sexta-feira, 22 de abril de 2011

A Lapa


O Cronista não é fã da noite, nunca foi um boêmio. Sequer ele bebe. Mas esta lua no céu, o clima de mar, a maresia, o sal no céu e, claro, os ares diferentes fazem com que ele meta-se numa roupa melhorzinha e saia para curtir a noite. E o melhor lugar para isso, dizem os entendidos, é a Lapa. Vamos para lá, então.
Pega-se, então, o Cronista com o primeiro problema. Onde ir? A Lapa tem tantos bares, tantos lugares que escolher um a esmo é um tiro cego. Ando pelos barzinhos, os restaurantes, as casas e vou tentando me simpatizar com alguma, mas é difícil. Todas são iguais na visão deste ignorante sobre diversão noturna. Duas voltas e muita gente, escolho um barzinho que, em alguma coisa me lembra os de Prudente. Há uma chegança de adolescentes, uma molecada que oscila entre os dezoito anos declarados e os falsificados. O que vale para eles é que o RG lhes dá salvo-conduto para beber quantas cervejas quiserem. O ambiente parece ter música ao vivo. Há um violão a postos então algo há de vir por aí. Até chegar alguém no palco. É agora! Não, não é. É só o gerente do lugar avisando que o cantor da noite não iria se apresentar hoje. É tudo o que preciso pra ir embora. Pago o suco de laranja que pedi e vou de novo zanzar pela Lapa atrás de diversão.
Com a noite já se adiantando, as opções muitas vão se lotando e os lugares vão mostrando sua cara. Há uma separação. Aqui adolescentes, lá yuppies acolá os descolados, tudo separado sem muita mistura de matiz. O Cronista, nessas, não consegue se encaixar numa cor. Já que é uma pessoa multicrôma continua procurando. Há de haver um lugar que me agrade. E não demora a chegar. Acho um barzinho em que se toca Jorge Benjor. Parece uma solução interessante. Entro pra vasculhar qual é a do lugar. Diferente de outros, parece ser uma lugar diverso, gente de diversas qualidades, jovens, velhos, casais, homens que, como eu, curtem a sua solteirice à toa e sozinho. Arrumo mesa. Um garçom simpático me atende e recomenda uma porção de tiras de carne acebolada. Nada mal. Outro suco de laranja e eu acompanho o som que de Benjor sai pra Tim Maia, Seu Jorge, volta pro Benjor e segue nesta linha soul com certas concessões para a MPB. Nada mal pra mim.
O lugar é tranqüilo e não parece ser daqueles que uma garrafada na mesa significa faísca pra quebra-quebra. Há famílias demais pra isso. Ao meu lado, uma família toma lugar e pede uma cadeira da minha mesa. Minha fala deixa claro que não sou daqui e eles curiosamente perguntam de onde. Eles também não são do Rio. São mineiros e vieram visitar a filha que estuda aqui. Me convidam para sua mesa, mas na verdade, são eles que terminam na minha. Conversamos sobre o que estou fazendo aqui. Apenas procurando me instalar e conhecendo a cidade. O pai conta que já quis morar no Rio, mas nunca conseguiu um trabalho que lhe valesse um bom sustento na cidade. A mãe gostava do Rio apenas pelo mar, mas não pelo resto. O filho adorava tudo.
A noite é muito boa. O casal tem histórias ótimas e, diferente de muita gente da minha cidade dita mais tranqüila, mais pacata, me dá uma confiança que assusta. Não sei quem é mais louco na mesa se eles, que se sentam com um estranho de um canto que eles nem sabem onde fica (e tive que explicar) ou se eu, que me deixou cativar por uma família que... Bem, podia não ser uma família. Podia ser um bando, nunca se sabe essas coisas de cidade grande. O que acontece é que a conversa com a família se enveredou pela noite. A música era boa e a conversa também. O que era suspeita passou longe e só fui me dar conta de que eu corria um grande risco, incalculável e absurdo quando cheguei ao hotel em que me hospedava após uma carona dos meus bons mineiros. Que podiam nem ser mineiros. Mas imitavam bem.

Francisco Libânio,
16/04/11, 9:24 PM
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