sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

A Casa Nova



Batalharam muito pela casa nova. O bairro estava longe de ser uma Barra ou os Jardins, mas estava lá. Sairiam do aluguel e do financiamento, poderiam fazer as reformas que bem entendessem sem dar satisfação a ninguém e o dinheiro de um financiamento seria usado para um passeio mais caprichado. Era um jovem casal recém nupciado que conseguiu realizar seu sonho. Entraram na casa nova (e mobiliada. O que podia estragar o passeio caprichado era o carnê, mas se planejaram) em grande estilo. Ele pisando com o pé direito e carregando a mulher ao colo, como devia ter sido na lua de mel.

Aliás, lua de mel pode ser a expressão a definir a primeira semana deles na casa nova. Apesar dos dois anos de casados, primeiro numa casinha emprestada pelos pais dela e depois noutra melhorzinha alugada, comportavam-se como se tivessem saído da igreja. Cheios de momomós e nhenhenhéns, até o lanche da tarde, um simples sanduichinho de mortadela, era iluminado a luz de velas. Romantismo absoluto e verdadeiro. Brigaram? Claro que sim. Algumas vezes, mas prometeram na lua de mel – a primeira – que nunca iriam levar essas brigas pra cama, afinal, já dizia a mãe do moço que em cama de casal nunca pode ter três, seja o terceiro homem, mulher, bicho ou mágoa.

Na segunda semana, teve o dia que o carro empacou no congestionamento e ela ligou preocupada pra saber e aliviada ao ouvi-lo. Também teve o dia em que ele chegou pra jantar e ela perdeu a hora na casa dos pais conversando. Ele ficou feliz com um rissole de palmito e uma coca cola. O que vale é que eles fechavam a noite abraçados na cama contando seu dia. Mas, de problema mesmo, foram só essas vezes. E de mais a mais, que casal não tem seus contratempos?

Falavam muito sobre alguma reforma na casa nova, mas como presente de casamento para as bodas que viriam. De aço, de pérola, até as de ouro, se eles chegarem até elas. Hoje em dia tantos casamentos sucumbem logo que, com dois anos, já se sentiam quase sobreviventes matrimoniais. E se Deus quisesse, a casa seria testemunha do desenrolar. Festejaram o terceiro ano de casamento, mas não fizeram nenhuma reforma a não ser decorar o quarto vago. O terceiro elemento da família estava a caminho. No quarto ano, a festa do menino foi na piscina nova.

Os anos iam passando e a casa nova ia deixando de sê-la. Fora alguma reforma, mão de tinta ou móvel novo, a casa continuava a mesma e os amigos, vendo que o casal prosperava no batente, aconselhavam uma casa nova. Que fosse maior, mas eles não arredavam pé. Aquela casa era tratada mesmo como bem de família. No sétimo ano de casamento, após o nascimento da filha caçula, decidiram que a prole já estava de bom tamanho. Resolveram esperar e fazer a primeira reforma grande, a dos dez anos de casados. A casa ia perder um pouco do quintal, mas um quarto novo e uma suíte apareceriam. Durante os meses em que ela se deu, voltaram pra casinha emprestada dos pais dela. Foi quando tiveram suas primeiras desavenças sérias e foi, temporariamente, esquecido o lema de não levar brigas pra cama, afinal durante uma semana, ele dormiu recolhido num sofá. A coisa realmente ficou muito feia. Os amigos temiam pelo pior. Dez anos de casamento, a primeira grande reforma na casa nova (apelido carinhoso do cantinho) e aquele simpático casal sobrevivente se debatia nas garras do cotidiano. Separação? Falava-se implicitamente nisso, mas nunca com essa palavra. A expressão mais branda era “dar novos ares a nosso casamento”. Mas a coisa corria complicada. Os filhos pouco sabiam. Diante deles, o casal encenava muito bem a família de comercial de margarina. Longe, o clima entre eles beirava os melhores filmes do Tarantino. Mas sem sangue nem instrumentos cortantes. O clima foi feio até o dia em que, finalmente, a reforma teve cabo. Voltaram à casa nova com suíte, quarto extra pra menina e brinquedos para as crianças. Os amigos davam como esforço inútil, mas não. A visão da nova casa nova serenou todos os ânimos. Chegaram às quatro décadas juntos e aos netos com outras reformas e o mesmo filme. Fora da casa, tensões verdadeiras e falsas – eles, às vezes, adoravam simular as brigas só pra deixar a impressão de que fora da casa nova se instaurava o caos. E fora os mais chegados, todo mundo acreditava. Mas todos sabiam que a casa nova tinha uma aura especial.


