
É estranho demais este último dia.
Festeja-se e conta com tal afinco
Seus últimos segundos, mas cadê a alegria
Pra contar os trezentos e sessenta e cinco?
Francisco Libânio,
31/12/09, 6:16 PM
Um dia pensei que ser poeta fosse pegar palavras e rimar. Rimei duas. Certo. A continuar, rimei mais. A cada rima correta um passo, mas era de estranhar que a estrofe rimada assim, reta, não era uma poesia, mas a abjeta pretensão de quem quis cantar sem ter em si qualquer emoção. Rimado, mas sem algum sentimento, Frases que eram levadas pelo vento. Até que o dei pra ouvir o coração, pensar com amor e viver com alegria e desde então fui escrevendo poesia. Francisco Libânio
Dia de jogo do Brasil na Copa. A partida, por questões de fuso horário, vai ser às quatro horas da tarde aqui. E isso dá o direito a diversas repartições, sejam elas públicas ou privadas, comerciais ou governamentais, de encerrar o expediente mais cedo. Às três. E contra patrão não se põe questão. Ainda mais quando envolve colher de chá. Aí nosso amigo sai do trabalho e vai tomar o ônibus pra gozar do dever cívico quadrienal de se torcer pela seleção. Só que ele não era lá muito fã do esporte bretão. Não tinha time, não se interessava. Pra ele, o Raí ainda jogava no São Paulo e gente como Kaká e Ronaldo ele só sabia quem era porque as notícias importantes eram intercaladas pelas novidades da Seleção. Chega ao ponto enquanto via lojas fechando e todo mundo indo pras suas casas e ele resolveu curtir uma pouco mais sua folga. O problema foi que ele estendeu e ao olhar no relógio já eram quatro e meia. Não tinha ninguém nas ruas. Fácil saber se o Brasil fez gol, bastava ouvir os rojões. Aí, ele foi pro seu ponto. Só um outro cidadão esperava o ônibus. Puxou conversa:
- Perdeu o começo do jogo?
- Perdi, mas deixa pra lá. Era contra quem?
- Não faço a menor ideia.
- Tudo bem. Futebol só me vale a final mesmo. E ainda assim... Só se não tiver coisa melhor pra fazer.
- Eu também não sou fã, não. Não tenho paciência.
- Eu também não. Futebol deixou de ser entretenimento. Virou negócio. E dos bons, que movimentam uma baba!
- Mas não é? Esses caras ganham demais pra ficar chutando uma bola e tomando canelada, onde já se viu?
- Absurdo!
- Pois é. O que o Kaká ganha por mês no time dele lá fora, eu sustento a minha família até chegarem os meus netos, que ainda estão longe de virem.
- Você tem filhos?
- Um pequeno, seis anos ainda. Deu pra ser corintiano só porque o Ronaldo joga no time. É fã dele. Sempre quer que eu leve ao estádio. Deixo pro tio, que adora essas coisas. Eu quero meu domingo pra descansar, sair com a esposa. Nada de futebol. E o senhor?
- Eu tenho quatro. Tudo mais crescido. Uma briga
- O senhor vê? O povo babando o ovo dessa gente e eles nem aí pra gente. E quando vão pedir atenção, autógrafo, tocam os seguranças em cima dos fãs.
- O que eles queriam, eles já conseguiram. Agora que se dane.
Calaram-se. O ônibus não chegava. Será que até as empresas de ônibus deram folga temporária pros seus choferes? Nosso amigo dava tudo por um banho fresco, um prato quente e uma poltrona. O outro estava com o olhar perdido no mundo. Nosso amigo puxou papo de novo.
- Acho que ninguém fez gol ainda. Não ouvi rojão estourando.
- Deve ser. Casa de fogos ganha uma baba em tempo de Copa. Cachorro é que não gosta. Lá onde eu moro, quando solta rojão, a cachorrada faz um barulho que vou te contar.
- Onde o senhor mora?
