segunda-feira, 26 de maio de 2014

1689 - Soneto do pós-Juízo Final

Tudo lindo, tudo maravilhoso, mas é só isso?

Agora com todos os filhos da puta
No inferno, tomando pau do capeta
Uma suposta justiça dada completa
Onde é punida qualquer má conduta

Enquanto a galera do bem desfruta
As benesses do paraíso com a meta
De vida atingida, essa turma enceta
A existência em atmosfera impoluta,

Um no paraíso olha anjo, harpa, lira,
Calmaria absoluta. E reflete e respira...
Um deles pensando em ser o eterno

Assim o tédio, dá um sorriso amarelo,
E reconhece como foi bom esse zelo
Com o bem e vai ver como é o inferno.

Francisco Libânio,
17/05/14, 2:41 PM

domingo, 25 de maio de 2014

1688 - Soneto do Juízo Final

Vamo para com essa zoeira aí!

Que tensão. Temor! Que situação!
De repente, uma humanidade toda
De tudo que é existente se denoda
E por um ser superior, em seleção,

Por quem crê, justa e sem apelação.
Nessa seleção, a turma má já roda.
Um julgamento que a maldade poda.
De lá os bonzinhos têm predileção

Do ser supremo. E quando a hora,
Como a grande autoridade julgadora
Verá esse poeta obsceno e sacana?

Se tal ser superior for essa bondade
Que dizem os livros, fico à vontade
E terei perdoada minha vida profana.

Francisco Libânio,
17/05/14, 2:10 PM

1687 - Soneto confessional

Nem sempre sou o que escrevo...

E quem diz que eu me exponho
Nos sonetos não deixa a razão.
Talvez quando eu faça lavação
De roupa deixe tanto enfadonho

O soneto. E eu não me oponho
A isso. Nem à minha confissão
Que, às vezes, é mais encheção.
Falo de tristeza e estou risonho,

Falo de sacanagem e é carência,
Às vezes é igual a vida à essência
Do soneto, como agora confesso

Confessar e na confissão minto.
Culpa? Às vezes eu muito a sinto,
Mas agora, eu sinto é o avesso.

Francisco Libânio,
15/05/14, 7:04 PM

sábado, 24 de maio de 2014

Poema de fuga 16

Álvares de Azevedo exagera. Melhor ler outra coisa.

Um poeta a mais
Falou de amor
E daí?
Os sentimentais
Disseram o horror
E eu li
Amaram demais,
Mas amei melhor
E saí.

Francisco Libânio,
10/01/14, 11:25 PM

1686 - Soneto estacionado

Em São Paulo, a vida e o automóvel param.

A vida parou ou, como o poeta,
Foi o automóvel? Dúvida cruel
Essa. O carro vai por aí ao léu,
Atravessa faixa e sem dar seta,

E para se a vaga estiver na reta,
Se não estiver, fila dupla ao bel
Prazer. Azar se é errado e é réu,
Ele no volante que não se meta

Juiz, promotor e nem presidente!
Ele manda e é sempre coerente
E quer levar essa razão pra vida.

Mas o automóvel parou. Também
A vida. Desacelera-se lá dos cem
E agora tá de carteira apreendida.

Francisco Libânio,
15/05/14, 12:29 PM

1685 - soneto destesionado

Pelo menos ocupa a mão, no caso dele. Mas como sou canhoto...

Escrever, um exercício ingrato,
A poesia custa a vir ao papel
E o poeta o usa por coquetel
Para combater o mau destrato

Que é a solidão e o mau fato
Que é o tesão, muito mais fel
Para ele que a doçura do mel,
Pois que se corte esse barato,

Em vez de pensar nos peitos
Nus soneteia-se e os efeitos
Do tesão acabam amainados,

Mas não cessam, é o que quer?
Não. Talvez o soneto dê prazer
E o gozo aqui tão aprisionados.

Francisco Libânio,
15/05/14, 9:36 AM

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Abandono

Onde já se viu?