Francisco Libânio,

11/12/09, 10:33 AM


quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Hai-kai de adoração




Sempre que eu te vejo, cada vez toda vez,
Nesse tempo todo que te conheço,
Ainda é como se fosse a primeira vez.

Francisco Libânio,
28/01/10, 4:16 PM


Foto extraída de http://revistadeciframe.files.wordpress.com/2009/01/um_homem_uma_mulher5.jpg

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Alento



Ganhei uma luta, pelo menos uma
Nessa vida, trincheira cheia de armadilhas
E de sentinelas, soldados com ordem para atirar.
Piedade? Não, piedades passam longe da turma.
Eles atiram nelas, fazem em sangue cru as trilhas,
Mas eu consegui vencer uma luta, me desvencilhar
Talvez mérito meu sobre uma descuidada falha
Delas, que quererão minha cabeça por medalha,

Francisco Libânio,
26/01/10, 11:55 PM


Figura extraída de http://bloglog.globo.com/FCKeditor/UserFiles/Image/vencedor%281%29.jpg

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Madrigal para meus problemas


Não quero meus problemas fora de mim,
Eles são parte minha – como meu braço
Ou minha perna. Eles são eu como tudo
Que é meu.

Quero só encará-los e fazer deles anticorpos
Para me proteger, me curar e me prevenir.
Os problemas são eu de forma íntima doente,
São eu a ser resolvido

São como uma perna, um braço ou u’a mão,
Não os quero fora de mim, seriam caldo inútil
E eu seria como estes que se dizem resolvidos
Mas com próteses invisíveis.

Francisco Libânio,
30/12/09, 11:41 PM


Foto extraída de http://1.bp.blogspot.com/_zZ4YPpf2Gcw/Sso5bEFsn6I/AAAAAAAACTI/N9D338Yh0VY/s400/truques+para+consertar+problemas.jpg

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

62 - Espero a mulher da minha vida. Que ela


Espero a mulher da minha vida. Que ela
Seja não só cúmplice, mas complemento
Desta alma paciente. Não seja o contento,
Mas o regozijo de quem tanto quis recebê-la

Que seja esta mulher a única e que ao vê-la,
Sejam discretos e sem nota tanto o momento
Quanto o lugar em que se der o acontecimento
Quero que isso tudo seja somente meu e dela

Não quero amigos para testemunhar esta hora,
Muito menos saber o dia, festejar o aniversário,
Não quero nada registrado em nenhum diário

Porque quando acontecer, este instante irá afora
Pelo tempo fazendo-se em presente este ínterim
Sem contar dias, meses ou anos até o nosso fim.

Francisco Libânio,
04/09/09, 10:19 PM


Figura extraída de http://www.educowboy.blogger.com.br/Mulher%203.jpg

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

61 - Peço perdão por te amar tão indiscretamente



Peço perdão por te amar tão indiscretamente
Como se fôssemos mais que amantes, animais,
Por me outorgar sobre teu amor direitos iguais
Aos de quem pode usufruir dele intimamente

Eu retiro as palavras duras, os ditos irracionais
Que falei quando percebi que era somente
Eu o amigo próximo, o braço, o confidente,
Mas não o amante que tanto bem e prazer te faz

Desfaço cada pedido que te fiz de atrevido,
Cada insinuação para estarmos amando
E peço perdão por te ter por inestimável

É que ao me entender por ti alguém querido
Quis ser mais que isso, ser amado. Foi quando
Vi que te querer era um crime imperdoável.

