quarta-feira, 30 de abril de 2014

1638 - Soneto infundamental

Ou tão útil quanto uma bicicleta para um peixe, que só usa em desenho.

Hoje tanta gente põe imprescindível
A tudo tantas coisas e tanta pessoa
Que mais como puxa-saquismo soa
E àquilo que atribui nada de incrível

Tem. Mas tem essa incompreensível
Necessidade de mostrar como é boa
A coisa ou a pessoa e aí já apregoa
Talento, quando na verdade é risível

Essa qualidade. Assim o fundamental
Ele não é muito menos o ensino do tal,
Mas já que alguém diz isso, ele o crê.

Só que além da propaganda que mita,
O infeliz nesse conto sozinho acredita,
Sabe melhor quem está de fora e o vê.

Francisco Libânio,
20/04/14, 3:49 PM

1637 - Soneto dos ovos de páscoa

Gente grande também curte...

Domingo de Páscoa, a criançada
Espera pela chocolatice sedenta.
Cada um ganha seu ovo e tenta
Beliscar do colega a mordiscada.

Certos. Se tem coisa abençoada
É chocolate. Tal delícia suculenta,
Na Páscoa, até adultos ele tenta,
E eles bem participam da bocada.

Talvez, uma data assim tão doce
Só um doce para que se alvoroce
O dia e a criança e seus familiares

Brinquem e curtam essa boa união
Com os ovos dando essa sensação
De sabor agradável a todos os lares.

Francisco Libânio,
20/04/14, 10:12 AM

terça-feira, 29 de abril de 2014

1636 - Soneto de véspera pascal

João Batista também era profeta... Só mais um entre tantos àquela época.

Antes da famosa ressurreição,
O que acontecia em Jerusalém?
Jesus, hoje já sabe muito bem,
Era só um messias na multidão.

Quem não assistiu à execução
Ou sabia bem por cima quem
Era o tal Jesus. Diziam amém
A algum outro mestre. A dilação

Até nosso famoso terceiro dia
Foi normal, mas como não seria?
Pouca gente viu Jesus redivivo.

Quem viu e o tocou teve certeza,
O homem tinha luz e toda alteza
Merecendo esse histórico crivo.

Francisco Libânio,
19/04/14, 6:24 PM

1635 - Soneto sujo de óleo

Lembrando que isso não se deu nesse governo. Nem nos dois passados.

Quem roubou não roubou mais
Do que quem mandava lá antes
Ou faz e faria pior que mandantes
De fora do governo, estes quais,

Nomeariam de maneiras ilegais
Amigos, parentes e até amantes
Até virem ser, em algo, litigantes,
E aí, pelos interesses nacionais,

Brigariam e roubariam, e o País
Não veria nesse negro chafariz
Do dinheiro o cheiro nem a cor.

Então fique como está a merda,
Pois se há safadeza e há perda,
Em outras mãos seria bem pior.

Francisco Libânio,
19/04/14, 1:32 PM

segunda-feira, 28 de abril de 2014

1634 - Soneto ousado

Um Pinochet inconsciente me olha de cara feia e desisto de colocar mais palavrões na poesia.

Ouse-se ousar e ser vanguarda,
Fugir do comum e já tão batido,
Mas como? Tentado e auferido,
O soneto mais ousado aguarda

Ser visto. Todo o mais se tarda,
O presente põe-se tão defendido
Do futuro. E ousar fica proibido
E, se for preciso, chega a farda

Para garantir que esse presente
Mantenha-se, mas há tanta gente
Querendo o futuro que o susto

No presente, o tão temido horror
Dos amantes dessa mais fina flor
Que é a tradição é o bom custo.

Francisco Libânio,
19/04/14, 9:00 AM

1633 - Soneto pré-pascal 03

Fé cega e palavra sem ação não ajudam.

Paixão essa que é interessante...
O Homem morre por pecadores,
Toma de outros homens dores
E ainda suporta essa humilhante

Caminhada até o último instante.
Na agonia, tem dois salteadores
Ao lado. Um deles, dos horrores,
É perdoado e é santo doravante.

Um dos seus bons amigos nega
Conhecê-lo. Pior quem o esfrega
Ao chão após tanto ensinamento.

O homem é um bicho bem ingrato.
A quem faz bem só dá o desacato
E ainda louva o dia do passamento.

Francisco Libânio,
18/04/14, 7:14 PM

1632 - Soneto pré-pascal 02

Deixa pro sábado de aleluia.

Não comer carne na sexta feira.
Penitência feita em sacro jejum.
Ter na Quaresma prazer algum,
Purificar assim uma alma inteira.

Em algumas casas, nem queira
Um churrasco. Aceite seu atum
Em lata se por acaso o comum
Bacalhau não agrada. Maneira

Cristã de se portar. Eu discordo,
Mas de casa cristã, vou a bordo,
De carne na sexta-feira esqueço.

Problema? Que nada. O sabadão
Espera a Páscoa e cerra a Paixão
Com assados e nem me aborreço.

Francisco Libânio,
18/04/14, 1:13 PM

1631 - Soneto pré-pascal 01

Você, cristão, quer trocar de lugar com seu Cristo? Então pare de reclamar.

Via-sacra de quinze estações
Em que o Cristo, como o cão,
Apanhou com tal resignação
Sem defesas ou reclamações.

