sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

A Reunião


Na reunião secreta, em que diversos homens sérios decidiam o destino de outros homens, após propostas aceitas e recusadas, entre proposições sensatas, absurdas, justas, privilegiadas, machistas, sexistas, democráticas e outras mais, um deles, justamente o relator das decisões aprovadas pediu a palavra:
- Sr. Presidente, não acha que estamos falando demais dos homens e nos esquecendo das mulheres? Pode parecer absurdo, mas há várias delas em altos cargos espalhados pelo mundo inteiro. Algumas são presidentes, outras são juízas, outras são ministras e muitas por aí mandam soltar e mandam prender. Poder quase absoluto.
- Eu sei. Por isso mesmo estamos reunidos aqui, esqueceu? Precisamos retomar o mundo dos homens. O mundo em que éramos fortes, mantenedores de família e senhores. Saudades do tempo em que tínhamos a mulher para três finalidades, procriação, diversão e submissão. – soltou um suspiro. Enquanto isso outro no lado oposto da mesa retrucou:
- Eu concordo com tudo o que o senhor disse, mas não estamos subestimando o poder da mulher? Sua inteligência sutil e seu sentido aguçado?
- Balela! – voltou o presidente – Essa coisa que criaram de sexto sentido feminino é invenção da imprensa. Ah, essa maldita palavra, maldita criação. Tinha que ser feminina também. Aliás... Todas as palavras inúteis são femininas, perceberam? A Moda. A Estética. A afeição.
- Tem o amor... – alguém interveio.
- Palavra dúbia! Afeminada. Está decidido. Quando consumarmos a revolução, baniremos todas as palavras femininas dos dicionários.
- O amor fica, certo, senhor presidente?
- De jeito nenhum! Abolidas as palavras femininas, convocaremos filólogos, dicionaristas, conhecedores e usuários das letras e elaboraremos um catálogo de palavras afeminadas a serem banidas também. Amor, que começa com A, será a primeira. Eu mesmo tratarei de sugerir isso.
- Mas o senhor não trabalha com as letras.
- Mas serei o supremo mandatário, pombas! A autoridade máxima!
- E terá uma primeira dama?
- É. Esse mundo será só o mundo dos homens?
- E onde vamos encontrar o cheiro delicioso que só as mulheres têm?
- Vamos mandá-las todas para a Sibéria, a Amazônia, a Patagônia em campos de concentração?
As perguntas pululavam. O Presidente não tinha pensado nisso. A idéia dos campos de concentração não era de toda má, mas era preciso de mulheres para procriação e concepção de novos homens ou o reinado dos machos-alfa morreria à míngua. O presidente refletiu e concluiu.
- Faremos campos de concentração, sim, mas em lugares próximos das cidades. E aos fins de semana, para descansar dos dias de trabalho, os homens terão acesso a esses campos de concentração e escolherá um harém para satisfazer seus desejos e para passar para frente seu gene superior. Enquanto isso, doutrinaremos as meninas para seu real papel na nova e perfeita sociedade. Nos campos de concentração, claro.
- Isso é uma loucura! Não compactuarei com isso! – Gritou o relator!
- Mas que audácia é essa? Não podemos admitir discordâncias exaltadas. Darei parte do senhor. Qual seu nome, seu rebelde imprestável?
- Andréia! – E tirou o terno revelando uma camiseta rosa que cobria um corpo feminino. Também arrancou o bigode postiço e nem precisava mais engrossar a voz Seguiu-se a isso outras revelações. A sala estava repleta de mulheres disfarçadas. O Presidente ficou atônito.
- Espiãs! – E foi tudo o que pôde dizer. As mulheres prenderam-no. Deram parte dele à delegada, foi julgado e condenado como subversivo. Mais um desses que queria romper com a ordem estabelecida em que o poder masculino era tolerado. Às vezes, as radicais tinham razão. Melhor mesmo era destituí-los de tudo. Foi condenado à prisão perpétua. Lavaria pratos até o fim da vida.

Francisco Libânio,
25/02/11, 11:55 AM
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