sexta-feira, 25 de março de 2011

Caso de aniversário


Dia de festa em família. Aniversário de seu Noca, o patriarca daquela casa e comemorado por todos os oito filhos, vinte e três netos e os primeiros bisnetos que já surgiam. Para abrilhantar ainda mais, coincidia de ser o primeiro aniversário do Luís Gustavo, que não tinha nada a ver com Noquinha, mas por nascer no mesmo dia em que o bisavô, ganhou o apelido. Assim, setenta e quatro anos e duas gerações separavam os aniversariantes. Seu Noca era um senhor muito lúcido e saudável e tinha apenas um pequeno problema de surdez. Nada que impedisse a festa nem o guaraná que corria a solta para as crianças e a brahma para os adultos.
Os pais de Noquinha, junto com o filho, eram os que menos se divertiam na festa. Tinham que ficar de olho no menino que, mal aprendera a andar, já queria começar a correr. E não podia, claro. Então carrega daqui, carrega dali, toma, que é sua vez e agora é você. O menino não podia se divertir como os outros. Não podia comer os brigadeiros nem os cachorros-quentes. Refrigerante pra ele era de golinho e, mesmo assim, super dosado. A mãe detestava, o pai, que era preocupado com a saúde do menino e mais ainda com os cuidados da esposa, apenas concordava. Ele era muito novo para exageros. Para piorar, não havia crianças da sua idade para brincar. O mais novo antes dele tinha seis anos e brincava com os outros de idade pareada. Não queriam saber de bebês. E daí que ele era o aniversariante? As mães brigavam com os meninos mais velhos, eles iam lá, faziam uns agradinhos e voltavam para o pega-pega entre eles e deixavam o pequenininho no colo dos pais.
Seu Noca curtia a festa mais pra não desagradar a família toda, mas não podia deixar de se perceber que se sentia deslocado. Claro que a conversa com os filhos e os amigos da família era boa. Seu Noca era orgulhoso da prole, todos criados, formados e encaminhados e saber as novidades do trabalho deles, as viagens, as gravidez de duas esposas dos netos, mas mesmo assim, faltava alguma coisa. Sua companheira de mais de meio século, dona Martinha, estava sempre ao lado do marido, acompanhava ele contar as histórias de anos e anos atrás. Os netos mais novos, aqueles que estavam chegando aos dez anos e os que começavam a adolescência ainda com um pé na infância adoravam ouvir os casos do avô. Certa forma, ele gostava dessa mitologia que criou para os netos. Eles ficavam vidrados em saber que o avô viu o Pelé jogar, viu vários gols do Garrincha, que viu na TV que o homem tinha chegado à Lua e, claro, que sobreviveu a uma revolução. Seu Noca era contrário ao regime militar, foi acusado de subversivo várias vezes, mas o máximo que levou foi uns tapões. Era peixe pequeno e não incomodava a milicada. Para os netos, ele era um herói.
Assim, a festa era divertida, mas seus protagonistas eram bons partícipes. Seu Noca e Noquinha cruzaram pouco. O patriarca preferia ficar com os adultos conversando e tomando sua coca-cola. O médico proibiu seu Noca de pôr álcool na boca. Já tinha tomado sua cota. Pegou o bisneto no colo quando os pais chegaram, bateu fotos, mas aos poucos, suas histórias foram deixadas pra lá. O menino ficou sendo carregado de colo em colo, batendo fotos com os convidados e, óbvio, não gostou. Chorou muito e foi preciso esforço para convencê-lo a ser mais simpático com o povo. E ensinar isso a uma criança de um ano não é fácil. A festa foi se desenrolando, seu Noca já estava ficando cansado e Noquinha começava a coçar os olhos de sono. Para os presentes, a festa estava tão ótima que se esqueceram de que era um aniversário. Perguntasse a qualquer um, diria que era uma reunião de domingo antecipada para o sábado. Quando alguém se lembrou de cantar o parabéns a você ouviu vários “espera um pouco”. Quando os assuntos mais importantes cessaram, cantaram, bateram palma, tiraram fotos. Finalmente, seu Noca estava liberado do compromisso. O filho mais velho levou os pais pra casa e os netos, pais do Noquinha, também foram embora. O menino não se agüentava em pé. Mesmo assim, a festa seguiu até a alta madrugada. E só foram se lembrar de levar os presentes embora no dia seguinte quando o povo do salão telefonou avisando.

Francisco Libânio,
03/03/11, 9:31 AM
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