O tal filho de Deus e as lições...
Suportar forte até a crucificação,
E do alto da cruz dar o perdão
Aos algozes. E as admoestações

Pela sua vida dura sem porrada
Literal? Infelicidade desgastada
E você nem numa cruz foi içado.

Claro, você não é ou será Jesus,
Mas falar dele com sinal da cruz
Sem praticar te faz grave pecado.

Francisco Libânio,
18/04/14, 9:20 AM

sábado, 26 de abril de 2014

Poema de fuga 19

Se a Clarice ganhasse um real por cada frase sua ou supostamente sua, estaria bilionária.

Uma citação
É um sábio saindo
De alguma boca
Sem inspiração

Francisco Libânio,
04/01/14, 2:51 PM

1630 - Soneto implicante

Cuida da sua vida e vá ser feliz!

Não gosta da roupa nem do jeito
E nota um quê de pobre no porte.
Olha e diz “Pra você faltou sorte!”
E nada que se faça põe satisfeito.

Por seu lado, se vê como o eleito
De Deus. Pessoa altiva, boa, forte
De roupa fina e com melhor corte
Frente ao outro, que é puro defeito.

Mas aí a perfeição, numa solitária
Análise vive uma vida da precária,
Exala alegria, mas só é tão jururu

Que precisa extravasar o amargor,
Só que quando vai tentar se impor
Tem um que já manda tomar no cu.

Francisco Libânio,
17/04/14, 7:13 PM

1629 - Soneto do ovo de páscoa

Muito melhor.

Campanhas nas redes sociais
Alertam o quanto custa caro
Um ovo de páscoa. Descaro,
Ofensa e outros tantos mais

Nomes merece quem reais
Explora com esse disparo
No preço. Mas se tiver faro
E sacada apenas normais

Vai pesquisar e fazer conta,
A caixa de bombom pronta,
Com opções a parada ganha

Do ovo pouco e exorbitante.
E se quiser melhor variante
Um ovinho custa uma picanha.

Francisco Libânio,
17/04/14, 10:45 AM

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Dedicatória

Minhas crônicas, algumas, são baseadas em fatos reais. E alguns livros eu guardo com mais carinho que os outros, tipo esse.

Adoro sebos. E num deles, passeando atrás de novos livros velhos, um, de dado autor que gosto muito, me chamou a atenção tanto pela ótima conservação em que se encontrava quanto pelo preço, que fazia um custo-benefício perfeito. Não tive dúvidas em levar o livro pra casa.
É quando chego que começo a notar que o livro, aparentemente bem conservado, não o estava tão bem conservado assim. Em suas páginas contra a lombada estava escrito o nome da ex-dona, Naiara Melo Aguiar e na última página, uma dedicatória em belas letras:
“À minha querida sobrinha Naiara, um presente carinhoso e muito bem escolhido. Como me disse que gostava desse escritor, não tive dúvidas em compra-lo. Folgo em saber que o prazer da leitura compraz minha sobrinha. Que seja mais um entre muitos livros que você leia. Da sua tia Márcia. Feliz aniversário”
Muito bem. Agora me sentia com algo que definitivamente nunca deveria ser meu às mãos. Por acaso, eu tenho em minha estante um livro, de outro autor, dado de presente por uma tia minha. Não foi de aniversário. O motivo do regalo, eu não o lembro, mas foi dado de coração por uma tia. Tanto que valeu uma bonita dedicatória também, exclusiva. O autor não é um dos meus preferidos ainda que muita coisa dele, de fato, me agrade, e muito. Gosto menos dele do que de quem escreveu o livro que roubei no sebo. Sim, roubei, porque me julguei receptador de algo que não podia estar em minhas mãos. Fui ludibriado pelo sebo. A moça do caixa poderia ter visto o nome nas páginas do livro e me avisado: ‘Senhor, este livro tem um nome marcado. O senhor o quer mesmo assim?”. Essa advertência faria toda a diferença. Não o quereria. Eu não me chamo Naiara, não tenho uma tia chamada Márcia tampouco nunca almocei um domingo sequer nas casas dos Melo e nem dos Aguiar. Não tive o prazer de dizer à minha tia que gostava do autor A ou B. Meu livro foi comprado no escuro, mais movido pelo gosto de ler, do qual compartilho com a anônima Naiara, e pelo carinho parental de uma tia que me quer bem. Minha tia – é bem capaz – não faz ideia dos escritores que gosto ou não. Nunca conversamos sobre literatura em nossas reuniões em família. Isso nunca me fez falta. Sempre tive assuntos diversos com minha tia e literatura não estava entre eles. Mesmo assim ela acertou ao me dar o presente como acertou a “tia” Márcia ao agradar sua sobrinha. Pra ela a coisa foi mais fácil, já que ela teve uma dica. Minha tia foi na raça. Chegou à livraria, pediu alguma orientação, explicou por cima como é o sobrinho, que ele gosta de escrever, é meio metido a poeta. Imagino que a moça que a atendeu, diferente da moça do caixa no sebo, teve essa preocupação “Olha, acho que ele vai gostar desse aqui. Se ele gosta de poesia, esse autor é o preferido entre muitos poetas. Tenho certeza que ele vai adorar”. Foi assim, com o mínimo de informação, mas o mesmo desvelo e o mesmo carinho que minha tia comprou o livro e escreveu algumas palavras legais, colocou nelas a alegria em dar um presente para seu sobrinho metido a escritor, metido a poeta e me entregou o livro em mãos. E saiu dessa cerimônia prosaica com uma certeza: Esse livro ficaria pra sempre na estante dele. Como está no exato momento em que rememoro tudo isso.
A culpa por ter roubado o livro deu lugar, então, a uma enorme indignação. Oras, então é assim que funcionam as coisas? Uma tia, sabendo que a sobrinha gosta de certo autor, compra um livro novinho pra ela, escreve-lhe algumas palavras carinhosas e dá o livro pelo aniversário da menina (ou moça. Não sei quanto anos a Naiara fazia, aliás, nem sei quem seja essa Naiara) para depois, essa mal agradecida desfazer do presente o dando a um sebo para ser revendido por uma ninharia? O livro está bem cuidado, aspecto conservadíssimo, sem marcas além do nome e da dedicatória. Isso é coisa que se faça com um presente?  Fiquei muito bravo. Eu nunca faria isso ainda que eu não tivesse o menor contato com uma tia minha. Tive vontade de pesquisar o nome na lista telefônica, descobrir quem é a tal Naiara Melo Aguiar e passar uma descompostura. E para caprichar ainda mais, eu ainda procuraria quem é a “tia” Márcia e contaria tudo: “A senhora não faz ideia do que sua ‘querida sobrinha’ Naiara fez com aquele livro maravilhoso que deu a ela de aniversário. Ela simplesmente o descartou como uma revista velha e o deu a um sebo”. Poderia causa um grande mal-estar em família. A “tia” Márcia não daria nem mais um folheto de presente à sua sobrinha desnaturada. Isso não se faz! Onde está a consideração? Poderia ser uma briga feia.
Poderia. Mas eu não estava a fim de causar nenhuma celeuma familiar com gente que nunca vi mais gorda. Li o livro, que de fato é muito bom. A “tia” Márcia acertou em cheio e a Naiara tem, de fato, muito bom gosto. Ao terminar, li e reli a dedicatória. Presumi que a “tia” Márcia, pela bela letra, devia ser professora. No dia seguinte, pus de lado a culpa em ter roubado um livro que não era meu, a indignação com uma pessoa mal agradecida que se desfaz de um presente e a vontade de me meter nessa relação, fui ao sebo e devolvi o objeto do crime a eles. Que outra pessoa se sinta ludibriada em possuir um livro marcado pelo carinho alheio e se vingue disso causando uma briga lítero-familiar. A partir daquele momento, nada disso mais me pertencia.

