quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Do 31 de Dezembro



É estranho demais este último dia.
Festeja-se e conta com tal afinco
Seus últimos segundos, mas cadê a alegria
Pra contar os trezentos e sessenta e cinco?

Francisco Libânio,
31/12/09, 6:16 PM

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Soneto boquirroto


Queria poder escrever um soneto boquirroto e estúpido,
Daqueles que distribuem palavrões fartos e gratuitos,
Desses que xingam claro o maior filho da puta fodido
E dos que mandam tomar no cu em altíssimos gritos

Queria escrever como eu falo quando me sinto irritado
Mandando se foder o lazarento que estragou meu dia
Bem como o cretino que só faz merda e já fez errado
Em sair do meio das patas de sua mãe quando nascia

Queria demais escrever um soneto só de impropérios,
Fugir do meu cotidiano de só escrever poemas sérios
E parecer um filme nacional do início dos anos oitenta

Mas pra quê? Nos quartetos se foram alguns palavrões,
Sem sentido, sem contexto só deixando más impressões
Parecendo mais a linguagem que a televisão apresenta.

Francisco Libânio,
30/12/09, 10:40 PM

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

54 - O homem, quando fala de religião, mente


Extraído de http://1.bp.blogspot.com/_5EQSHGNeHSs/ShgqWlBoZtI/AAAAAAAAA7I/Lhk2qlPNToQ/s400/mutid%C3%B5es+7.jpg


O homem, quando fala de religião, mente
Porque para ele mais vale valorar sua crença,
A única que salva, a única que compensa,
Enquanto as outras ele diminui, simplesmente

E fica-se naquele discurso tão vão como crente
De prosopopéia eufórica, mas pouco densa.
Quanto a mim, a fé é íntima e de desavença
Livre. Creiamos, apenas isso e é o suficiente

Falo disso porque há um pastor na esquina
A atrair mais e mais fiéis para seu rebanho
Usando mais fala e menos fé em seu colóquio

Eu o escuto daqui. Ele fala, fala e não termina,
E para engrandecer o que crê é sem tamanho
Sua mentira que ainda o gritarei como Pinóquio.

Francisco Libânio,
27/08/09, 1:43 PM

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Dos Presentes


Extraído de http://www.marieclaire.com/cm/marieclaire/images/2r/gift-guide-marie-claire-300.jpg

Cada caixa, um desejo tão esperado
Com a intenção de fazer bem
E com ele, um vale já marcado
Para outra caixa no ano que vem

Francisco Libânio,
24/12/09, 10:21 AM

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Cotidiano


Extraído de http://3.bp.blogspot.com/_sytYc3mRnfA/SoAgywaxphI/AAAAAAAABa4/OXXLBu0mFr4/s400/mulher+e+sol.jpg

E todos os dias, quando me deixas
Após nosso amor, penso ser o entardecer
Mas como se o sol se ergue no céu?
Passo o resto do dia anoitecido às queixas
Contra tudo o que me fez te perder
Até que alvoreça a noite e me tenhas só teu

Terrível é o cotidiano enquanto te amo
E faço de ti meu sol que faz viver e sorrir mais,
Pois se não te tenho comigo reclamo
Do sol e do dia querendo fusos horários iguais

Francisco Libânio,
23/12/09, 2:55 PM

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Maria Baiana



Maria Baiana, de pele trigueira,
De rosto torrado de sol do sertão
E mãos calejadas na lida da vida
Ainda é bonita, ainda é faceira
Quando descansa do seu facão,
Quando faz a filha nova dormida
E o filho mais velho ganha cheiro,
Ela se deita com o marido cansado
Escuta o lamento do ganho atrasado,
Da vida difícil e do pouco dinheiro
E então beija o homem com ternura
Dias melhores virão, ela tem certeza,
E o aconselha a aproveitar da noite a leveza
Para compensar o dia e sua mão dura.

Francisco Libânio,
22/12/09, 9:35 PM

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

52 - E se eu, oh declarada criança,


Extraído de http://s3.images.com/huge.2.14458.JPG


E se eu, oh declarada criança,
Ao invés de te ninar fosse ninado,
Em teu colo fosse encaixado
Ouvindo um acalanto em voz mansa?

E se desse colo se fizesse dança
Pondo-te depois com tal cuidado
Em meus braços e, assim trocado,
Deixasse-te menina na confiança

Dos meus beijos para aí entregá-los
Aos zelos dos teus mimos e teus regalos
Trocando-nos os colos até que desande

As vezes e de trocá-los já cansados,
Mudássemos o jogo ou nós, deitados,
Víssemos o bom de ser criança grande

Francisco Libânio,
21/08/09, 10:51 PM

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Das Miragens



Se vês sem haver algo que queiras,
Nem por isso ele não existe
Tua mente tanto quer e tanto insiste
Que as ilusões terminam verdadeiras

Francisco Libânio,
17/12/09, 17:12/09

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Instiga tua alma apaixonada a um amor


Extraído de http://1.bp.blogspot.com/_Jt4tWllKFZ0/Sntg-8C8z6I/AAAAAAAAFfg/b87bOqdvRhs/s400/os_amantes_07.jpg

Instiga tua alma apaixonada a um amor,
Explica a ela que ele não é o da novela
Não é o do filme, que ele é a mais bela
Interpretação que não a faria algum ator

Exorta-a a amar que a ela ele se revela,
Não o sentimento vazio, mas o melhor,
Não olhando o externo, mas o interior
Em contemplação enquanto outra paralela

Cuida só da alma, pois se alma apaixonada
É esta, outra haverá de ser por ela amada
E além do interior está o que ela procura

Incita tua a alma a se depurar na formosura
Das outras e tomar delas exemplos ideais
E encontre seu par amando-o mais e mais.

Francisco Libânio,
16/12/09, 9:06 PM

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Fenomenais


Extraído de http://1.bp.blogspot.com/__j2tT8agaes/SXn4cBbh-EI/AAAAAAAAAMc/490EOdrLQN4/s400/rosa+vermelha+neve.jpg


Ela nevou todas as relações
Em que havia um calor intenso
De corpos e o céu propenso
Ao amor sofreu graves variações

Então ela choveu e se fez tempestade
E diluviou afogando o que era esperança.
Eu que via ditado cria na bonança
Vi que nele nada havia de verdade.

Tanta chuva era águas passadas de volta,
Trovões a eletrocutar e ela fez surgir
Um sol radiante noutra terra, noutra ilha

Em que sua luz quente faz escolta
Enquanto, em escombros, espero vir
Um sol que há muito aqui não brilha.

