quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Uma crônica sobre a minha crônica

A dura arte de escrever...

Tenho por hábito, gosto e, até mesmo, teimosia a mania de escrever poemas. Daí pipocam alguns sonetos e eventuais haicais. A grande maioria mal sai da minha cabeça. Como sonetista, a única regra a que obedeço é a clássica de todo soneto, duas quadras e dois tercetos. De resto, métrica, tonicidade, redondilhas... Acerto por mero acaso, e se acerto. Alguém me disse, certa vez, que é um absurdo que em pleno século XXI, quase cem anos após a Semana de Arte Moderna, a pessoa ainda se prender a rimas, a modelos. Noutra leitura, o que me disseram foi: Quer ser poeta, seja. Mas seja moderno! Ora, se Mário de Andrade, pai da revolução toda, já maduro, reviu esse posicionamento e se Manuel Bandeira, outro modernista aclamado, escreveu mais tarde poemas no mais arcaico dos portugueses, por que eu, mero leitor deles, deveria seguir com essa bandeira tão radicalmente?
De qualquer forma, o fato de escrever sonetos não me tira um gosto que sempre vem: o de ser cronista. Mais novo, sempre quis ser poeta. Acreditei que tinha esse dom e, incentivado por familiares e amigos, toquei o barco adiante me alimentado de bons poetas. Agora, mais velho, ouso me chamar de poeta, mas me bate a desagradável sensação de que não era bem isso o que eu queria. Sabe o sujeito que se forma médico para agradar aos pais, mas no meio de uma consulta descobre que queria ser pintor? É mais ou menos o que eu sinto procurando uma rima:
- Se eu proseasse não teria que me preocupar com uma palavra que rime com “estupendo”. E que não seja verbo no gerúndio.
Não sei se o leitor compreende onde eu quero chegar. Se ele leu até aqui já se convenceu que o Cronista está enchendo linguiça, rodeando porque não tem aonde chegar, mas vamos ver onde isso acaba. Acaba que cada crônica que escrevo, ao seu fim, é uma vitória pessoal. Um sonho realizado. De certa forma, a crônica, essa maravilha sem a qual o leitor cotidiano de jornal ou de blogue não fica, é algo complicado de sair. A explicação é meio óbvia e muito tola, pra não chamar de desculpa barata: Tem hora que eu penso que tudo que deveria ser posto em crônica já foi posto. Então como sair dessa? Como falar de algo que não foi falado ainda? Tudo bem, a crônica nada mais é que uma fotografia em palavras de fatos pitorescos do dia-a-dia; um “causo” com alguma pompa e circunstância que termina sendo lido no jornal. Enfim, uma conversa fiada que o cronista tem com o leitor, que aguarda aquele momento para ouvir o que o outro tem a dizer. Mas nem sempre se tem.
Escrever crônica é um prazer quando a pessoa é cheia de histórias pra contar. Se a imaginação do cronista é fértil ou ele tem a sensibilidade de tirar até de uma criança brincando na praça um texto primoroso, temos aí um grande cronista, um Rubem Braga redivivo. Ainda mais se o cronista tiver um dia-a-dia interessante e animado, pelo menos uma crônica razoável é extraída. Há a contrapartida de o sujeito ser visto como um grande egocêntrico, que só fala de si mesmo e ama a primeira pessoa mais do que a própria mãe. Será que é por isso que muitos cronistas escrevem das coisas que acontecem com “o Cronista” na terceira pessoa?
O fato é que o cronista é um camarada de grande percepção e sensibilidade. Qualidades que muitos atribuem aos poetas. Como poeta autodeclarado (e autodescarado), digo: Nesse ponto, o cronista dá surra no poeta. Um poeta escreve lá dois versos aleatórios, desconexos, incompreensíveis, pega aquilo, chama de pós-vanguarda, vende esse peixe aos compradores certos e sai incensado como o futuro da poesia contemporânea. E se vender bem, ainda por cima termina tendo aqueles que não o entenderam como ignorantes já que “sua poesia não é para o homem comum”. Ou seja, a qualidade está lá. Você é que não tem cabedal pra compreendê-lo. A culpa é sua, não dele.
O cronista não. Embora já tenha lido crônicas de frases desconexas em que o sujeito resolveu bancar o Joyce, a função primeira do cronista é ser palatável ao cotidiano, ser interessante ao homem comum, ao cara que lê o jornal indo ao trabalho. A linguagem para conquistar esse simples leitor varia do divertido ao informativo; do lúdico ao sutilmente engajado. O primeiro tipo de cronista se restringe às publicações especializadas ao lado do poeta vanguardista. O segundo, quando bom, é disputado a tapa pelos grandes jornais e portais.
E é lendo os grandes cronistas do passado, o já citado Rubem Braga, Sabino, Drummond que me vem a danada da vontade de ser cronista. É tendo aquele “insight” que eu fecho o livro e corro a escrever e que se desespera quando vê tudo sumir na segunda linha. Quando isso acontece, pego o que sobrou e parto pra poesia, pro soneto. Não era o que eu queria, mas foi o que deu pra salvar e, em tempos de reciclagem, nada deve ser desperdiçado. Nem ideias. De qualquer forma, esta minha crônica está saindo bravamente. Não lamento o fato de perder nela um soneto, mas adoraria que o que acaba de acontecer nesse momento fosse mais frequente.

Francisco Libânio,
28/02/12, 4:44 PM

780 - Soneto que ama uma mulher oriental

Perfeição de porcelana

Se ela é chinesa, coreana ou japonesa,
Não lhe importa. Os olhos amendoados
E traços finos, ele diria, aporcelanados
Atraem deixando-o sem qualquer defesa.

Nada apetece mais a ele que a beleza
Oriental. Apreciar contornos moderados,
A boca, fina, cabelos naturais alisados,
Desenha assim sua gueixa por princesa.

