Um dia pensei que ser poeta
fosse pegar palavras e rimar.
Rimei duas. Certo. A continuar,
rimei mais. A cada rima correta
um passo, mas era de estranhar
que a estrofe rimada assim, reta,
não era uma poesia, mas a abjeta
pretensão de quem quis cantar
sem ter em si qualquer emoção.
Rimado, mas sem algum sentimento,
Frases que eram levadas pelo vento.
Até que o dei pra ouvir o coração,
pensar com amor e viver com alegria
e desde então fui escrevendo poesia.
Francisco Libânio
Voltando a falar de Machado de Assis, sobre o qual falei noutra crônica, esses dias, estava me lembrando de quando li o Dom Casmurro e associei a uma aula de português que tive no cursinho que por ora faço pro concurso de Oficial de Justiça. Não que Machado pontuasse a aula, mas é que caímos num tema que não domino muito bem: Pronomes. O que é um pronome do caso reto ou do caso oblíquo? Mais ainda: O que é algo oblíquo, que nunca soube muito bem? Talvez uma vergonha pra mim, que me pego me chamando de poeta. E nisso, ato-contínuo, veio a perfeita descrição de Capitu “Olhos de cigana oblíqua e dissimulada”. E o que é um pronome do caso oblíquo, afinal? E por que seu oposto é o reto?
Perguntei para a professora o que, afinal, é isso? Ela respondeu que o pronome oblíquo substitui o nome indiretamente, obliquamente. Eu seria um pronome do caso reto. Me do caso oblíquo. Por isso, a substituição do nome na frase se faz de duas formas. Em “Eu escrevo esta crônica.”, o Eu substitui o cronista a contento e deixa claro qual é sua função na oração. Noutro exemplo “Fez-me acreditar que isso seria útil.” temos o danado do oblíquo substituindo, de novo, o cronista que nesse caso foi engabelado acreditando em algo inútil.
Mas voltando à Capitu? Será isso? Será Capitu uma mulher indireta? Uma mulher que, como o pronome, se esconde mas faz a contento seu papel? Não creio nisso. Insisti e fui pro tio Aurélio procurar uma explicação mais a contento. Segundo o velho Aurelião, algo oblíquo pode ser tanto algo indireto como o pronome quanto algo malicioso quanto algo vesgo. Interessante isso. Então a simpática Capitu era uma mulher estrábica, mas de olhar lânguido? Sensacional! O pobre Bentinho foi vítima desse olhar 43 (que, segundo consta, também acertou seu amigo Escobar). Sei como eles se sente... Quantas não são como a Capitu cujos olhos oblíquos podem ter qualquer um dos três (ou todos) significados do Aurélio.
E eu que pensei tantas obliqüidades dobre o assunto.
Todos têm um Éden imaginário Muito verde, o manso em paz com a fera... Melhor seria se o antigo proprietário Conotasse como o criou e onde ele era. Francisco Libânio, 12/07/09, 12:20 AM
Eu dormia enquanto o silêncio era tudo E tudo era uma coisa só e não era nada, De repente, daquele todo escuro e mudo Ouviu-se um grito e estava iluminada
A terra que existia. Noutro, a água se pôs num lado, A terra noutro e na água apareceram seres, No céu outros e, sozinho que era, vi-me cercado Enquanto os gritos ordenavam os afazeres.
O tudo agora era tudo, mas não estava feito, De repente, ouvi murmúrios e um pigarro Antes de se idealizar um ser dito perfeito
Que cuidasse da obra e de aparência parecida. Eis que vigorosa mão moldou-me no barro, Chamou-me homem e soprou-me a vida. Francisco Libânio, 12/07/09, 12:56 AM
Extraído de http://cantinhodumaalma.blogs.sapo.pt/arquivo/imagem-mulher-mar.jpg
Anda, que não há tempo a ser perdido, Já gastei anos de vida até tua chegada. Uma infância de felicidade imaginada, Uma adolescência em que parecias ter surgido, Mas cada uma que eras não eras nenhuma, Cada uma que eras surgia em rósea bruma E dá festa que te fazia ias ao esquecimento Não sem o choro que causavas nos teus até-logos Disfarçando adeuses, mas tinha a minha crença Comigo de que virias com teus rostos em desavença Até que viestes, atendeste aos meus rogos Com teu belo rosto e teu corpo definitivo Então anda porque perdi demais e quero repor O que com as outras de ti chamei de amor E te amar pelo resto do meu tempo vivo. Francisco Libânio, 14/07/09, 12:32 AM
Extraído de http://www.uniblog.com.br/img/posts/imagem38/389187.jpg
Morte... É no que pensam os vivos No primeiro susto que aparece Ou quando estão em nada pensativos Ou quando fazem alguma prece.