Francisco Libânio,
25/08/09, 12:45 AM

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Epitáfio de Alonso Quijano


Extraído de http://jamillan.com/portquid.jpg

Aqui jaz são o virtuoso
E louco em vida cavaleiro
Que amou a dama del Toboso
Sem ver seu rosto verdadeiro.

Francisco Libânio,
11/12/09, 11:17 PM

sábado, 12 de dezembro de 2009

Soneto da Maldade


Extraído de http://4.bp.blogspot.com/_zL3m2i3HEgk/SLd1lxCLioI/AAAAAAAAAEo/NnQGmoiLj80/s400/olhos.JPG

Ela é quem abastece os peitos dos elementos
A quem pouco ou nada custa a desventura
Alheia desde que seja só deles a brancura
Dos sucessos e cantá-los aos quatro ventos

É ela quem provoca o pior rebaixamento,
Aquele que ajusta os outros iguais a mais pura
Condição de coisa ou rival e conjectura
Contra eles para superá-los o mais odiento

Ardil. É ela, a quem estes chamam chance
E os outros chamam maldade, a pior doença
Que leva o doente à mais vil performance

Filha legítima do egoísmo com a inveja,
Mãe de várias vendetas e da desavença,
Ela contamina de si a boca que lhe beija.

Francisco Libânio,
12/12/09, 11:26 AM

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Dia de jogo

Dia de jogo do Brasil na Copa. A partida, por questões de fuso horário, vai ser às quatro horas da tarde aqui. E isso dá o direito a diversas repartições, sejam elas públicas ou privadas, comerciais ou governamentais, de encerrar o expediente mais cedo. Às três. E contra patrão não se põe questão. Ainda mais quando envolve colher de chá. Aí nosso amigo sai do trabalho e vai tomar o ônibus pra gozar do dever cívico quadrienal de se torcer pela seleção. Só que ele não era lá muito fã do esporte bretão. Não tinha time, não se interessava. Pra ele, o Raí ainda jogava no São Paulo e gente como Kaká e Ronaldo ele só sabia quem era porque as notícias importantes eram intercaladas pelas novidades da Seleção. Chega ao ponto enquanto via lojas fechando e todo mundo indo pras suas casas e ele resolveu curtir uma pouco mais sua folga. O problema foi que ele estendeu e ao olhar no relógio já eram quatro e meia. Não tinha ninguém nas ruas. Fácil saber se o Brasil fez gol, bastava ouvir os rojões. Aí, ele foi pro seu ponto. Só um outro cidadão esperava o ônibus. Puxou conversa:

- Perdeu o começo do jogo?

- Perdi, mas deixa pra lá. Era contra quem?

- Não faço a menor ideia.

- Tudo bem. Futebol só me vale a final mesmo. E ainda assim... Só se não tiver coisa melhor pra fazer.

- Eu também não sou fã, não. Não tenho paciência.

- Eu também não. Futebol deixou de ser entretenimento. Virou negócio. E dos bons, que movimentam uma baba!

- Mas não é? Esses caras ganham demais pra ficar chutando uma bola e tomando canelada, onde já se viu?

- Absurdo!

- Pois é. O que o Kaká ganha por mês no time dele lá fora, eu sustento a minha família até chegarem os meus netos, que ainda estão longe de virem.

- Você tem filhos?

- Um pequeno, seis anos ainda. Deu pra ser corintiano só porque o Ronaldo joga no time. É fã dele. Sempre quer que eu leve ao estádio. Deixo pro tio, que adora essas coisas. Eu quero meu domingo pra descansar, sair com a esposa. Nada de futebol. E o senhor?

- Eu tenho quatro. Tudo mais crescido. Uma briga em casa. Dois corintianos, dois são-paulinos. Dia de jogo a coisa é feia com aquela cambada.

- O senhor vê? O povo babando o ovo dessa gente e eles nem aí pra gente. E quando vão pedir atenção, autógrafo, tocam os seguranças em cima dos fãs.

- O que eles queriam, eles já conseguiram. Agora que se dane.

Calaram-se. O ônibus não chegava. Será que até as empresas de ônibus deram folga temporária pros seus choferes? Nosso amigo dava tudo por um banho fresco, um prato quente e uma poltrona. O outro estava com o olhar perdido no mundo. Nosso amigo puxou papo de novo.

- Acho que ninguém fez gol ainda. Não ouvi rojão estourando.

- Deve ser. Casa de fogos ganha uma baba em tempo de Copa. Cachorro é que não gosta. Lá onde eu moro, quando solta rojão, a cachorrada faz um barulho que vou te contar.

- Onde o senhor mora?

O outro se calou. Era discrepante as duas figuras. Nosso amigo todo arrumado e com roupas bem gastas. Talvez não quisesse falar onde morasse por vergonha de ser pobre. Coisa boba. Mas, com o assunto interrompido, o que estava no ponto retomou a conversa:

- Você trabalha onde?

- Sou funcionário público do governo do Estado. Trabalho num prédio virando a rua que cruza essa. Não é longe daqui.

- Sei qual é.

- E o senhor, trabalha em quê?

- Olha, eu trabalhava como auxiliar de limpeza numa empresa lá no Brás, mas aí teve corte de gente, fui mandado embora. Fiquei desempregado por um ano e virei assaltante. Agora me passa o relógio e a carteira que meu ônibus tá chegando e talvez dê tempo de eu pegar a metade do segundo tempo. Vai logo, playboy!


Francisco Libânio!

10/11/09, 5:05 PM



quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Das carpideiras


Extraído de http://4.bp.blogspot.com/_AIf5O_sWNik/SufLgcDFSMI/AAAAAAAAAuE/Y-5u0qtiqtk/s400/graciela+carpideiras+mexico.jpg

Se a custo choram estas donzelas
Sem conhecer o morto, tão artificial,
Receberá com justos juros no funeral
Quem for prantear as mortes delas?

Francisco Libânio,
05/12/09, 11:54 AM

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

A falsa mulher


Extraído de http://colunistas.ig.com.br/obutecodanet/files/2009/06/namor.jpg

Meu Deus, protege-me da falsa mulher
De beleza estonteante e alma suja,
De cabelos tão macios, mas flores em pântano,
De olhar penetrante, mas de Medusa,
De aparência e de boa cepa, mas só engano.

Por ela, quantos homens pediram o fim,
Quantos empenharam bens de família,
Quantos foram réus condenados,
Quantos se desviaram da trilha
Do bem para se acabarem danados!

