palavrão expele,
Deixando correr a raiva em si contida
Pedindo perdão pelo nome feio a alguém

Francisco Libânio,
20/07/09, 9:26 AM

sábado, 12 de setembro de 2009

Democracia plurilíngue


Extraído de http://www.terminologia.com.br/blog/wp-content/uploads/2008/03/ortografia.jpg

Meu francês não é coisa que preste,
Já foi melhor.
Meu inglês sabe ler, mas não é de falar,
Medo de se expor.
Meu espanhol é vivo, mas até que se desperte
Vai tempo maior.
Meu lado poliglota, então, deu de votar
E em três votos a um, esta (in) culta maioria
Mandou meu português escrever esta poesia.

Francisco Libânio,
14/07/09, 1:55 PM

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Mãe e filha


Estou no ônibus, voltando pra casa. São algo como nove e meia da noite quando o carro para numa das avenidas mais movimentadas de Prudente e sobem duas mulheres, mãe e filha, negras, bonitas. Uma aparenta ter seus trinta e tantos anos. A mãe aparenta ter cinqüenta, sessenta, mas sempre com o fisionomia de alguns anos menos que a melanina preserva. Sentam-se à minha frente e, num ônibus vazio e noite sem trânsito, fica fácil ouvir a conversa. A filha conta à mãe de um rapaz com quem esteve há pouco. Se namorado ou um amigo não saiu. E conta de uma boa conversa que tiveram até a mãe chegar. Parece que elas sem encontrariam, iriam fazer compras e voltariam pra casa. A mãe pergunta alguma coisa sobre o moço (devem ser só amigos mesmo) e é respondida. Mas só trivialidades, coisas cotidianas, aquelas de pessoas que se conheceram no carrinho de bebê enquanto as mães conversavam na praça. Aí a filha pergunta algo sobre a mãe, onde ela estava antes de se encontrarem.

- Fui ver meu preto. – Responde a mãe com um sorriso de lado a lado.

E a filha solta aquele olhar cúmplice de “A senhora, hein?”. Pode parecer impressão, mas o que ficou é isso. A filha, mais jovem, mais bonita – que deu a entender na conversa ser solteira, mas não à solta – poderia até ter lá seus namoros, mas não foi o que ela foi fazer àquela hora. A mãe, senhora de mais idade, óculos, jeito de ser recatada e carinha de avô bonachona que adora pegar neto no colo, estava namorando e estava toda pimpona com o encontro. Gerações distintas de comportamentos inversos? Não. Mulheres corretas, discretas e satisfeitas cada qual com seu encontro com um homem. Mãe e filha contentes por ver uma à outra que a tarde que tiveram foi muito bem aproveitada.


Francisco Libânio,

02/09/09, 3:05 PM



quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Das indecisões


Extraído de http://giseleh.com/wp-content/uploads/2007/12/bifurcacao1.jpg

Dois caminhos a seguir: O bem à direita,
O mal à esquerda ou vice-versa.
Pior que não saber se um deles se aceita
É ver vir do meio a besta perversa

Francisco Libânio,
10/09/09, 11:25 AM

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

44 - Ao escrever um poema, assim que o termino


Extraído de http://static.open.salon.com/files/writing1228511911.gif

Ao escrever um poema, assim que o termino
Há outro poema louco querendo vir à luz.
Ele luta pela sua sobrevivência ante ao capuz
A amordaçá-lo no escondido onde o confino.

Porque, se um nasce, ele acha que faz jus
A nascer também. E está certo. É genuíno
O que quer. Então luta por ele com tigrino
Instinto de se ver livre. E eu que me opus

A isso, convenço-me meio na força bruta,
Força pela qual fui subjugado e é irresistível
Se eu me meter enfrentá-la em justa luta.

Ao poema abro as portas, faço sua vontade
Sem saber como lhe negara o inamovível
Direito quem qualquer um tem à liberdade.