Tínhamos ido ao shopping juntos. Eu não queria ir, mas houve, por que não dizer?, uma coação. Disse que eu poderia ser útil para alguma eventualidade. Já desconfiei que as coisas estavam erradas a partir daí. Não podia dar certo esse passeio. Eu, pelo menos, já via de antemão que não me divertiria. Mas fui assim mesmo.
O dia estava lindo. Um sol aberto num céu azul. Ele sempre gostou de sair durante o dia. Dizia que as noites eram feitas pra dormir. Não que eu discordasse, mas a noite tem um clima melhor pra sair. Chegamos a um restaurante. Lá, sem me consultar, pediu um prato a seu gosto. Obviamente não me ofereceu, no que fez bem. Seria desagradável recusar. Eu nem gosto de comida chinesa e ele se fartou. Comeu como um animal. Assisti àquela cena esperando acabar logo. Quando acabou, não me deu a menor atenção. Começou a ler um livro e olhar as mulheres que passavam. Não me incomodou. Nunca tivemos compromisso, nem pretendíamos, mas era muita desfaçatez. Ele era muito safado. Um galinha assumido. Não tinha como a coisa ser pior. Ou, pior, eu achava que não tinha.
Ouvi-o dizer (porque não teve nem mesmo a decência de me falar, apenas soltou no ar) que iria ao banheiro. Fiquei em meu lugar esperando. Certamente, ele iria voltar, me buscar e esse passeio horroroso iria acabar. Pelo contrário. Sem que me visse, eu o vi saindo do banheiro, nada sorrateiro, e tomando algum rumo desconhecido. E eu lá, só. Xinguei-o mentalmente. É pra isso que você me leva aos seus passeios, cachorro? Me fala como eu vou ser útil se você me deixa de lado, seu ordinário! Lógico que ele não ouviu. Ainda bem que não sou de falar ou faria um escândalo como ele nunca viu. Esse tipo de desaforo eu não aceito. Nos esbarraríamos ainda.
Esse esbarrão, com o passar do tempo foi ficando pra depois e bem depois. Deu-se, mais ou menos, uns quarenta minutos e nada dele voltar. Abandono completo. Onde estará esse calhorda? Minha espera ficou aflitiva quando um funcionário do shopping me tomou pela mão e sem mais aquela me levou da mesa onde estávamos. Poderia contar ele tudo o que tinha se passado, de como esse meu parceiro de passeios faz desfeitas com suas companhias. Mas se ele não estava com paciência pra ouvir lamentações, eu também não sabia expor minha vida diante de estranhos. Conduziram-me coercitivamente para uma sala que eu não sabia descrever o que era. Apenas muitos objetos colocados ordenadamente. Agora a coisa complicou. Como ele iria me achar ali? Eu nunca quis ter um celular, e não seria isso que me faria mudar de ideia. Pois bem. Se ele não vier me buscar, volto pra casa, mesmo que seja a casa de outro. Vou ser útil pra outro.
O lance é que ele demorava mesmo e, pelo visto, pouca gente andava por aquele recinto do shopping. Os funcionários naquele setor eram de falar pouco embora não fossem mal educados. Já via tudo. Teria a hora que me dispensariam. Como eu voltaria pra casa? Sem dinheiro pro ônibus, uma caminhada seria dolorosa. Certamente eu o encontraria em casa. Se acontecesse, o bicho ia pegar. Pois quando menos espero, ouço uma voz conhecida vinda de uma sala anexa. Suponho que seja ele e que esteja perguntando sobre mim. Na mosca! É quando o vejo chegando e, de longe, me reconhecendo. Assina alguns papéis e sai da sala de achados e perdidos com o guarda-chuva, que só na cabeça dele seria útil num dia tão limpo quanto aquele. Deixa estar. Quando precisar de mim, após essa presepada vou emperrar e ele que se molhe todo.

Francisco Libânio,
28/04/14, 7:14 PM

1684 - Soneto para uma índia

Beleza diferente.

Uma silvícola, ou descendente,
Bonita, tinha a beleza originária,
Jeito de Iracema e indumentária
Talvez para me deixar contente.

Mas era linda como envolvente,
Merecia, ela sozinha a linda ária,
Um Guarani, uma ópera diária,
E eu, como um poeta incipiente,

Fiz versinhos de deixar o Alencar
Revirado, mas eu tentei agradar,
Consegui. Da índia tive um cheiro,

Um beijo e a nudez sem esforço
E me presenteou com seu torso
Farto e beijo por um ano inteiro.

Francisco Libânio,
14/05/14, 7:21 PM

1683 - Soneto para uma musa diferente

De vez em quando, algumas valem um soneto.

Mas que o poeta gosta da fartura,
Isso é sabido tanto como notório,
Mas em nada soará contraditório
Se ele vir uma com mais ossatura

Que carne. Pode ser que a criatura
Não seja gordinha, e daí? É irrisório.
Talvez haja nela um toque meritório
Que compense a carne, a gostosura

Do excesso. Uma moça mais magra,
Mais mignon que chega e já deflagra
Repensamento. E isso não é errado.

Uma moça sem peito nem bunda, reta,
Rosto lindo que vi e veio me decreta:
Faça-me sua musa de corpo delgado.

Francisco Libânio,
14/05/14, 12:37 PM

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Hai-kai qualquer 12

Sempre é mais complicado...

Crer, essa aparente facilidade,
Esbarra em minha teimosia
Em sempre querer a verdade.

Francisco Libânio,
22/05/14, 10:37 AM

1682 - Soneto para uma morena fogosa

Lindas, sempre.

Os cabelos negros e a pele branca,
Moça que os rios Negro e Solimões
Exemplifica com cores e gradações
Se topando em beleza mais franca.

E ainda com tão maravilhosa anca,
Fazia disso uma entre as seduções,
Porque ainda sabia fazer situações
E usava o seu charme como banca

Para tirar o que entendesse, e tirava.
Sem ser a negra que o gosto crava,
Mas sendo farta, ela tinha esse quê

De ser sensual e ir além do sensual.
Me deitou e me beijou, agora o mal
Da luxúria virá, mas só pra quem crê.

Francisco Libânio,
14/05/14, 9:22 AM

1681 - Soneto para uma loira gordinha

Vem sempre bem.

E dizem tanto: Você só gosta de negra!
Tem que ser da cor para sua satisfação!
Claro, a melanina tem minha predileção,
Mas em momento algum fiz disso regra.

Ao meu gosto também, e muito, alegra
Uma moça branca, não é uma exceção.
Se ela for ao meu estilo, rolará atração
E o altar de deusas facilmente a integra.

Por exemplo, vejo uma loira que é linda,
De beleza e fartura que o gosto brinda
E se ela quisesse ser minha prima-dama

Seria sem contestação, pois não é a cor
Que define minha musa. Há algo maior
Na mulher e se ele aparece já me chama.

Francisco Libânio,
13/05/14, 7:15 PM

1680 - Soneto desapaixonado

Enquanto isso, curta-se.

Claro que o amor é uma maravilha
Como poetizam por aí os poetas.
Claro que amar é para os estetas
Jogar luz à estrela que mais brilha.