Maldita seja a falsa mulher! Maldita
Que não quer ser mãe por ser linda,
Do amor e do homem só toma o que precisa
E agora, travestida de moça distinta,
Bate à minha porta e me hipnotiza.

Francisco Libânio,
21/08/09, 12:31 AM

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

A mulher passante


Extraído de http://www.danheller.com/images/Europe/Hungary/Budapest/People/Women/woman-walking-by-bus-bw-1-big.jpg


Vem a mulher passante. Ela me desconhece.
Também eu nunca a vi em minha vida
Nem em outras e ainda que eu a tivesse
Visto, ela me é nova e, agora, a melhor pedida

Para preencher esta hora. Vai despercebida
Do poeta que a observa. Ela nem se envaidece
Nem se irrita nem nada por ser assim seguida
Por meu olhar. Logo, logo, ela se desaparece

Assim como veio. Deixou apenas sua presença
E aquele conhecimento de um breve instante
Sem se apresentar o nome, mas foi tão intensa

Tal aparição em minha vida fazendo completo
Meu momento e sendo breve acompanhante
Sem saber e se eternizando neste meu soneto.

Francisco Libânio,
21/08/09, 11:01 PM

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Nomes e ofícios

Negócio interessante esse dos sobrenomes, que oficialmente são conhecidos por nomes. Conta-se que eles não existiam na Antiguidade. As pessoas tinham apenas o nome e, para designar a família ou a origem, associava-se à pessoa ou o local onde ela nasceu (daí vários sobrenomes com a partícula “de”) ou o local onde vivia (o que resulta os vários Costa, Ribeiro, Silva – que vem de selva – dentre outros) ou, ainda, a profissão do sujeito, um bom exemplo disso é o Ferreira, que vem de ferreiro, que no inglês vem de Smith, o Silva deles de tão comum que é por aqueles lados. Por exemplo, o heptacampeão de Fórmula Um, Michael Schumacher, traz consigo uma corruptela do inglês shoe maker, sapateiro. E por aí vai.

O legal é que hoje, ainda, vários sobrenomes poderiam casar muito bem com a profissão do seu detentor. Pense só como podem ser prósperos os pomares da sociedade Pereira & Nogueira, cujos sócios nasceram pra tal feitio. E que juiz sensacional seria aquele que tem por sobrenome Justo. Advogados com tino marqueteiro poderiam explorar genialmente esse acaso familiar. Um marinheiro da família Marinho, ou mesmo Lemos, com a devida adaptação, poderia ser contratado por qualquer navio mercante de qualquer nacionalidade. Não haveria numerologia mais eficiente. O senhor Leite seria dono da Batavo ou da Parmalat e teria sucesso. Por fim, a família Casagrande, além de um craque no futebol, teria arquitetos mundialmente conhecidos.

Claro que os sobrenomes, dependendo da combinação, poderiam ser o jazigo moral e social de alguém. E a criatividade do brasileiro ajuda pra isso. Pense o incômodo que sofreria o jovem Rolando Rocha na hora da chamada? Outro nome, cujo sobrenome bem encaixado pode gerar problemas é Armando. E para os maliciosos de plantão quão não devem ser divertidos os Pintos, Regos e Costas da vida.

O mau sobrenome na profissão também pode acontecer. É o caso do dr. Roberto Durão, que, apesar do sobrenome, teve cacife e competência pra se formar em medicina e ser ginecologista. Seu nome estampado na fachada do consultório era um tanto incômodo, mas, se a má associação não matou o dr. Durão de fome, reduziu bem sua clientela. Mulheres mais pudicas e conservadoras não iam se tratar com ele, pois achavam que tudo não passava de uma piada de mau gosto. As que tomavam coragem de vencer os preconceitos e os fantasmas das gracinhas posteriores eram obstadas pelos maridos ciumentos que preferiam ter uma úlcera a ver suas esposas sendo tratadas por um Durão da vida. Assim, as pacientes do dr. Durão eram mulheres solteiras, sem preconceitos, de cabeça aberta e as casadas cujos maridos eram dobrados por elas, pois conheciam de antanho a competência do seu ginecologista. E, sem qualquer maldade, segunda intenção ou linguagem figurada, não trocavam o Durão delas por nenhum outro. Pior que a cabeça pequena das pacientes em potencial perdidas, era a gozação dos colegas. Toda reunião na Casa do Médico, o dr. Durão era alvo de chacota. Os novatos recém saídos da residência faziam questão de conhecê-lo pessoalmente, achavam que era gozação. E ele não estava nem aí. Essa fama de durão nem lhe mordia os pés. Era orgulhoso do seu sobrenome e o foi até o dia em que resolveu abandonar o sacerdócio da saúde feminina. Outra festa na Casa do Médico e depois dos brindes de despedida, do discurso (que a cada vez que se citava o nome do homenageado, um risinho ecoava no salão), seus amigos mais próximos foram ter com ele:

- Roberto (os amigos não lhe chamavam de Durão por nada), depois de quarenta anos clinicando, mesmo não tendo tantas clientes, você nunca se deixou levar pela gozação. Todos os encontros, simpósios você era o alvo e você nunca se abalou, como conseguiu isso?

- Não deixo me atingir. Durão é meu nome, trago comigo a marca da família portuguesa da qual descendo. Fui um ótimo ginecologista, minhas pacientes, mesmo sendo poucas, nunca tiveram uma reclamação de mim. Poderia ser pior. Eu podia ser proctologista e, aí sim, morrer de fome. Ou algum de vocês deixaria o Durão fazer o exame de próstata?

Os amigos, mesmo médicos cultos e conscientes da importância de tal exame não responderam. Essa era uma hipótese deveras constrangedora.


Francisco Libânio,

06/11/09, 9:41 AM



quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Da Terra Natal


Extraído de http://www.criancaenatureza.pt/xFiles/scContentDeployer_pt/images/image157.gif

Não adianta. Mais que nunca se queira,
Mais que se negue, traz-se consigo
Um pouco do torrão em terra estrangeira,
Pois lá está parte do nosso umbigo.

Francisco Libânio,
21/08/09, 8:36 AM

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Hai-kais de dezembro


Extraído de http://2.bp.blogspot.com/_Fn9Waw_iN2M/STw8qhqdCII/AAAAAAAAPlE/FXV-VL59L_s/s400/dezembro+08+002.jpg

I


É dezembro, aguarda,
Que o ano começado ontem
Em acabar não tarda.