Francisco Libânio,
20/01/10, 9:04 PM

Figura extraída de http://static.blogstorage.hi-pi.com/photos/cantinhodanina.spaceblog.com.br/images/gd/1227456924/Quem-Perdoa-Lembra.gif

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

59 - Escrevo sonetos por comodismo



Escrevo sonetos por comodismo
Puro e ainda assim nem sonetos
São direito, mas frutos de banditismo
Poético, mas ao menos são corretos

Escrevo sonetos a acalmar os inquietos
Instintos de rima, esse pedantismo
Meu de vê-los parecidos, obsoletos,
Mas que me salva de um cataclismo

Que é esta vil fobia do verso branco
E que a sonetos de mim mesmo arranco,
Pois se me é fácil e confortável a rima

Deixe-se assim, mas de já prometo
Tentar fazer livre a poesia do soneto
Mas não será a próxima. Talvez a última.

Francisco Libânio,
01/09/09, 12:25 AM


Figura extraída de http://www.hec.fr/var/fre/storage/images/media/images/fr/doctorat/ecrire/137904-1-fre-FR/Ecrire.jpg

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Ao Lobo de Esopo


Da fábula O Lobo e o Cão doméstico, de Esopo

Salve, lobo de Esopo. Tua fama de açougueiro
Que ficou perpetuada na literatura
É justa? Ocorreu-me ao ver a figura
Do lobo assassino, vil e traiçoeiro.

Tal lobo parece, sim, ser má criatura
Se for o mito das fábulas verdadeiro,
Mas é preciso saber o que veio primeiro
O lobo instinto ou o homem cultura

Porque tu caças tua sobrevivência
Nos rebanhos e sempre foi assim
Tua necessidade assusta e inspira a gente,

Mas o homem fez e de sua vã existência
Morada de caprichos que, sem ver fim,
Atenua tua vilania e te faz inocente.

Francisco Libânio,
06/02/05, 2:02 AM


Figura extraída de http://www.litscape.com/author/Aesop/The_Wolf_and_the_Housedog.html

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Tempos Antigos


Deu-lhe na veneta a idéia de comprar uma máquina de escrever. Não que quisesse aposentar seu laptop, mas, talvez, dar-lhe um descanso. Talvez pela precavida intenção de dar menos dinheiro à Companhia Elétrica, mas muito mais que tudo isso por um repentino surto nostálgico. Bateu a todas as portas procurando uma e encontrou, pela qual pagou uma pechincha. Só não lhe saiu de graça porque o seu ex-dono queria fazer algum lucro. Mas o objetivo foi alcançado e logo ele arrumou em sua mesa um espaço para sua aquisição.

A máquina lhe trazia lembranças. Quando falava em infância, lembrava-se dos bom-bocados de sua avó todo domingo e dos estalares sempre acabados com o som metálico da máquina no escritório de seu pai. Para estrear em grande estilo e fartar sua saudade, deu de escrever uma carta para a filha que estudava fora. Talvez ela nunca tenha visto uma carta datilografada. Escreveu-a ocupando uma folha toda. Novidades pra encher tanto papel? Não, não tinha tantas, mas se demorou em descrever os dias lindos que fizeram bem como minuciou as idas ao Centro para fazer compras. Como se a moça nunca conhecesse os hábitos metódicos do pai.