O outro se calou. Era discrepante as duas figuras. Nosso amigo todo arrumado e com roupas bem gastas. Talvez não quisesse falar onde morasse por vergonha de ser pobre. Coisa boba. Mas, com o assunto interrompido, o que estava no ponto retomou a conversa:
- Você trabalha onde?
- Sou funcionário público do governo do Estado. Trabalho num prédio virando a rua que cruza essa. Não é longe daqui.
- Sei qual é.
- E o senhor, trabalha em quê?
- Olha, eu trabalhava como auxiliar de limpeza numa empresa lá no Brás, mas aí teve corte de gente, fui mandado embora. Fiquei desempregado por um ano e virei assaltante. Agora me passa o relógio e a carteira que meu ônibus tá chegando e talvez dê tempo de eu pegar a metade do segundo tempo. Vai logo, playboy!
Francisco Libânio!
Negócio interessante esse dos sobrenomes, que oficialmente são conhecidos por nomes. Conta-se que eles não existiam na Antiguidade. As pessoas tinham apenas o nome e, para designar a família ou a origem, associava-se à pessoa ou o local onde ela nasceu (daí vários sobrenomes com a partícula “de”) ou o local onde vivia (o que resulta os vários Costa, Ribeiro, Silva – que vem de selva – dentre outros) ou, ainda, a profissão do sujeito, um bom exemplo disso é o Ferreira, que vem de ferreiro, que no inglês vem de Smith, o Silva deles de tão comum que é por aqueles lados. Por exemplo, o heptacampeão de Fórmula Um, Michael Schumacher, traz consigo uma corruptela do inglês shoe maker, sapateiro. E por aí vai.
O legal é que hoje, ainda, vários sobrenomes poderiam casar muito bem com a profissão do seu detentor. Pense só como podem ser prósperos os pomares da sociedade Pereira & Nogueira, cujos sócios nasceram pra tal feitio. E que juiz sensacional seria aquele que tem por sobrenome Justo. Advogados com tino marqueteiro poderiam explorar genialmente esse acaso familiar. Um marinheiro da família Marinho, ou mesmo Lemos, com a devida adaptação, poderia ser contratado por qualquer navio mercante de qualquer nacionalidade. Não haveria numerologia mais eficiente. O senhor Leite seria dono da Batavo ou da Parmalat e teria sucesso. Por fim, a família Casagrande, além de um craque no futebol, teria arquitetos mundialmente conhecidos.
Claro que os sobrenomes, dependendo da combinação, poderiam ser o jazigo moral e social de alguém. E a criatividade do brasileiro ajuda pra isso. Pense o incômodo que sofreria o jovem Rolando Rocha na hora da chamada? Outro nome, cujo sobrenome bem encaixado pode gerar problemas é Armando. E para os maliciosos de plantão quão não devem ser divertidos os Pintos, Regos e Costas da vida.
O mau sobrenome na profissão também pode acontecer. É o caso do dr. Roberto Durão, que, apesar do sobrenome, teve cacife e competência pra se formar em medicina e ser ginecologista. Seu nome estampado na fachada do consultório era um tanto incômodo, mas, se a má associação não matou o dr. Durão de fome, reduziu bem sua clientela. Mulheres mais pudicas e conservadoras não iam se tratar com ele, pois achavam que tudo não passava de uma piada de mau gosto. As que tomavam coragem de vencer os preconceitos e os fantasmas das gracinhas posteriores eram obstadas pelos maridos ciumentos que preferiam ter uma úlcera a ver suas esposas sendo tratadas por um Durão da vida. Assim, as pacientes do dr. Durão eram mulheres solteiras, sem preconceitos, de cabeça aberta e as casadas cujos maridos eram dobrados por elas, pois conheciam de antanho a competência do seu ginecologista. E, sem qualquer maldade, segunda intenção ou linguagem figurada, não trocavam o Durão delas por nenhum outro. Pior que a cabeça pequena das pacientes em potencial perdidas, era a gozação dos colegas. Toda reunião na Casa do Médico, o dr. Durão era alvo de chacota. Os novatos recém saídos da residência faziam questão de conhecê-lo pessoalmente, achavam que era gozação. E ele não estava nem aí. Essa fama de durão nem lhe mordia os pés. Era orgulhoso do seu sobrenome e o foi até o dia em que resolveu abandonar o sacerdócio da saúde feminina. Outra festa na Casa do Médico e depois dos brindes de despedida, do discurso (que a cada vez que se citava o nome do homenageado, um risinho ecoava no salão), seus amigos mais próximos foram ter com ele:
- Roberto (os amigos não lhe chamavam de Durão por nada), depois de quarenta anos clinicando, mesmo não tendo tantas clientes, você nunca se deixou levar pela gozação. Todos os encontros, simpósios você era o alvo e você nunca se abalou, como conseguiu isso?