II

O que fazer nesses trinta dias
Antes do ano novo?
Enterrá-los com honrarias.

III

Não te assustes se, repentino,
Vierem-te com pechinchas.
É só o espírito natalino.

IV

Então é essa a graça do ano inteiro?
Ficar tantos dias vivendo
Até nos vir outro janeiro?

Francisco Libânio,
01/12/09, 7:17 PM

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Auto Oração


Extraído de http://casapoderosos.net/eueeu/wp-content/uploads/2009/08/arrependimento.jpg


Não há mal no mundo. O mal é meu.
Não há diabo que atente. Eu procuro
A tentação. Sei que ela está no escuro
Dos fracos, mas quem a buscou fui eu

E então pequei. Fui fraco e aconteceu,
Fraquejei e fiz mandar-me ao monturo
Agora é pedir forças e por fora o impuro
E o impulso de ir até ele que me venceu

A força está na fé no que se acredita,
Mas de nada adianta acreditar somente
Sem impor a si próprio sua regra dita

Peça ao da sua fé. Peça que ele escuta,
Porém antes que teu mal te apresente,
Vence-o lutando, mas é só tua esta luta.

Francisco Libânio,
15/08/09, 2:53 AM

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Meditabundo


Extraído de http://sitedepoesias.com.br/imagens/poemas/38808.jpg

Quando te amar eu, em ti e profundo,
Meditarei em busca da aura inalcançada
Num transe absoluto e te sentirei em cada
Respiração, deixarei aos deuses o mundo.

Assim, enquanto eu restar em ti meditabundo,
Visualizarei-te em outras mil transfigurada
E ao meu redor, tudo será a minha amada
A alcançar cem mil nirvanas. E ao fundo

Tilintares, sininhos e tu, com meu nome
Chamando... Viagens, cores, sons... Some
Tudo. Só tu, deitada em meu colo curiosa

Perguntarás por onde estive. Ah, Formosa...
Estive onde te havia em contagem infinita,
Mas nenhuma lá como tu aqui mais bonita.

Francisco Libânio,
10/08/09, 11:23 PM

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

O Escritor

- Não acredito!!

E era inacreditável mesmo. O grito que o homem deu ecoou por todo restaurante e ele ia na direção daquele outro que estava anônimo, esquecido pela clientela no fundo do estabelecimento. E estava decidido.

- Cara, eu não acredito que te achei aqui! Quem diria! Você não é aquele famoso escritor, o ...

- Não, não sou. – e deu mais uma golada no seu vinho.

- Ah, sem essa, vai. É você sim, o maior escritor vivo desse país. Ganhou prêmio no mundo inteiro, na Itália, na Argentina, nos Estados Unidos, em Ruanda... É aquele que escreveu ...

- Escritor, eu? Ora, meu amigo, quem me dera!

- Bicho, tô te falando que você é o maior escritor desse país. Conheço toda sua obra, li todos seus livros e não perco uma crônica sua no jornal!

O outro começava a se impacientar. Será que ninguém pode jantar em paz?

- Olha só, meu velho, eu não sou escritor! Nunca escrevi um maldito livro na minha vida. Aliás, nunca escrevi uma linha que não seja relatório técnico. Eu sou engenheiro, entendeu?

- Não pode ser! São parecidos demais. Pô, você tá querendo me enganar. Todos os seus livros têm sua foto na contracapa. Claro que são fases diferentes da sua vida. Em nenhum deles aparece essa cabeça prateada.

- O senhor está me chamando de velho?

- Não! Longe de mim! É que do seu último livro, o Catando Uvas nas Vinhas do Senhor pra essa noite em que eu te encontro já se vão bons sete anos. Tempo o bastante pras pessoas mudarem.

- Agora quem não acredita sou eu!

- Ahá, eu sabia que eu ia desmascará-lo!

- Não... Não acredito que o senhor tenha lido um livro com esse nome. Catando Uvas nas Vinhas do Senhor... Francamente, meu velho? Isso lá é literatura? Ninguém lê um livro com nome tão estapafúrdio e gosta a ponto de falar aos quatro ventos.

- Confesso que o nome, realmente, não é muito bom, mas li uma entrevista na qual você diz que os títulos, quando não têm uma ligação direta com a obra, são perfeitos pra chamar o leitor ao livro. Então a tática foi perfeita!

- Quem deu essa entrevista?

- Vem com essa! Foi você. Aliás, eu não sei porque ainda você fica aí se fazendo de sonso. Coisa rara é leitor encontrar escritor assim no dia-a-dia. Que ator, atriz fique fazendo doce pra ficar anônimo, eu compreendo. Todo mundo assiste novela, filme. Mas escritor... Até se o Jorge Amado fosse vivo, todo mundo ia confundir ele com o tiozinho que vende bilhete na porta da lotérica.

O homem da mesa, enfim, se deu por vencido. Não adiantava querer ser anônimo. Seja quem for, faça o que fizer, sempre vai ter um fã chato pra interromper aquela hora de paz. Ele abriu o jogo:

- Ok, você venceu. Sou eu mesmo, o escritor do Catando Uvas nas Vinhas do Senhor e de Melquisedeque, Traga-me Oito Pãezinhos entre outros. Ganhei, mesmo, os prêmios que o senhor falou e dei a entrevista a qual o senhor se referiu. Queria ficar incógnito porque tive uma semana cheia. O senhor quer um autógrafo?

- Autógrafo? De jeito nenhum! Meu sonho sempre foi encontrá-lo pra dizer o quanto seus livros são horríveis. Do título ao último ponto final. Cada coisa sem nexo. Fala sério, você deve fumar cocô de lagartixa pra escrever tanta bobagem! Você e a turma que lhe dá esses prêmios. Olha, com todo respeito, mas se você é o maior escritor desse país, como dizem os críticos, eu sou um orangotango.

No dia seguinte, o jornal que traz diariamente uma crônica do famoso escritor estampava na primeira página a pancadaria generalizada na qual ele se envolveu com um homem num restaurante. Cadeira quebrada na cabeça e tudo mais. Nem a Amy Winehouse faria tamanha baixaria.