Tem em casa a sua linda musa asiática,
Ama sua discrição, a postura fleumática
E se compraz com suas doces seduções.

A moça, um exemplo do que é o recato,
Tem noções das cortesãs do xogunato
E usa com ele em todas suas variações.

Francisco Libânio,
28/02/13, 8:26 PM

779 - Soneto que ama uma mulher índia

Uma princesa genuinamente brasileira.

O sonho do sujeito, após ler o Alencar,
Era encontrar sua musa, sua Iracema.
Queria a beleza nativa, beleza suprema,
Brasileira, genuína com tanga e cocar.

Há, sim, beleza na silvícola. Há um ar
Ingênuo e sem maldade no emblema
Brasilianista que fora outrora um tema
Na literatura, nas artes, mas sem lugar

Nos dias de hoje. Mas ele deu a sorte
De encontrar sua deusa lá pelo Norte
Não nua e selvagem como havia lido.

Ele ficou por lá, com ela e muito feliz.
Rindo do perfeito trouxa que só maldiz
Os índios. Perde ele um grande partido.

Francisco Libânio,
28/02/13, 9:03 AM

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

778 - Soneto que ama uma mulher mignon

Perfeita, mas muito mais que isso!

A mulher lá é assim: A régua e compasso,
Uma engenharia perfeita de medida exata,
É mulher que inspira de soneto a serenata
E que enche com presença todo o espaço

Que ocupa atraindo olhares a cada passo.
É o tipo de mulher com a qual não se trata
Pelo corpão. Do corpo tudo se espalhafata
E cai do cavalo o que opta pelo devasso.

É gostosa? Não, ela não é apenas gostosa!
É perfeita, é mulher de cinema, mulher ideal,
É além de top e mais que uma A mais, mais!

Porque esse corpo que leva putão à loucura
Mostra pra ele o quão é pobre como criatura,
Ele quer putaria e ela, histórias descomunais.

Francisco Libânio,
27/02/13, 7:56 PM

777 - Soneto que ama uma mulher magra

Reta demais? E você que é chata?

E diziam que ela era a menor distância
Entre dois pontos por ela ser tão reta,
Sem formas. Seu outro apelido, vareta,
A emputecia. Já dobrava a implicância

Essa perseguição, a insistência, a ânsia
Em sua magreza. Ou vinha uma indireta,
Uma comparação que magra lhe projeta.
Que se dane. Faltava a eles a elegância

Que sobrava nela. Falem! Deixa a inveja
Se manifestar. É tudo o que lhes sobeja.
Deixa. Seu namorado discordava daquilo.

Ele, sim, era um homem feliz e realizado
Já que sabia que amor volúpia e agrado
Não sobe à balança nem mede em quilo.

Francisco Libânio,
27/02/13, 6:40 PM

776 - Soneto que ama uma mulher máscula

Tem charme e tem beleza.

Cuidar do corpo, formas, cultivá-lo,
Nada absurdo. Homem adora isso,
Tem na academia o compromisso
Que não permite algum desembalo,

Alguma falta fazendo mero intervalo
Para algum outro lazer ou o serviço
Que pague e o deixe mais submisso
Às formas. Peitoral qual de cavalo,

Braços fortes e bíceps montanhoso,
Mas vá uma mulher pôr musculoso
Seu corpo e verá tida masculinizada.

Certo shape tem lá sua beleza, é vero.
Desde que sem paranoia ou exagero
Não invejará gostosa alguma em nada.

Francisco Libânio,
27/02/13, 11:31 AM

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

775 - Soneto que ama uma mulher diferenciada

E você, diria que não é?

E me dizem hoje, existem mulher e mulher.
Concordo. Opera-se o homem insatisfeito,
Arranca-lhe a anatomia, dá-se lá um jeito
E de homem que era, mulher passa a ser.

A natureza é desfeita, puritanos a tremer,
Mas à nova mulher assiste todo o direito
De ser feliz e de ter com ela o seu eleito
E de dar como receber o irrestrito prazer.

E quem curte a nova mulher, que não era,
Mas passou a ser? Aí é que se exaspera
O machão que, sem vagina, não lhe serve.

Mas agora ele, ou ela, tem. Está resolvido.
O machão fica agora totalmente aturdido
Tentando disfarçar sua mais íntima verve.

Francisco Libânio,
26/02/13, 5:04 PM

774 - Soneto que ama uma mulher funkeira

Tem seu valor...

Ela se diz preparada, ela se chama de cachorra,
Ela canta ritmada as suas posições sexuais,
Ela tinha parceiros de cama, eu diria, até demais,
Arrumados para seu prazer ou sua desforra.

Onde achei essa mulher? Ao que me ocorra,
Foi por aí. Tivemos conversas até que legais,
O clima foi rolando, ela foi me pedindo mais
Que de beijo virou uma Sodoma e Gomorra!

E sob a trilha sonora escolhida a dedo por ela,
Confesso que na hora, não percebi a mazela
Cultural que era o funk, sua maior inspiração.

Deixei acontecer. Quer saber? Gostei daquilo,
O clima quente, a pentada, tudo tão tranquilo,
Que a música não teria melhor para a situação.

Francisco Libânio,
26/02/13, 12:34 PM

773 - Soneto que ama uma mulher tímida

às vezes é só charminho

Gosto que ela seja mais recatada,
E que não seja tanto extrovertida
Nem de cara, de prima dê guarida
A estranhos com conversa fiada.

Desconfio da moça que é atirada,
Nada contra. Mas já dada de saída...
A minha prefere falar com a devida
Oportunidade, se a palavra é dada.

Sua reserva é algo que me encanta,
A timidez faz que pareça uma santa,
Mas fico feliz deles estarem errados.

Sua timidez é uma boa defesa social,
Na intimidade, a timidez vem ao final
Quando estamos em paz e abraçados.