Lógico que o amor se desvencilha
Dos males mundanos, das indiretas
De Internet e das piabas prediletas
Que tentam contra ele. E humilha,

Se amor verdadeiro, quem é contra
Ele, pois amor, quando se encontra,
É indivisível e mais forte a cada dia.

Mas eu não tenho amor, e tudo bem.
Vou amando por hora até vir alguém
Pra ter amor e tesão que nunca teria.

Francisco Libânio,
13/05/14, 12:15 PM

1679 - Soneto apreciativo

Perfeita.

Mas se amo as mulheres, assim,
Mais fartas qual quem o delgado
Ama ou na loirice vê seu agrado,
Que mal esse gosto trará a mim?

Vejo as dobras, conto-as, enfim.
Por elas sou envolvido, abraçado,
Deito-me, ponho-as ao meu lado
E tiro desse corpo farto o butim

Que quem me critica não entende,
Não conhece e menos se pende
A querer um ou outro. Uma pena.

A fartura criticada, eu a aprecio,
Endeuso, venero e, se tiver cio,
Um lance recíproco se engrena.

Francisco Libânio,
13/05/14, 9:33 AM

quarta-feira, 21 de maio de 2014

1678 - Soneto escolado

Uma deusa, sim.

Que se divirtam com o meu gosto
Por mulheres negras e gordinhas
Não me atinge. Se são as minhas
Preferências, deixo isso já posto

Como deixo claro que só o rosto,
Se bonito, feio, se tem espinhas,
Tem botox, deixo. Entre as linhas
É que está o segredo, e eu aposto

Que esses que amam musa à régua
E compasso e não dão uma trégua
Àquelas a quem a sociedade não tem

Preferência com uma já deram caso,
E gostaram ou tiraram um bom atraso,
Mas morrem e não dizem a ninguém.

Francisco Libânio,
12/05/14, 6:29 PM

1677 - Soneto autocrítico

Se minhas musas não são convencionais, por que meus sonetos deveriam ser?

Certo, da métrica e do martelo
Faço pouco, ignoro no soneto.
Não por ódio dou-lhes o veto,
Mas por não dedicar desvelo

Bastante. Findo o soneto, lê-lo,
Penso nas rimas que nele meto
E analiso as linhas e aí decreto
Metrificado. Meu jeito paralelo

De sonetear, provável, ofende
Aos cânones, a quem entende
Do riscado e faço já a escusa.

Mas o poeta não deixa de ser
Poeta, apesar do vário mister
Como é vária sua farta musa.

Francisco Libânio,
12/05/14, 11:28 AM

segunda-feira, 19 de maio de 2014

1676 - Soneto do artista rasteiro

Foi muito infeliz. Falou só o que se fala sem saber.

Que se tenha lá qualquer opinião
Ao encontro da minha, divergente,
Em pontos aqui ou acolá tangente
É louvável e merece a apreciação

De todos. Só que ser a repetição
Do que se é dito inadvertidamente,
Sem reflexão, sem ser consciente,
Sem conhecer o tema em questão

Não é opinião, é só papagaiagem.
E se vem de artista cuja imagem
Sempre transmitiu rebeldia é pior.

Melhor que pense antes de “opinar”,
Que se restrinja ao palco, seu lugar,
Onde ele domina, onde ele é senhor.

Francisco Libânio,
12/05/14, 9:32 AM

1675 - Soneto para a comida de mãe.

Não é a que a dona Bel faz, é claro. Muito mais bonita e muito mais gostosa.

Almoço de domingo... Que boa lembrança.
Família à mesa com a avó lá cozinhando,
No caso da minha família, para um bando
Para depois rolar aquela puta comilança.

Depois minha avó morreu e essa dança
Do almoço de domingo, tanto nefando,
Foi à minha mãe que, se aperfeiçoando,
Agrada uma família cuja comida e pança

Têm participação elementar nessa história.
Hoje em casa é coisa quase obrigatória
O macarrão, antes da minha avó a delícia

E hoje da minha mãe a marca registrada.
Logo, fica em todo prato, a cada garfada
Um gesto impagável, a forma de carícia.

Francisco Libânio,
11/05/14, 6:30 PM

domingo, 18 de maio de 2014

Poema de fuga 22

Se achou ela feia, precisa ver o que ela achou de você...

Uma pessoa feia
É uma pessoa linda
De alma brilhosa
Que te viu e te achou,
Sem te dizer,
Que você é uma coisa
Horrorosa!

Francisco Libânio,
04/01/14, 2:59 PM

1674 - Soneto mãenetarizado

Mãe, dá um real pra completar?

Porque carinho de mãe não tem preço,
Não tem custo, não tem tipo de paga.
E pôr valores no sistema mais estraga
Tudo isso, seja no fim ou no começo.

Porque mãe, não importa o endereço,
Não mede esforço e nem a mais vaga
Dificuldade. Mãe, de graça vai, afaga,
Agrada e dá ao filho todo seu apreço.

Mas, por que não, ela pode, também,
Dar uma ajuda em grana pro neném?
Nunca sempre, mas, ocasionalmente,

Como o filho da dona Bel está agora,
Mas aqui ela empresta e na certa hora,
O filho paga o combinado corretamente.

Francisco Libânio,
11/05/14, 12:37 PM

1673 - Soneto mãeternizado

Que bom se não acabasse...

Dizem da maravilha que seria
Se mãe fosse negócio eterno.
Não discuto. Ter algo de terno,
Carinhoso e beijo de bom dia

Todo dia, não há maior alegria
Que todo o desvelo materno,
Mas hoje, esse tempo moderno
Em que sentimento tem valia

Pouca, ter a mãe para a vida
Toda parece mais descabida
Punição para alguns. É bronca,

É conselho, encheção de saco,
Mas falta mãe e vai ao buraco
O sujeito, sua vida se destronca.