Francisco Libânio,

25/10/09, 9:33 AM



quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Dos Desfiles Cívicos


Extraído de http://rmtonline.globo.com/banco_imagens/noticias/%7BDECB1B49-7AB5-43F9-AE7C-C6A0074B1BAC%7D_ExercitoROO.jpg

Há uma coisa, um quê de barbarismo
Em ver soldados em marcha alinhados.
Vão eles em paz, mas estão armados.
Intimidação travestida de civismo

Francisco Libânio,
07/09/09, 12:13 AM

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

O Homem no telhado


Extraído de http://thinknola.com/wp-content/uploads/2008/02/man_on_roof.jpg

Havia um homem no telhado da casa da esquina,
Para susto de um transeunte por lá desavisado.
Toca a ligar pra polícia sobre o crime praticado
Pelo homem que parecia agir esperto na surdina

E dali a pouco, o homem pela multidão acuado,
É acossado pelos Homens, segue-se a sabatina
Com ofensas e tapas, o que é chamado de rotina
Pela Autoridade que fica sabendo de todo o riscado

O homem em cima do telhado lá colocava telhas,
Fora contratado para exercer seu simplório ofício
E naquela tarde estava trocando todas as velhas.

A multidão acerca da casa foi embora envergonhada
Com esse hábito ruim, esse desprezível vício
De julgar pessoas humildes de forma errada.

Francisco Libânio,
25/11/09, 11:16 AM

terça-feira, 24 de novembro de 2009

O tal de Amor


Extraído de http://wiki.bemsimples.com/download/attachments/7962730/relacoes-como-superar-amor-nao-correspondido-460x345-br.jpg

O amor parece algo estranho assim:
Amamos e queremos eternamente,
Fazemos tudo para levá-lo à frente
Até que – inesperado – ele chega ao fim

E o amor nos lega seus momentos,
Suas lembranças e depois a saudade,
Então nos resta aquela vontade
De maldizê-lo e a todos os sentimentos,

De chamar o tal de amor de ingrato,
Mas mais ingratos ao amor são
Aqueles que lhe dão tal deferência,

Pois são só alegrias no bom trato
Para, no fim, encher de mal o coração
Sem repetir o bom dessa experiência.

Francisco Libânio,
13/08/09, 8:19 AM

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Uma rima para a palavra Sempre


Extraído de http://charquinho.weblog.com.pt/arquivo/Infinito.jpg

O Sempre precisa de uma rima que lhe ajeite,
Mas é difícil. Nenhuma há com tal terminação
E mesmo uma parecida na pronunciação
Não sei de alguma que de bem lhe aceite

Então penso no Sempre e nesta reflexão,
Vejo-me para ele como um mero enfeite
Descartável. Vejo que por seu puro deleite
Ele se mostra para mim uma vã interrogação

Porque o Sempre, me prometem, dura
Sem acabar indo fácil até o infinito
Onde sua boca beija a do Universo

E tanto ele zomba desta minha procura
Fazendo pouco dela e do que já foi escrito
Que não sei como ainda lhe dedico este verso.

Francisco Libânio,
13/08/09, 11:38 AM

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Zé Ruela

Essa aconteceu comigo num desses dias que eu voltava pra casa de ônibus. Eu estava no meu canto, já tinha passado a roleta muito bem vindo de algum lugar, como diria o poeta, com o carro parando no centro. Ele não estava muito cheio. Éramos eu e mais uns sete quando entra um sujeito maltrapilho, de camiseta aberta, calça rasgada e um boné seboso que pintaria de verde vivo qualquer bafômetro. Entrou por trás e queria que o motorista esperasse entrar, além dele, dois cachorros, o que o chofer achou um abuso. Um sem pagar o bilhete ainda vai, três não. Quando pôs o carro em marcha, ele foi interrompido por outro passageiro, esse mais bem alinhado, mas em igual estado de canjebrina.

- Esse ônibus vai pra Washington Luís?

- Não senhor, ele só cruza ela. Nem pára. – respondeu o paciencioso motorista.

- Qual o ponto final dele?

- O estádio.

- Então vambora! – ordenou o outro entrando pela frente estabelecendo um caminho lógico como se entre São Paulo e Rio de Janeiro estivesse Porto Alegre. O motorista, que não tinha nada a ver com isso cumpriu seu papel. Ao se sentar e olhar pra trás, encontram-se os dois que devem ter se desencontrado no mesmo bar por questão de minutos. A conversa fluía com aquela intimidade que só os manguaçados sabem. Mas por pouco tempo.

- Bão? E aí? Como vai a família?

- Vai bem, graças a Deus. Mulher bem, filhos bem. Todo mundo só me dando orgulho.

- Deus abençoe. Minha família vai bem também. Só minha mulher que me preocupa. Ela tá bem até demais, mas desconfio que ela tá me passando a perna com um zé-ruela que...

- Repete se for homem!

- É um zé-ruela que parece que me enfeita a cabeça e...

- Escuta aqui, como você me chama de zé-ruela, seu imbecil?

- Eu não estou falando do senhor.

- Ah, sem essa! Coisa que eu odeio são esses engomadinhos que olham a gente e só porque a gente somos pobre, o cara fica tirando. Isso não vai ficar assim!

O clima esquentava conforme o ônibus rodava. A situação ficava tensa ao mesmo passo que tomava ar de tragicomédia. E pior que encrenca gratuita em ônibus é gente que a fomenta. E nem isso faltava. O almofadinha da frente e o indigente de trás, rápido, já constituíam seus respectivos partidos. Dois moleques que chegaram um ponto depois deles e estavam sentados no banco da frente e outros três vindos comigo acomodados na parte de trás eram uma assistência vip para o embate que se arrumava:

- Ih, xingou a mãe. Ah, eu não deixava!

- Olha lá, te chamou de corno, rapaz! Vai deixar barato?

- Percebe a cara de sarcasmo que ele tá fazendo, nego. Ele quer cuspir em você.

Em dada hora, o maltrapilho, movido pelo álcool e pela exortação da torcida, não se segurou:

- Então vamos resolver isso que nem macho! Agora a coisa é no muque!

- Ah, sai pra lá, tio! Quebro sua fuça com a mão nas costas!

Se quebrou ou não quebrou, eu não sei. A valentia dos dois em ameaçar era tão grande e cerimoniosa que meu ponto chegou antes que os dois saíssem no braço. No dia seguinte, de manhã, perguntei para duas moças que estavam comigo àquela hora que fim teve a briga. Uma delas disse que um desceu num ponto, o outro desceu dois pontos depois dizendo que ia estraçalhar o primeiro. O que eu vi, ao chegar ao trabalho, foi a foto dos dois no jornal ilustrando a matéria em que dois homens foram internados com coma alcoólico, cada um em um bar diferente e, mais abaixo, os malefícios da bebida na vida moderna.


