terça-feira, 31 de março de 2015

Caso de carnaval

E o Viriato, que era um sujeito tranquilo e de hábitos quietos, viu na folhinha que o Carnaval estava batendo na porta. E ele era categórico: Pular Carnaval ele só pularia se houvesse algo que o fizesse ejetar da quinta-feira (porque pra ele sexta-feira, mesmo não sendo, também era Carnaval) pra outra quinta feira pós-cinzas (porque a quarta-feira sempre tinha um chorinho de festa, uma saideira, um bloco temporão). Não curtia a data. Até se arriscava a ver algum desfile na televisão, mas eram os vinte minutos necessários pra encher o saco e desligar o aparelho:
- Essa joça nunca acaba! Cansei!
Só que como tal máquina não foi inventada, o Carnaval chegou e não teve jeito. Não foi dessa vez que o Viriato pulou o Carnaval como pretendia. Pelas ruas, o colorido se fez mais contrastante com sua alma acinzentada. Não bastavam os blocos que já há dez dias impedia de andar tranquilamente pela rua e fechava rua por onde ele pretendia passar. Tome ginástica pra achar caminho alternativo pra onde quer que fosse e escapar dos desocupados que pulam suados pela rua. Ócio incentivado pela mídia e de vícios combatidos por ela. Mas se ela mesma o criou – pensava ele – como combater? Enfim, estava em casa ao virar a folhinha e a sexta feira de carnaval dar o primeiro grito de seu martírio anual.
E como se não bastasse, ainda morava num prédio cuja rua passavam foliões indo para um carnaval de rua. Resolveram fazer um festejo numa praça próxima e a população das imediações aderiu sem qualquer resistência. Primeiro ano de muitos. Não era o bastante tudo na TV, jornais, internet falar de Carnaval. Ele ainda vinha visita-lo sem sua anuência nos andares de baixo. E como não adiantava mais ir atrás de lugares pra fugir, pacotes de viagem e não havia tempo hábil pra construir um bunker mais seguro que o seu, resolveu se exilar onde estaria mais frágil: A rua. Correu atrás de algum boteco longe de carnavais de verdade, de festas, de foliões. Achou um, outro lado da cidade. O que tinha de carnaval ali era a TV ligada nos desfiles.
- Dos males o menor, pelo menos, o volume tá baixo e não incomoda. – pensou e pediu uma cerveja e depois outra. E mais outra e uma porção de torresmo. A comilança estava boa demais e o grau etílico até fez esquecer o carnaval. Do nada, eis que entra no boteco, uma mulher com penas na cabeça, fantasia completa. Pensou: Até aqui ele me persegue?
A moça sentou ao seu lado, pediu um torresmo de sua porção ao fim. Resolveu ser educado (ou hipócrita) e pediu uma para os dois. Eis que ela, ao beber uma cerveja (parecia já ter iniciado os trabalhos noutro lugar), abre o coração:
- Odeio o Carnaval!
E contou que era rainha de bateria da escola do seu bairro. Era porque a escola destituiu a moça sem quê nem porquê. Chegou fantasiada e recebeu a notícia. Estava fora. Podia ser uma passista ficar numa ala especial devido aos serviços prestados, anos desfilando a frente da furiosa de sua agremiação. Mandou a agremiação, a ala especial e os serviços prestados para onde eles quisessem enfiar. Estava fora e estava fora por toda. Sem prêmio de consolação.
- E por que tá vestida assim se nem vai desfilar nem nada? Quer chamar a atenção?
- Chamar a atenção vestida assim? Meu filho, nem que eu ficasse nua em pelo, sem tapa-sexo, sem nada eu ia chamar a atenção. Passista sozinha não atrai olhar nem de mendigo. Eu tô assim pra mostrar pro Carnaval que eu posso ser rainha querendo ele ou não. E sem precisar dar pra ninguém. Quer saber de uma coisa? Eu sou o Carnaval. Eu sou a alegria.
- Mas você disse que odeia o carnaval, então que história é essa?
- Eu odeio esse Carnaval que está aí, que não sou eu. Essa festa ordinária que me tirou pra colocar uma zinha que nem do meu bairro é. Uma mulher de peito siliconado e cheia dos aditivos e dos bolsos cheios que resolveu ser do povo por quatro dias, mas nunca foi na nossa quadra. Então eu resolvi ser o Carnaval sozinha e quem for brasileiro que me acompanhe. Quem não for que fique com esse Carnaval e arreganhe a bunda pras câmeras que eu tô fora.
E continuou comendo o torresminho convidado enquanto ele, que também odiava o Carnaval beliscava em silêncio alguma outra coisa. Não se falam mais até ela perguntar onde ele morava. Pediu que a levasse pra casa dele. Ele, movido pela cerveja, pela carência e por alguma compaixão recôndita a levou. Mais que isso, a acomodou pelos quatro dias em sua casa, em sua sala e em sua cama. Pela primeira vez passou o Carnaval animado. Quando ela foi embora na Quarta de cinzas, sem fantasia, ele lembrou que não sabia seu nome, mas sempre se falavam por telefone e por comunicadores. E sempre a tratava pela forma que ela mesma se chamava: Carnaval.

Francisco Libânio,
11/02/15, 11:17 AM
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