Francisco Libânio,
11/05/14, 9:18 AM

1672 - Soneto com desreverência

Como assim, não posso censurar pesquisas na Net? E a democracia?

O respeito por algo ou por alguém
É respeito no tamanho mais exato
Para que se evite o grave desacato,
Mas que dê o azo à crítica também.

Porque só ditadores querem o bem
Falado de si e exigem o fino trato,
O endeusamento de todo seu fato
E de sua pessoa como bom amém

Aos seus desplantes. E seus erros,
Quem os questiona, já leva berros
Quando não porrada ou, até, cadeia.

No Brasil certa turma, azul e amarela,
Que diz aí que pela democracia zela,
Faz isso direto. E com a boca cheia.

Francisco Libânio,
09/05/14, 6:06 PM

1671 - Soneto de um ponto de referência

Tá ali, perto do careca.

“Perto do gordo, perto do careca.”
Eis a maldade de quem responde
A quem pergunta sobre algo onde
Está e mais goza levando à breca

Com o outro que aquele que checa
O perdido. Já que não se esconde
Mais o procurado, esse bom bonde,
Quem procura, toma e também peca.

Já o sujeito na informação referido,
Ao saber que era ponto do perdido,
Nessa brincadeira, ele entra também.

Procurava-se uma bola? Ele a chuta
Longe e diz ao piadista filho da puta
Procurar por lá, onde não há ninguém.

Francisco Libânio,
09/05/14, 10:44 AM

sexta-feira, 16 de maio de 2014

A ex-mulher do Almeida

Hã... Foi mal!

Situação estranha aquela. Estava eu passeando por essa Prudente quando, ao parar numa banca de jornal e folhear algumas revistas, noto que uma moça conhecida também está lá. Paro pra vê-la, e notar que estava igualmente olhando pra mim insistente. Quem será? Vem a resposta: É a ex-mulher do Almeida, um bom amigo que, casos da vida, se separou após um duradouro casamento. Uma pena. E uma vez solucionado o mistério retorno às revistas. Após tempo folheando, percebo que a mulher ainda me observa demoradamente. Situação embaraçosa. Escolho algumas revistas, pago e vou embora. Acaba-se o constrangimento.
O grande problema é que Prudente não é uma cidade exatamente grande e dali alguns dias, eu, em uma lanchonete no centro, longe da banca onde estive, encontro, outra vez, a ex-mulher do Almeida. A princípio, ela não me notou, mas quando notou a cena se repetiu. Outra vez ela ficava me observando com uma expressão entre imaginativa e curiosa. Meu Deus, o que tanto essa mulher repara? Esqueci de pentear o cabelo? Minhas roupas estão em alguma espécie de desacordo? Talvez. O Almeida se orgulhava do bom gosto da sua esposa. Ela entendia de moda e dava consultoria. Não era famosa só na cidade, mas muita gente em São Paulo, Curitiba e outras cidades também a procuravam. Nesse assunto, ela sempre foi uma autoridade. E eu, sinceramente, nunca me ative a isso. Talvez fosse isso.
Talvez, também, fosse outras coisas. As más línguas sempre disseram que a mulher do Almeida não era flor que se cheirasse. Lembro-me que quando ia casar, alguns amigos comuns repreendiam o Almeida:
- Não vai casar, hein, Almeida?
- Vou!
- Olha lá, hein? Essa aí não é de boa bisca.
- Não quero saber. É intriga da oposição!
Casaram, abençoaram-se, fizeram lua-de-mel em Recife e constituíram uma bonita família. Três filhos e catorze anos de enlace. O Almeida fazia questão de levar os amigos à sua casa para mostrar o quanto estavam errados e esfregar na cara de todos que sua senhora era uma mulher de respeito. Da minha parte, nunca levantei suspeitas. Mas os amigos, às costas do Almeida, futricavam:
- Eu vi a mulher do Almeida com um sujeito no Calçadão dia desses.
- Devia ser irmão dela – dizia eu.
- Irmão, hein? Eu que sei. Irmão nem de Igreja.
A verdade era que muito desse diz-que-diz, na verdade, era falação vazia. Acusavam a mulher do Almeida de tudo, mas nenhum dos amigos provou foi é nada. Se ela saía com outros, nunca ninguém apresentou qualquer um que fosse “dos outros”. Se ela gastava perdulária o dinheiro que o Almeida botava em casa, nunca apareceu uma nota, um gasto desnecessário, uma pedra que fosse muito cara. E a mulher, bom que se diga e todos sabiam, também trabalhava e ajudava na casa. Então, a moça era, aparentemente, inocente de tudo que se pudesse dizer dela. Inclusive da separação. Certo dia (foi o que contou o Almeida na roda), ele chegou em casa mais cedo, aproveitou que as crianças estavam fora e abriu o jogo com a mulher. Tinha uma fulana por fora, um casinho que era pra ser um passatempo e virou um amor incontrolável. Não queria enganar a esposa e disse que ela não merecia um cara que tivesse outra. Também que o amor tinha acabado e estava pedindo a conta do matrimônio. A mulher do Almeida agradeceu a honestidade do marido e disse que não seria obstáculo ao namoro. Que os dois fossem felizes, mas que não faltasse com as crianças. Meses depois, cada um foi pro seu lado. Como pai, o Almeida, de fato, nunca desapontou. Foi um canalha honesto e probo. E a mulher saiu com a cabeça erguida, ainda que se sentisse enganada, não deu o enorme prazer de se ver chorar, como disse o Poeta.
O lance é que a ex-mulher do Almeida estava, outra vez, me observando enquanto eu recapitulava toda a história dos dois. Situação constrangedora se repetindo. E ela me olhava e me olhava e eu a olha e a olhava. A ex-mulher do Almeida não era uma mulher feia e já fazia um ano que eles estavam separados. O Almeida, feliz com sua fulana, até mudou de cidade. Não achei que ele fosse problema. Também não achei que fosse de mau tom cumprimentar educadamente a moça. Meti a timidez no saco e fui:
- Oi, tudo bem, como você está?
- Oi, eu tô bem e você.
- Bem também. Desculpa perguntar, mas não é a primeira vez que eu te vejo olhando pra mim. Foi a vez na banca e hoje. Aconteceu algo? Tem algo errado?
- Não, é que eu tô tentando me lembrar de você. Você é amigo do Almeida, né?
- Sou.
- Então, eu não lembro se você é o Galhardo ou o Xavier.
- Não sou nenhum deles.
- Não? Então acho que não me lembro de você. Era tanta gente em casa... Me desculpa, tá?
Saiu. Fiquei pensando em como ela não se lembrava de mim. Normal. De fato, éramos uma turma grande e o Almeida fazia questão sempre da presença da turma toda. Outras vezes ainda encontro a ex-mulher do Almeida em outros lugares, mas sempre que nossos olhares se cruzam, ela me dá um sorriso simpático e educado e foge do meu olhar. Não me faz muita falta. A vida segue.