Natural, pois é quando estamos esquivos Ao perigo ou se nos apetece A vaidade de jazer lembrados e altivos No último adeus e se impusesse
A obrigação de ser o inesquecível instante. É quando pensamos na morte. O medo E a vaidade vivem à nossa última hora.
Mais valem os que oram por quem, diante Dela, podem vencê-la ou, com o enredo Traçado, pedem para que o pior vá embora. Francisco Libânio, 10/07/09, 12:28 AM
Não sou advogado da Preta Gil. Sequer ganho para defendê-la (nem um beijo de muito obrigado, cáspita!). Mas a usarei como ilustração bem realçada de algo que, sinceramente, não consigo compreender muito bem: A contínua perseguição com as mulheres um tantinho acima do peso.
Veja bem: Chegamos num nível humano em que os homens querem as mulheres a régua e compasso, mas com o compasso nos lugares certos. Curvas, elipses e hipérboles em ponto errado de corpo de mulher desvalorizam completamente o material na cotação masculina.
Aí, de repente, aparece uma moça que tem, por acaso, os seus extra-few-pounds, suas gordurinhas localizadas, mesmo que elas estejam localizadas entre a testa e o dedão do pé, mas que, mesmo assim, conserva um rosto bonito, um sorriso atraente, uma conversa envolvente. Não interessa. A essas, a pecha de gorda fica como se marcada a ferro nas ancas dessas mulheres. Os maledicentes diriam que nessas ancas, além de gorda, daria pra escrever, pelo menos, mais uns quarenta sinônimos. Eu já vejo que nelas daria pra escrever um soneto. Quiçá sobre as próprias ancas.
Especificamente falando da Preta Gil, alvo preferido dos detratores da gordura feminina e dos esquadrões pela perfeição curvilínea, pouco conheço sua obra enquanto artista, mas das vezes que a vejo em programas ela me passa alguma simpatia pela beleza conjuntural e pela desinibição. Sou muito mais isso às mocinhas bonitinhas, enquadradinhas numa modelo e que seguem um roteiro prévio até pra respirar.
E então volto ao meu dia-a-dia sem Preta Gil, mas, principalmente, sem as modelinhos. Saio na rua e vejo culotes saltando de blusinhas que, originalmente, deveriam mostrar só o umbigo. Moças brancas, morenas, negras, mestiças todas muito longe do Bündchen style que nos jogam na cara e fico pensando se – realmente – é preciso viver só de alface e suco de soja pra ser feliz. Antigamente, mulheres robustas traziam o sinônimo de fertilidade e boa saúde. Hoje a delgadeza traz o bonito e, até mesmo, a saúde simbolizada pelo seu oposto. E, esperando chegar nessa perfeição traçada em linha reta, muitas meninas encontram uma anorexia fatal.
Por isso, vejo em mulheres como a filha do nosso ex-ministro e bom baiano as mulheres que encontro no ponto de ônibus, na fila do supermercado, na rua... E o mais engraçado é ver mulheres que estão com aqueles três, cinco quilinhos acima do que elas acham ter e se comportam como se fossem moçoilas nas passarelas. Essas, sim, merecem o devido esculacho.
Quem sou eu que me chamo de poeta Insistentemente como se dom tivesse? Por quê? Porque o faço como se fizesse Forçar dentro de mim esta faceta
Mas um poeta... Um poeta é um asceta Transcendendo pleno por todo esse Problema que é criar e acima do interesse Preterdoloso de um versejador picareta.
