sexta-feira, 18 de abril de 2014

O discurso

Meu Deus, o que eu faço?

Foi elevado a chefe pelo seu antecessor, homem que, mais que marcar seu nome na História, praticamente a escreveu. A repartição se dividia em Antes e Depois do Chefe. Mas a peteca agora estava com ele. Era o primeiro de um novo tempo, mas se via pequeno para preencher tal lacuna. Julgou imprescindível abrir o seu reinado com um discurso. Mas o que diria? Que palavras? O Chefe, quando da despedida, num bar e já sob domínio do uísque, foi breve, mas preciso. Nem falou do sucessor. Talvez quisesse fazer uma surpresa. De toda forma, surpresa já não havia. Todos sabiam. E era preciso marcar território, deixar o esboço do seu nome para preenchê-lo com o tempo. Passou a noite pensando nisso. Queria ser grande como o Chefe, mas não ousava. Intimamente, queria pôr o outro no chinelo, fazer esquecê-lo. Só não sabia como. Debateu-se com seu discurso. Como queria ser espontâneo como fora o Chefe! Não conseguiria. O improviso nunca foi seu forte. Falasse na hora ia se embananar e ninguém o respeitaria. Ririam dele. Ter algo de antemão, previamente bolado era preciso. Mas nada saía. Folheou livros atrás de um pontapé inicial, mas não achava nada. Temeu parecer pedante. O chefe nunca usava citações. Produzia-as. O tempo corria e o discurso não vinha. Café e mais café noite adentro. Não resistiu. Sucumbiu ao sono e dormiu e perdeu a hora e não foi trabalhar.
Na repartição, a ideia era unânime. O novo chefe é um inepto. Por ser puxa-saco conseguiu a chefia. Falta logo no primeiro dia, o que esperar além disso? Previam-se tempos tenebrosos, uma era pra esquecer.

Francisco Libânio,
09/01/14, 10:06 PM
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