quarta-feira, 9 de março de 2011

Crônica da Quarta-Feira de Cinzas


A todos esses que criticam o Carnaval, que o tomam como um retrocesso de quatro dias no ano do brasileiro, que insistem em confrontar a alegria fugaz que reina nesse breve interregno à sisudez que impera no Norte (e só em parte dele, diga-se), o que dizer? Como demover uma ideia cheia de tristeza agora que os foliões estão cansados de tanta festa e com a alma lavada podem retomar os mais ou menos trezentos dias de ano que sobram? E mais: Será que vale a pena tentar convencê-los?
Acabou nosso carnaval? Sim, infelizmente. Afinal tudo que é bom dura pouco, não é? Ninguém ouve cantar canções nem passa mais brincando feliz? As canções estão aí, apenas tiraram as Cinzas para descansar. Brincadeira também tem, mas agora com hora, como tudo deve ser.
É triste ver que haja quem condene tão duramente o carnaval tachando-o de forma tão jocosa, tão explícita. O carnaval é parte de uma brasilidade que merece, sim, ser exaltada. E daí que não é genuinamente nacional? E daí que ele foi transformado, coisificado, enlatado e vendido a ações nas Bolsas de Valores. Sua essência não deixou de existir. Ainda há muitos carnavais dentro de um só. Quanta alegria foi derramada nas avenidas, nos blocos, nos trios. É justo chamar isso de atraso? De retrocesso? O Brasil para, sim. Mas anda parado atrás daquilo que mais tem de seu, que é sua identidade, de sua multiface que o faz ser Brasil no mundo, da mesma forma que tantos elementos fazem os outros serem outros e cada um ser cada um.
É triste ver que enquanto um cordão passa pela rua a brincar, a expurgar de si tudo aquilo que entristece, que oprime, alguém condene isso. Virou crime ser feliz agora? Ou é crime essa forma explosiva, sonora, colorida de ser feliz? Não sei. Talvez seja melhor mesmo ficar se remoendo em seu mundo particular juntando metais para juntar mais e mais zeros à direita. Quem sabe seja mais prazeroso passar todos os dias do ano metido num terno e gravata com celular a tiracolo criando e buscando metas. Às vezes é divertido cultivar uma úlcera ou ter um ataque nervoso porque nada disso foi atingido. Pode ser que morrer de velhice antes dos setenta enfurnado em rabugice sem ter um sorriso para se lembrar seja uma onda legal. Não sei. Quem sabe os que não sejam brasileiros ou aqueles que estejam ocupados demais para jogar uma serpentina que seja tenham explicações plausíveis sobre a felicidade além das críticas ferrenhas. Quem sabe.
Claro que o Carnaval não pode nem nunca vai agradar a todos. Que Momo jamais baixe um decreto obrigando a felicidade forçada, o que já não seria felicidade, durante seu breve reinado. Mas que a oposição ao monarca da alegria se reúna com todo o direito que tem a curtir sua folia em escritórios, corporações, templos ou mesmo em casa e o faça sem condenações, sem ataques e que todos nos vejamos na quarta-feira de cinzas cansados de tanta alegria, mas de espírito cheio ou felizes com seus amealhos dos quatro dias e que o ano comece, já que sempre se diz que é agora que ele começa, feliz para todos. Sem julgamentos, sem preconceitos e com muita paz, da forma que for.

Francisco Libânio,
09/03/11, 10:53 PM
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