sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Terêncio

"Como você faz isso?"

- Seu Edgar, o Terêncio ligou. – foi o recado que a empregada disse assim que chegou em casa.
- Terêncio? Que Terêncio?
- Não sei, seu Edgar. Sei que ele deve conhecer o senhor. Perguntou se o Branco tava em casa.
Branco, esse apelido que o acompanhava desde criança era quase mais famoso que o próprio nome. Pouca gente o chamava de Edgar. Quem o chamasse assim, certamente, era desconhecido. Até a empregada às vezes se traía e chamava o patrão de Branco. Excesso de intimidade que nem dava pra brigar. Todo mundo chamava assim. Quanto ao Terêncio, ele não fazia ideia de quem fosse. Mas a empregada deu a outra parte do recado:
- Eu disse que o senhor voltava às seis e ele ligava às seis e meia. Parecia muito a fim de falar com o senhor.
Que seja. Deve ser algum amigo de outro tempo que ele não se lembrava. Tinha uma turma grande na escola e era popular na faculdade. Às seis e meia o mistério se resolveria. Mas não se resolveu. Seis e meia o telefone não tocou. Contou pra mulher sobre o Terêncio. Ela foi prática:
- Se queria falar com você, não devia ser tanto assim ou tinha ligado.
No sábado, saiu pra comprar jornais. Quando voltou, foi a mulher que jogou mais lenha nessa fogueira:
- Amor, o Terêncio ligou de novo. Pediu desculpas por não ligar ontem e disse que não pode ligar esse fim de semana. Vai viajar, mas na segunda sem falta. Ficou muito feliz em saber que o Branco tinha casado. Parece um amor de pessoa.
Ora, veja. Parece ser um boa-praça esse Terêncio? Como não me lembro desse sujeito pensou o Edgar. Tentou passar o sábado e domingo sem pensar nisso, mas não conseguiu. Veio a segunda e de manhã foi trabalhar. Por uma folga na sua agenda, conseguiu almoçar em casa. Indo pra casa, encontrou os filhos, mas não a esposa. E normalmente era ela quem os buscava na escola. Como isso?
- Foi o tio Terêncio que trouxe a gente.
O quê? Como assim!
- É, pai. O tio Terêncio é pai do Danilo, colega de sala. Viu a gente na escola e o Danilo falou que a gente era filho do Branco (nem os filhos deixavam de chamá-lo assim. O mais novo ficou surpreso quando alguém perguntou pelo Edgar. “Ele não mora aqui, não”). Ele disse “Deixa que eu levo vocês pra casa”. Veio pra cá conversando e contando história. Um cara muito legal. Disse que te liga às seis e meia sem falta.
Foi ao trabalho querendo que o tempo passasse rápido. Queria estar seis e meia em casa pra atender esse telefonema e matar a curiosidade. Só que o tal Terêncio disse que ia ligar seis e meia na sexta e não ligou. Mas ligou sábado e pediu desculpas. Sinal que costuma cumprir seus compromissos e não gosta de faltar com eles. Além de tudo, parece ser um grande cara. Sua mulher e seus filhos o adoraram. E essa seis e meia que não chega? Quando bateu quinze pra seis, saiu e foi pra casa pensando no telefonema. Faltando cinco minutos pras seis e meia, o telefone tocou. “Ele também deve estar doido pra rever o amigo de outrora” pensou e atendeu:
- Terêncio?
- Branco! Como está rapaz? Finalmente nos achamos, hein?
- Pois é.
- Liguei pra você sexta e sábado sem te encontrar. Disse pra mim mesmo que de segunda não passava. Encontrar seus meninos na escola foi um sinal divino de que ia dar certo.
- Veja você. Mas diga lá, como achou meu telefone?
- Então. Estou procurando uma casa e vi no jornal uma que estava a venda. Endereço, telefone e tudo mais. Passei pra ver onde era. Quando vi que era a casa do Branco, eu fiquei doido. Pô, a casa que a gente passou nossa infância e o Branco vai vender? Pois eu compro.
Casa que a gente passou a infância? Edgar estranhou. Se mudara praquela casa há seis anos vindo da capital. Como assim?
- Espera aí? Você não é o Cláudio?
- Não, meu amigo. Meu nome é Edgar.
- Caramba! Que mancada! É que eu tinha um amigo, o Cláudio. O apelido dele era Branco e ele morou aí desde a infância. Olha, me desculpa por tudo isso e também por ter pego seus meninos na escola. Pode ficar tranquilo que eu sou gente do bem. E manda um salve pra sua esposa. Ela me pareceu uma mulher muito simpática. Mas se eu encontrar o safado do Branco, vou dar uma dura. Como ele vende a casa em que crescemos? Olha, de verdade, me desculpa o incômodo, tá?
E desligou sem esperar pelo imagina nem pelo muito obrigado. Quem manda não ser o único Branco no mundo?

Francisco Libânio,
01/09/12, 9:08 AM
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