quinta-feira, 30 de maio de 2013

O dia em que conheci Chico Buarque

Dificilmente aconteceria. Aí, então, muito menos.

O ano era 1971. Não havia ainda os metrôs na cidade do Rio de Janeiro. Por outro lado, já havia a ditadura militar, o AI-5 ia de vento em popa perseguindo gente a rodo e sumindo e fazendo fugir. Embora isso me indignasse, preferia dar ao Regime o meu silêncio e meu protesto velado.
Se não havia os metrôs havia os trens. E na Central do Brasil, eu, perdido numa cidade onde nunca estivera, enfrento uma fila braba pra pegar um trem. Pra onde? Não sei. Nunca tinha andado de trem na minha vida, queria provar a experiência. Coisa de turista noob. Claro que se eu perguntasse a opinião sobre minha aventura a qualquer um naquela fila, ririam de mim. E menos entenderiam a expressão que apareceu muitos anos depois e, ainda assim, não é de domínio público. Tudo bem. Eu tinha dinheiro para um bilhete de trem e iria andar de trem pela primeira vez. E danem-se as opiniões alheias.
O dia era ensolarado e a fila andava pouco. A eficiência daquele tempo era muito parecida com a de hoje, nisso eu devo cumprimentar os responsáveis. Mantêm a qualidade do serviço intacta há mais de quarenta anos. De qualquer forma, era engraçado para o turista aqui ver as discussões futebolísticas, os assuntos cotidianos, fofocas de bairro. Literalmente, gente falando de lado e olhando pro chão, exatamente como foi descrito numa música do Chico Buarque, Apesar de Você, lançada um ano antes e que caíra no gosto popular. Era uma luva para os indignados como eu que podiam reclamar de uma mulher que bem... Usava farda e quepe, mas só ela não percebia permitindo o sucesso e achando bonito o lirismo da música. Foi quando me peguei cantando a tal canção que atrás de mim, um rapaz, pouco mais moço que eu, fez um comentário discreto em voz baixa:
- Você gosta mesmo dessa música? Não acha arriscado cantá-la assim?
- Não. – era o que faltava. Já haviam me contado sobre o perigo de haver algum X9 de butuca atrás de subversivos. A música, que eu achava bonita e inocente ainda que com alvo certo (o próprio rapaz me contou mais tarde e o que eu escrevi acima deixa de ter validade) estava censurada.
- Pois devia. Não é muito prudente ficar cantando essas coisas por aí. Tome cuidado.
Não falamos mais. A fila andava a passos lentos, mas ia. Minha vez chegava e, pelos meus cálculos, eu seria atendido ainda àquele dia. O outro que estava atrás de mim falava pouco. Como é hábito em cidade grande, conversar com estranhos não é algo tido por seguro. Ainda mais num tempo em que qualquer pessoa poderia ser um informante do governo. Muita gente tinha “sumido” e não tinha voltado até o meu tempo. Passaram uns dez minutos e quando menos espero, o outro me cutuca as costas de novo:
- Qual seu nome?
Ferrou! Primeiro me adverte pra tomar cuidado e agora quer saber meu nome! Na certa, o cara é um espia que vai contar na primeira delegacia que encontrar sobre um turista desavisado que estava cantando uma música proibida. Mas se tem uma coisa que aprendi é que quem não deve não teme e nem treme. Sou sincero e me apresento. É quando tiro um sorriso um pouco mais aberto do outro:
- Somos xarás, olha só. Muito prazer.
Não pode ser espia. Simpático demais pra ser um. Também um X9 nunca alertaria para o perigo de se cantar uma música proibida. Ele próprio seria o perigo. Mas vai que existam espiões subversivos que discordem do Regime e o obedecem para garantir o leite das crianças? Nunca se sabe. Um pouco mais de demora e chega a minha vez de comprar o bilhete e tomar o trem. Depois de mim, é meu vizinho de fila quem compra o dele e vamos ao terminal de embarque. Discretamente, ele me conta que “de vez em quando componho alguma coisa” e que estava trabalhando numa música com uns amigos. Achei estranha essa repentina intimidade de me contar o que ele gosta de fazer, mas deixemos que fale. Também me conta que andou fora do País por uns tempos.
- O bicho tava pegando. Vi que era hora de dar uma sumida, mas resolvi voltar. Por isso te recomendei cuidado. Tem muito dedo-duro espalhado por aí.
Agradeci a preocupação e a recomendação. Foi quando ele resolveu mostrar a tal música na qual trabalhava com os amigos. Interessantinha. Conversamos um pouco mais, mas a multidão aglomerada na Central faz com que nos afastemos. Era muita gente pra pouco trem. Não sei pra onde ele estava indo e muito menos pra onde eu ia quando fui jogado pelo fluxo num vagão aleatório. Desci duas estações depois e nem vi qual era. Só queria me safar da multidão. Dali, tomaria um táxi, iria à pé... Sei lá. Turistar no Rio de Janeiro era o que contava. E contou mais ainda quando, ao contar essa história a alguns amigos, eles me revelaram que eu tive um tête-à-tête com o Chico Buarque e aquela música, que se chamaria Samba de Orly, anos depois, seria um sucesso estrondoso, um novo hino contra a ditadura. O que estaria fazendo o já célebre Chico na Central do Brasil tomando trem anonimamente é o que queríamos entender. Se ele estivesse sem os óculos escuros, eu o teria reconhecido e pegado um autógrafo.
Foi quando acordei.

Francisco Libânio,
30/05/13, 10:02 AM
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