Francisco Libânio,

25/10/09, 8:54 AM



quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Do tudo



Oh, abstrata palavra inanimada,
De significado pleno, mas vazio
Cuja ilustração houvesse no dicionário
Vergonhosamente seria um nada

Francisco Libânio,
09/08/09, 1:53 AM

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Meu lado cristão


Extraído de http://www.dragonlairdgaming.com/images/Adventurers_0012.jpg

Meu lado cristão é um nanico marrento,
Sabe que é baixinho e não pode com o forte
Se a coisa descambar pro lado violento,
Fica no seu canto vendo os socos e o corte

Mas se não sabe brigar, ele tenta, de outra sorte,
Entrar no embate. Assiste e escolhe o momento
Para encarar o bruto já exausto. E por esporte,
Humilha só na base da ofensa e do argumento

O brucutu em si exaurido e por ele derrotado
É ou meu desejo ou meu bom-senso que, melhor,
Devolve a afronta que o lado cristão lhe fez

Mas este, mesmo pelo forte tanto surrado,
Não desiste. Espera da nova briga o vencedor,
Quieto, e com ele cansado, derrota-o outra vez.

Francisco Libânio,
18/11/09, 1:18 AM

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Influência


Extraído de http://wehavekaosinthegarden.files.wordpress.com/2009/07/paulo-portas-vitor-constancio-deus-e-o-diabo.jpg

Deus e o Diabo, numa animosa conversa,
Disputavam quem tinha mais influência
No mundo. O Demo aludiu que a ciência
Desenvolve-se sob a existência perversa

Da guerra. “Cria-se para o melhor ataque,
Para dizimar o inimigo, eivá-lo, destruí-lo
Mais que para a defesa. Este o meu estilo
E para se ir adiante faz-se preciso o baque

Das armas!” Deus se fez, então, reflexivo,
Calou-se e olhou os homens em guerra
E uma criança e um velho que perdera

A casa, a família e tudo o mais que era
Seu. E sentiu sua influência na Terra
Ao ver a criança sendo um ombro amigo.

Francisco Libânio,
05/08/09, 1:45 AM

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

51 - Inacreditavelmente fizeste


Extraído de http://1.bp.blogspot.com/_QCZGsln5cbM/SkFgz3AKLkI/AAAAAAAAAPU/GvohsH0NiV4/s320/colo%5B1%5D.jpg

Inacreditavelmente fizeste
Surgir em mim uma esperança,
Acreditar no amor em pujança
Desde o beijo que me deste

Achaste em mim um duro teste
Amar? Eu? Com qual confiança?
E largado à vida que avança,
Não me queriam. Tu me quiseste.

Vieram um olhar, um interesse,
O tal beijo, um abraço afetuoso
E desemboquei neste presente

De colo que, doce, me enternece
A crer num amor, enfim, delicioso
E isto, tu o fizeste.. Inacreditavelmente!

Francisco Libânio,
08/08/09, 2:50 PM

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Desenvolvendo



Tá legal. É preciso que eu escreva uma crônica, um conto, uma poesia, um verso que seja – desde que não seja batatinha-quando-nasce – pra cumprir a cota de hoje. Vamos a ela. Ou ele. Como fazer? Pergunto pra minha consciência, e ela, naquela preguiça de sexta-feira, responde com educação marinheira:

- E eu que sei? Quem se meteu a ser escritor aqui foi você, não eu! Cuida aí dos seus poemas que eu tenho mais o que fazer. E não se esqueça de me chamar pra hora do almoço. Passe bem!

Certo, certo... Segunda, vou colocar essa subversiva numa escola de bons modos. Já que ela não pode me ajudar, vamos buscar inspiração em outro lugar. Nessas horas, um livro do Drummond sempre ajuda. Leio duas crônicas dele, dou boas risadas e alguma idéia aparece. Isso é bom. Já dizia o Chacrinha que nada se cria, tudo se copia. Mas não vou ser desonesto em copiar Drummond. Vou apenas pegar dele um fio, uma imagem que possa me fazer desenvolver uma idéia. Vamos lá...

Aliás... É isso! IMAGEM! Tudo o que eu preciso é uma imagem. Mas não imagem de foto ou procuraria um livro do Sebastião Salgado. Vou dar uma volta pelas redondezas e ver o que meus olhos captam. Para que a coisa saia a contento, dou um rolê pelo São Judas, que é perto de casa, mas termino indo ao Parque do Povo mesmo. O que vejo são jovens correndo, madames levando cachorrinhos pra passear e sol. Muito sol! A primavera chegou aqui nos rincões do Oeste com o cartãozinho do verão. A coisa vai ser tórrida. O lado bom é que calor e roupa são grandezas inversamente proporcionais, principalmente para as mulheres, e ver o mulherio andando com tops e shortinhos é um colírio para os olhos. Mas não dão um bom texto. Melhor voltar pra casa.

Mais Drummond, um pouco de conversa. Alguém precisa ter uma idéia para eu roubar. Roubar, não, que é muito feio. Tomar emprestado surdinamente é melhor. Mas parece que tanto a TV quanto os que me cercam andam tão vazios de idéias quanto eu. Mais Drummond. A idéia que eu tive no primeiro encontro com o poeta mineiro caiu em algum lugar do meu passeio e não vou procurá-la na rua. O solo onde eu devia plantar uma coisa escrita está nu. O rei está nu, mas ele pelo menos tinha um orgulho enganado pela vaidade. Eu não posso ficar pimpão por estar nu. Nem tenho motivos pra isso.

Vou ao computador e ele custa a ligar. Nem ele me ajuda. A sexta promete... Uma folha branca aparece na minha frente e hoje a tática vai ser oposta. Normalmente escrevo pra depois dar nome. Hoje vou dar nome e escrever. Assim, o título já existe: Desenvolvendo. Mas desenvolvendo o quê? Não sei... Ô inferno! Então, eu me meto num colóquio telepático entre mim, minha necessidade de escrever e o computador com a tela branca virgem esperando ser deflorada com alguma idéia: “Tá legal. É preciso que eu escreva uma crônica, um conto, uma poesia, um verso que seja – desde que não seja batatinha-quando-nasce – pra cumprir a cota de hoje...”