- Não deixo me atingir. Durão é meu nome, trago comigo a marca da família portuguesa da qual descendo. Fui um ótimo ginecologista, minhas pacientes, mesmo sendo poucas, nunca tiveram uma reclamação de mim. Poderia ser pior. Eu podia ser proctologista e, aí sim, morrer de fome. Ou algum de vocês deixaria o Durão fazer o exame de próstata?
Os amigos, mesmo médicos cultos e conscientes da importância de tal exame não responderam. Essa era uma hipótese deveras constrangedora.
Francisco Libânio,
- Não acredito!!
E era inacreditável mesmo. O grito que o homem deu ecoou por todo restaurante e ele ia na direção daquele outro que estava anônimo, esquecido pela clientela no fundo do estabelecimento. E estava decidido.
- Cara, eu não acredito que te achei aqui! Quem diria! Você não é aquele famoso escritor, o ...
- Não, não sou. – e deu mais uma golada no seu vinho.
- Ah, sem essa, vai. É você sim, o maior escritor vivo desse país. Ganhou prêmio no mundo inteiro, na Itália, na Argentina, nos Estados Unidos, em Ruanda... É aquele que escreveu ...
- Escritor, eu? Ora, meu amigo, quem me dera!
- Bicho, tô te falando que você é o maior escritor desse país. Conheço toda sua obra, li todos seus livros e não perco uma crônica sua no jornal!
O outro começava a se impacientar. Será que ninguém pode jantar em paz?
- Olha só, meu velho, eu não sou escritor! Nunca escrevi um maldito livro na minha vida. Aliás, nunca escrevi uma linha que não seja relatório técnico. Eu sou engenheiro, entendeu?
- Não pode ser! São parecidos demais. Pô, você tá querendo me enganar. Todos os seus livros têm sua foto na contracapa. Claro que são fases diferentes da sua vida. Em nenhum deles aparece essa cabeça prateada.
- O senhor está me chamando de velho?
- Não! Longe de mim! É que do seu último livro, o Catando Uvas nas Vinhas do Senhor pra essa noite em que eu te encontro já se vão bons sete anos. Tempo o bastante pras pessoas mudarem.
- Agora quem não acredita sou eu!
- Ahá, eu sabia que eu ia desmascará-lo!
- Não... Não acredito que o senhor tenha lido um livro com esse nome. Catando Uvas nas Vinhas do Senhor... Francamente, meu velho? Isso lá é literatura? Ninguém lê um livro com nome tão estapafúrdio e gosta a ponto de falar aos quatro ventos.
- Confesso que o nome, realmente, não é muito bom, mas li uma entrevista na qual você diz que os títulos, quando não têm uma ligação direta com a obra, são perfeitos pra chamar o leitor ao livro. Então a tática foi perfeita!
- Quem deu essa entrevista?
- Vem com essa! Foi você. Aliás, eu não sei porque ainda você fica aí se fazendo de sonso. Coisa rara é leitor encontrar escritor assim no dia-a-dia. Que ator, atriz fique fazendo doce pra ficar anônimo, eu compreendo. Todo mundo assiste novela, filme. Mas escritor... Até se o Jorge Amado fosse vivo, todo mundo ia confundir ele com o tiozinho que vende bilhete na porta da lotérica.