Francisco Libânio,
09/04/14, 2:48 PM

1670 - Soneto amolecido

Bando de bicha!

Em dias difíceis, de gente dura,
Rude flertando com a cretinice,
Dias em que qualquer coisa atice
Ira, até pisar no pé vira agrura.

Em dias que nada mais se atura
E gênio é o de menor sandice,
Deixo aqui um toque de meiguice,
Fecho os quartetos com candura.

E penso em pôr flores e pedir paz;
Pedir o mesmo a quem for capaz,
Mas o que ouço é um belo “Viado!”

É isso: Pedir paz virou viadagem,
Ser brucutu é ter na praça imagem
Boa e ser ignorante é ser adorado.

Francisco Libânio,
02/05/14, 8:12 PM

1669 - Soneto bem trancadinho

Então o chefe da Ku-Klux Klan tem um namoradinho negro? Imagina o Bolsonaro...

E o chefe lá da Ku-Klux Klan
Pego no rala e rola, curtição,
Sexo no duro com um negão?
Agora explica aí como um fã

Do racismo, com cruz cristã
Ardendo e o ódio no coração
Usa o negro pra prevaricação
E quer manter vivo esse afã

Preconceituoso com os iguais?
Sempre digo: Quem fala demais
Faz exatamente o seu contrário.

Isso só deixa melhor dito e feito:
Nada há melhor que preconceito
Para ser a chave de um armário.

Francisco Libânio,
02/05/14, 1:03 PM

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Hai-kai qualquer 11

Pô, Felipão. Tanta expectativa pra isso?

Convocada a seleção,
Ficou foi pouca bola
Pra demasiada atração.

Francisco Libânio,
15/05/14, 7:12 PM

1667 - Soneto dessocializado

Amigos não vieram e começou a chover? Dá nada!

Feriado quando não tem opção
Ou o dia está chuvoso e faz frio
Ou os dois faz ser um dia vazio,
Tira dele toda e qualquer função.

Se os amigos têm programação,
Dá pra se enxerir então me alio
A eles, mas se não já me desfio
E faço só e numa boa a atuação.

E dizem: Você é triste e solitário.
Não, apenas não faço prioritário
Diversão fora de casa ou a mais

De um. Recorro aos livros, à lira,
À música e a mistura disso vira
Agrado como já deu dias legais.

Francisco Libânio,
01/05/14, 8:07 PM

1668 - Soneto para o protestante anticopa

Depois de ver essa cena, a FIFA reconsiderou a Copa no Brasil. Tem idiota demais por aqui.

Com a Copa já batendo à porta,
Temendo o mal que se avizinha,
Manifestantes com uma raivinha
Infantil de ignorância tão absorta

Vão pra rua e a turba se conforta
Protestando com uma outra linha:
Incendeia os álbuns de figurinha
Da Copa. Tudo bem, Inês é morta,

A Copa acontecerá. Já o raivoso
Acha que o piro-ato assombroso
Leva a FIFA a rever tudo. Espera

Sentado, playboyzinho ignorante,
A cretinice imensa e tão aviltante
Só causa na roda do leite e pera.

Francisco Libânio,
02/05/14, 9:14 AM

quarta-feira, 14 de maio de 2014

1666 - Soneto em festa no feriado

Parabéns, seu explorado!

Dia de feriado quando o trabalho
É homenageado e o trabalhador,
Mola mestra de tudo que é maior,
Termina sendo desculpa, atalho

Para tributo a vir de um bandalho
Que quer mais fama de agregador
Que outra coisa, gozando do suor
Alheio. Que vão à casa do caralho!

O operário, oprimido e dilapidado,
Goza seu dia, faz jus a seu feriado
E ainda tem que ouvir quão nobre

É seu papel. Disso ele sabe bem.
E sabe inalienável o direito que tem
De não ser explorado ou ser pobre.

Francisco Libânio,
01/05/14, 2:57 PM

1665 - Soneto para as inimigas

Fica na sua, Valesca.