Quando a esposa viu a máquina em casa, perguntou dela e ouviu uma arenga pela volta de certos hábitos, mas ele jurou que não abandonaria seu laptop, afinal, apesar de ter lá seus quarenta e cinco anos, sentia-se a verdadeira ponte de mão dupla entre a modernidade na qual cresceu a filha e os costumes em desuso que regaram sua infância. Quando descansou da máquina, estava assistindo ao jornal da noite com a esposa e pensou por que não ter uma outra televisão. Não igual à imensa tela plana da sala, que rivalizava com a janela, mas uma menorzinha e, melhor, em preto e branco. Claro, afinal se as melhores coisas que ele assistiu quando criança eram nesse sistema, por que mudar? Deixou no ar a idéia para a esposa, que rechaçou. Mas era decidido. Apareceu dali três dias com uma TV do seu gosto e a esposa disse que só no quarto. Ele topou. Ficou meio chateado porque a TV era boa, mas a sua programação era a mesma da outra, só que sem o multicromo. Mas não reclamou. E assim era seu dia. Trabalhava com a máquina de escrever (e fazia serão em casa feliz só pra poder ouvir o delicioso som das teclas) e à noite assistia ao jornal e às novelas na sua pequena televisão. Isso afastou o casal, claro. A mulher não entendeu esse repentino e, desagradavelmente, duradouro desejo de se ver numa outra época. Por ele, muitas outras coisas na casa mudariam. Algumas, a contragosto dela, foram surpresas com as quais teve que se resolver. O laptop, que ele não abandonaria, foi vendido para que pudesse comprar um toca discos. E discos, claro. O gramofone que ele sonhava, não achou. O casamento se viu ao final quando ele pensou seriamente (pois a mulher jurou que ele estava brincando, mas não) em reformar a cozinha para fazer um fogão à lenha. Ele e a esposa se separaram, a filha preferiu não tomar partido, pois achava interessantes (pra não dizer engraçadas) essas novas manias do pai em querer viver como noutra época. Ele dizia que a tecnologia, apesar de todos os benefícios, de ter aproximado as pessoas com a Internet, ter dado mais rapidez àquilo que se demorava dias ou meses pra se fazer e facilitar sobremaneira a vida das pessoas, tornou o homem quase um autômato lhe devolvendo estresse como prêmio pela comodidade. E ele queria se livrar disso tudo. Certa forma, a menina saiu ganhando com isso. Desgostoso de ser encontrado a todo e qualquer momento, ele deu pra ela um celular que batia fotos, filmava, entrava na Internet, tinha TV e rádio e, também, servia pra fazer ligações. Apesar de desfeita, a família manteve-se num clima amistoso. Foi amigo de sua esposa por toda a vida, inclusive do novo marido dela. E todos se divertiam ao visitá-lo em seu sítio conversando sob a luz de lampiões até o amanhecer.


Francisco Libânio,

10/12/09, 3:15PM

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Hai-kai de aceitação


Se somos o que somos, ora, não culpemos a natureza
Convivamos com o que é nosso,
Valendo virtudes, domando defeitos e vivamos com leveza.

Francisco Libânio,
14/10/10, 9:12 PM


(Figura extraída de http://curarte.files.wordpress.com/2008/05/mulherespelho.jpg)

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Surpresa



Quando ela me chamou pra cama, pouco vestida,
Disse que me faria uma surpresa e pediu que eu relaxasse...
Ombros, costas, massagens e mãos carinhosas,
Seu corpo sobre o meu, palavras e óleo de rosas,
Ela me dava as mãos para que eu as cheirasse
E fingia ajoelhada sobre mim uma vontade contida

Queríamos nos amar e ela, então, se fez despida,
Seios que nunca vi pedindo que eu os tocasse,
Suas nádegas lisas em minhas mãos fogosas,
Amamos... A surpresa era as mais deliciosas
Artes de amar que provei antes que alguém provasse
E foram as melhores e mais puras de toda minha vida.

Francisco Libânio,
13/01/10. 6:53 PM


Foto extraída de http://3.bp.blogspot.com/_4FvqzxxLnkc/SZ1jby-wBUI/AAAAAAAADWQ/JRfUf2aPB9o/s400/3d8b1c287146869893fe5bavn6.jpg

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

58 - Pela rua vai um casal de namorados,


Extraído de http://3.bp.blogspot.com/_v3yYIFFrFR4/SQJBKchpJPI/AAAAAAAAAo0/-lMyVDXsul8/s400/42-17618482.jpg


Pela rua vai um casal de namorados,
Mãos dadas, vão ao ponto de ônibus.
Beijos discretos, namoro nos estribos,
Amor comedido, esperam abraçados

Um ônibus que não demora e se vão.
E eu, poeta, que tantos namorados vejo,
Surpreendo-me. Ainda há quem ao beijo
Imponha um limite e decrete a discrição

Como regra ao namoro, pelo menos
Em público. No íntimo, é deles a escolha
Da carícia ou se querem com eles o pudor

Mas fora, na rua, ainda que pequenos,
Que sejam assim os toques. Quem olha
Não precisa saber quão quente é seu amor.