Francisco Libânio,
09/02/14, 11:30 PM

1628 - Soneto do encontro às cegas

Tudo pode acontecer.

Marcaram de se ver num bar.
Conhecer, diziam, não, pois já
Se conheciam bem desde lá
Quando começaram a se falar.

Nunca se viram e esse lugar
Movimentado e da moda será
O início de uma fase. Chegará
Ele primeiro. Pontual, exemplar.

Ela demora tipo em casamento.
A ideia má, o desapontamento
Invadem, mas em outra mesa

Uma moça espera. Não sabe,
Mas é ela. Ele vê, não se cabe
E a paquera. Trai com sutileza.

Francisco Libânio,
17/04/14, 9:03 AM

1627 - Soneto indelicado

Evita infartos e mal-estar.

Ter educação é uma virtude boa,
Sem dúvida, e ensina a ficar zen.
Dizer um elogio quando nos vem
Ventos de dizer o que se magoa.

Mas ser bonzinho e dizer uma loa,
Se é elegante e a ambos faz bem,
Tem o seu lado negativo também.
Pois fica melhor quem amaldiçoa,

Xinga, manda à merda que esse
Que sendo legal sem ter estresse
Elogia quando queria enfiar o pé

Na cara de quem recebeu a fineza.
Aquele alivia a alma com a crueza
E merece mais crédito e melhor fé.

Francisco Libânio,
16/04/14, 6:31 PM

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Hai-kai qualquer 08

Só pra quem recebeu...

Dia a mais no calendário,
Pra você uma folga, mas
Desde que pago o salário.

Francisco Libânio,
24/04/14, 6:26 PM

1626 - Soneto de rima óbvia

Ela na janela. Poesia em imagem!

Quis pegar uma palavra: Janela.
Procurou algo que como amor
Rimasse, algo tipo Amor e Flor,
E o máximo que acho foi “Ela”.

A rima era pobre, mas era bela,
Podia ser rasteira, mas o valor
De sua poesia valeria essa dor
De ser poeta. E pra matar: Sela!

Lógica nenhuma, mas a poesia
Ia saindo e aí emendou Alegria
Para fazer seu verso valer algo.

Mas “Algo”, rima demais foda,
Um palavrão rebateu sua moda
E acabou se achando o fidalgo.

Francisco Libânio,
16/04/14, 12:07 PM

1625 - Soneto instagraneado

Natureza morta dos tempos modernos.

Fotógrafo vê lá dada situação
E pensa “Que maravilhosa foto!”
Saca do celular no qual, devoto,
Se diz artista e rei da aplicação.

Fotografa, trata e põe a atração
No programinha com um moto
Pensado rápido e espera o voto
De quem vir a foto. A sensação

Do inédito obstrui todo o resto.
Programa, namoro. O imodesto
Artista fotografou o seu jantar.

A foto só recebe um comentário.
É a noiva a pondo fim no calvário
Que é, ao vivo, tudo isso aguentar.