O homem da mesa, enfim, se deu por vencido. Não adiantava querer ser anônimo. Seja quem for, faça o que fizer, sempre vai ter um fã chato pra interromper aquela hora de paz. Ele abriu o jogo:
- Ok, você venceu. Sou eu mesmo, o escritor do Catando Uvas nas Vinhas do Senhor e de Melquisedeque, Traga-me Oito Pãezinhos entre outros. Ganhei, mesmo, os prêmios que o senhor falou e dei a entrevista a qual o senhor se referiu. Queria ficar incógnito porque tive uma semana cheia. O senhor quer um autógrafo?
- Autógrafo? De jeito nenhum! Meu sonho sempre foi encontrá-lo pra dizer o quanto seus livros são horríveis. Do título ao último ponto final. Cada coisa sem nexo. Fala sério, você deve fumar cocô de lagartixa pra escrever tanta bobagem! Você e a turma que lhe dá esses prêmios. Olha, com todo respeito, mas se você é o maior escritor desse país, como dizem os críticos, eu sou um orangotango.
No dia seguinte, o jornal que traz diariamente uma crônica do famoso escritor estampava na primeira página a pancadaria generalizada na qual ele se envolveu com um homem num restaurante. Cadeira quebrada na cabeça e tudo mais. Nem a Amy Winehouse faria tamanha baixaria.
Francisco Libânio,
Essa aconteceu comigo num desses dias que eu voltava pra casa de ônibus. Eu estava no meu canto, já tinha passado a roleta muito bem vindo de algum lugar, como diria o poeta, com o carro parando no centro. Ele não estava muito cheio. Éramos eu e mais uns sete quando entra um sujeito maltrapilho, de camiseta aberta, calça rasgada e um boné seboso que pintaria de verde vivo qualquer bafômetro. Entrou por trás e queria que o motorista esperasse entrar, além dele, dois cachorros, o que o chofer achou um abuso. Um sem pagar o bilhete ainda vai, três não. Quando pôs o carro em marcha, ele foi interrompido por outro passageiro, esse mais bem alinhado, mas em igual estado de canjebrina.
- Esse ônibus vai pra Washington Luís?
- Não senhor, ele só cruza ela. Nem pára. – respondeu o paciencioso motorista.
- Qual o ponto final dele?
- O estádio.
- Então vambora! – ordenou o outro entrando pela frente estabelecendo um caminho lógico como se entre São Paulo e Rio de Janeiro estivesse Porto Alegre. O motorista, que não tinha nada a ver com isso cumpriu seu papel. Ao se sentar e olhar pra trás, encontram-se os dois que devem ter se desencontrado no mesmo bar por questão de minutos. A conversa fluía com aquela intimidade que só os manguaçados sabem. Mas por pouco tempo.
- Bão? E aí? Como vai a família?
- Vai bem, graças a Deus. Mulher bem, filhos bem. Todo mundo só me dando orgulho.
- Deus abençoe. Minha família vai bem também. Só minha mulher que me preocupa. Ela tá bem até demais, mas desconfio que ela tá me passando a perna com um zé-ruela que...
- Repete se for homem!
- É um zé-ruela que parece que me enfeita a cabeça e...
- Escuta aqui, como você me chama de zé-ruela, seu imbecil?
- Eu não estou falando do senhor.
- Ah, sem essa! Coisa que eu odeio são esses engomadinhos que olham a gente e só porque a gente somos pobre, o cara fica tirando. Isso não vai ficar assim!
O clima esquentava conforme o ônibus rodava. A situação ficava tensa ao mesmo passo que tomava ar de tragicomédia. E pior que encrenca gratuita em ônibus é gente que a fomenta. E nem isso faltava. O almofadinha da frente e o indigente de trás, rápido, já constituíam seus respectivos partidos. Dois moleques que chegaram um ponto depois deles e estavam sentados no banco da frente e outros três vindos comigo acomodados na parte de trás eram uma assistência vip para o embate que se arrumava:
- Ih, xingou a mãe. Ah, eu não deixava!