Francisco Libânio,

23/10/09, 9:41 AM

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Soneto da Madrugada


Extraído de http://blufiles.storage.msn.com/y1p1bIRSgo3vP1MOMzVmjI1JjlUP9k9mKXukDHs8u9rmKoIFmEARTEEOnrNy8herCxJMHbifm8FCNU

Não penses que é por ti que me quedo
Acordado enquanto se dorme o sono justo
Ou se ama por aí seja a amor ou a custo,
Amada, mas saberás parte do segredo

Sim, teu vazio ao lado me é um susto,
Uma dura falta com a qual me enredo,
Mas eu a venço e mais ao sabido medo
De não te suplantar, subjugo-os e degusto

Com prazer sem igual ao me envolver
Ardente com outra, seja ela imaginada
No verso ou deitada em minha cama

E enquanto escrevo, ela se esparrama
No teu vazio e eu desperto na madrugada
Refazendo-me pra ela ao te escrever.

Francisco Libânio,
08/08/09, 1:51 AM

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

50 - Quantos nomes eu queria que tivesse



Quantos nomes eu queria que tivesse
Esse simples ato de beijar tua boca
Durante o abraço, mas um que eu desse
Seria grande em escrita e teria pouca

Significação real. Um beijo e um abraço,
Substantivos simples e em si abstratos,
Mas quando nossos e concretos num espaço
Real, de palavras se fazem em fatos

É pouco o que diz deles o dicionário
E não me venha um filólogo ordinário
Criar um neologismo deste meu instante.

Se ele é meu e se eu não lhe dei um nome
Não é falta de idéia. O fato me consome
E a ser poeta, nessa hora, prefiro ser amante.

Francisco Libânio,
07/08/09, 12:10 AM

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Samba do Passarinho



E o Altamirano, hein? Sujeito que tinha aquele dom da simpatia criativa que nasce com muitos e é aprimorado por poucos era um sambista de porta de boteco que não teve a sorte de ser encontrado por um figurão. Se ao invés de fazer seus batuques e suas rimas no Bar do Mirto os fizesse no Bar da Brahma, no cruzamento da São João com a Ipiranga, seria o novo Zeca Pagodinho. Mas onde ele os fazia era ruim de pintar um empresário influente ou um bonito que conhecesse o produtor do Domingão do Faustão. Achavam que o Altamirano ligava pra isso? Pois, ligava! E muito. Essa coisa de trabalhar como porteiro naquele prédio comercial não era a pior do mundo, mas o salário deveria ser condenado pela Convenção de Genebra. E ele via no domingão aquela turma de pagodeiro pastinha fazendo sambinha de quinta enquanto ele nada. O Altamirano não era do tipo que se gabava. Nunca pleiteou o prêmio de Porteiro do Ano, de Operário Padrão, de Honra ao Mérito. Era discreto até. Mas quando tratava de samba, mandava a modéstia pra casa do chapéu e dizia consigo mesmo:

- Eu não sou o Cartola, mas sou melhor que essa molecadinha de condomínio fabricada aí.

E era mesmo. Os amigos do boteco se cotizaram várias vezes pra tentar alçar a vôos mais altos o mais talentoso dos assíduos do Bar do Mirto. Uns concursos de talentos que rolaram, inscreveram o Altamirano, mas ele nem passou dos testes. Essa turma não entende pipocas de samba. E o Altamirano curtia no cavaquinho a fossa de não ser olhado pela sorte.

Aí, aconteceu que o Altamirano ficou umas duas semanas, três talvez, sem aparecer no boteco pra tomar uma com os amigos. Deixou saudade dos sambas que criava na hora.

- Fala dessa morena que chegou.

- Altamirano, rolou uma treta assim e assim comigo, dá samba?

Tudo era mote para um refrão, uma paródia, algo realmente interessante, mas já fazia tempo que o Altamirano não dava as caras no bar. Um dia, alegria geral. Aparece o sambista no meio da roda, pede a de sempre e anuncia:

- Eu andei meio afastado porque acordei dia desses com uma idéia, um samba que vai me tirar do anonimato. Esse eu vou divulgar, gravar, entregar fita em tudo que é lugar pra que me conheçam. Chama Samba do Passarinho. Até escrevi a letra. – e tirou um almaço dobrado do bolso.

Pra turma isso foi, simplesmente, sensacional. Se quando improvisava, o Altamirano arrebentava a boca do balão, imagina o que não sairia se ele resolvesse trabalhar numa coisa sua? De escrever, reescrever, apagar, encaixar, metrificar... O pessoal era unânime. Vinha aí uma sinfonia de entrar pra história. Já se gastou demais em conversa fiada, mandaram o Altamirano mostrar logo o samba pra galera. E ele fez aquele charme de “minha voz não tá lá essas coisas, mas nada que uma molhada no bico não resolva”. Uma golada na cerveja e o Samba do Passarinho saiu pra apreciação pública.

No pam-pam final, silêncio. Aquela coisa que chegava a ser incômoda, mas – diferente de sempre – não rolou um aplauso, um viva, um bravo. Consternação geral. Ninguém falava nada até que um valente resolveu se pronunciar:

- Tamirano... Isso tá uma droga! – O veredicto foi a locomotiva de iguais impressões.

- Minha avó escreve coisa melhor que essa joça!

- Nojento!

- Tanto tempo pra isso?!

O apupo foi geral. Altamirano decidiu que nunca mais ia pegar num cavaquinho na vida. Ia ser porteiro até o fim dos dias porque, se quando ele faz a coisa de instantâneo e sai coisa boa, ele arrasa e quando lapida sai um monstro, melhor deixar pra lá. Empresário nenhum ia querer saber disso e ele ainda corria risco de levar umas bolachas.


Acham que acabou? Não acabou, não. Altamirano matou o Passarinho e a folha e jogou longe os dois. Continuou sendo porteiro e bebendo com os amigos no Bar do Mirto. Acontece que o cara que fez o primeiro comentário pegou o papel, guardou, na moita, e no dia seguinte o passou pra um amigo seu que maltratava um pandeiro. Mudou uma palavrinha aqui outra lá, substituiu todos os “minha nêga” por “minha pombinha” e, de Samba do Passarinho, mudou o nome pra Samba da Minha Pombinha. Hoje seu amigo é dado como o futuro do pagode e ele ganha vinte por cento do cachê de cada show.


Francisco Libânio,

23/10/09, 10:35 AM


sexta-feira, 23 de outubro de 2009

O Urubu


Filho chegou com a notícia pra mãe. Tinha achado um bichinho de estimação. A simpatia meiga pela alegria pueril do filho acabou quando o bichinho entrou em casa. Era um urubu gordo, cabeça pelada, andando caindo. Um monstro. A mãe vetou os projetos do filho:

- Aqui não fica!