Francisco Libânio,
16/04/14, 9:03 AM

quarta-feira, 23 de abril de 2014

1624 - Soneto da família tradicional

E ninguém fica sabendo o que tem por baixo dessa fleuma.

O pai, mantenedor e grande senhor
Da casa e sua mulher, boa esposa,
Os filhos, a educação já os entrosa
Dentro do formão da tradição, valor,

Conceitos que tem o branco de cor
E o preto a completar. A charmosa
Célula, aos moldes da tão cuidadosa
Criação, vê com desbragado horror

Como o mundo ficou tão degradado
Homem com homem fica lá casado,
Mulher com mulher ganha a simpatia

Enquanto eles, um modelo de família,
Guardam a boa e esperançosa vigília
Por alguém pra ensinar boa hipocrisia.

Francisco Libânio,
15/04/14, 5:44 PM

1623 - Soneto da família moderninha

O negócio é ter limites...

O pai tem uma fulana de cacho,
A mãe tem um casinho também,
Os dois sabem, então tudo bem.
É o estepe para aquietar o facho

Os filhos sabem e dão despacho
Ele e ela, a um casal, pois vão além
Na opção. Dia tem mulher dia tem
Homem. E ele não é menos macho

Por isso e nem ela é menos moça.
E todos foram alvo de muita troça,
E nem aí. Vivem bem a experiência.

Um dia, os irmãos se deram pega
Os pais souberam e disseram chega!
Até a modernidade pede decência.

Francisco Libânio,
15/04/14, 10:58 AM

terça-feira, 22 de abril de 2014

1622 - Soneto da família japonesa

Papai, tenho uma coisa pra te mostrar.

Discrição, dedicação e disciplina,
A família nipônica traz da terra natal
Uma educação tão rígida e formal
Que desde seus tetravós se ensina.

Erro algum, há a fidelidade canina
Dos pais e um certo amor parental,
Diferente do que sabemos como tal,
Mas uma rigidez séria, coisa ferina

Quando se sai dessa lei de conduta.
Cultura milenar, seriedade absoluta,
Honestidade cobrada e sem escusa

Para falhas. Até penso na imagem
Do pai surtando ao ver a tatuagem
Do filho que resolveu ser da Yakuza.

Francisco Libânio,
15/04/14, 9:25 AM

1621 - Soneto osmótico

A Juliana Paes até seria um motivo pra assistir novela.

Eu, às vezes, me surpreendo
Já que pouco vejo TV, novela,
Nada disso, se me vem a trela
Perguntas já vou respondendo.

Nome tema ou ator aparecendo.
A merda é que acerto. Sem vê-la!
E não vejo mesmo. Soa balela
E quem ouve vem escarnecendo.

Meus pais assistem, isso é fato.
Eles lá e eu cá no soneto. O ato
Não nos põe juntos, mas o som...

Este entra e na conversa informal
O tema surge e ouço. É maquinal,
Então, saber do tema nesse tom.

Francisco Libânio,
14/04/14, 1:13 PM

segunda-feira, 21 de abril de 2014

1620 - Soneto da família italiana

Ma che!

Mesa numerosa, pasta e vinho,
Mãos que falam como a boca,
Discussão, vozes altas e troca
De insultos sem perder carinho.

A família italiana é o burburinho
Em que a nona é ouvida e evoca
Os tempos idos e que a fofoca
É aberta e o contato comezinho

Fortalece. Seja a quatrocentona
Ou não, haverá uma tia matrona
E forte sotaque já característico.

Nada da terrível família mafiosa,
Mas tanta massa, vinho e prosa
Crime será algum motivo cístico.

Francisco Libânio,
14/04/14, 10:13 AM

1619 - Soneto do campeão improvável

Ganhou com propriedade.

No esporte, na política, em tudo
Tem o peixinho e tem o tubarão.
Esse, se passa o outro, obrigação
Faz e mais se só num cascudo

Derruba esse pequeno abelhudo
A medir forças, mas se a situação
Inverte e o pequeno, no safanão,
Atropela o grande, põe-se mudo

O mundo, surpresa total, irrestrita!
Às vezes o impensável vem e apita
A morte do gigante, cai um Golias.

E nem é um Davi, mas um menor
Ainda. E o futebol deu esse odor
Com algumas interioranas alegrias.

Francisco Libânio,
14/04/14, 9:00 AM

domingo, 20 de abril de 2014

1618 - Soneto áureo

Pronto, acabou a escravidão. Agora se vira.

Princesa Isabel decretou: É oficial!
Acabou a escravatura nessa terra!
Senhor, fazendeiro, a elite se ferra,
Agora os negros serão livres e tal...

O Brasil é o último a banir esse mal.
Mas ao tempo que livra a lei emperra.
A liberdade vez que a princesa erra
Em só dizer: Vocês são livres! Tchau!

Tinha que dar a liberdade e os meios
Para ser livre. Só ficaram os floreios,
A data, mas para garantir o sustento,

O negro se sujeitou à semiescravidão,
Depois ao preconceito e à exclusão,
Livre, mas com igual ou pior sofrimento.

Francisco Libânio,
13/04/14, 7:10 PM

1617 - Soneto cheio de beijo

Seja como for, é a melhor coisa que tem.

O dia do beijo é um dia daqueles
Que quem beija não sabe sequer
O que um dia do beijo quer dizer,
Os beijos tem, então, o dia deles?