Francisco Libânio,
26/02/13, 8:59 AM

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

772 - Soneto que ama uma mulher insaciável

Não pára, não pára.

Há quem reclame e há quem não goste;
Gosto é pessoal e eu nunca o discuto,
Mas ela? Ah, ela com esse seu absoluto
Pelo esporte! Só basta que lhe encoste

Um dedo e vem o desejo de uma hoste!
Esse seu estranho e indesejado atributo,
Que a incomoda, mas que atiça o fruto
Luxurioso vibra até que ela se recoste

Em meu peito de satisfeita, finalmente.
Resta esse romantismo entre a gente
Após ter ser saciado seu bom apetite.

Nesse espaço, preferimos as carícias,
Mas é no seu olhar em que as malícias
Brotam e fazem, implícito, um convite.

 Francisco Libânio,
25/02/13, 7:01 PM

771 - Soneto que ama uma mulher ciumenta

É complicado, mas vale a pena no final.

Ela é puro ciúme. É só insegurança,
Compreendo, aceito e até a relevo.
Se a situação está tensa, eu a levo
Numa boa, mas ter dela a confiança

Em situação suspeita, pô-la mansa
É uma luta. De primeira, não atrevo
A lhe falar. Se digo o que não devo,
A guerra explode e a louca se lança

Querendo bater, jogar tudo pro alto!
Mera decisão de hora, mero assalto
Emotivo. Depois ela aquieta e reflete.

Voltamos às boas, tudo fica normal,
Ela me quer ao fim desse vendaval
Deflagrado quando o ciúme a acomete.

Francisco Libânio,
25/02/13, 12:11 PM

domingo, 24 de fevereiro de 2013

770 - Soneto que ama uma mulher mais nova

Idades são meros números.

Porque a menina tinha dezenove anos
E cheião dos pensamentos puritanos
Quis ver entre nós um total desarranjo?

Dei um belo passa-fora no marmanjo!
Não sou um dos comidos veteranos
E ela já tem lá certos vícios humanos
Que a maioridade lhe deu por arranjo,

Talvez, ela e seus frescos dezenove
E eu, seja provável que se desaprove,
Mas menos eu a ensino que aprendo

Com ela. Há aqui a sintonia perfeita
Idades viram números e minha eleita
Faz dessa relação grande dividendo.

Francisco Libânio,
24/02/13, 7:58 PM

769 - Soneto que ama uma mulher mais velha

Ela me ensina muito. Eu adoro!

Vai rolar aquela incompatibilidade!
Disse-me um que tomou um susto
E acreditou depois de muito custo
Ao ouvir, da minha gata, sua idade.

Terão em alguma hora adversidade
Com esse diferencial todo robusto,
Não vejo por certo e nem vejo justo
Esse namoro discrepante. Verdade.

São anos que nos separam. É nota
A quem nos vir juntos e a chacota
Certa dos que tiverem isso por feio.

Dane-se. Eu novo, mas até maduro,
E ela, alma jovem, daremos auguro
Mandando os seus pra escanteio.

Francisco Libânio,
24/02/13, 6:12 PM

768 - Soneto que ama uma mulher religiosa

Linda e de bom coração só pra mimA Bíblia na mão e um versículo bem posto
Para ocasião que o valha. Ela é bem dessa,
Linda, mas tem lá sua fé firme e a professa
Com fervor enquanto eu, seu total oposto,

Ouço, aprendo. Há serenidade em seu rosto,
Uma paz amena, mas a vontade pregressa
Ela tenta esconder, mas sempre a confessa
E admite que isso contraria seu sacro gosto,

Como conviver entre o sagrado que prega
E o calor mundano que às vezes lhe chega
Induzindo para o desejo que não se deve

E para o pecado do qual tenta sempre fugir,
Mas cede. E amamos. Deixamos tudo fluir
E após o ápice, ela me beija bem mais leve.

Francisco Libânio,
24/02/13, 11:53 AM.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

A vizinha do prédio ao lado

Observa, espia...

