sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Frenesi


E daí que as outras pessoas esperavam na fila como ele? Problema delas se elas chegaram antes dele, que pegou um engarrafamento monstro na Rebouças. Queria entrar logo no estádio. O show daquela banda era o momento mais esperado de sua vida. Se lhe perguntassem, responderia sem medo que viveu trinta e três anos para aquele dia. O ingresso ainda precisava ser comprado, mas ouviu o dia todo que a venda estava bem abaixo do esperado e que quem quisesse poderia retirar seu bilhete no local.
E daí que custava cento e cinqüenta reais? Ele pagaria um milhão mesmo que não tivesse, Hipotecava a casa, entregava o nome ao SPC, vendia os filhos, se os tivesse. Tentou furar a fila. Queria entrar logo e foi contido quase que à cacetadas pelos policiais que só relataram um maluco como problema naquele local. Encheu-se de paciência e a fila que não andava começou a marchar e cada vez mais próximo do guichê seu coração acelerava. À vendedora só faltou dar um beijo. Ela seria a guardiã que lhe abriria a porta do paraíso. Ou não.
- Senhor, o ingresso no dia do show custa duzentos e vinte reais.
- Mas como?!
- Foi anunciado. O senhor não tem vinte reais? Aqui só tem duzentos.
Tinha. Estava no carro. Maldição! Teria que voltar, buscar a quantia e encarar mais fila. Podia perder os ingressos. Começou a fuçar os bolsos na esperança de que o dinheiro aparecesse como obra divina. Apareceu, mas por esquecimento. Estava num bolso de trás onde raramente guardava. E ele nem se lembrava. Agora, sim, sua bruxa!
- Aqui está. Bom show, senhor!
Passou pela revista dos seguranças, praxe. Arrumou uma cadeira perto do palco. Ainda bem que não era como aqueles shows de rock em que o povo ficava de pé. Com ele a coisa era mais erudita e o show prometia. Era a primeira vez que aquele quarteto se apresentava no Brasil. Cordas, ele adorava. Ouvia desde criança. Era uma coisa nostálgica, lembrava do pai, do primeiro beijo, do protesto da namoradinha (“Ai,Betinho, tira isso!”), do casamento. Se sua vida tinha uma trilha sonora, aquele quarteto merecia os direitos autorais. Cada instante uma música.
Aos poucos o estádio ia se enchendo. O show estava marcado para as nove horas. Eram oito e vinte. O palco estava lá pronto, os violões de sete e doze cordas, o violino, o celo, a viola, o contrabaixo. Eles eram especialistas em todos esses instrumentos. O coração ia batendo mais forte conforme a hora ia chegando. Parecia um menino a esperar sua banda de rock favorita. A cinco minutos, as luzes se apagam, foco no palco. Uma voz anuncia toda a carreira do quarteto conhecido mundo afora e que se apresentaria com sua formação tradicional que se reunira depois de tantos anos. Entram em fila indiana quatro senhores já de idade. Agradecem os aplausos fleumáticos e aquele incontido da segunda fila, tomam seus lugares e mandam os acordes da primeira música. Ele está no paraíso. Foi a música que ouviu quando se formou. A segunda música era uma de suas preferidas. Ouviu várias vezes em dia de fossa acompanhado da cerveja conselheira. A terceira era familiar, mas não lembrava muito bem dela. Puxava pela lembrança, puxava, puxava....
Quando se deu conta de si, sentiu alguém batendo-lhe nos ombros:
- Senhor, o estádio já está vazio. Vá embora.
Lembrou. Era a música que sua mãe colocava pra ninar quando ele estava naqueles dias impossivelmente elétricos. Era tiro e queda. E, infelizmente, continuava sendo.

Francisco Libânio,
28/01/11, 9:51 PM
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