Pergunta, pensa rápido naqueles
Beijos que deu. Recordar é viver,
Pensa. Recorda o da sua mulher
No casamento e até do mais reles

Beijo dado menino, bobo, estreia,
Até aquele que mudou sua ideia
Sobre não dar em mais nenhuma.

O casado agora saboreia o seu
Beijo preferido. Já o solteiro deu,
Mais beijos. O cartel se avoluma.

Francisco Libânio,
13/04/14, 3:45 PM

sábado, 19 de abril de 2014

Poema de fuga 18

Não enche, Sociedade.

Dois homens se beijaram
Pra torpor da sociedade,
Que odiou, quis prender, matar,
Jogar na cara a verdade,
O certo o modo de se portar,
Plantar dessa raiva a baba,
Um na multidão se gaba
Da retidão de caráter,
Do pai de família que é,
Aproveitou, divulgou sua fé
Puxando ali vozes mil,
Mas um ou outro não o seguiu
Falou da fé de araque,
Falou da propaganda
Gritou nome de banda
Sociedade sofreu o baque
Extremando estupidez
E os homens lá
Se beijaram outra vez.

Francisco Libânio,
04/01/14, 2: 33 PM

1616 - Soneto ricocheteado

Falou comigo?

Mandou alguma indireta no ar,
Tinha endereço, mas coragem
Era de tal e tanta defasagem
Que é bem mais fácil anonimar,

Deixar o vento dar seu lugar.
E ao lê-la, vi minha imagem
Retratada. Pensei na viagem
Que a indireta fez ao rodar

E rodar. Bateu em mim, tá,
Mas é melhor deixar pra lá.
É indireta e ela me acertou,

Mas tipo carta sem remetente
Enviada por um incompetente,
Ela não é para mim. Extraviou.

Francisco Libânio,
13/04/14, 8:55 AM

1615 - Soneto sem tempo

Nem vira escrever...

Sábado e soneto não se dão
Porque quem diz é a preguiça,
Dá regra e a poesia, submissa,
Acata e dispensa a inspiração.

Escrever, já se sabe, é o tesão
Desse poeta. Mas faça justiça...
Tesão também cansa. O que iça
E o anima num belo sabadão?

Boa pergunta? Olha-se lá fora,
Chove. A tal diversão se gora,
E a TV, pra variar, nunca ajuda.

Então, retomo o velho prazer
Da poesia. Pego-me a escrever.
O soneto que venha e me sacuda.

Francisco Libânio,
12/04/14, 7:53 PM

sexta-feira, 18 de abril de 2014

1614 - Soneto sem semancol

Na boa, acabou o clima...

Um casal no banco da praça
Conversa, se olha e o clima
Esquenta, a coisa se anima
E sem demora, ele a abraça,

Beija o rosto, a boca e traça
Seu trajeto. Quer ir pra cima,
Mas aí do nada se aproxima
Uma cara, senta e tira a graça.

O namorado pede sua licença.
O outro não dá. O que pensa?
Banco não é motel, ele não sai.

Que fazer? Discutir é bobagem,
Porrada não rola. A sacanagem,
Realmente, só os malas ela atrai.

Francisco Libânio,
12/04/14, 1:47 PM

1613 - Sonet que viu a graça errada

Sim, eu te achei linda. Sem gozação!

Sim, o poeta gosta de massa,
Mulheres com certo sobrepeso.
Das piadas saio forte e ileso
Deixe, pois, que o povo as faça.

O problema maior que se passa
É quando o espírito fica preso
Aguardando o chiste e é teso
Esperando que outro veja graça

Não na beleza, no charme em si,
Mas na gordura, a graça que ri
E não a que seduz. As beldades

Que já perdi pela desconfiança
Delas quanto ao tema balança
Fez de troça algumas verdades.

Francisco Libânio,
12/04/14, 9:30 AM

O discurso

Meu Deus, o que eu faço?

Foi elevado a chefe pelo seu antecessor, homem que, mais que marcar seu nome na História, praticamente a escreveu. A repartição se dividia em Antes e Depois do Chefe. Mas a peteca agora estava com ele. Era o primeiro de um novo tempo, mas se via pequeno para preencher tal lacuna. Julgou imprescindível abrir o seu reinado com um discurso. Mas o que diria? Que palavras? O Chefe, quando da despedida, num bar e já sob domínio do uísque, foi breve, mas preciso. Nem falou do sucessor. Talvez quisesse fazer uma surpresa. De toda forma, surpresa já não havia. Todos sabiam. E era preciso marcar território, deixar o esboço do seu nome para preenchê-lo com o tempo. Passou a noite pensando nisso. Queria ser grande como o Chefe, mas não ousava. Intimamente, queria pôr o outro no chinelo, fazer esquecê-lo. Só não sabia como. Debateu-se com seu discurso. Como queria ser espontâneo como fora o Chefe! Não conseguiria. O improviso nunca foi seu forte. Falasse na hora ia se embananar e ninguém o respeitaria. Ririam dele. Ter algo de antemão, previamente bolado era preciso. Mas nada saía. Folheou livros atrás de um pontapé inicial, mas não achava nada. Temeu parecer pedante. O chefe nunca usava citações. Produzia-as. O tempo corria e o discurso não vinha. Café e mais café noite adentro. Não resistiu. Sucumbiu ao sono e dormiu e perdeu a hora e não foi trabalhar.
Na repartição, a ideia era unânime. O novo chefe é um inepto. Por ser puxa-saco conseguiu a chefia. Falta logo no primeiro dia, o que esperar além disso? Previam-se tempos tenebrosos, uma era pra esquecer.

