sábado, 11 de abril de 2015

A Rússia e a minha vida

A primeira vez que eu ouvi falar de Rússia, ainda não era exatamente a Rússia. Era a União Soviética, abarcava outros países e ainda não era exatamente seguro nem “politicamente correto” demonstrar simpatia por ela. Tudo coisa que soube mais tarde. Na época, eu tinha apenas nove anos e, por algum motivo, eu gostava da sigla CCCP nas camisas dos esportistas da, então União Soviética, nas Olimpíadas de Seul. E a cor vermelha sempre me agradou. Pra família era simpatia de criança, coisa boba.
Passou-se o tempo, a Rússia apareceu depois de quebrar a União Soviética a partir de nomes que eu achava engraçados quando criança. Glasnost, Perestroika, Gorbachov. Vieram juntos os outros países que mais bagunçaram a minha vida de, então, prodígio familiar por decorar países e capitais. Era muito melhor quando a única capital era Moscou. Agora a família abusava do prodígio. E se eu não soubesse que Bishkek era a capital do Quirguistão era quase como uma derrota do Mike Tyson pro Buster Douglas. Deixei isso pra lá. Os novos países estavam muito longe de minha vida semiadolescente.
Vieram as aulas de Geografia, uma quase doutrinação de que a Guerra Fria, recém-acabada, tinha um derrotado, a União Soviética, e que simpatizar com o derrotado era ser derrotado também. Paralelo às aulas, a cabeça que queria ter, ter, e ter guiada pelas propagandas e pela sanha consumista. O negócio era ir pra Disney e nunca conhecer a Praça Vermelha. Praias no estrangeiro eram as de Miami, da Califórnia e nunca ninguém falou das praias do Mar Negro. As praias da Crimeia nem eram citadas. Foi um momento em que a Rússia morreu. Terminou que eu, jovem de classe média, diferente de muitos iguais a mim, nunca fui pra Disney, não conheci Miami, nunca estive nos EUA enfim. E isso nunca me fez, exatamente, falta. Acabei sendo um americanófilo sem nunca pisar lá. Nem na Rússia.
Ficando adulto e estudando o mundo e a Rússia em História e em Geografia, alguma coisa da admiração pelos russos voltou. Nada a ver com Stalin e a transformação negativa e tirânica de um sistema que, no papel, podia dar certo, que era o Socialismo. Nada a ver com o que os governantes pós Stalin fizeram, menos repressivo, mas igualmente desvirtuado do que era pra ser o governo dos sovietes, esse sim me agradava e agrada se tirar a violência e a repressão. Além do quê, a União Soviética e seu mosaico de raças, povos e línguas também eram interessantes. Eis que me cai nas mãos o primeiro escritor russo. Fiodor Dostoievski. Leio Os Irmãos Karamazov e Crime e Castigo. A literatura russa, a partir de um escritor, me cativa definitivamente. Logo vem Ana Karenina, Tolstói é outro que arrebata o gosto. Lê-los me dá a vontade de aprender o idioma e ler tudo no original, mas ter que aprender outro alfabeto, além de outro idioma, me faz usar as palavras de uma amiga “Aprender russo, eu quero, mas não vai ser nessa vida”. De qualquer forma, espero encontrar uma tradução boa de Guerra e Paz pra ler.
Tudo isso pra dizer que hoje, tenho um carinho que vem de criança pela Rússia, adoraria conhecer o país, se possível andar de trem pela Transiberiana, ferrovia que liga Moscou a Vladivostok (que eu só conhecia de jogar War) e ver como é esse imenso país. Agrada demais ver a Rússia ser um dos emergentes da economia mundial e ainda tem, por conta do passado soviético, certo respeito pelo mundo. Não há uma admiração política ou ideológica até porque a União Soviética mais errou que acertou e, por isso, sucumbiu. Resta uma Rússia tão contrastante quanto o Brasil e seus parceiros de BRICS. Fica o carinho, mas vendo um país com tudo isso e um líder que podia ser exemplo tomando decisões tão ruins para uma parcela de sua população como admirar? Um homem que lidera o país a um crescimento econômico e chega mesmo a peitar grandes potências emulando momentos mais tensos da Guerra Fria consegue ser tão preconceituoso? Como um sujeito, desses marca por ser um homofóbico convicto que derrama ódio por gênero para a Instituição? Mesmo sem ser homossexual, agride a quem admira, mais que a Rússia, mais que a literatura russa, o ser humano e sua diversidade. Continuo admirando a Rússia da minha infância, mas esses russos, diferente de Tolstói, merecem meu repúdio.

Francisco Libânio,
09/11/14, 1:38 PM


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