Com toda a popularidade do funk,
Que, diga-se, tem o merecimento
Ficam alguns jargões de momento
E, depois, para que se desbanque

Com coisa melhor nesse palanque
É quase impossível. Um tormento,
A exemplificar, uso o chamamento
Inimigas. Ridículo. Que se manque

Quem vê inimigas aqui, ali e acolá
E canta com todo desprezo que há
Com um beijinho no ombro e ginga.

Caia na real. Pode-se ter desafeta,
Tudo bem. Já inimiga, não se meta.
Não se é Batman para ter Coringa.

Francisco Libânio,
01/05/14, 9:19 AM

terça-feira, 13 de maio de 2014

1664 - Soneto (não muito) desestressado

Foi coçar e a ideia sumiu... Pois foda-se!

Cadê a ideia pro soneto? Estava aqui!
Sentei para digitar e aí cocei a cabeça.
É o suficiente para que ela desapareça.
Mas agora que terminei o quarteto parti

Pra ignorância. O soneto que faça em si
E que de ideia, conteúdo, tudo esqueça.
Mas o soneto se faz e nem se estressa,
Apenas pensa que a ideia colocaria ali

O molho, negócio pensado de antanho,
Mas se ela não veio e faltou esse ganho,
Azar dela, ele se faz sozinho sem anexo.

Achou que seria fácil e não foi. Ao final,
Sem ideia ele mais se anulou e no total,
Falou tanto da ideia e ficou o complexo.

Francisco Libânio,
30/04/14, 7:09 PM

1663 - Soneto desprestigiado

Augusto dos Anjos também não ficou rico sendo poeta. e era melhor que eu.

E se meus versos forem, somente,
Lazer de poeta sem algum retorno
Financeiro, afetivo, o troço morno
Que mal é lido e se deixa contente

Quem lê é porque, qualitativamente
Não achou melhor? Há o transtorno
Poético-pessoal. Há coisa no forno
Esperando ser conhecido pela gente

Das leituras. Claro, não sou Vinicius,
Tenho contra a métrica meus vícios
E volta e meia enfio uma grosseria.

Se for lazer de poeta, permito-o ser,
Pois se escrever não der um prazer
Mínimo, que se revogue toda poesia.

Francisco Libânio,
30/04/14, 12:04 PM

segunda-feira, 12 de maio de 2014

1662 - Soneto descrente

Convença o velho Alfred. Se conseguir... Quem sabe...

Não ter fé não é não acreditar,
A fé precisa do imponderável,
Do místico e fazê-lo aceitável
Simplesmente porque a atuar

Estava um deus ou um avatar.
Não acreditar é mais maleável,
Convença ou faça-se provável,
A crença pode, ou não, mudar.

Quanto a mim, cético assumido,
Ter fé é o desafio a ser batido
E acreditar é possível, mas custa.

Sei que existe além do que está
À vista, logo a fé sua razão terá,
Mas acreditar pede causa justa.

Francisco Libânio,
30/04/14, 10:37 AM

1661 - Soneto embananado

Uma outra que essa turma de idiota merece.

Daniel Alves foi sábio no tal fato
Da banana. Pegou a fruta, comeu,
Depois mirou a área, pra lá bateu
O escanteio pondo horrendo ato

Em segundo plano. Já no extrato
Exterior ao campo, a coisa rendeu.
A banana, como nunca, apareceu
Simbolizando contra tal desacato

Fruta boa ao homem, ao macaco
E má para quem tem esse buraco
No raciocínio que é o preconceito.

Pouco adiantará, racistas existirão,
Mas como apedrejar é feia solução,
Que a banana represente seu feito.

Francisco Libânio,
29/04/14, 10:37 AM

domingo, 11 de maio de 2014

1660 - Soneto legal com a lei

"Tem é que prender esses drogados!" disse o cara que entornava seu terceiro uísque.

Contra a Marcha da Maconha
Nada. Legalize-se, então veja:
É melhor ou pior que cerveja
E os dados, na conta, se ponha.

Mas toda a bobagem bisonha
De quem prevê uma malfazeja
Realidade só que nunca almeja
Largar o copo como não sonha

Deixar o tabaco como a fumaça
A contaminar tudo o que passa
Além de se matar. Isso está bem.

E chame um desses de drogado!
Ele se irrita e diz que, se legalizado,
Se usa não é da conta de ninguém.

Francisco Libânio,
28/04/14, 9:45 PM

1659 - Soneto leve, pero no mucho

Preparando para uma boa metalinguagem, se é que você me entende...

Sem falar dos problemas mundiais,
Humanos, filosóficos ou problemas
Seus, o poeta abdicou dos temas
E deixou ao Homem os existenciais

Conflitos, pôs, por instante, as mais
Complexas indagações, os dilemas,
As cabecices com coisas supremas
E quis um soneto dos mais frugais.

E agora sobrava a beleza da mulher,
O tesão refreado a fim de espairecer
Ou a chatice que é a metalinguagem.

Soneto a falar de si mesmo. Arrogante!
Metalinguagem, só o terrível desplante
De ser interpretada como sacanagem.

Francisco Libânio,
28/04/14, 5:50 PM

Poema de fuga 21

E dane-se se os parnasianos não gostarem.

Redondilhas, alexandrinos,
Decassílabos heroicos?
A exatidão é tão linda,
E seus pais tão estoicos
Que escrever assim largado
Pode até ser um crime,
Mas já sei
Que serei perdoado.

Francisco Libânio,
04/01/14, 2: 55 PM

1658 - Soneto macaqueado

E estamos conversados.

Para criticar um ato racista,
Jogador se chama macaco.
Caiu na rede e fez o opaco
Preconceituoso, um nazista,

Vilão, o que é, nisso insista.
Mas acho tanto feio e fraco
Usar o que disse tal malaco
E da ofensa fazer a ativista

Causa, o que mais dá razão
A quem xinga. Boa intenção,
Mas pesa contra o seu autor

Mais que contra quem agride.
Assim seria um melhor revide
Pôr numa cela o tal agressor.