Francisco Libânio,
09/01/14, 10:06 PM

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Hai-kai qualquer 07 (Para Gabriel García Marquez)

RIP Gabo. Merece todos os aplausos!

Anos de solidão se impondo
De tantos cem anos até hoje
Em nossa pobre Macondo.

Francisco Libânio,
17/04/14, 8:29 PM

1612 - Soneto com falta de comunicação

Faltou notar a outra linguagem.

Passou por mim com um sorriso
Convidativo, achei que ela queria.
Mas fiquei na dúvida. Ia, não ia?
Procurei a ver algo mais preciso,

Um indício, um traço, um aviso.
Nada. Temi usar muita ousadia.
Se usasse e fosse à sua revelia,
Como disfarçar? Meu improviso

É ruim, pior que minha percepção.
Deixei estar, ela se foi e a atração
Que aí houvesse em nada resultou.

É que eu entendo melhor a fala,
Não saquei. O Destino não regala
Quando ela sutilmente me rebolou.

Francisco Libânio,
11/04/14, 7:06 PM

1611 - Soneto desprazeroso

É feio, mas satisfaz.

Coma legumes, escove os dentes,
Evite gordura, ande, seja saudável,
Seja educado e tenha jeito tratável,
Ofereça cordialidade aos presentes.

Cultive só experiências producentes,
Mantenha qualquer relação estável,
Seja ordeiro e seja sempre confiável,
Fuja dos celerados e dos indecentes

Educação, abstinência, comedimento,
Honestidade, diplomacia, refinamento;
Por uma vida absolutamente perfeita...

Serei tudo isso ou tentarei, ao menos,
Se bem que ter esses valores plenos
Deixaria a felicidade em viver rarefeita.

Francisco Libânio,
11/04/14, 12:05 PM

quarta-feira, 16 de abril de 2014

1610 - Soneto sobre a leitura íntima

E deixa acontecer...

Pode parecer, talvez seja, estranho,
Mas ao invés de ver mulher pelada
No banheiro, o poeta, ao dar agada,
Leva um livro e o lê com o assanho

Que teria se fosse ali um arreganho
Feminino. Ele adora a fotografada,
Mas xanas são iguais. Seja raspada,
Seja peluda, varia-se lá o tamanho...

Um livro guarda uma coisa diferente,
Uma poesia boa, o conto envolvente
Para anteceder o banho, o novo dia,

Ou para inspirar a hora do desafogo,
E se o livro for bom, nunca seja logo
O desapego. Que venha a disenteria.

Francisco Libânio,
11/04/14, 10:00 AM

1609 - Soneto atônito

Mas fala aí sobre sua inércia como Senador que apresentou quase projeto nenhum. Você não quer conversar?

O político me chamou, simpático,
Para termos lá uma boa conversa.
Convite legal, eis uma ideia diversa,
Conversar e não engolir tão apático

Qualquer coisa ou quedar astático
Acatando qualquer coisa perversa
Ou o aturar enquanto ele tergiversa
E não diz nada. Então fui enfático.

Perguntei sobre sua última gerência,
Período com duvidosa competência
E suspeitas do povo que era aliado.

Foi quando a conversa cessou toda,
Acabou, o moço desfez nossa roda
E apelou ao me mandar ficar calado.

Francisco Libânio,
10/04/14, 6:09 PM

terça-feira, 15 de abril de 2014

1608 - Soneto problematizado

Tirar as pedras do caminho te dá músculos de experiência.

A vida sem ter problema seria ideal,
Mar de rosas e o céu de brigadeiro,
Sol e clima ameno o tempo inteiro
E não se saberia o que é ficar mal.

Pois problema, lógico, não é legal.
Depressão? Te carrega pro bueiro,
Te faz enfiar num enorme vespeiro
E só você fica perdendo no final.

Então pra que ter problema na vida,
Que se alheie, que deixe protegida
Essa dádiva divina em seguro lugar.

Assim se chega ao fim, vida mansa,
Azar que não aprende nem se cansa
E não tenha lição alguma pra contar.

Francisco Libânio,
10/04/14, 12:11 PM

1607 - Soneto enriquecido

Aí, playboy morre de inveja e fala que ele roubou.

Mas quem mora na mansão, na elite,
Nos Jardins, na Zona Sul, Ipanema
Olha pra fora, só enxerga problema
A favela que cerca e se vê da suíte,

A fome a ofender seu nobre apetite,
A vida real a sair da tela do cinema,
Só que o pobre a fugir da extrema
Pobreza é o seu caos e não admite.

O cara da favela agora tem carro,
Tem celular bom e ainda tira sarro
Porque comprou com muito suor.

Para o cara da mansão, a senzala
Tá zuêra agora que já não estrala
O chicote e ela se iguala sem pudor.

Francisco Libânio,
10/04/14, 9:11 AM

segunda-feira, 14 de abril de 2014

1606 - Soneto empobrecido

Pelo menos tá pago. E os seus carnês atrasados da Mercedes?