- Olha lá, te chamou de corno, rapaz! Vai deixar barato?
- Percebe a cara de sarcasmo que ele tá fazendo, nego. Ele quer cuspir em você.
Em dada hora, o maltrapilho, movido pelo álcool e pela exortação da torcida, não se segurou:
- Então vamos resolver isso que nem macho! Agora a coisa é no muque!
- Ah, sai pra lá, tio! Quebro sua fuça com a mão nas costas!
Se quebrou ou não quebrou, eu não sei. A valentia dos dois em ameaçar era tão grande e cerimoniosa que meu ponto chegou antes que os dois saíssem no braço. No dia seguinte, de manhã, perguntei para duas moças que estavam comigo àquela hora que fim teve a briga. Uma delas disse que um desceu num ponto, o outro desceu dois pontos depois dizendo que ia estraçalhar o primeiro. O que eu vi, ao chegar ao trabalho, foi a foto dos dois no jornal ilustrando a matéria em que dois homens foram internados com coma alcoólico, cada um em um bar diferente e, mais abaixo, os malefícios da bebida na vida moderna.
Francisco Libânio,
Tá legal. É preciso que eu escreva uma crônica, um conto, uma poesia, um verso que seja – desde que não seja batatinha-quando-nasce – pra cumprir a cota de hoje. Vamos a ela. Ou ele. Como fazer? Pergunto pra minha consciência, e ela, naquela preguiça de sexta-feira, responde com educação marinheira:
- E eu que sei? Quem se meteu a ser escritor aqui foi você, não eu! Cuida aí dos seus poemas que eu tenho mais o que fazer. E não se esqueça de me chamar pra hora do almoço. Passe bem!
Certo, certo... Segunda, vou colocar essa subversiva numa escola de bons modos. Já que ela não pode me ajudar, vamos buscar inspiração em outro lugar. Nessas horas, um livro do Drummond sempre ajuda. Leio duas crônicas dele, dou boas risadas e alguma idéia aparece. Isso é bom. Já dizia o Chacrinha que nada se cria, tudo se copia. Mas não vou ser desonesto
Aliás... É isso! IMAGEM! Tudo o que eu preciso é uma imagem. Mas não imagem de foto ou procuraria um livro do Sebastião Salgado. Vou dar uma volta pelas redondezas e ver o que meus olhos captam. Para que a coisa saia a contento, dou um rolê pelo São Judas, que é perto de casa, mas termino indo ao Parque do Povo mesmo. O que vejo são jovens correndo, madames levando cachorrinhos pra passear e sol. Muito sol! A primavera chegou aqui nos rincões do Oeste com o cartãozinho do verão. A coisa vai ser tórrida. O lado bom é que calor e roupa são grandezas inversamente proporcionais, principalmente para as mulheres, e ver o mulherio andando com tops e shortinhos é um colírio para os olhos. Mas não dão um bom texto. Melhor voltar pra casa.
Mais Drummond, um pouco de conversa. Alguém precisa ter uma idéia para eu roubar. Roubar, não, que é muito feio. Tomar emprestado surdinamente é melhor. Mas parece que tanto a TV quanto os que me cercam andam tão vazios de idéias quanto eu. Mais Drummond. A idéia que eu tive no primeiro encontro com o poeta mineiro caiu em algum lugar do meu passeio e não vou procurá-la na rua. O solo onde eu devia plantar uma coisa escrita está nu. O rei está nu, mas ele pelo menos tinha um orgulho enganado pela vaidade. Eu não posso ficar pimpão por estar nu. Nem tenho motivos pra isso.