Francisco Libânio,
29/08/09, 12:28 AM

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

55 - Nos dias de chuva, cada uma gota


Extraído de http://activerain.com/image_store/uploads/2/3/8/3/4/ar121785840443832.jpg

Nos dias de chuva, cada uma gota
É uma idéia minha ou uma vontade
De ser mais que poeta ou que uma nota
No rodapé da vida. De verdade

Eu queria ser a chuva lá fora
Cair depois de ser tão esperada,
Ser a trilha do casal que namora,
Deixar esta rua inteira molhada,

Ser poças onde pisam as crianças
E quando chegasse o Sol, em calma
Paciência, deixá-lo fazer o serviço

De me levar ao alto, a outras danças...
Chover, subir... Queria ser como minha alma:
Livre pra sonhar e não ser submisso

Francisco Libânio,
29/08/09, 12:09 AM

domingo, 10 de janeiro de 2010

Quer perguntar?

Hoje não tem poema, mas tem sugestão. Para os seguidores e leitores eventuais que quiserem trocar uma idéia rápida comigo, deixo aqui meu FormSpring.me para que perguntas sejam respondidas. É isso aí.



sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Amor Virtual


Num barzinho:

- Por favor, você é o Estevão?

- Adriana?

As interrogações eram compreensíveis. Depois de oito meses de conversa nos messengers da vida, resolveram se conhecer. Moravam na mesma cidade, mas ela nas imediações da Raposo Tavares e ele na Zona Norte, quase chegando nos distritos. Distância vencível, mas o melhor era um campo neutro para a estréia. Houve alívio e surpresa. Ela, como é hábito das mulheres, estava atrasada. Dez minutos, algo tolerável, mas atraso é atraso. Adriana puxou uma cadeira e Estevão pediu um chope.

- Mas você não bebe. – lembrou Adriana.

- Pra rebater a ansiedade. – explicou – Achava que você nem viesse mais.

- Seu bobo. Quis escolher a melhor roupa. Tive medo de parecer vulgar.

Estevão sabia dessas nóias dela. Quantas vezes, ela contou de constrangimentos pessoais que teve. Era uma moça bonita, corpo tornadinho, bem ao gosto do homem moderno, mas tinha receio do decote parecer escandaloso ou do vestido não ser aprovado por algum aluno da Uniban. A aprovação do rapaz em dizer que a demora valeu a pena e que ela estava perfeita acalmou o âmago da moça. Chega o chope dele e ela pede um.

- Você sabe que eu gosto de um chopinho no fim de semana, mas hoje a ocasião pede que eu saia da regra. – era quinta-feira.

Chega o chope dela e eles conversam. Os dois se entendem perfeitamente. Já sabiam bastante um do outro desde o primeiro papo e o segundo email. Ele trabalhava na prefeitura e ela era dona de uma pequena loja de roupas no Calçadão da APEC. Não tinham filhos, mas ele era divorciado e ela vinha de um noivado rompido há alguns meses. Beliscaram uma porção de queijo quando ela saca uma cigarreira.

- Mas você disse que não fumava...

- Nervosismo. Andei tendo problemas na loja e desde que saí com umas amigas comecei a fumar. Faz pouco. Só quando estou tensa.

- Mas você trouxe sua tensão pro nosso encontro?

- Eu não trouxe. Ela que me achou. E agora a danada não quer ir embora e está quase puxando uma cadeira.

Pra ele a idéia de um beijo foi pro espaço. Ele não fumava. Não suportava cheiro de cigarro. Ela pescou a frustração.

- Prometo que vai ser só esse, tá? – contemporizou. Para mostrar sua intenção de armistício por conta da gafe, pediu uma cartela de dropes. – Mas me fala de você. Por que o casamento não deu certo?

Silêncio fúnebre. Ele não gostava de tocar nesse assunto, de falar que a ex-esposa era uma fada que virou uma víbora assim que tirou o véu na lua de mel. Nem que ela o sufocava e ligava no celular até quando ele ia comprar pão. Ele deu rápidas pinceladas sobre tema tão incômodo e ela percebeu que era melhor ficar de boca fechada. Mais silêncio e ela resolveu, digamos, partir pro ataque já que ele era mais quieto e a história do cigarro fê-la perder alguns pontos. Ao chupar um dos dropes, foi bem provocante e lançou aquele olhar metralhante que só as mulheres sabem. Estevão ficou sem graça e variou do vermelho pro roxo, mas respondeu com suas mãos nas mãos dela e um beijo nelas. Até pensou em convidá-la pra ir para sua casa, mas parou antes. Podia ser afoito demais. Adriana viu que seu primeiro ataque surtiu efeito e resolveu partir para uma segunda investida cutucando-o com os pés debaixo da mesa. Foi quando ele se contraiu e, mais uma vez, o silêncio se fez entre eles. Ele vacilou, e lhe deu um beijo nas mãos e foi percorrendo o braço dela. Aí o fator que ele não sabia. Ela tinha cócegas. Muitas cócegas no braço e o tirou. Mais vermelhidão. A conversa rendeu a noite toda e se despediram num abraço apertado. Ela teve medo de parece vulgar com suas pernas cutucando. Ele temeu ter sido atirado. Mas depois do terceiro encontro, o namoro rendeu. Hoje, eles têm dois filhos e vão fazer mais um ano de casados.