Usam o fato do outro ser pobre
Como defeito, como algo a punir.
Usam seu elitismo para se sentir
Superiores. Veem um quê nobre

Em ter uma casa e em ter cobre
No banco, ouro excessivo a luzir,
O carro do ano fazendo impingir
O mal. Que o bem fútil soçobre,

Que o ouro se revele a imitação,
Que o carro bata e deixe na mão
E que a casa esteja paga. Será?

O soneto talhado no fino marfim,
Como a ostentação, acha seu fim
E o vexame da miséria se revelará.

Francisco Libânio,
09/04/14, 7:02 PM

1605 - Soneto pensado filosoficamente

Cabem mil assuntos na Filosofia sobre ela.

Valesca Popozuda virou pensadora
Contemporânea em prova de Filosofia.
Nada contra essa disciplina dar valia
À moça, mas, por favor, uma cantora!

A Filosofia tem essa coisa catalisadora
E usar a moça em questão só avalia
O quanto o funk significa hoje em dia
Por mais que chie a massa opositora,

A mesma que desce sem dó o cacete
No que vem do morro no seu gabinete,
Mas quando a roda dispersa e não vê,

Deixa a filosofia, esquece preconceito
E curte e ouve pancadão e sem defeito
Mata a questão que critica quando a lê.

Francisco Libânio,
09/04/14, 12:22 PM

domingo, 13 de abril de 2014

1604 - Soneto sem ênfase

Se fosse algo ácido, podia dar pra fazer uma limonada, ao menos.

Escreve-se sem ter um motivo,
O soneto sai sem ter a direção
Ideal, vai-se tomando uma mão,
Outra e vai ficando aglutinativo.

Soneto sem razão, só passivo
A qualquer ideia, toda emoção
Que aparece, sem identificação,
Bobo e para soar mais efusivo,

Uma palavra bonita e elegante,
Mas sem razão. E aí se garante.
O soneto já tem o que precisa.

Palavreado e até lição de moral.
Mas espreme a sair o substancial...
Sai uma aguinha e talvez brisa.

Francisco Libânio,
09/04/14, 9:15 AM

1603 - Soneto influente

Aí um gostou. Depois disso só a zorra!

Escreveria um soneto qual Bilac,
Escultor, preocupado com forma,
Usando tudo conforme a norma
A fim de agradar uma fina claque,

Plateia regada a uísque, conhaque,
Mas no andar, o soneto transforma,
Perde a finesse e só se conforma
Se tira violentamente o seu fraque,

Tipo um strip-tease e arrota gutural.
O público se enoja e mantem a tal
Fleuma até pra criticar este soneto.

Mas um no meio aplaude e desafia:
Soltem seus bichos como a poesia!
Eis que rola o rendez-vous completo.

 Francisco Libânio,
08/04/14, 1:13 PM

sábado, 12 de abril de 2014

Poema de fuga 17

Tem hora que é difícil entender.

Uma mulher me negou um beijo
Como se eu quisesse sexo
Outra me deu todo o sexo
Sem que eu pedisse um beijo
Diante de tal ousadia e do pejo
Diametrais e do mesmo ensejo
Digo que tudo é demais complexo
E nessa cama, com uma, eu vejo
Que se se juntam querer e desejo
Vez ou outra faltará o nexo.

Francisco Libânio,
04/01/14, 2:24 PM

1602 - Soneto em sala de espera

Lugar bonito agradável... Vai ver o que te espera.

Dia de dentista, aqui na espera,
Entendo como o boi se sente
Antes do golpe que, no repente,
Fina a vida. Se a coisa acelera

Não é bom. A dor chega. A cera,
No entanto, faz mais deprimente
A presença e o instante presente
São minutos que valem uma era.

Chega a vez, a secretária chama,
A dentista se cuida para a trama,
Te senta e te deita na equipada

Cadeira para cuidar da sua boca,
E põe coisa, tira e depois coloca.
Considera-se vingada a namorada.

Francisco Libânio,
08/04/14, 11:58 AM

1601 - Soneto da arca

Penso a orgia que deve ter sido lá dentro...

Escrevi sonetos de animais,
Visitei e repisei o bestiário
E achei um que o imaginário
Diria ser invenção demais,

Por serem quase surreais
De estranhos. O comentário,
O soneto, quis o anedotário,
Uma piada para esses tais

Mais estranhos bichos. Aí,
Pensei na arca. Como ali
Ficaram em paz os pares?

Quarenta dias abarcados,
E sexo por todos os lados
E dali as cruzas peculiares.

Francisco Libânio,
08/04/14, 9:07 AM

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Vais morrer!

Abre e ouve o que eu tenho a te dizer!