Sempre quis morar em edifício. E morando em edifício, adoraria viver uma das ideias de fetiche clássicas: Aquela em que se observa através de binóculo ou, mesmo, a olho nu a vizinha do outro prédio tomando banho, de janela aberta e toda permissiva ciente do espetáculo que oferece.
A partir disso, do meu quarto térreo, me teletransporto até um prédio eventual. Agora estou num sétimo andar e minha janela dá de frente para o banheiro de uma morena nada espetacular, mas ainda de beleza notável e corpo atraente. Ela entra no banheiro, abre o chuveiro e o barulho da água é audível para mim. Ela tira a bermuda primeiro e uma camiseta azul claro depois. O conjunto preto é tirado em ordem inversa, sutiã e calcinha. O corpo da moça se revela e é realmente válido de ser visto.
Quando ela está para entrar no chuveiro, espanto uma mosca e isso me distrai do festival voyeur que eu tinha. Retomada a atenção, noto que ela também está usando um binóculo e olhando justamente para cá. Uma cena exótica, uma mulher nua pronta para o banho resolve voyeurizar um homem vestido que a estava observando. Se eu perguntar, será que ela me escuta? Vou tentar. Pergunto num tom mais alto se ela me ouve. A resposta é afirmativa, em resposta dois tons mais alta que a minha.
- Por que você está me observando? – pergunto. Bela forma de puxar assunto!
- Era justamente o que eu ia te perguntar. Perdeu alguma coisa por aqui? Quer que eu ajude a encontrar? – ela me responde.
- Desculpe, mas é que eu sempre quis viver essa fantasia de observar uma mulher no prédio ao lado. Já vi isso em filmes, em revistas. Achava que podia trazer para o mundo real.
- Você sabe que isso dá confusão, né? O marido da mulher observada não gosta, vai tomar providências em relação ao assunto e não hesita em usar da violência para resolver isso. Essa parte você também deve saber, certo?
- É verdade. Desculpe. Não conte nada disso ao seu marido. Nem que tivemos essa conversa.
- Fique tranquilo. Não sou casada. Nem namorado tenho. Eu apenas estranhei ser observada por um vizinho enxerido. Sempre, também, quis viver a situação de alguém me ver tomar banho. Meu psiquiatra diz que eu tenho prazer em ser observada. Tive medo disso, mas hoje encaro com naturalidade. Está gostando do que vê?
Tudo bem, a história está correndo toda numa espécie de realidade paralela, mas a coisa está subvertida. E do nada, a mulher que devia me proporcionar um show de nudez e indiscrição me abre parte da sua psique. Isso está errado. Ela para de falar porque notou que eu afastei meus binóculos dela. Quando volto a ela, outra vez se vendo atriz principal, continua:
- E eu resolvi meter um elemento a mais nessa tara de ser observada: Observar. Adoraria ver como se sentiria aquele que me invade a intimidade no papel de invadido. E vou te contar: Você precisava ver a sua cara quando deparou comigo. Não dá pra descrever. Só vendo e rindo. Qual seu nome, bonitão?
A mulher é maluca. Mais maluca que eu, que estava bolando a cena inicial. Primeiro ela se insinua – certamente sabia que tinha alguém a vendo – e depois reverte o jogo. Aí, então, ela me conta algo de si para depois se apresentar? De qualquer forma, digo meu nome a ela  e ela diz o seu. Frisa que não namora, que gosta de se sentir observada e desejada, que vinha tratando isso como algum desvio, alguma perversão, mas entendeu que sem certas loucuras a vida não tem graça. O papo se estende e o banho não acontece. A certa altura, a moça veste um roupão (“Não se incomode, não quero tomar friagem”) e praticamente decreta o fim do festival de nudez ao qual eu tinha me proposto. Continuando a conversa, ela solta mais uma:
- Se você tem seus fetiches, eu também tenho os meus. Sabe aquela história da vizinha ir ao apartamento ao lado, pedir uma xícara de açúcar? Adoraria vivenciar isso, mas meu prédio é praticamente vazio. Fico aqui porque esse apartamento era do meu pai e não quero vender. Mas o lugar não é valorizado, ninguém quer vir pra cá. Logo, acho muito difícil acontecer.
Nesse momento, alguém bate à minha porta, tira-me da minha abstração. É apenas um amigo meu me chamando para jogar bola. Quando vamos ao carro, um caminhão de mudança está na frente da casa ao lado e uma morena olha para nosso carro com olhar tanto curioso.

Francisco Libânio,
23/02/13, 10:06 AM

767 - Soneto que ama uma mulher futebólatra

Camisa? Que camisa?

Futebol é coisa de homem? Pois eu digo
Que conheço a melhor exceção da regra.
Uma que, de tanto gostar disso, já integra
Torcida. O caso com o time já é antigo,

Antes, até, de eu conhece-la, ser amigo
E agora namorado. Torcer muito a alegra!
Ela assume, tem alma e vida rubro-negra!
Sim! Há uma flamenguista doente comigo.

Vou questionar? Eu sei, não é meu time!
Mas diferença futebolística lá me oprime?
Eu não tô nem aí pra nenhum time carioca.

Ela é flamenguista lá e aqui sigo santista.
A bola não se põe aqui segregacionista,
Mas em Fla e Santos um silêncio coloca.

Francisco Libânio,
23/02/13, 6:39 PM

766 - Soneto que ama uma mulher naqueles dias

Calma que já passa!

Todo santo mês é assim, não tem jeito!
Ela, doce e amorosa, fica tão intratável,
Tão nojenta e chata que a moça amável
Faz quase que eu lhe perca todo respeito.

Eu sei, é ciclo feminino, algo imperfeito
Durante essa renovação a deixar instável
Todo o sistema dela. Qualquer variável
Pode alterá-lo. Espero que esse efeito

Mensal passe. É rápido, coisa de dias,
Enfrento bravamente todas as histerias,
Logo acaba e terei de volta o meu bem.

Amaremos, Ela me fará um homem feliz,
Eu a realizarei e correrá a força motriz
Do casal em paz até vir o mês que vem.

Francisco Libânio,
23/02/13, 5:38 PM

765 - Soneto que ama uma mulher simples

Ela curtia ver o mar e as belezas da natureza. Só.

Ela não é uma moça estudada ou intelectual,
Ler não é um hábito que está em seu dia-a-dia,
Discussões profundas e densas lhe dão azia
E ela foge de ficar assistindo notícia em jornal.

Ela diz que eles só passam o que há de mal,
Ela não é mulher de explanar tese e filosofia,
Prefere a simplicidade, a conversa mais vazia
Sem polêmicas. Somente o básico e o trivial.

Eu, que já gosto do calor de uma discussão,
Olho-a e pergunto: De onde vem essa atração
Que me faz querer ficar abraçado junto a ela?

Não sei. Foi ela quem viu primeiro o abismo
Entre nós. Fora essa pergunta, eu nem cismo.
Beijo-a quero nesse beijo todo o carinho dela.

Francisco Libânio,
23/02/13, 10:30 AM

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

764 - Soneto que ama uma mulher cinéfila

Os filmes ajudaram...

Ela, interessada e entendida em cinema,
Me deixava como um grande ignorante,
Eu sabia, eu não era, qual ela, bastante
Entendido e agradado no referido tema.

Certa vez, tentado remediar o problema,
Pedi a ela opiniões embasadas tocante
A cada estilo que eu propunha. Exultante,
Ela soltou seu saber. Meu estratagema

Ia bem. Chegamos ao cinema erótico,
Que ela desconhecia e achava exótico.
Filmar duas ou mais pessoas trepando!

