sexta-feira, 21 de março de 2014

Um inimigo do povo

Sim, é baseada em fatos reais.

Lembro como se fosse hoje. O jogo entre o meu time contra o da minha pequena cidade era anunciado há tempos. Desde quando o time da cidade subiu para a Primeira Divisão já se esperava pelo enfrentamento com os grandes do Estado. Quando a tabela marcou o jogo entre o time daqui contra o meu time, a cidade se fez em polvorosa e eu muito mais. Seria a primeira vez que assistiria ao meu time no estádio. Nada de maracanãs ou pacaembus. O jogo seria no acanhadíssimo campo da cidade, aquele que acomodava quinze mil almas sem padrão FIFA, sem estofamentos. Bunda no concreto e que seja feliz. Para mim, o sacrifício em ver meu time ao vivo valeria a pena.
Chegando o dia do jogo, a cidade se empolgava como se empolgava um amigo meu. Empolgação que virou surpresa e reprovação:
- Não acredito que você vai torcer para os homens! E amor pelo seu chão, onde fica?
- Não fica. E nem vem que eu sei que você não torce para o time daqui, mas pra outro. Deixa de ser hipócrita! – respondi. Não aguentava encheção e bairrismo de quinta.
- Mas é o time da nossa cidade, caramba! Temos que mostrar apoio, principalmente quando é contra time graúdo. Não dá pra virar a casaca nem por noventa minutos?
Falava isso porque contra o seu time o da nossa cidade teria que viajar para a Capital. Ou seu discurso seria outro, tenho certeza. De qualquer forma, marcamos irmos juntos ao estádio.
No fatídico dia, passei na casa do meu amigo e fomos. Em mais uma tentativa de me fazer culpado, confrontou as cores do time do nosso rincão frente à camisa que eu usava.
- Não mudou de ideia mesmo, hein? Vai ser piada durante um ano se seu time perder.
Se meu time perder. A condicional mudava toda a história. A situação do time local na tabela não era desesperadora, mas era franco o favoritismo do meu time. Também não iria fazer troça caso meu time ganhasse. Uma porque soava obrigação. Outra porque eu não era louco. Chegamos ao estádio e, fora a gozação de um e outro conhecido, minha camiseta de cores forasteiras não provocou nenhum grande problema. Quanto a isso e diferente do que se vê sempre na TV, as torcidas se comportaram exemplarmente. Mesmo os torcedores que pegaram estrada pra ver o meu time não ofereceram problemas.
Começa o jogo sob uma chuva de aplausos. Certa forma, o sonho de uma pequena cidade se realizava naquele momento. Para a minha surpresa, o time da nossa cidade sai pra cima sem medo de uma goleada. 
Meu time assimila bem os ataques e também leva perigo aos meus conterrâneos. Meu time pressiona enquanto o time da nossa cidade segura a onda, ataca pouco, mas quando o faz é incisivo. Tão incisivo que – surpresa! – meus conterrâneos abrem o placar numa cochilada da defesa do meu time. O estádio vibra em hurras. Meu amigo se diverte às minhas custas.
- Deixa estar. Foi infelicidade. – respondo entre os dentes. Estou calmo, mas maculado.
O jogo fica complicado. A vantagem enche de brios o time da minha cidade que, se fez um, pode fazer outro e luta por isso. Meu time, ao contrário, parece ter sentido o golpe. A tranquilidade acaba junto com o primeiro tempo em um a zero. Quem passa por mim tira uma casquinha. Digo que o segundo tempo será diferente.
E começa me dando certa razão. Meu time, já no primeiro ataque, vem violento para a meta local e empata. O estádio vem abaixo. Eu me contenho. Não vou comemorar. Não ali nem àquela hora. Penso que o jogo ficará naquilo. Imagino que meu time não vá querer sapear uma goleada histórica agora que, aparentemente, tem o controle da situação nem o time da cidade vá ser camicase ao procurar outro gol. Ledo engano! O time da casa retoma a bola e chuta duas bolas à queima-roupa contra a minha meta. Goleiro fez milagres. Numa terceira oportunidade, o atacante da casa não perdoa. Faz o segundo gol e corre para os braços da torcida. Está tudo bem agora? Aparentemente. Meu time parece tão surpreso com o revés que não agride mais. Procura se restabelecer, mas são cerca de quinze mil jogadores – menos a torcida visitante e eu – extras a empurrar e desfraldar as cores da cidade. A empolgação das arquibancadas contagia os jogadores da casa. Outro ataque fulminante. Outro gol. Quando vejo que a coisa não pode ser pior, um zagueiro do meu time faz um pênalti inútil. Quatro a um para o time do meu chão. E antes que o juiz trile o apito final, vem o gol da humilhação. Cinco a um. Festa em minha cidade. Meu amigo não sai do meu pé. A cidade não sai do meu pé. A previsão do meu amigo se cumpre. Um ano de gozação. Situação insuportável. Foi um jogo, eu sei, mas foi um dia histórico. Quase uma vitória do oprimido contra o opressor além da manjada vitória de Davi frente a Golias. Voltei pra casa com cinco boladas na cabeça quando a cidade voltava em júbilo.
Em casa, as entrevistas dos jogadores do meu time dizendo que “hoje foi o dia deles” não serviram pra me animar nem perdoá-los. Deles quem, cara-pálida? Meu não foi como não foi o resto da semana. Naquele ano, meu time foi campeão e, ao contrário do que até a torcida acreditava, o time da minha cidade não caiu pra Segunda Divisão. Outros jogos aconteceram entre os dois times no mesmo acanhadíssimo estádio e, claro, o raio não caiu duas vezes no mesmo lugar. De qualquer forma, eu que ainda moro na pequena cidade, sempre que meu time vem pra cá, um dia antes eu viajo e vejo o jogo pela TV.

Francisco Libânio,
28/02/14, 5:34 PM
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