Francisco Libânio,
28/0414, 12:21 PM

1657 - Soneto matrimonial na high-society

Coisas que os convidados não veem, mas sabem...

Aluga-se chácara, castelo ou lugar
Que valha menos o dito casamento,
Mas não deixe cair no esquecimento
O casal nem o evento. Assim, a jogar

Na cara da sociedade o quão vulgar,
Injusta e fútil ela é, o acontecimento
Entre famílias graúdas dá polimento
A um comum fato, mas para exaltar

O nome que ostenta, o seu pedigree,
O enlace precisa de chamar para si
A atenção uma vez que os nubentes

Ela, com o nome sujíssimo na praça,
Ele, violento e de moral bem escassa,
Aparecerão na mídia como contentes.

Francisco Libânio,
28/04/14, 9:49 AM

sexta-feira, 9 de maio de 2014

A cicatriz

Feia, mas com história.

Podia até ser uma pessoa bem intencionada e que bom se fosse. Mas algo ali afastava qualquer possibilidade de boa impressão. Certamente era a cicatriz que lhe vazava a testa. Um traço reto, rente aos olhos. Um corte feio, profundo e que cirurgia alguma foi capaz de remover ou, ao menos, disfarçar. Agora essa pessoa estava sentada à minha frente num balcão de bar em forma de U. E como sou péssimo em simulações, percebeu que eu o fitava e logicamente decifrou o motivo. Veio ter comigo e a primeira reação que pensei em ter foi correr. Só que eu me convenci que não devo me levar pelas impressões. E que também não tinha terminado o meu caldo. Não teria tempo de correr e sair sem pagar. Seria complicação.
- Eu sei por que o senhor está me olhando. – veio ele sem qualquer cerimônia. – E sei que o senhor deve estar pensando aí “Olha, parece o Frankenstein!”.
Frankenstein! Sabia que a figura não me era estranha. Foi o que pensei no breve tempo dele respirar para continuar:
- Essa cicatriz, o senhor acredite ou não, foi de uma briga feia que tive com um par de valentões que, só por eu ser baixinho, resolveu vir de bullying pra cima de mim. Me cercaram, vieram com onda e até queriam me fazer de mulher deles. Foi quando joguei um pro chão que a porca torceu o rabo.
A descrição da desinteligência foi feita em seus mínimos e desnecessários detalhes. Vinham de dois pra cima do narrador e caíam de quatro para tentar nova arremetida e ter igual sucesso ao chão.
- Não sou homem de violência, meu senhor. Respeito religião, respeito opção sexual, posição política, filosofia, respeito tudo, mas me deixa na minha. Aqui não é pessoa de guerra, mas se me chamar pra uma, que esteja disposto. Licenciosidade comigo não cola. E covardia muito menos. E se vierem de dois pra querer abuso só porque tem vantagem numérica, aí vão ver que número nem sempre conta a favor.
Continuou a narrativa da contenda. Os tais dois ou não se tocaram que a maré estava ruim pra eles ou gostavam mesmo de apanhar. Foi quando um deles resolveu usar de uma navalha pra, além de machucar matar.
- Um deles deu uma cutilada na minha testa e deu nisso que o senhor vê. Tive é sorte, porque podia me pegar no olho, mas não me abateu. Ainda estava vendo e estava bom pra continuar a brincadeira. Foi uma traulitada que dei no da navalha que ele caiu, perdeu navalha, perdeu sentidos e se eu não fosse um homem do bem, teria feito um corte igual, mas na jugular do sujeito. Quando ele se levantou e me viu com o negócio na mão, combinou com o colega de me pegarem e tomar a navalha de volta. Vieram pra cima pra terminar. Um do lado e outro do outro. Iam fazer sanduíche de mim. Só que eram fortes demais e sabidos de menos. Correram e quando chegaram perto só tive o tempo de sair do meio. Uma trombada que o senhor precisava ver. Um beijo que acabou com tudo que foi dente ali. Ainda meio zonzos, dei mais um par de tapas em cada um que beijaram a lona. Passava um guarda ali e dei parte deles. Entreguei a navalha, pedi pra fazerem exame em mim. Processo tá correndo e os caras estão soltos em condicional. Se se meterem em alguma confusão é cadeia sem perdão pra eles. De qualquer forma, ficou a cicatriz pra contar a história. Pra eles acabou dente, sobrou roxo e osso quebrado.
O valente Frankenstein realmente era uma pessoa de boa paz e boas intenções como levantei ser. O cenho fechado e a cara de poucos amigos ajudavam a construir um aspecto suspeito, mas de suspeito tinha nada. E nem Frankenstein lhe valia a alcunha. Era feio, mas não era monstruoso. Não mais que os dois que resolveram se meter com ele esquecendo que baixinho nem sempre é um indefeso. Agora, a cicatriz era um prêmio de guerra. Não se envergonhava dela, mas não sentia orgulho. Como disse, não era homem de briga. Pelo contrário. Após contar a história, se ofereceu a pagar uma rodada e quis porque quis pagar o caldo que era meu almoço, o que a muito custo convenci que não. Fiz bem em não sair correndo.

Francisco Libânio,
13/03/14, 2: 44 PM

1656 - Soneto gratinado

Gratinado de batata e atum. Não tem como ser ruim!