Bateu à minha porta e quando abri, eu o vi. Nada me disse que não fossem aquelas duas palavras.
- Vais morrer!
O sujeito não estava armado. Nada de coldre com arma ou uma faca na cinta. Também não tinha jeito de saber nenhuma arte marcial capaz de dar cabo de um homem e parecia tão moloide, tão desengonçado que, no caso de nos metermos numa luta corpo-a-corpo, eu, nada atlético nem hábil, poderia com ele sem grandes problemas.
Mas luta corpo-a-corpo não teve. Nenhuma ameaça ou violência. Apenas disse “Vais morrer!”, virou as costas e sumiu. Nunca mais o vi. Mas a ameaça me assustou. Um assassino educado, mesmo um emissário, merece que as devidas providências sejam tomadas. Não posso dizer que minha casa fosse um lugar seguro, ou não teriam esse acesso fácil à porta. Tratei de cuidar disso. Subi um muro mais alto e um portão eletrônico. Quisessem falar comigo doravante, que fosse via interfone.
Também não permiti que esse muro fosse alto o tanto que nada eu visse da rua. Para me precaver, também instalei uma câmera em minha casa. Qualquer movimentação estranha seria sabida por mim.
Quando soube de assaltos nas proximidades da minha rua, o medo tomou conta. Era uma câmera, viraram três. Nenhum dos assaltos terminou em morte. Queriam dos meus vizinhos os bens, mas só de mim, um estranho com hombridade queria a vida, tanto que me avisou disso. Eu morreria. Pois então que eu me cuidasse.
Foi quando percebi que não era só em minha casa que eu deveria ter cuidado. Quase caí pra trás quando soube que desde então passei um arriscado período sem me proteger. Blindei meu carro e tive aulas de direção defensiva. Sabia como me portar em uma situação de perigo no carro. Por via das dúvidas, também tomei algumas aulas de tiro e sempre uma arma no carro para qualquer eventualidade. O assassino até poderia me matar, mas, certamente, iria junto comigo.
Logo descobri outro vacilo da minha parte: a rotina. Para ir ao trabalho, eu sempre usei o mesmo e manjadíssimo caminho. Passei a diversificar as rotas. Nunca o mesmo trajeto por duas vezes seguidas. Um amigo me sugeriu, não sei se de gozação, que eu variasse os carros também. Considerei isso, mas logo todos os carros que eu tivesse ficariam marcados. Para evitar isso, procurei ir ao trabalho a pé ou de ônibus. Seria muito risco me expor assim, mas saberia como me portar caso algo acontecesse.
Nunca aconteceu. Minha casa nunca foi violada. Durante as idas ao trabalho, o máximo que acontecia era alguns garotos lavarem meu vidro atrás de uns trocados, que nunca dei. E quando me sentia ameaçado, acelerava os assustando. Certamente não seriam eles que me matariam. Nem mesmo na vez que me meti, com toda a coragem do mundo, a viajar de férias aconteceu um problema. Pensei encontrar minha casa incendiada na volta. E eu a encontrei tão ilesa quanto a deixei.
Do dia em que recebi aquela temerosa visita até hoje em que escrevo essas linhas, passaram-se quarenta e três anos. Não acredito que o homenzinho que tenha me ameaçado tenha durado esse tempo todo. Não aparentava boa saúde e parecia ter certa idade. Não vou mais ao trabalho, me aposentei. Hoje meus dias são tediosos. Por conta do ocorrido, evitei contato com muitos estranhos, mulheres inclusive. Logo não tenho esposa ou filhos. No fim das contas, acho que aquele salafrário veio me avisar de algo que eu sabia desde sempre que ia acontecer: Eu morrerei, um dia. Mas graças a esse grande animal, eu me apavorei, tomei providências exageradas e me recluí do convívio social. Deixa estar. Quando eu realmente morrer, onde estiver esse cretino, pegarei pelo pescoço e ele morrerá como me disse um dia que eu ia morrer. Mesmo depois de morto, porque se ele fala, eu faço!

Francisco Libânio,
17/01/14, 9:01 PM

1600 - Soneto do cachorro

A gente podia resolver isso sem ninguém ser ofendido, não acha?

O cachorro ficava em dúvida cruel
Como podia ser um melhor amigo
Enquanto esse amigo, por castigo,
Por ofensa pesada e sem ter mel

Chamava de cachorro pondo fel
No nome desde um leve inimigo
Até um desafeto do mais antigo.
Logo o cachorro, o parceiro fiel,

Companheiro de guardar a casa,
Agora vai virar uma ofensa rasa?
Muito melhor seria ser ele sócio

Do que xinga, falar quem é o tal
Que levará o nome, contar o mal
E uma mordida resolve o negócio.

Francisco Libânio,
07/04/14, 7:28 PM

1599 - Soneto do gato

Se você não entende meu jeito de ser só lamento.

O gato, por ser independente,
Era tomado mal agradecido
E por ser furtivo ele era tido
Como ladrão. Era inclemente

Todo julgamento e frequente
A associação e ser recorrido
Ao termo gatuno ao bandido.
Bem o gato, bicho presente

À humanidade, quê de beleza,
Tanto divino e algo de realeza
Impingir tanta má associação.

O gato era fiel à sua maneira
Não tinha a índole prisioneira,
Era livre e disso fazia questão.

Francisco Libânio,
07/04/14, 12:13 PM

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Hai-kai qualquer 06

Alguns são eternos. Aceitem.

A Bossa Nova, gente,
Tem essa coisa dela:
Será nova eternamente.

Francisco Libânio,
10/04/14, 6:16 PM

1598 - Soneto do rato

Se eu tivesse um rabinho peludinho, a história seria outra.

O rato se sentia injustiçado.
Ele era nojento, asqueroso,
Evitado por ser contagioso,
Vivia no esgoto segregado

E o primo esquilo, adorado,
Fofinho, levado de gostoso.
Ao esquilo, o carinho, gozo.
Já a ele, só o asco ilimitado.

Talvez o esgoto, submundo,
O ambiente fétido e imundo
Fizessem-no como o diabo.

Ou provável, como o esquilo,
Que era bonitinho, tinha estilo
E pelos, seu mal fosse o rabo.

Francisco Libânio,
07/04/14, 9:14 AM