Sugeri que assistíssemos a um. Intuição...
Ela assistiu e teve repentina inspiração
Para um namoro ora violento ora brando.

Francisco Libânio,
22/02/13, 5:38 PM

763 - Soneto que ama uma mulher noveleira

Depois é a minha vez.

Às seis horas ela tem agenda ocupada,
Janta rapidinho e logo pega a das sete,
Chega o Jornal e nada ali lhe compete,
Mas é bom e ela estará toda preparada

Para a novela das nove. Perde por nada!
Quem a ama, como eu, não se intromete
Na hora nobre. Compromisso? Que vete!
Nem namorado vale mais para namorada

Que suas novelas. Fazer o quê? Ela gosta
E sabe da minha posição exata e oposta
A essa boba, mas irrefreável preferência.

Deixo-a lá. Saio de perto, vou passear, ler,
Zapear outra televisão ou coisa qualquer,
Na volta, ela me amará com sua excelência.

Francisco Libânio,
22/02/13, 11:46 AM

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

762 - Soneto que ama uma mulher engajada

Tá fazendo papel de trouxa, mas é gata.

De direita, de esquerda; não importa
Ideologia, filosofia ou postura política.
Ela tem um lance que a faz tão mítica,
Tão sensual que meu carinho suporta

Uma possível colisão. Ela me exorta
A uma postura minha mais catalítica
E reveja meus ideais, fazendo crítica
Ao que acredito revendo minha torta

Posição de esquerda tão socialista.
Tudo bem. Essa pregação panfletista
É parte da nossa mise-en-scène a dois.

Ouço, contra-argumento e ela replica;
Fazemos um breve silêncio. É a dica
Para a trégua e o amor a vir depois.

Francisco Libânio,
21/02/13, 6:19 PM

761 - Soneto que ama uma mulher intelectual

Lindíssima.

Talvez a pose, o não falar de obviedades
E tecer cinco frases concisas e articuladas
Faça dela uma das preferidas, adoradas
E, sem dúvida, desperta sentimentalidades

A mais. Ouvi-la a discorrer às variedades
Temáticas, sempre com bem embasadas
Colocações, otimamente fundamentadas
Faz meu coração pulsar e obscenidades

Correrem à minha fertilíssima imaginação.
Eu e ela, deitados numa perfeita interação,
Nus, abraçados em conforme harmonia.

Então ela me beija de tão tórrido modo
Que a prevejo correr o Kamasutra todo
Enquanto alia nosso sexo à antropologia.

Francisco Libânio,
21/02/13, 11:25 AM

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

760 - Soneto enjoado

Deliciosa sensação.

Vinicius escreveu sobre filhos.
Melhor tê-los, melhor não tê-los,
Digo. Melhor tê-los, mais, vê-los
Crescer vencendo empecilhos.

Ser pai é realçar próprios brilhos
E vencer os mais íntimos duelos,
É encher os filhos com desvelos
E fazer da convivência ladrilhos

Com os quais calçarão as rotas
Às vitórias e eventuais derrotas
Que abrirão outras vitórias mais

E eu aqui, pai babão e saudoso,
Entendo em meu soneto o gozo
Já escrito por Vinicius de Morais.

Francisco Libânio,
20/02/13, 12:47 PM

759 - Soneto aviadado

Sei não, hein?

“Então você escreve? É poeta?
Poesia é puta coisa de bicha!”
É assim que, tão bem, me picha
Quem de poesia não se locupleta.

Desagrada? Talvez seja correta
A impressão. Pessoa cochicha,
Toma essa maldade e capricha
Na paulada tendo como muleta

Meu gosto e pendor pra poesia
Enquanto machistamente avalia
O gosto lascando a comparação.

Nem ligo. O ogro o toma por mim,
Chama-me de viado, mas por fim,
É ele próprio que tem essa atração.

Francisco Libânio,
20/02/13, 12:30 PM

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

758 - Soneto floreado

Para muitos, floreio parece árabe. É bonito, mas não entende lhufas.

A palavra bonita é só palavra bonita,
A frase retórica é unicamente retórica
E não faz da escrita mais categórica
Nem a poesia, por isso, bem escrita.

O rebuscamento e a grande, infinita
Busca pela linguagem ora metafórica
Ora erudita reforça a farsa alegórica
Do escritor. Enquanto ele lá exorbita

Em seus rodeios barrocos e rococós,
O verso se enrosca nos próprios nós
E fica escrito tudo, mas não diz nada.

Prefiro o direto ao ponto, peito aberto,
O claro e o cristalino quando disserto
Findo o floreio e a poesia é encerrada.

Francisco Libânio,
18/02/13, 7:53 PM

757 - Soneto melindrado

Escreve, escreve, escreve...

De tanto ler meus sonetos já acho
Que ou já estou repetitivo demais
Em minha lira de versinhos banais
E por isso melhor aquietar o facho;

Ou, realmente, no íntimo me racho.
Nunca fui poeta. Não escrevo mais!
Poesia é coisa para bons intelectuais
E o que faço é arremedo, é escracho

De sonetos de verdade. Ceci n´est pas
Un sonnet! O melhor é deixar pra lá
E também não querer cagar francês.

Mas meu soneto, esse bicho safado,
Não está nem aí. Fica já soneteado,
Pois sabe que eu não perderei a vez.

Francisco Libânio,
18/02/13, 1:04 PM

756 - Soneto desajustado

Eu escrevo, eu leio, eu ouço...

Talvez, para ser poeta, seja preciso
Dose extra e bem tirada de loucura.
Será? Aqui escrevo pondo à procura
Minha sensatez perdida e meu siso

Avariado. Escrevo com esse sorriso
Idiota de moleque a fazer travessura
Achando bonita minha desenvoltura
Poética e, terminado, quando reviso

O poema me acho o poeta mais foda,
Incomparável e o que melhor denoda
Essa arte esquecida que virou a poesia.

