sexta-feira, 8 de abril de 2011

Relíquias


Que se podia fazer? Era o que pensavam a caneta tinteiro e o mata-borrão decorando a sala numa cristaleira igualmente nostálgica, mas caduca demais para pensar no passado glorio. Eram as meninas dos olhos do patriarca daquela família.
- Quantas cartas eu escrevi, hein, velho companheiro?
- Nem me lembre – pedia o mata-borrão – Formávamos uma dupla perfeita.
Paralela à conversa saudosa, uma máquina de escrever tirou também seu comentário do alto da cristaleira:
- E pensar que eu fui o presente mais festejado da casa dado à segunda geração dessa família. Quantas páginas escrevi! Quantas boas ideias compartilhei! Agora é curtir uma aposentadoria a contragosto.
A lamentação entre as relíquias era muito triste. Duas gerações de tecnologias arcaicas e românticas lembravam seus dias áureos quando foram interrompidos por um trambolho posto numa mesa especial e, por isso mesmo, um tanto antipatizado:
- Eu podia não ter tantas cores nem ter tanta velocidade, mas ajudei muita gente nessa família. Fui fonte de diversão, de inspiração e de entretenimento. Hoje não acompanho nenhuma dessas modernidades que, simplesmente, me forçaram a parar de trabalhar. Como eu queria mostrar que ainda sou útil! – Era o velho computador 486, a porta de entrada daquela família na era informatizada, mas que hoje, não passava de um pedaço de memória naquela sala cheia de recordações.
Perdido no meio de tantos anos e três gerações destituídas rapidamente de seus ofícios, o IPAD do neto, novo xodó da casa, passou a temer pelo seu futuro.

Francisco Libânio,
17/12/10, 9:04 AM
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