Vou ao computador e ele custa a ligar. Nem ele me ajuda. A sexta promete... Uma folha branca aparece na minha frente e hoje a tática vai ser oposta. Normalmente escrevo pra depois dar nome. Hoje vou dar nome e escrever. Assim, o título já existe: Desenvolvendo. Mas desenvolvendo o quê? Não sei... Ô inferno! Então, eu me meto num colóquio telepático entre mim, minha necessidade de escrever e o computador com a tela branca virgem esperando ser deflorada com alguma idéia: “Tá legal. É preciso que eu escreva uma crônica, um conto, uma poesia, um verso que seja – desde que não seja batatinha-quando-nasce – pra cumprir a cota de hoje...”
Francisco Libânio,
E o Altamirano, hein? Sujeito que tinha aquele dom da simpatia criativa que nasce com muitos e é aprimorado por poucos era um sambista de porta de boteco que não teve a sorte de ser encontrado por um figurão. Se ao invés de fazer seus batuques e suas rimas no Bar do Mirto os fizesse no Bar da Brahma, no cruzamento da São João com a Ipiranga, seria o novo Zeca Pagodinho. Mas onde ele os fazia era ruim de pintar um empresário influente ou um bonito que conhecesse o produtor do Domingão do Faustão. Achavam que o Altamirano ligava pra isso? Pois, ligava! E muito. Essa coisa de trabalhar como porteiro naquele prédio comercial não era a pior do mundo, mas o salário deveria ser condenado pela Convenção de Genebra. E ele via no domingão aquela turma de pagodeiro pastinha fazendo sambinha de quinta enquanto ele nada. O Altamirano não era do tipo que se gabava. Nunca pleiteou o prêmio de Porteiro do Ano, de Operário Padrão, de Honra ao Mérito. Era discreto até. Mas quando tratava de samba, mandava a modéstia pra casa do chapéu e dizia consigo mesmo:
- Eu não sou o Cartola, mas sou melhor que essa molecadinha de condomínio fabricada aí.
E era mesmo. Os amigos do boteco se cotizaram várias vezes pra tentar alçar a vôos mais altos o mais talentoso dos assíduos do Bar do Mirto. Uns concursos de talentos que rolaram, inscreveram o Altamirano, mas ele nem passou dos testes. Essa turma não entende pipocas de samba. E o Altamirano curtia no cavaquinho a fossa de não ser olhado pela sorte.
Aí, aconteceu que o Altamirano ficou umas duas semanas, três talvez, sem aparecer no boteco pra tomar uma com os amigos. Deixou saudade dos sambas que criava na hora.
- Fala dessa morena que chegou.
- Altamirano, rolou uma treta assim e assim comigo, dá samba?
Tudo era mote para um refrão, uma paródia, algo realmente interessante, mas já fazia tempo que o Altamirano não dava as caras no bar. Um dia, alegria geral. Aparece o sambista no meio da roda, pede a de sempre e anuncia:
- Eu andei meio afastado porque acordei dia desses com uma idéia, um samba que vai me tirar do anonimato. Esse eu vou divulgar, gravar, entregar fita em tudo que é lugar pra que me conheçam. Chama Samba do Passarinho. Até escrevi a letra. – e tirou um almaço dobrado do bolso.
Pra turma isso foi, simplesmente, sensacional. Se quando improvisava, o Altamirano arrebentava a boca do balão, imagina o que não sairia se ele resolvesse trabalhar numa coisa sua? De escrever, reescrever, apagar, encaixar, metrificar... O pessoal era unânime. Vinha aí uma sinfonia de entrar pra história. Já se gastou demais em conversa fiada, mandaram o Altamirano mostrar logo o samba pra galera. E ele fez aquele charme de “minha voz não tá lá essas coisas, mas nada que uma molhada no bico não resolva”. Uma golada na cerveja e o Samba do Passarinho saiu pra apreciação pública.
No pam-pam final, silêncio. Aquela coisa que chegava a ser incômoda, mas – diferente de sempre – não rolou um aplauso, um viva, um bravo. Consternação geral. Ninguém falava nada até que um valente resolveu se pronunciar:
- Tamirano... Isso tá uma droga! – O veredicto foi a locomotiva de iguais impressões.
