sexta-feira, 18 de março de 2011

No funeral


Tem pessoas que não sabem mesmo ser engraçadas ou são em horas nadas propícias. E não há momento menos oportuno para destilar gracinhas que um velório, certo? Pois, muito bem. No dia em que seu Miquéias, o patriarca daquela família se foi dessa para uma outra melhor, correu-se logo para ajeitar o velório do velho e correr a notícia para todos os filhos e netos que moravam fora da cidade. Dessa forma, da forma que se pôde, todos os que moravam fora correram para dar o último adeus ao seu Miquéias, um excelente pai, um amoroso avô, funcionário exemplar e grande amigo. E um grande copo também, enquanto pôde beber. Quando não pôde mais, o máximo era um tapa na caninha, o que não dava mais que duas doses por ano. Suas filhas mais velhas marcavam o pai que nem zagueiro botinudo sendo condescendentes apenas no último desejo, a dose derradeira de sua caninha predileta. Agora, seu Miquéias era um defunto satisfeito e seu semblante deixava isso claro.
Durante o velório, quem teve que chorar chorou, quem tinha uma história, boazinha que fosse, do velho Miquéias, contava. Muitas eram de domínio público da família, mas sempre tinha aquele parente distante que não lembrava ou o esposo da neta recém casada que sabia do seu Miquéias como fosse um grande mito, uma pessoa das que nascem uma em um milhão e se deliciava com as narrativas. A risadaria das histórias era sempre feita porta do salão fúnebre a fora, pois as filhas mais velhas do falecido não admitiam coisa que não fosse choro em torno do caixão. Metódicas, conservadoras, quase antiquadas, as duas senhoras eram rígidas. Quisesse rir do papai que fizesse longe da presença delas, o que explicava o salão vazio com um ou outro conversando com as tias ou os outros filhos contemplando o rosto plácido do pai.
Deu que um alvoroço tomou conta do lugar. De repente, chegou ao salão o Maurão, que trazia com ele uma senhora cinqüentenária, mas das que davam banho em muita gatinha. Maurão era um dos netos mais velhos do seu Miquéias, morava em Ponta Porã e, de propósito, não foi avisado do falecimento do avô uma vez que era um sujeito dos mais inconvenientes e desagradáveis. Suas tias se lembravam bem do velório da esposa do seu Miquéias, quando o Maurão chegou falando de como a avó estava feia no caixão, cara amarrotada, cabelos desgrenhados, parecia uma bruxa. Era um sujeito que nem mesmo os avós suportavam. Mas naquele dia danou a contar piada e, pior, eram tão boas que foi difícil manter a fleuma e não rir. Nem mesmo o recém viúvo Miquéias conseguiu segurar o riso. Daquele dia em diante, o Maurão era persona-non-grata na família e ninguém entendeu como ele soube do acontecido e conseguiu se descambar de lá até São Paulo. Importa que ele estava lá. A sua acompanhante, ninguém fazia ideia de quem fosse. Cumprimentou primos, tios e pais, que pediram a ele que se comportasse. Situação ridícula pedir isso a um marmanjo de quarenta e quatro anos. Cumprimentou as tias, que o receberam com frieza e advertiram que não estavam para gracinhas. Finalmente chegou ao caixão onde estava o velho avô. O medo era visível. A quietude reflexiva de Maurão era prenúncio de hecatombes escatológicas.
Maurão fitou o avô e a interessante senhora fez o mesmo. Conversavam baixo entre eles. A família cravou que era uma namorada nova que o Maurão achou, mas nem quis saber mais. A última mulher que ele apresentou à família era uma chave de cadeia. Deram algumas risadas entre eles, inadmissível segundo a tia que chegou já querendo briga:
- Tão achando que isso é o quê? Picadeiro de circo?
- Desculpa, dona Gina – respondeu a moça que parecia ter familiaridade com a estranha – mas é que o Mimi deixou pra gente uma cara tão boa, tão satisfeita que parece a que ele fazia quando a gente saía junto.
A resposta desconcertou a família toda. Quem era a distinta e suspeita estranha. Quando o Maurão disse que era um cacho que o avô tinha há uns trinta anos, a paulada foi frontal. As duas tias tiveram um ataque de nervos, dois tios tiveram náuseas; o tio caçula saiu correndo e a mãe do Maurão começou a chorar copiosamente e só parou quando o filho, às gargalhadas, disse que era brincadeira e conhecera a mulher em questão no ônibus e topou a pegadinha.
Serenados os ânimos, a família decidiu. O próximo velório de família que o Maurão iria seria o dele.

Francisco Libânio,
18/03/11, 8:09 PM
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