domingo, 6 de março de 2011

Saindo do túmulo


Vinicius de Morares, que era um poeta genial, um letrista sensacional e que, enquanto tal, nos legou sambas e poesias ligados a ao estilo, cometeu certa vez uma daquelas bobagens que até mesmo os gênios cometem enquanto humanos que são. Ao falar sobre São Paulo, definiu a cidade como o “túmulo do samba”. Declaração infeliz que não diminui o Poetinha, mas que até hoje criou certa desafeição por ele por este lado. Mesmo em vida, Vinicius lutou pra se redimir da frase que o perseguiu, inclusive se desmentindo com uma bela composição com Adoniram Barbosa, Bom Dia Tristeza.
Adoniram não é o único argumento que contradiz Vinicius. Sambista italiano de qualidade que difere dos sambistas dos morros do Rio, mas não o desqualifica. Outro que desmente Vinicius é Paulo Vanzolini. Seu clássico Ronda é uma das letras que, segundo pesquisa, melhor representa São Paulo. Uma outra que simboliza São Paulo, escolhida na mesma pesquisa, é Trem das Onze, composição de Adoniram e imortalizada pelo grupo Demônios da Garoa, terceiro item que mostra o quão Vinicius errou em sua afirmação.
Infelizmente, Vinicius não viveu o bastante para ver o que enterra sua colocação de vez no túmulo das bobagens, o carnaval paulistano. Se, nos tempos de Vinicius, o Carnaval na Pauliceia era relegado a um plano menor sendo eclipsado pelo sempre majestoso desfile do Rio, os anos trataram de fazê-lo evoluir a ponto de, primeiro, lembrar e, depois, rivalizar com a Sapucaí. O que fez o Carnaval em São Paulo atingir tal patamar? Dinheiro para importar know-how carioca vão dizer os detratores. Não estão totalmente errados, mas é fato que o intercâmbio fez bem para as duas pontas da Dutra.
Se o Carnaval carioca ainda é referência e ganha a preferência dos turistas e da mídia (afinal Carnaval e Rio são quase substantivo composto), o de São Paulo deixou de ser patinho feio há muito tempo. Tem sambas-enredo tão bons quanto os do Rio, tem vibração e energia tão contagiantes quanto. Por outro lado, os desfiles no Rio tem se tornado mais sóbrios sem deixar de ser empolgante e sedutor.
Não sou uma pessoa tem um cabedal enciclopédico de informações sobre escolas de samba, desfiles, temas, mas se já aconteceu, merecia um repeteco. Se não aconteceu, seria de muito bom tom que qualquer escola de São Paulo dedicasse um desfile para louvar Vinicius de Moraes, esse sambista de alma e ofício e fazer as pazes definitivas. De onde estiver e encantado com a beleza que a cada ano povoa o Anhembi, o Poetinha aplaudiria de pé e lavaria a boca de vez.

Francisco Libânio,
06/03/11, 12:03 PM
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