Pobre de mim. Meu soneto se acaba,
Quem o ler conclui: Esse sujeito baba,
Mas deve ser feliz e verseja em alegria.

Francisco Libânio,
18/02/13, 9:32 AM

sábado, 16 de fevereiro de 2013

755 - Soneto menosprezado

Cuida bem dele, viu? É um pedido que te faço.

Que este soneto, por si só anônimo
E nem dos melhores que já escrevi,
Vá além do que se está escrito aqui
Sendo do próprio ocaso o antônimo

E que ele seja lido sem pseudônimo
Ou agregado a outros, não o croqui
Poético e mal acabado. Não desisti
Dele, não o quero o mero parônimo

De qualquer outro soneto menos feliz,
Como menos feliz também não quis
O outro soneto. A todos quero leitura,

Mas este, mesmo sem ter desistido,
Não me agradou. Já o faço preterido.
A ti, meu leitor, caberá lhe dar doçura.

Francisco Libânio,
16/02/13, 7:37 PM

754 - Soneto desconfiado

Ter cuidado não é nada mal. 

Estar com um pé atrás e de olho aberto,
A palavra é de ouro, mas tanta bijuteria
Tem por aí que, só por alguma garantia,
Nada custar aumentar o grau de esperto

E pensar duas vezes antes de pôr certo
O que certo parece já que quem agracia
Demais ou é santo ou trama uma arrelia
Então não há mal em olhar mais de perto

O que quer quem vem com toda mesura,
Toda educação oferecendo com cordura
O que não é fácil assim de se ter à mão

Dessa forma, desconfiança não é ofensa,
Mas é cuidado a ambos que se dispensa,
Afinal qual, também, é nossa real intenção?

Francisco Libânio,
16/02/13, 1:31 PM

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

753 - Soneto admirado

Pelo menos alguém gosta.

Quem gosta do que escrevo eu agradeço.
Quem me lê e se compraz no lido, felicito.
A quem divulga meu texto deixo cá escrito
Meu obrigado e o quanto aprecio tal apreço.

Meus poemas são assim, diria, um tropeço
Poético. Vem quando dá e logo que é dito
Esqueço. Poetas lembram e nesse quesito,
Poeta, nem brincando, esse nome mereço.

Mas se tenho meus um, dois ou dez leitores
Talvez valha a pena esmerar por melhores
Poemas. Talvez seja isso por eles esperado.

Escreverei, com hora marcada ou podendo,
Um soneto a mais, uma rima ou um remendo
E se fizer algum gosto mais ficarei admirado.

Francisco Libânio,
15/02/13, 12:13 PM

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

752 - Soneto avalentinado

O cara pregava o amor. Basta.

São Valentino ou dia dos namorados?
É um feriado estrangeiro ou dia santo?
Eu não sei nem me importo. Portanto
Deixo ao dia os motivos bem azados

Aos que quiserem tê-los comemorados.
Celebrar da amizade seu bom encanto
E do amor sua divindade e seu acalanto
Presenteando seu amor e os chegados

Não pede dia santo nem data especial,
Pode ser todo dia, mas onde está o mal
Em escolher um dia para esse carinho?

Ah, é coisa de gringo, vício de estranja!
Pode ser, mas pensa só que bela canja
Para louvar um santo e um amigo seu.

São Valentino, teu dia não me incomoda,
Teu significado transcende a mera moda
E agrada o crente, o amigo e este ateu.

Francisco Libânio,
14/02/13, 5:32 PM

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

751 - Soneto da quarta-feira de cinzas

Rapá, precisava ver a loira que eu peguei..

Dia triste, carnaval já era e recomeça
A vida e os amores dos quatro dias
Ficaram para trás. Agora só as vazias
Histórias de quem diz comer à beça.

Não se se ouvir esse papo interessa,
Não comi ninguém em todas as folias,
Não beijei e nem despertei simpatias,
Não que seja algo que me desmereça.

A maior diferença entre eu e a maioria
É que eu relatei em verso, dia após dia,
Cada toco, cada fechada que tomava;

Já eles, os fodões, os tigres comedores
Contam mentira pra esconder as dores
Dos tocos e enrustir uma carência brava.

Francisco Libânio,
13/03/13, 6:12 PM

750 - Soneto do pretenso começo de ano

Bobagem maior.

Quem cumprimenta com feliz ano novo
Numa quarta de cinzas? Que má ideia!
Carnaval não é Natal. Coisa de patuleia
Sem gosto, brincadeira que não aprovo.

Carnaval é festa brasileira. Feliz o povo
Que festeja feliz essa época pagã, ateia
Porque sabe que do ano vindo a estreia
Foi dura e doída no bolso. Arroz e ovo

Após as contas que pintaram em Janeiro.
Merece-se um carnaval, assim, inzoneiro
Para pôr para fora tudo o que nos aflige.

Agora temos alma nova! Que venha o ano!
E quem diz isso do carnaval, deixa o fulano!
Desgraçada é a infelicidade que o inflige.

Francisco Libânio,
13/02/13, 4:00 PM

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

749 - Soneto da terça-feira de carnaval

Deixa pra próxima.

E vem aí a última noite de carnaval!
Tá forte e animada a pegação alheia,
E comigo a coisa tá ficando lá de feia,
Tô começando achar isso até natural.

Hoje tem festa! Não quero nada igual
Ao que aconteceu. Quero pôr na veia
Toda devassidão. Quero fazer a ceia
Com o mulherio, passar o rodo geral!

Bora pros bailes, o melhor vem no fim.
Tem algo fodástico guardado pra mim
E é no apagar das luzes que vou ligar!

Fiz ceia, passei rodo? Não dessa vez.
Só pela televisão foi que vi uma nudez
E o travesseiro a companhia a abraçar.