Quem sou eu que insisto nesses versos Nos quais aplico dizeres tão dispersos E sem sentido para dar minha autoria
E dizer: Sim escrevo! Mas que sou eu, Que não escreve e sobre isso escreveu Sonhando ser poeta noutra poesia? Francisco Libânio, 19/08/09, 12:39 PM
As mulheres de negro em Teerã, coitadas, Crêem num Alá que, simplesmente, inexiste, Num deus doente, perverso e que persiste Neste fetiche das mulheres serem dominadas
Por homens enquanto quem as assiste São meninas, são moças revoltadas, Véus coloridos, mas de faces maquiadas, Fiéis à sua fé, mas contra este triste
Deus que manda calar às mulheres. Ele é mais benevolente segundo elas E capaz de aceitá-las e entendê-las
Ele dá a elas direitos além dos deveres Sobretudo os direitos da voz e da dignidade Além do da paz e o da felicidade. Francisco Libânio, 30/06/09, 12:34 AM
Eu só estive no Rio duas vezes e numa delas cheguei a conhecer o centro antigo da cidade. Lugares interessantes como a Rua da Alfândega, por exemplo. A coincidência de topar gente trajando roupas de época (atores em um filme) me deixou ainda mais dentro de um livro de Machado de Assis.
Devo dizer que adoro Machado. Foi o primeiro dos grandes autores brasileiros que eu conheci ao ler o Dom Casmurro. Não conheci a rua Matacavalos, a lendária casa da família do Bentinho, mas ao ler o velho escritor do Cosme Velho sempre sinto uma saudade de algo que nunca vi. Um Rio de Janeiro estranho como é estranha a cidade pra mim tanto a atual com as praias, as periguetes, as funqueiras, as balas perdidas, a Barra como aquela dos homens de fraque e mulheres de olhos de cigana dissimulada. São coisas que o velho Machado faz: Passear por uma cidade que não se conhece e não se viveu com uma familiaridade típica dos nossos bairros, das vendas de nossas ruas.
O Rio antigo de Machado vive a cada página sua. Quem morreu foi o Rio, morto junto com aquele lirismo literário e delicioso. Problema? Para os saudosos, talvez ou certamente. Para os que não conheceram este Rio e nem se preocupam com isso, não há problema. Mas não se atrase com esta leitura. O próximo bonde está pra passar, mas ele não irá para Matacavalos, mas ele te parecerá bem mais divertido que minhas reminiscências não vividas.
E de repente, te vês solto de um grilhão, Como se te abrissem uma imensa janela, Depois dela o horizonte, um tanto de chão, A liberdade e não sabes o que fazer com ela.
Quando eu me morrer de amores, Que seja a morte natural, das que visitam (As procuradas, em geral, são estúpidas E aos que amam são péssimas companhias), E que mandem à Amada todas as flores Ofertadas em minha homenagem. Elas necessitam Não de chorar mortes, mas celebrar vidas. Eu acabei, mas a Amada terá todos os dias Ainda para viver. Nada de flores em meu jazigo! Estarei nelas e a Amada estará comigo. Francisco Libânio, 24/06/09, 2:00 PM
Fizessem de mim um instrumento do mal, Talvez até fosse. Seria um esforçado aparato Em minha função e, desde que sob hábil trato, Faria meu serviço com maldade sem igual,
Mas também só se fosse sobre isso insensato Ou não soubesse o que é maldade e que para tal Há o reverso, que é ser bom, que é ser leal. Sabendo disso, cometeria grave desacato
Involuntário contra a mão que me manejasse. Devolveria-lhe o mal com a mesma classe Peculiar a ela sábia que é para arrasar a paz
E enquanto ela, retalhada pelo mal devolvido, Agonizasse, eu pediria perdão pelo acontecido Para me quebrar e não funcionar nunca mais. Francisco Libânio, 25/06/09, 2:52 PM
Às vezes me imagino como se eu pintasse um quadro. No começo, há rabiscos, traços bem amadores, uma coisa que é bonitinha aos olhos dos pais, mas logo nos será um rascunho do que será desenhado depois. São esboços de um grafite aceitável, mas que logo some a cor, mas os traços, mesmo sem se ver, são notados.