Francisco Libânio,
05/09/09, 10:33 AM

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Da Independência


Pedro Américo, o Grito da Independência

Do Ipiranga às margens plácidas
Ouviu-se um brado retumbante.
Foi um feito em si estimulante
Mas de palavras em nada válidas

Francisco Libânio,
06/09/09, 3:14 PM

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Série Sentidos 05 - Tato


Extraído de http://4.bp.blogspot.com/_WGYV14qHjVE/SmpH-OGvNkI/AAAAAAAAAcc/yKI5eTgUTs4/s400/deitados.jpg

A Amada, que sobre mim se deita
E às minhas mãos as suas entrega,
Faz de uma forma tão surda e cega
Que tudo onde eu lhe toco ela aceita

E minha pele à pele dela não nega
Nada. Aos toques e beijos se deleita,
Pois sabemos: o amor é coisa feita
De toques num tanto que não chega

Nunca a ser demais, mas é pouco
Por mais que se goste ou se veja
Ou satisfaçam o nariz e os ouvidos

Por isso, se mais a quero, mais a toco
Porque mais que o perfume ou o beijo,
O toque é o que sacia os sentidos.

Francisco Libânio,
23/07/09, 10:56 AM

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Série Sentidos 04 - Paladar


Extraído de http://ofuxico.terra.com.br/admin/smarty/templates/img_upload/2008/11/afavorita-shivaMariana-FOTOLEG-191108.jpg

A Amada me via ali, a tudo distraído,
A falar. Eu achava que prestava atenção
No que eu dizia com mais empolgação
Conforme o assunto era transcorrido

Mas não... Esperava minha distração
Fazendo o seu pendor como prendido
À minha fala, mas num rompante definido
Ela, com um beijo, me cala a exaltação

E nesse beijo perdem-se assunto e meada,
Morrem exaltação, interesse, enfim, tudo
O que era antes. O beijo agora é o senhor.

Muito engenhoso este golpe da Amada...
Sabia que distraído, surpreso e mudo
Eu sentiria com os cinco sentidos seu sabor.

Francisco Libânio,
20/07/09, 11:50 AM

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Série Sentidos 03 - Olfato


Extraído de http://1.bp.blogspot.com/_5DKUv2cWZL8/Rd5B-PTE4oI/AAAAAAAAAHY/eSXMf5yvICA/s400/beijo.jpg

Estou na sala, alheio a tudo que acontece,
Abre-se uma porta próxima. Invade um aroma
De eucalipto. A ele outro perfume se assoma
E a sala é só odores. Na porta me aparece

A Amada num roupão. E ela me toma
De assalto num abraço que bem favorece
Meu nariz. A ele, seus cheiros ela oferece
Enquanto saca da outra mão uma goma

Sabor hortelã, um aroma verde e forte.
Ela sussurra. Misturam-se eucalipto, hortelã,
Aromas da pele, da boca, do corpo inteiro

E é quando eu tenho, num lance de sorte,
Um beijo da Amada em seu doce afã
De mostrar que beijo também tem cheiro.

Francisco Libânio,
13/07/09, 12:29 AM

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Série Sentidos 02 - Audição


Extraído de http://m51.photobucket.com/image/sussurro/tesuras/sussurro.jpg.html?src=www

Durmo. A Amada me recita um bom dia
Tão melodioso que como ele não seria bom?
É que é só dela esse delicioso dom
De me transmitir na fala a sua alegria

Fazendo-o num dulcíssimo tom
Em que me despertar se inebria
E meu ouvido, ao ouvir dela a melodia,
Quer mais ainda desse som

Ela o atende e fala até a despedida
Para me receber com um cumprimento,
Uma história e me chamar de querido.

Como poderia eu querer outra vida
Se minha felicidade e meu contentamento
Chegam de forma amável pelo ouvido?

Francisco Libânio,
12/07/09, 1:47 AM