Se queijo é o que agrada rato,
Digo com certeza: O rato tem
Bom gosto, pois eu também
Amo queijo. E isso é um fato

Tão verdadeiro que é no ato
Quando o queijo à mesa vem
O melhor momento e eu bem
Dispenso vinho. Se for chato,

Peço perdão, mas a bebida
Não seduz como a mordida
Deliciosa no pedaço de leite.

Parmesão, provolone, montês...
Um bom queijo tem sua vez
E faz um favor ao meu deleite.

Francisco Libânio,
25/04/14, 8:22 PM

1655 - Soneto absolvido

Minha gente não sorriu disso.

Nossa Justiça em seu maior
Órgão deu ao ex-presidente
Absolvição. Zombou da gente,
De quem foi à rua pra depor

O larápio. Eis nosso Superior
Tribunal que julga prontamente
Sem provas o que é dissidente,
Quem ergueu a vida no labor

E por ser gente da atual situação
Condena querendo dar a lição,
Mas safado contra quem existe

Prova e foi historicamente apeado,
Esse é absolvido e desculpado.
Fica feliz, já minha gente fica triste.

Francisco Libânio,
25/04/14, 12:40 PM

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Hai-kai qualquer 10

Poesia e tanta!

Daqui a pouco um traço
Será lindo, será epopeia
De ler em tempo escasso.

Francisco Libânio,
05/05/14, 10:31 AM

1654 - Soneto desorientado

Uma bela bbw sempre salva.

Como se caísse de um caminhão
De mudanças, em convalescência,
O Chico, após dar em sequência
Três sonetos, depara com um vão

Imenso. Cadê tu, dona Inspiração?
Preciso de sonetos, com urgência!
Um vai se fazendo em reminiscência
Do mal estar passado e da explosão

Sonetista. E vem um velho problema
Batido como a rima: Que será o tema?
O Chico pensa numa musa de Botero.

Pronto! O terceto salva todo o soneto,
Uma gordinha no final vira meu objeto
Inspirador e terá por isso todo esmero.

Francisco Libânio,
25/04/14, 9:03 AM

1653 - Soneto hat-trick

Três sonetos seguidos, eu peço uma música dos Engenheiros do Hawaii.

Em dado programa dominical,
A parte que fala sobre esporte,
Para agraciar o feito de porte
Que é fazer três gols, dá a tal

Atleta pedir uma música legal,
E o rapaz usa desse suporte,
Faz os três gols e, por aporte,
Faz contente o gosto musical.

Três sonetos por dia escrevo
Muitas vezes, nem dou relevo,
Mas como hoje, três seguidos!

Que música pedirei? Tem tanta
Legal que uma só não adianta.
Escreverei trinta pelos ouvidos.

Francisco Libânio,
24/04/14, 4:54 PM

quarta-feira, 7 de maio de 2014

1652 - Soneto nojento

Cada um usa a nojeira que lhe apetece. Eu uso as que eu passo.

Se diarreia foi introduzida por Gullar
Na poesia, muito, fico eu, à vontade
Em colocar outra de igual fealdade
E incomum no lirismo, mas popular...

Introduzo a palavra vômito no trovar
E nesse momento noto a identidade,
Já que fora do papel minha realidade
É de um terrível e apoético mal-estar.

Não sei se o Gullar sofria de diarreia
Quando ele teve tão excêntrica ideia
E pôs o lado social n’A Bomba Suja,

Mas aqui o estômago deu inspiração,
A palavra abstrata e uma contribuição
Fática, o troço vomitado de lambuja.

Francisco Libânio,
24/04/14, 4:39 PM

1651 - Soneto do fato corriqueiro

Como pude não reconhecer?

Acontece, e acontece bastante!
Eu pela rua e ouvir “Fala, Chico!”
E procurando de onde vem fico
E acho, é alguém que, já distante,

Numa moto. Conhece e diante
Do encontro rápido abre o bico
E saúda, mas quando me estico,
Se vejo há lá um muito relevante

Capacete que oculta o educado
Ou até ver de onde veio o brado,
Seu dono já está longe e não vi.

Segurança e rapidez... Necessárias
Nos dias atuais, mas autoritárias
Com a gentileza, que já falta por aí.

Francisco Libânio,
24/04/14, 4: 24 PM

terça-feira, 6 de maio de 2014

1650 - Soneto da fórmula esdrúxula

Você usou ela hoje? Eu também não.

Para as equações de segundo grau,
Usa Báskara e será a mão na roda.
De fato, ela nos facilita como poda
Nesse cálculo o possível rosto mau,

Mas tirando os vestibulares, afinal,
Onde mais a equação se acomoda
E tal fórmula, que por si só é foda,
Pra que servirá ao fim do colegial?

Como a poesia, muito do formulário
Matemático, que foi terrível calvário
De muitos, serve mais em pesadelo.

O trauma que deixou o delta maldito,
Já vencido, levou pra além do infinito
A inimizade com esse terrível flagelo.

Francisco Libânio,
23/04/14, 7:00 PM

1649 - Soneto paralelepipedal

Depois de anos e anos pisados, dois Chicos os poetizam.

Precisa ser Chico, mas ser Buarque,
Pra por paralelepípedo em poesia.
Já eu ponho o termo sem primazia,
Pois não deixo que a música arque

Mais prejuízo. Que o verso marque
A palavra sem canção. É covardia
Além de escrever pedir a maestria
Da musicalidade. Que se embarque

No soneto como imigrante irregular,
Você o vê, mas nada ali faz pensar
Que ele tenha que ser protagonista.

Como o xará, pus o dito no soneto,
Ele, na música. Nada mais prometo.
O paralelepípedo se repetiu na vista.

Francisco Libânio,
23/04/14, 2:11 PM