Depois vem a fase das cores. É a mais difícil. É aquela em que continuo a desenhar, mas agora os rascunhos estão mais bem acabados. Os esboços se vão com o pó da borracha e vem os tons alegres de azul, do marinho ao celeste, o vermelho sangue dos amores que ficaram e o verde, a esperança em tons dos mais utópicos aos mais reais. O quadro se pinta e me vejo nele. Vejo cada olhar do quadro, cada detalhe... Vejo-me tão perfeito, tão mestre nessa arte que não há outro quadro frente ao meu. Aliás, não entendo como nenhum Guggenheim me procurou até agora.
Vem, então a fase final, a fase em que deve se dar o acabamento ao quadro. Está na hora de encaminhar minha obra prima às molduras. Quero definir o traço no pincel atômico de forma que nenhuma natureza venha e roube Esses traços tão belos. E é nessa hora que, ao olhar mais demoradamente meu quadro percebo falhas. Um erro na perspectiva, uma imprudência que comprometeu a luminosidade do fundo, um borrado que invadiu os olhos, uma marca de mão, um tom de cor que discrepa das demais. O que fazer? O quadro não poderá ser redesenhado. O pincel atômico é definitivo e as tintas irremovíveis. Rompê-lo? Quebrá-lo? Nem pensar. Esse quadro será a minha herança, será o meu legado. Eu nunca me dei tanto a uma obra quanto a essa. Só posso corrigir os erros. Alguns consigo salvar, outros são maquiados, mas perceptíveis. E outros, a correção mais estraga.
Este quadro é a minha vida. Todos pintamos um quadro ao qual nos entregamos. Os erros são os passos em falso, as mágoas, os tropeços. Recuperá-los? Difícil, mas a contemplação de nossa obra – visível somente a nós mesmos – ficará na mente das pessoas, que não viram o quadro, mas o tem vívido em suas mentes porque foram elas que nos deram as tintas e os modelos.
É como um mar... Água por todos os lados. Se não se recorre à solução certa Do deserto mar, cai-se numa ilha deserta, Salvação que logo faz igual desesperado. Francisco Libânio, 03/06/09, 12:05 AM
Poderia aproveitar o coração que tenho E da necessidade dele de ser preenchido Para usar o teu, tão louco pra ser querido, Bem como adorar o sorriso do teu cenho
E te amar dando para ti o puro empenho Deste verso. Um amor certo e líquido, De intenção, de idéia de ser teu marido E de dedicar a tua figura meu engenho
E minha arte, não fosse isso tudo vigarice De um soneto desviado de meu caráter, Um mentiroso em tudo de bom que disse.
Pois que te sirva por confissão o resto E que a mea-culpa possa absolver De um soneto vigarista um poeta honesto. Francisco Libânio, 04/08/09, 11:16 AM
Quanto tiras de lucro quando tiras Aos outros a roupa por necessidade? Quem te amará? Como és, de verdade, Se tudo são prazeres, são mentiras?
Eu as vejo sempre por aí pela cidade, De dia pedintes, de noite vampiras. Vêem, são vistas, miram ou estão nas miras Não sabidas se de libido ou maldade.
Eu te vejo aqui por vitrine. Está exposto Teu corpo por anos e homens roubado E que te amaram até saciar o gosto
E te pagaram e depois saíram de lado Fugindo da Zona Podre escondendo o rosto Deixando-te lá para outro namorado. Francisco Libânio, 23/06/09, 1:16 AM
E em meio aos sorrisos e à algazarra, Chama à atenção, presidindo o banquete, O venerável Baco a erguer sua jarra De vinho e a convocar pra si seu gabinete
De outros respeitáveis. Cessa a farra, O deus, com a autoridade que lhe compete, Discursa pelo bem do banquete, narra Casos de outros deuses e deita um tapete
Pela clareira, chama-me como se apregoasse Um cavaleiro prestes a ser consagrado. Vou ao encontro sob os olhares de aguardo
Fala-me o deus “És tu um raro felizardo! Não nos é hábito ter um humano por convidado!” E pediu que a bancada se me apresentasse. Francisco Libânio, 01/08/09, 10:42 PM
Quase impossível que um cordeiro bata um leão, Mas ele deve sempre acreditar no contrário E tentar. É preciso um valente temerário Para que outros tentem e vençam tal ambição. Francisco Libânio, 09/07/09, 2:26 AM