terça-feira, 27 de novembro de 2012

Rubem Braga

Fala pouco, mas fala tudo. E bonito!


Foi em 2002. Era 2002? Consideremos que sim e que o encontro tenha sido casual. Isso foi, eu tenho certeza. Numa livraria. Foi lá que encontrei Rubem Braga na sua mais perfeita forma: Afiado com suas melhores crônicas, o que não deixa de ser estranho. Pode uma crônica de Rubem Braga não ser melhor? Acho difícil. Ninguém escreve crônicas melhores que Braga. De qualquer forma, esse encontro perdido no tempo foi breve. Alguns apertos de mão rápidos, pouca conversa e não tive a decência de convidá-lo pra ir comigo para à casa tomarmos um café e pedir para que ele mostrasse mais crônicas. Não aconteceu. Não seria o momento?
De lá, nunca mais encontrei Rubem Braga em lugar nenhum. Sabia onde o encontrar. Livrarias, sebos, mesmo bancas de revistas em que encontrei vários confrades de Braga, mas nunca o próprio. Ficava meio chateado. Eu encontrava Rubem Braga com alguma frequência quando criança e adolescente em livros de escola, apostilas e provas. Os casos contados breves na forma e profundos na ideia eram qualquer coisa encantadores. Sabia que Braga continuava frequentando livrarias, que não nos toparmos era mera questão de desencontro. Confesso que por diversas vezes, eu desisti desse encontro.
- Se ele não está no mesmo lugar que eu é que não é pra ser. Paciência. – eu me resignava.
Assim passaram quase dez anos em que Braga e eu nos distanciamos. Nunca mais ouvi falar dele e certamente ele menos ouviu falar de mim. Fui me enturmando com outros amigos dele, trazendo-os pra casa. Às vezes, ficava pensando como seria se ele estivesse com todos eles, uma reunião informal entre grandes cabeças. Mas se Braga não queria estar entre eles, eu não podia fazer nada. Obrigá-lo, trazê-lo à força. Esse tipo de encontro deve ser, antes de tudo, espontâneo.
Ano passado, num de meus tantos passeios por livrarias em São Paulo, após cumprimentos rápidos a alguns conhecidos, Rubem Braga veio num lapso em minha memória e perguntei às pessoas do estabelecimento se ele estava lá àquele dia e onde eu poderia encontrá-lo. Devidamente orientado, fui reapresentado ao cronista que, simpático, me contou uma crônica sua que eu já conhecia. Lá estava ele de novo com suas melhores crônicas. Seria muito assunto. Outro breve encontro como aquele primeiro não seria o bastante. Perguntei se Braga queria tomar um café em casa. Ele anuiu e fomos. À época, eu morava no litoral e em casa, ele me mostrou várias de suas crônicas, obra primorosa. Braga continuava um mestre em seu mister. Dificilmente deixaria de ser.
Hoje Braga e eu dividimos o mesmo espaço. Eu, ele e mais uma infinidade de seus amigos, que eu já conhecia. Minhas conversas com Rubem Braga são curtas. Dificilmente passam de duas crônicas por dia. E ainda há os dias em que não nos falamos ou queremos nos ver. Desagradável? De forma nenhuma! Acredito que quanto menos eu conversar com ele, melhor conversaremos e as novidades serão distribuídas por mais tempo. Perdemos muito tempo nesses desencontros. Quero procurar uma forma de compensar esse tempo. A forma que achei foi essa, a de conversas rápidas pelo máximo tempo sempre me remetendo àquele dia num provável 2002. Quem sabe essa conversa sempre cheia de novidades dure pelos próximos nove, dez anos ou o tempo em que Rubem Braga estiver lúcido, inspirado e disponível em minha estante.

Francisco Libânio,
27/11/12, 8:31 AM
Postar um comentário