E não adiantou a argumentação embasada do menino, que já previra essa repentina antipatia pelo bichinho. Nem a lembrança de que na escola todo mundo tinha um bichinho de estimação. Quando não era um gato ou um cachorro, era um passarinho, um papagaio, um periquito, uma calopsita. Até o iguana do Danielzinho da sétima série foi arrolado como atenuante para o urubu. A mãe era inflexível. Restou ao menino a mais drástica das suas táticas: O choro. E aí, a mãe viu o quanto lhe faltou umas chineladas. E não seria o urubu testemunha nem causa delas. O bichão foi admitido na casa.

O pai quando viu aquilo se sentiu repugnado. No dia seguinte, Candinha se benzia cada vez que passava pela ave empoleirada (provisoriamente, dizia-se) no parapeito do apartamento. E o urubu terminou virando bicho de madame mesmo. Carniça? De jeito nenhum. Ainda que fosse a último, mas sempre havia um bife pra ele. Aos poucos, a família foi se afeiçoando àquela simpática ave necrófaga, que desde então nunca mais comera um cadáver em sua vida.

Um dia, o cachorrinho do casal do prédio da frente apareceu morto. As suspeitas logo apontaram para o urubu. Eram vizinhos de janela. O cachorrinho latia para o outro quando o via. Nada mais normal que a ave, cansada de tanta afronta em língua desconhecida, fosse às vias de fato. A reação correu como pólvora:

- Crucifiquemos o urubu do 407!

- Nossos filhos correm perigo!

- Ele também comeu o meu hamster.

Esse foi desmascarado. O bicho estava escondido debaixo do sofá e apareceu.

Mas o urubu estava numa enrascada acusado de um crime sem qualquer prova concreta. Pensou-se até num tribunal para o assassino. Com júri e tudo o mais. Chamaram até legista pra exumar o cadáver. Mas se cada louco tem sua mania e uns criam urubus, outros resolvem embalsamar cachorros. Pois é. O morto, tido como o filho mais novo da casa, não foi enterrado. Resolveram empalhá-lo pra colocar na sala de estar “Em memória de...” Só que o casal era famoso por sua mão fechada. A contratar um profissional sério do ramo da taxidermia preferiram pegar o primeiro que cobrasse o preço mais camarada. Não importava que ele nunca tivesse visto bicho empalhado nem em museu de história natural. Resultado: O filho mais novo fedia morto tanto quanto em vida. Como fizeram da casa da vítima o fórum do julgamento, o juiz escolhido suspendeu a sessão por completa insalubridade. Não ficou vivalma no apartamento do 409 do bloco B. Minto. Ficou uma. O cheiro pútrido despertou no réu, já acostumado às molezas de mascote de classe média, seus instintos mais selvagens. Daí, a família voltou pra salvar o que restava do cachorrinho. Encontraram o urubu morto. Causa-mortis: envenenamento. Parece que andaram dando umas balinhas suspeitas para o cachorro. Quem teria sido? Ele latia e parturbava tanto e fazia tanta sujeira que metade do condomínio teria motivos pra isso. O caso foi encerrado e nunca mais se falou nisso.


Francisco Libânio,

21/10/09, 1033 AM

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Das Aparências


Extraído de http://anotacoesdebolso.files.wordpress.com/2009/07/alma-vazia1.jpg

Pão bolorento dentro de bela viola,
O bonito que parece ter em si tudo
Cai no chão, se faz ao ar o conteúdo
Mesmo assim, ele ainda faz escola

Francisco Libânio,
22/10/09, 10:16 AM

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

A alma das poesias é a mão do poeta


Extraído de http://amadeo.blog.com/repository/306019/2672386.jpg

A alma das poesias é a mão do poeta,
Mas o poeta, ao dar a elas uma vida,
Perde um pouco da sua. Uma vez lida,
A poesia prescinde dele e decreta

Sua existência autônoma e concreta.
Ela existe e toma sua a alma abstraída
De quem a escreveu para, em seguida,
Tornar sua existência válida e completa.

Assim quem a lê gosta dela e se inspira;
Se puder, cria uma, a filha dessa poesia,
Seguindo-se essa estranha genealogia.

O poeta, pai da primeira, não se admira
Com a filha que lhe roubou a alma em parte,
Mas cria outras e com elas se reparte.

Francisco Libânio,
21/10/09, 10:58 PM

terça-feira, 20 de outubro de 2009

As noites frias


Extraído de http://www.provasdeamor.com/fotos/mensagens/8C6E3.jpg

As noites frias são aquela coisa: Inspiradoras
Enquanto pedem um calor a dois, também
Podem ser tristes. Quer-se consigo um alguém
Para que passem melhor estas frias horas

E da janela eu vejo pernas que aparecem
Logo depois a dona, mulher de mechas loiras,
Mas cabelos negros, tranquilamente vem
Trazendo no olhar idéias das mais sedutoras

Vem como se eu a esperasse por convidada,
Está à minha porta, e – surpresa – não bate.
Para e fica ali me olhando totalmente parada.

Realmente são inspiradoras as noites frias...
Só elas pra me forjarem dama de tal quilate
Quando daria o mundo por tais companhias

Francisco Libânio,
20/10/09, 8:28 PM

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Quadras de esperança


Extraído de http://2.bp.blogspot.com/_C8DHqJq3cAg/SPpPlpsbqII/AAAAAAAAAak/cgZReVbgyS4/s400/deserto.jpg
Não que eu não seja de tudo descrente,
Minha crença tem o tamanho do meu dia
E meu dia encontra uma noite pela frente
E a noite apaga tudo. Assim onde havia

Um sonho há agora algo que não se fia
Na minha capacidade. Em minha mente
Apenas o que era. O futuro se desanuvia,
Um deserto manda que eu o enfrente.

Assim, num deserto, como posso acreditar
Que além dele virá algo que não é deserto?
Como imaginarei que há um algum lugar
Que não seja o que é igual ao que é perto?

Não sei como o farei, mas farei, isso é certo!
Um resto de esperança ainda haverá de brotar
E não sei por que, mas, vejo que neste deserto
Timidamente, a paisagem começa a mudar.

Francisco Libânio,
19/10/09,
7:16 PM

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Dos professores


Extraído de http://populo.weblog.com.pt/arquivo/professor.jpg
Segundos pais, não. Sim, peças imprescindíveis
Para nosso futuro e exemplos para nossa qualidade
Seja com ensinamentos ou atos, são inesquecíveis
E tão ou mais valiosos quanto uma paternidade.

Francisco Libânio,
15/10/09. 10:51 PM