sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Samba do Passarinho



E o Altamirano, hein? Sujeito que tinha aquele dom da simpatia criativa que nasce com muitos e é aprimorado por poucos era um sambista de porta de boteco que não teve a sorte de ser encontrado por um figurão. Se ao invés de fazer seus batuques e suas rimas no Bar do Mirto os fizesse no Bar da Brahma, no cruzamento da São João com a Ipiranga, seria o novo Zeca Pagodinho. Mas onde ele os fazia era ruim de pintar um empresário influente ou um bonito que conhecesse o produtor do Domingão do Faustão. Achavam que o Altamirano ligava pra isso? Pois, ligava! E muito. Essa coisa de trabalhar como porteiro naquele prédio comercial não era a pior do mundo, mas o salário deveria ser condenado pela Convenção de Genebra. E ele via no domingão aquela turma de pagodeiro pastinha fazendo sambinha de quinta enquanto ele nada. O Altamirano não era do tipo que se gabava. Nunca pleiteou o prêmio de Porteiro do Ano, de Operário Padrão, de Honra ao Mérito. Era discreto até. Mas quando tratava de samba, mandava a modéstia pra casa do chapéu e dizia consigo mesmo:

- Eu não sou o Cartola, mas sou melhor que essa molecadinha de condomínio fabricada aí.

E era mesmo. Os amigos do boteco se cotizaram várias vezes pra tentar alçar a vôos mais altos o mais talentoso dos assíduos do Bar do Mirto. Uns concursos de talentos que rolaram, inscreveram o Altamirano, mas ele nem passou dos testes. Essa turma não entende pipocas de samba. E o Altamirano curtia no cavaquinho a fossa de não ser olhado pela sorte.

Aí, aconteceu que o Altamirano ficou umas duas semanas, três talvez, sem aparecer no boteco pra tomar uma com os amigos. Deixou saudade dos sambas que criava na hora.

- Fala dessa morena que chegou.

- Altamirano, rolou uma treta assim e assim comigo, dá samba?

Tudo era mote para um refrão, uma paródia, algo realmente interessante, mas já fazia tempo que o Altamirano não dava as caras no bar. Um dia, alegria geral. Aparece o sambista no meio da roda, pede a de sempre e anuncia:

- Eu andei meio afastado porque acordei dia desses com uma idéia, um samba que vai me tirar do anonimato. Esse eu vou divulgar, gravar, entregar fita em tudo que é lugar pra que me conheçam. Chama Samba do Passarinho. Até escrevi a letra. – e tirou um almaço dobrado do bolso.

Pra turma isso foi, simplesmente, sensacional. Se quando improvisava, o Altamirano arrebentava a boca do balão, imagina o que não sairia se ele resolvesse trabalhar numa coisa sua? De escrever, reescrever, apagar, encaixar, metrificar... O pessoal era unânime. Vinha aí uma sinfonia de entrar pra história. Já se gastou demais em conversa fiada, mandaram o Altamirano mostrar logo o samba pra galera. E ele fez aquele charme de “minha voz não tá lá essas coisas, mas nada que uma molhada no bico não resolva”. Uma golada na cerveja e o Samba do Passarinho saiu pra apreciação pública.

No pam-pam final, silêncio. Aquela coisa que chegava a ser incômoda, mas – diferente de sempre – não rolou um aplauso, um viva, um bravo. Consternação geral. Ninguém falava nada até que um valente resolveu se pronunciar:

- Tamirano... Isso tá uma droga! – O veredicto foi a locomotiva de iguais impressões.

- Minha avó escreve coisa melhor que essa joça!

- Nojento!

- Tanto tempo pra isso?!

O apupo foi geral. Altamirano decidiu que nunca mais ia pegar num cavaquinho na vida. Ia ser porteiro até o fim dos dias porque, se quando ele faz a coisa de instantâneo e sai coisa boa, ele arrasa e quando lapida sai um monstro, melhor deixar pra lá. Empresário nenhum ia querer saber disso e ele ainda corria risco de levar umas bolachas.


Acham que acabou? Não acabou, não. Altamirano matou o Passarinho e a folha e jogou longe os dois. Continuou sendo porteiro e bebendo com os amigos no Bar do Mirto. Acontece que o cara que fez o primeiro comentário pegou o papel, guardou, na moita, e no dia seguinte o passou pra um amigo seu que maltratava um pandeiro. Mudou uma palavrinha aqui outra lá, substituiu todos os “minha nêga” por “minha pombinha” e, de Samba do Passarinho, mudou o nome pra Samba da Minha Pombinha. Hoje seu amigo é dado como o futuro do pagode e ele ganha vinte por cento do cachê de cada show.


Francisco Libânio,

23/10/09, 10:35 AM


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