domingo, 27 de março de 2011

Um Ídolo


Futebol é alegria, paixão clubística é identidade, é questão de coração. Quem escolhe um time de futebol não troca, no máximo simpatiza com outro clube, mas quando sobra um tempo. Quem gosta de futebol, de verdade, torce pra um time, mas admira o futebol mesmo que venha dos adversários.
Caso deste que vos fala, que não é sãopaulino, nunca pensou em ser, torce pelo Santos, mas admira alguns jogadores que jamais passaram pela Vila Belmiro. Dentre eles, um merece especial referência: Rogério Ceni.
Rogério é daqueles jogadores que tem identidade com um time, no caso o São Paulo, clube em que joga profissionalmente por quase vinte anos e que, desde que assumiu o gol, mais do que um goleiro espetacular que lidera da meta várias formações, tornou-se um exímio cobrador de faltas. Com a ele, o São Paulo ganhou vários títulos de diversas relevâncias e, enquanto capitão, o homem ergueu as taças. Resultado, virou um emblema do time, ícone de uma fase vitoriosa e sinônimo de São Paulo para uma geração.
Mas, sem dúvida, o que marcou a história de Rogério Ceni foram seus gols. Artigo raríssimo no futebol, de um goleiro artilheiro só se sabia do paraguaio Chilavert, que encerrou a carreira com inacreditáveis 62 gols, algo jamais visto ou imaginado pelo torcedor. Um ídolo amado e odiado. Rogério, que seguiu carreira à aposentadoria do dito paraguaio e foi fazendo gols. Quando superou o precursor, o time do São Paulo fez festa ao seu arqueiro, que não parou por aí. Por faltas ou pênaltis, Rogério foi marcando gols e mais gols até chegar aos noventa e nove gols e se tornado mais e mais lenda. Faltava o centésimo gol, aquele que o consagraria eternamente no panteão dos inesquecíveis, momento digno de Pelé, que ao fazer o milésimo gol parou o estádio.
Pelé, às portas do gol mil, declarou que gostaria que ele acontecesse ou no Maracanã, então o maior estádio do mundo, ou no Corinthians, grande rival do Santos e vítima predileta do Rei. Como o Corinthians não veio pra festa, ela aconteceu contra o Vasco no Rio de Janeiro. Andrada entrou pra história pela porta dos fundos. Rogério, por questão de politicamente correto, nunca demonstrou ter uma vítima predileta, mas a torcida elegeu o Corinthians como tal, rival do Tricolor. E se o Corinthians escapou de entrar pra história como o alvo do melhor jogador de todos os tempos, o destino não deu essa segunda chance. Neste domingo, a partir de uma falta muito bem cobrada. Rogério anotou seu centésimo tento. A torcida sãopaulina adorou e a história registrou um capítulo memorável no livro deste grande clássico. Perguntado pelos jornalistas, Rogério foi diplomático e minimizou que o fato da vítima ser o Corinthians.
Menos pela torcida corintiana, Rogério sedimenta definitivamente a pecha de ídolo dos admiradores do bom futebol. Ele entra no círculo que engloba gente como o próprio Pelé, Romário, Zico, Ademir da Guia, gente que todo torcedor adoraria ver jogando pelo seu time. Jogadores cujo marco alcançado fica na história e quem viu contará às gerações. Rogério é um desses caras que sobrevive ao futebol e faz o esporte ser muito maior que mera paixão clubística. Há quem não entenda isso, infelizmente. Quem sabe, quando aprenderem a admirar o esporte, a esportividade sem perder o fator torcida. Lembrem-se, torcedores, tão logo, nenhum goleiro fará cem gols.
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