Francisco Libânio,
12/02/13, 8:00 PM

748 - Soneto do papa renunciado

Falou, vossa Santidade, tchau pra você também. Vai com Deus.

E eu que demorei vinte e cinco anos
Pra ver sair da Sé a fumaça branca,
Papa novo na área. Nem faz panca
O escolhido ser dos mais puritanos,

A fim de levar a Igreja dos mundanos
Hábitos mais longe. Veja a carranca,
Veja a cara de tiozão que atravanca
A festa com os sermões provincianos,

Isso não pode, isso é pra lá de imoral,
Mas – olha essa – foi no mundo virtual
Que ele pingou toda essa quadradice!

Agora, já velhinho, o Papa pede o boné,
Vai sair fumaça de novo da Santa Sé,
Que não venha outro Papa com mesmice.

Francisco Libânio,
12/02/13, 10:17 PM

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

747 - Soneto da segunda-feira de carnaval

Se liga, cabeção!

Com o sábado e o domingo em branco,
Metade do carnaval passou e eu nada!
Virei paisagem, ignorado da mulherada,
Pegação na pista e eu quieto no banco

Pegando teia. Mas decidi! É no tranco,
Na marcha direta e na quinta engatada
Que hoje saio com uma bela namorada
E essa zica do inferno toco e desbanco.

Parto pro ataque, tá vendo essa morena?
Vou nela, vou pegá-la e vai dar é pena
Dela quando eu me mostrar como amante!

Mas na verdade, deu é pena desse cara,
Incompetente que leva azar quando azara
E ainda leva uma bifa por ser ignorante.

Francisco Libânio,
11/02/13, 8:38 PM

746 - Soneto dos mamilos censurados

Realmente... O dela deve ser diferente do meu.

Por que em qualquer foto de nu feminino,
Tapam-se os mamilos e deixam os peitos?
É uma forma de manter os tais respeitos
Preservando a família do lance fescenino?

Mas por quê? Mamilos, têm mulher, menino,
Menina e mesmo homem. São pré-feitos
Já no útero e sofrem esses preconceitos,
Não vai mostrar! Atiça o desejo masculino!

Estranho isso. Mamilo muito mais iguala
Mulher e homem, mas disso não se fala,
Mostra o peito, tapa o bico e vai embora!

Bem mais justo ou mais lógico pareceria
Cobrir o peito dissipando assim a alegria
Masculina a brochar vendo o bico de fora.

Francisco Libânio,
11/02/13, 1:21 PM

domingo, 10 de fevereiro de 2013

745 - Soneto do domingo de carnaval

Deixa que amanhã vai ter...

Se no sábado a pegação foi frustrada,
No domingo tiro a barriga da miséria,
Afinal, aqui o tesão corre pela artéria
E minha libido precisa ser logo liberada!

E na segunda noite eu pego a putada,
Mostro que domino doutor essa matéria
E conto cada foda com toda a pilhéria
Que a foda casual merece ser contada,

Ao baile! Hoje tem rodo, tem bacanal,
Hoje que faço valer o que é o Carnaval,
Mas tá difícil. Deixa que já-já melhora.

Fim de soneto e eu não como ninguém,
Do meu lado até um monstro se deu bem
E eu aqui de vela! Melhor então ir embora.

Francisco Libânio,
10/02/13, 9:37 PM

744 - Soneto que se desnuda na avenida

Deixa a menina!

Qual a passista em trajes diminutos
Que mal cobrem o mamilo erotizado,
Este soneto não fica assim acanhado
Gozando de todos os bons usufrutos

E se valendo de todos salvo-condutos
Para, nessa época do ano, sair pelado
Sem dar confiança a quem olha de lado
Condenando como o pior dos polutos

E daí que a nudez da mulher é gratuita?
Eu bato palmas para a coragem e muita,
Mas muita palma ainda pelo belo colírio

Que essas mulheres jogam na avenida
Enquanto a hipocrisia se retorce doida
Ao passar esse lindo e desnudado círio.

Francisco Libânio,
10/02/13, 10:55 AM

sábado, 9 de fevereiro de 2013

743 - Soneto do sábado de carnaval

Paradinho vendo as gostosas passando sem fazer nada... Tão eu.

Quando a folia começa oficialmente,
Duro é saber por onde se começa.
Qual mulher pego primeiro? Essa?
Aquela? A mascarada? A sorridente?

Beber, eu bebo o que vier pela frente,
Há muito para vir antes que amanheça,
Vou me esbaldar e vou curtir à beça,
Vou passar o rodo e vou sair contente,

Tipo o cara de sertanejo universitário
Em pleno carnaval. O bloco é cenário
E o sábado é o começo da festança.

Foda é que a manhã tá chegando aí
E eu tô igual a escultura da Sapucaí,
Só vendo a pegação nessa pujança!

Francisco Libânio,
09/02/13, 7:59 PM

742 - Soneto enredo

Talvez a única relação entre carnaval e Roma Antiga sejam as bacanais. O que é ótimo.

Que os sambas-enredo sejam a alma
Do desfile como a bateria é o coração
Não discuto. Se ela irradia a emoção
Sem deixar quieta na avenida vivalma,

Eles, crias de gênios dignos de palma,
Sempre foram letras de muita inspiração,
Mas hoje talvez falte mais dedicação,
Basta analisa-los com bastante calma:

Sempre rola um clichê histórico: Roma,
Grécia, descobrimento e aí um axioma
Criando ligação com o tema da escola,

O ritmo é repetitivo, mas repetitivo o é
Também o jazz, só que não diz no pé,
Porém é mais interessante e não enrola.

Francisco Libânio,
09/02/13, 10:14 PM

741 - Soneto da avenida paulistana

Só a Gaviões estraga o desfile em Sampa.