Francisco Libânio,

26/11/09, 10:40 AM

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Fulminante


Extraído de http://www.marieclaire.com/cm/marieclaire/images/couple-on-table-lg-78551955.jpg

Chegou sem aviso prévio, de surpresa
E eu, que me achava armado,
Fui tomado e fui o prato principal,
Os dois à mesa.

Francisco Libânio,
07/01/10. 6:40 PM

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Véspera


Extraído de http://wilfridhoffacker.blog.lemonde.fr/files/attente_3.jpg

Eu esperava o dia em que virias,
Contava as horas, que eram inimigas
Por serem tantas, colecionava figas
Pedindo que só trouxesses alegrias

Eu sonhava contigo e enfrentava intrigas
Com quem dissesse que chegarias
Rindo da paciência pelas tardias
Esperanças que foram, afinal, amigas

Na espera que se fez só espera
E foi até o dia que seria a véspera
Do teu vir. Veio uma desconhecida,

Pediu informações, fez-se apresentada,
Soube da espera e ofereceu-se por amada
Enquanto ainda não me vieste à vida.

Francisco Libânio,
06/01/10, 11:00 PM

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

52 - Disseram-me certa vez “Imitas...


Extraído de http://madalena.blogs.sapo.pt/arquivo/escrever.jpg

Disseram-me certa vez “Imitas
No que escreves o que lês dos poetas.
Tomas deles poesias já escritas,
Pões nelas as tuas rimas abjetas”

Meu bom crítico, digo-te com quietas
Ponderações que por pouco te exaltas.
Imito-os? Não, apenas os li e, repletas
De beleza eram as rimas que, de bonitas

Inspiraram e escrevo.E se nisso trago
Parecença que insinue alguma imitação,
Parece mais maldade tua do que isso

E se te achas tão puro e tão castiço
Que do mundo passas sem um arranhão
Ou o que fazes é puro ou demais vago.

Francisco Libânio,
16/08/09, 11:33 PM

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

57 - Como se escrever catorze versos


Extraído de http://www.writingforward.com/wp-content/uploads/2009/08/types-of-poems-sonnets.jpg

Como se escrever catorze versos
Fosse fácil, aproveito o ócio a tentar,
Mas havia algo forte a me segurar
E a dificultar. Eles estavam dispersos

E se acaso achava um, esse algo fazia espanto
Jogando-o para longe. Verso a verso fiz
Alinhá-los após busca hercúlea e tanto
Lutar contra quem se opunha. Fui aprendiz,

Fui estagiário, forme-me e me fiz doutor
A cada catorzena ora em erro ora em acerto,
A força estranha me reconheceu maior,

Mas ainda me ronda e seguindo de perto
E aos meus fraquejos, ela tenta se impor,
Mas a cada verso final, eu a desconcerto

Francisco Libânio,
28/09/09, 8:56 PM

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Resoluções

Extraído de http://1.bp.blogspot.com/_-iH3-fV42Ss/SlJffYMPwnI/AAAAAAAAAQA/0_CKc-1Dotg/s320/1210313.casal_briga_ig_estilo_224_299.jpg


- E neste ano, eu vou parar de fumar, beber menos, fazer mais exercícios e tentar ser menos explosivo.

- Eu vou me esforçar para ser uma esposa melhor, ser mais controlada nos gastos e evitar comprar tantas coisas que eu não precise.

