segunda-feira, 9 de março de 2015

Rotina

Tudo começou no fatídico momento em que acordei e aquela quinta-feira começou para mim sem a perspectiva de nada especial. O café da manhã foi o frugal de todo dia. Um copo de leite, um pão com manteiga.
Quis comer algumas bolachas para poder reforçar o estômago. Não tinha bolacha. Anotei na caderneta. Comprar bolacha após o trabalho. Não esquecer (eu sempre esquecia).
Ao sair para o serviço, ao tomar o ônibus, um evento que deixou o dia menos interessante. Meu ônibus saiu sem mim. Talvez eu tivesse me demorado pensando nas bolachas e esqueci do ônibus. No que toca à pontualidade sou de uma exatidão britânica. Não foi o caso hoje. Certamente, eu levaria um esporro do meu chefe. “Pô, logo você se atrasando?! Onde vamos parar?”
Ao chegar ao trabalho, a notícia que aliviou. Meu chefe também atrasou. Mandou avisar que o carro tinha quebrado e que achar mecânico àquela hora estava fogo. Infelizmente não teria um superior para dar o esporro que ele daria se tivesse chegado antes de mim. Não quis saber. Meti-me em minha mesa e comecei a descascar os abacaxis do dia. Que não eram poucos. Uma hora após a chegada de todo mundo, o bonito chegou. Pediu desculpas, disse que isso não é exemplo e que ele, como chefe, devia ser o exemplo. Deu vontade de ser o líder de uma revolução naquela microcélula capitalista. Mas não dava tempo. A mesa estava cheia de papéis pra assinar, memorandos pra redigir e tempo de menos para resolver tudo. Enquanto isso, o chefe tomava uma xícara de café, terminava seu último cigarro e foi para sua sala. Por um desses infortúnios, minha mesa era próxima de sua sala.
O que eu sei é que a manhã foi terrível. Primeiro pelo trabalho, que era puxado (eu, que sou pontual, precisava ser menos procrastinador, menos amigo do último momento) e depois pelo meu chefe. Enquanto eu estava assinando papéis, redigindo memorandos, o biltre gritava para quem quisesse ouvir com o mecânico de seu carro. Chamou-o de filho da puta pra baixo. Xingou tanto a mãe do pobre homem que eu seria capaz de dizer que ele já tinha saído com ela uma tantas vezes e comido a mulher outras tantas. O lance é que, durante a manhã, meu chefe não fez absolutamente nada relativo ao seu mister. Seu carro estava enguiçado na avenida principal, ele teve que tomar um táxi, uma nota (os táxis na cidade são pela hora da morte, por que ele não anda de ônibus?) e o mecânico disse que a coisa era mais séria que se previa. O conserto ficaria, pelo que entendi, um táxi e meio. Ou dois ou três. Bateu o telefone e foi almoçar. E eu estava à base de barrinha de cereal.
À tarde, ele resolveu trabalhar, o que eu estava fazendo desde que cheguei. Cheguei atrasado, mas peguei o touro na unha. Ah, se eu fosse resolver qualquer problema pessoal no meu worktime... Continuei minha labuta. Tomei um café, comi umas bolachas (no serviço tinha, ainda bem, mas eu já tinha perdido o tesão, era fome). Foi, de fato, uma tarde sem problemas se eu desconsiderar meu chefe bufando na sala dele quase querendo matar um.
No final do expediente, que resolvi estender para compensar meu atraso, toca o celular do meu chefe. Era a esposa do meu chefe. Não sei o que aconteceu, mas a discussão foi feia. Chamou a mulher de vadia, de rampeira e de tudo que era nome. Mandou ela e o professor da academia para o inferno. Parecia que eles iam para outro lugar e que o casamento tinha acabado. Bufando, espumando, olhos injetados, atendeu, outra vez, o celular. Era o mecânico dizendo que o problema no seu carro era muito grave. Muito pior do que ele imaginava, que já era pior do que estava presumido. Mandou o mecânico à merda até que, do nada, silenciou. Eu estava terminando um último memorando. Além do quê, nunca fui de me envolver em problemas particulares dos outros. Tinha mais. Eu e meu chefe nem éramos próximos. Ele me chamava pelo sobrenome como a todos ali. Pelo menos, a barulheira tinha acabado. Vinte minutos depois, outra barulheira. Dona Eduarda, a secretária, foi levar um recado ao chefe e saiu gritando. O escritório se alvoroçou. Quando fui ver o acontecido dei pelo fato. Meu chefe estava morto. Um ataque cardíaco fulminante. Era muito estresse, era muito cigarro e agora o carro estropiado e a mulher pedindo a conta. Toca a ligar pra funerária, pra esposa do chefe (“Não quero nem saber, foi tarde o miserável!” teria dito pra dona Eduarda quando telefonou para comunicar), marca velório, marca funeral. Quando eu vi que meu serão já demorava quarenta minutos, fechei meu dia. Cheguei atrasado, trabalhei a mais e ainda tive que presenciar um corpo morto. Eu queria que fosse um dia normal, não tinha perspectiva nenhuma pra nada e tudo que vi hoje foi confusão, estresse e um infarto. Não quero mais saber disso. Mudar de emprego eu não vou, mas procurarei ser mais pontual que já sou. Odeio quebra de rotina.

Francisco Libânio,
09/03/15, 6:49 PM
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