domingo, 10 de abril de 2011

Os cúmplices


Como se diz por aí, o bom da Democracia é permitir a pluralidade de ideias, a divergência sadia, o debate inteligente e construtivo e, sobretudo, a livre manifestação de pensamento. É ótimo que uma Democracia permita tanta liberdade, elemento fundamental na vida de qualquer ser humano e que só faz engrandecer a pessoa como tal.
Esquecem-se, no entanto, os arautos da Democracia que ela permite certas escabrosidades que se travestem de opinião e selvagerias que pedem para ser chamadas de manifestação. Esse é o grande problema. E tivemos um exemplo disso recentemente com o nefasto caso do deputado Jair Bolsonaro.
O homem em questão é um militar defensor da linha dura dos tempos antidemocráticos em que toda manifestação, toda opinião contrária à ordem vigente valia um cala-boca demorado ou definitivo. Até aí tudo bem. Há quem defenda o governo militar por questões ideológicas ou empáticas. Parece absurdo e contraditório que a liberdade de expressão permita que se manifeste quem simpatiza com a sua ausência, mas vá lá.
A questão, no entanto, é muito maior que essa. Bolsonaro é uma pessoa que se orgulha de nutrir preconceitos – algo que não cabe numa Democracia – e, mais que isso, faz questão de propagá-los e até de propor formas violentas para combatê-lo. Uma pessoa que diz que “palmada ajuda a ser homem” e combate homossexualidade pode até usar da Democracia para expor seu incômodo com algumas coisas, inclusive a homossexualidade embora isso seja um tanto estranho e retrógrado. Mas daí a demonizar, ridicularizar e combater com violência se torna algo totalmente diferente. E pior, configura em algo que toda Democracia séria caracteriza como crime. E esta deveria caracterizar também, mas não o faz. Ainda.
Aí, depois de um programa de TV infeliz em que Bolsonaro soltou várias frases com ódio e preconceito destilados e depois da indignação contra o circo de horrores, apareceram defensores ferrenhos do deputado. Algo pertinente numa Democracia. O problema é que essa se defesa se pautou na mesma pregação de violência e ódio que fez trilha com o dizer do defendido. E a maior graça da Democracia, o debate construtivo, a divergência sadia deu lugar para argumentações do tipo “os gays são promíscuos e não tem vergonha” ou “eles querem destruir a família”. Para reforçar o embasamento do absurdo, diversos versículos da Bíblia foram descontextualizados e soltos. Nunca a palavra “anormalidade” foi tão dita. Então normal é ser hetero. Heteros não são obscenos, heteros constituem famílias felizes de comercial de margarina, enfim, heteros são a normalidade. Abaixo a doença da homossexualidade. Quanto ao preconceito envolvendo cor, os defensores de Bolsonaro foram mais comedidos já que racismo configura crime e a maioria se limitou a dizer que o deputado não tinha entendido a pergunta da cantora Preta Gil sobre um filho namorar uma negra. Ele teria confundido com gay.
Foram semanas em que os temas homofobia e racismo ficaram em voga e foram democraticamente debatidos e desaguou neste sábado em manifestações pró-Bolsonaro e anti-Bolsonaro no mesmo local separadas por um cordão de policiais. Do lado a favor, encontramos gente com máscaras, tatuados com suásticas, neonazistas, frases pregando que Direitos Humanos servem só pra humanos direitos (seja lá o que isso for). Até aí, tudo pertinente dentro de uma Democracia, mas daí a andar armado? A gritar frases violentas e cartazes cheios de ódio? Ameaças ao outro grupo? Prisões flagrantes? Bolsonaro cometeu crimes em tevê aberta e amealhou simpatizantes, cúmplices. Gente que foi à Avenida Paulista e se não houvesse segurança partiria para a briga com estrelas ninjas. Gente que usa da Democracia para abusar e propagar violência e superioridade. Gente que se esquece que liberdade de expressão e apologia ao crime são coisas distintas. Uma é louvável. A outra é nojenta.

Francisco Libânio,
10/04/11, 12:38 PM
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