E dizem aí que paulista não samba,
Não saca picas do que é carnaval
Faz uma festa que até parece igual,
Mas que não é desfile. Caramba!

Eu sei, admito não ser um bamba
No assunto, mas meter assim o pau
Na nossa folia precisa ser um animal
Mais ignorante ainda que descamba

Pra completa ignorância sem saber
Diferenciar quesito e quer entender
De tudo culpando a mera geografia.

Pra mim, se é paulista ou se carioca,
Carnaval é igual e apenas se desloca
Com as peculiaridades de cada folia.

Francisco Libânio,
09/02/13, 9:29 AM

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

740 - Soneto meticuloso

A melhor!

Diga aí, mas seja preciso e me detalhe,
Uma mulher perfeita deve ser boazuda?
Pernas bem torneadas, bem bunduda,
Um par de peitos que muito chacoalhe

Durante a transa? Que se emporcalhe
Toda quando se goza e vai, na caruda,
De boca, gulosa, na pica suja e taluda
E rápido antes que o leite dela coalhe.

É essa atitude esperada de uma mulher?
Prefiro detalhar minha a visão de prazer,
Que tem sexo e erotismo, mas não só.

Prefiro a mulher que, depois que eu goze,
Viva comigo a perfeita e ideal simbiose,
Seja amante na cama e fora, meu xodó.

Francisco Libânio,
08/02/12, 8:02 PM

739 - Soneto grito

O carnaval o alegraria

O que Munch e a véspera de Carnaval
Tem em comum? Penso ser o tal grito,
Mas o pintor deu lá o tom todo maldito
E apreensivo ilustrando um grande mal

No Carnaval, o grito anda pelo informal,
Liberando aquele som preso e inaudito
Numa forma mais contagiante de agito
A liberar de nós tudo que é baixo-astral,

Volto ao quadro, o homem atormentado,
Sinto pena dele, desse peito angustiado
Tão aflito e carente de qualquer alegria

E troco aquele fundo pelo carnavalesco,
Num cenário alegre, leve e mais fresco
Que puxador aquele gritante não daria?

Francisco Libânio,
08/02/13, 10:00 AM

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

738 - Soneto cheio de dedos

Ruim é voce mesmo fazer isso.

Escrever de forma mais cuidadosa
É complicado. Manter autocensura,
Escolher palavra é tarefa mais dura
E penso, para mim, muito perigosa

Porque a tal escrita, de cor-de-rosa,
Nada tem. A caminhada já é escura,
Procurar rima por si só muito apura
O que é escrito e faz bem imperiosa

Essa tarefa que o poeta ainda acha
De pôr outro filtro que mais atarraxa
A poesia para fazê-la mais educada.

Pois aqui não se filtra, se fala na lata!
Sem censura, asterisco e sem errata,
Não gostou? Que venha para porrada!

Francisco Libânio,
07/02/13, 8:16 PM

737 - Soneto que trepa

Como ser indiferente a isso?

Maldita seja a putaria torpe e desenfreada,
Aquela gratuita e sem razão alguma de ser,
A que não procura nada que não o prazer
E se simboliza na clássica mulher pelada!

Maldita? Ora, que conversa mais quadrada,
Mais absurda. Como é vencido esse parecer
De demonizar o desejo, demonizar a mulher
E fazer dela ou do sexo a mais amaldiçoada

Entre todas as criações. Oras, claro! Putaria
E promiscuidade não têm qualquer harmonia
Com o bom ser, mas nem por isso é errado

Usufruir do corpo se houver as precauções,
E a consciência. E quem não faz menções
A coisas piores que nem se diz ser pecado?

Francisco Libânio,
07/02/13, 11:51 AM

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

736 - Soneto que inveja

Não se roa... Faça.

O olho que deseja o que não é seu
É doente e doentio por são que seja,
A mente que nada faz e muito almeja
Há muito em algum ponto se perdeu.

Querer não é pecado. Quer o judeu,
O cristão e mesmo este que verseja,
Porém, do meu lado, não há inveja,
Se o outro teve foi porque mereceu.

Inveja tem este soneto que cá digito,
Eu sei, ele queria ser melhor escrito,
Ser lírico, metrificado, ser camoniano!

Mas veja só, nem ele teve essa sorte,
Mas seja lá feliz com o modesto porte
Assim afasta esse defeito tão profano.

Francisco Libânio,
06/02/13, 9:00 PM

735 - Soneto que odeia

Será que o povo do fundão ouviu direito?

Amar uns aos outros, eis o que manda
Jesus no famoso Sermão da Montanha.
Ordem de uma grandeza tão tamanha
Que como alguém pode nutrir nefanda

Vontade de ver mal? Se a Ira comanda,
A pessoa mesma se chafurda na sanha
Do mal. Não evolui nem nada se ganha,
A vida dela própria muito mais desanda

Que outra coisa. Mas ela, de feliz, odeia,
Crê que seu ódio atinge a pessoa alheia
Aponta e nunca vê três dedos contra ela.

De boa? Não sou católico, sequer cristão,
Mas essa passagem, tomo-a por solução
E lamento por quem no oposto se refastela.

Francisco Libânio,
06/02/13, 12:14 PM

734 - Soneto que procrastina

Esperar é o melhor... Será?

Ah, a velha arte de deixar pra lá,
Mania brasileira? Acho que não!
Todos fazem, uns sem inspiração
Outros que, igual a eles, não há.

São os filhos da preguiça. Será?
Talvez a contínua procrastinação
Seja a tímida forma de percepção
De que o projeto dado naufragará.

O melhor a fazer é adiá-lo sine die.
E aí se mata de cara todo frenesi
E um possível desgosto no futuro,

Eu sei: a preguiça é má conselheira,
Mas o depois é conselho de primeira!
Siga-o e não há chance de ter furo.

Francisco Libânio,
05/02/13, 12:44 PM