As resoluções eram feitas por aquele casal a vinte minutos do relógio completar a última volta do ano. Quiseram passar o réveillon mais intimista que podia haver. Aproveitaram que o filho tinha ido acampar com os amigos e a filha passaria o dia de ano com o namorado no sítio da família dele. Disseram aos amigos que iriam passar o dia num hotel fazenda, pois não queriam receber visitas. O casamento não andava mal, mas aquela coisa de todo ano se reunir em família e fazer uma continuação da ceia de natal já bastava. Quando era na casa deles, o povo ia embora quinze minutos depois dos fogos e dos abraços e deixava a bronca e a sujeira toda para eles. Quando era na casa dos outros, ele terminava se encharcando de champanha, o que fez a esposa sugerir uma diminuição no consumo.

Na verdade, as resoluções de ano novo daquele casal já vinham sendo tomadas desde novembro. Ele, que fumava bem, foi diminuindo os cigarros até conseguir fumar três depois de dez dias. Quanto à bebida, ele também a diminuiu, dando apenas concessão à cerveja da sexta-feira à tarde com os amigos. Mas diminuindo também. Antes eram duas garrafas, naqueles meses antes do fim do ano foi uma latinha e meia. Quanto aos exercícios, ele achava realmente que ir até ao mercado e até à padaria a pé já era um bom começo para entrar em janeiro andando seis quilômetros por dia.

- É preciso ir aos poucos pra eu não ter nenhum problema.

E a mulher anuía, afinal não estava disposta a entrar em rota de colisão com o irascível marido. Mas ela também fez uma pré temporada de resoluções. A começar por não bater tanto de frente com ele. Quanto aos gastos, ela conseguiu segurar bem as pontas. O Natal foi o teste mais duro para seu consumismo. Comprou os presentes para os filhos, o futuro genro e para seus irmãos. Para os cunhados, ela daria vinhos mais em conta (e bons, ela assegurava) e para os sobrinhos, como tia zelosa que era, vinte reais pra cada um, o que era bem menos que os presentes caros que lhe feriam as contas.Para melhor sucesso em seu projeto de ser menos consumista, ela tomou outra resolução. Evitar a todo custo as lojas de variedades e andar pelos shoppings só em último caso, assim evitaria o canto sedutor das vitrines.

Quando o relógio bateu a meia noite (estranhamente dois minutos depois do horário “oficial” e dos fogos da TV), eles resolveram fazer uma última despedida do que iriam abrir mão. Ele fumou seus últimos dois cigarros e tomou a última dose do seu uísque doze anos daquele ano. Agora seria só cerveja. Nada de bebidas fortes e destiladas. A mulher, que não tinha nenhuma loja pra fazer uma despedida, apenas não brigou com o marido pelo visível exagero. Dois cigarros de uma vez? Virado o ano, deram um beijo, leram os torpedos dos filhos e foram dormir. Acharam estranho que dessa vez não havia nenhuma bagunça esperando ser arrumada.

Durante quinze dias mantiveram em pé as promessas. Ele diminuiu drasticamente o cigarro e o álcool bem como foi mais compreensivo, menos irritadiço e até cavalheiro com ela. Por sua vez, a esposa vinha do trabalho direto pra casa. Evitava olhar tudo que fosse vitrine. Os saldões de começo de ano ela nem queria saber. O marido nem falava de promoções perto dela para não provocar lembranças nem vontades. Os filhos ficaram cientes das resoluções dos pais e colaboravam até aquele fatídico dia.

O aniversário do marido seria ao vinte de janeiro e a esposa, querendo seguir aquilo de ser uma boa esposa resolveu também voltar á ativa nos seus papéis conjugais íntimos. Perguntou à filha como poderia fazer isso e ela lhe apresentou uma linda camisola que não era barata, mas o marido merecia. Quando ele chegou em casa pelas tampas com o dia na repartição e viu a camisola e a etiqueta, mandou pro espaço toda sua finesse e a promessa. Soltou os cachorros pra cima dela dizendo que se ela não cumpriu a resolução dela, ele não tinha porque cumprir as dele. Nervoso, matou meio maço naquela noite e várias latas de cerveja. A mulher, irritada com o nervosismo do marido, mandou-o ao inferno, foi afogar as mágoas no shopping e, por vingança, levou o cartão de crédito dele pra passear. Serenados os ânimos, prometeram tentar tudo de novo no ano que vem.


Francisco Libânio,

01/01/10, 10:10 AM