- Minha avó escreve coisa melhor que essa joça!
- Nojento!
- Tanto tempo pra isso?!
O apupo foi geral. Altamirano decidiu que nunca mais ia pegar num cavaquinho na vida. Ia ser porteiro até o fim dos dias porque, se quando ele faz a coisa de instantâneo e sai coisa boa, ele arrasa e quando lapida sai um monstro, melhor deixar pra lá. Empresário nenhum ia querer saber disso e ele ainda corria risco de levar umas bolachas.
Acham que acabou? Não acabou, não. Altamirano matou o Passarinho e a folha e jogou longe os dois. Continuou sendo porteiro e bebendo com os amigos no Bar do Mirto. Acontece que o cara que fez o primeiro comentário pegou o papel, guardou, na moita, e no dia seguinte o passou pra um amigo seu que maltratava um pandeiro. Mudou uma palavrinha aqui outra lá, substituiu todos os “minha nêga” por “minha pombinha” e, de Samba do Passarinho, mudou o nome pra Samba da Minha Pombinha. Hoje seu amigo é dado como o futuro do pagode e ele ganha vinte por cento do cachê de cada show.
Francisco Libânio,
Filho chegou com a notícia pra mãe. Tinha achado um bichinho de estimação. A simpatia meiga pela alegria pueril do filho acabou quando o bichinho entrou
- Aqui não fica!
E não adiantou a argumentação embasada do menino, que já previra essa repentina antipatia pelo bichinho. Nem a lembrança de que na escola todo mundo tinha um bichinho de estimação. Quando não era um gato ou um cachorro, era um passarinho, um papagaio, um periquito, uma calopsita. Até o iguana do Danielzinho da sétima série foi arrolado como atenuante para o urubu. A mãe era inflexível. Restou ao menino a mais drástica das suas táticas: O choro. E aí, a mãe viu o quanto lhe faltou umas chineladas. E não seria o urubu testemunha nem causa delas. O bichão foi admitido na casa.
O pai quando viu aquilo se sentiu repugnado. No dia seguinte, Candinha se benzia cada vez que passava pela ave empoleirada (provisoriamente, dizia-se) no parapeito do apartamento. E o urubu terminou virando bicho de madame mesmo. Carniça? De jeito nenhum. Ainda que fosse a último, mas sempre havia um bife pra ele. Aos poucos, a família foi se afeiçoando àquela simpática ave necrófaga, que desde então nunca mais comera um cadáver em sua vida.
Um dia, o cachorrinho do casal do prédio da frente apareceu morto. As suspeitas logo apontaram para o urubu. Eram vizinhos de janela. O cachorrinho latia para o outro quando o via. Nada mais normal que a ave, cansada de tanta afronta em língua desconhecida, fosse às vias de fato. A reação correu como pólvora:
- Crucifiquemos o urubu do 407!
- Nossos filhos correm perigo!
- Ele também comeu o meu hamster.
Esse foi desmascarado. O bicho estava escondido debaixo do sofá e apareceu.
Mas o urubu estava numa enrascada acusado de um crime sem qualquer prova concreta. Pensou-se até num tribunal para o assassino. Com júri e tudo o mais. Chamaram até legista pra exumar o cadáver. Mas se cada louco tem sua mania e uns criam urubus, outros resolvem embalsamar cachorros. Pois é. O morto, tido como o filho mais novo da casa, não foi enterrado. Resolveram empalhá-lo pra colocar na sala de estar “Em memória de...” Só que o casal era famoso por sua mão fechada. A contratar um profissional sério do ramo da taxidermia preferiram pegar o primeiro que cobrasse o preço mais camarada. Não importava que ele nunca tivesse visto bicho empalhado nem em museu de história natural. Resultado: O filho mais novo fedia morto tanto quanto
Francisco Libânio,