
É estranho demais este último dia.
Festeja-se e conta com tal afinco
Seus últimos segundos, mas cadê a alegria
Pra contar os trezentos e sessenta e cinco?
Francisco Libânio,
31/12/09, 6:16 PM
Um dia pensei que ser poeta fosse pegar palavras e rimar. Rimei duas. Certo. A continuar, rimei mais. A cada rima correta um passo, mas era de estranhar que a estrofe rimada assim, reta, não era uma poesia, mas a abjeta pretensão de quem quis cantar sem ter em si qualquer emoção. Rimado, mas sem algum sentimento, Frases que eram levadas pelo vento. Até que o dei pra ouvir o coração, pensar com amor e viver com alegria e desde então fui escrevendo poesia. Francisco Libânio
Dia de jogo do Brasil na Copa. A partida, por questões de fuso horário, vai ser às quatro horas da tarde aqui. E isso dá o direito a diversas repartições, sejam elas públicas ou privadas, comerciais ou governamentais, de encerrar o expediente mais cedo. Às três. E contra patrão não se põe questão. Ainda mais quando envolve colher de chá. Aí nosso amigo sai do trabalho e vai tomar o ônibus pra gozar do dever cívico quadrienal de se torcer pela seleção. Só que ele não era lá muito fã do esporte bretão. Não tinha time, não se interessava. Pra ele, o Raí ainda jogava no São Paulo e gente como Kaká e Ronaldo ele só sabia quem era porque as notícias importantes eram intercaladas pelas novidades da Seleção. Chega ao ponto enquanto via lojas fechando e todo mundo indo pras suas casas e ele resolveu curtir uma pouco mais sua folga. O problema foi que ele estendeu e ao olhar no relógio já eram quatro e meia. Não tinha ninguém nas ruas. Fácil saber se o Brasil fez gol, bastava ouvir os rojões. Aí, ele foi pro seu ponto. Só um outro cidadão esperava o ônibus. Puxou conversa:
- Perdeu o começo do jogo?
- Perdi, mas deixa pra lá. Era contra quem?
- Não faço a menor ideia.
- Tudo bem. Futebol só me vale a final mesmo. E ainda assim... Só se não tiver coisa melhor pra fazer.
- Eu também não sou fã, não. Não tenho paciência.
- Eu também não. Futebol deixou de ser entretenimento. Virou negócio. E dos bons, que movimentam uma baba!
- Mas não é? Esses caras ganham demais pra ficar chutando uma bola e tomando canelada, onde já se viu?
- Absurdo!
- Pois é. O que o Kaká ganha por mês no time dele lá fora, eu sustento a minha família até chegarem os meus netos, que ainda estão longe de virem.
- Você tem filhos?
- Um pequeno, seis anos ainda. Deu pra ser corintiano só porque o Ronaldo joga no time. É fã dele. Sempre quer que eu leve ao estádio. Deixo pro tio, que adora essas coisas. Eu quero meu domingo pra descansar, sair com a esposa. Nada de futebol. E o senhor?
- Eu tenho quatro. Tudo mais crescido. Uma briga
- O senhor vê? O povo babando o ovo dessa gente e eles nem aí pra gente. E quando vão pedir atenção, autógrafo, tocam os seguranças em cima dos fãs.
- O que eles queriam, eles já conseguiram. Agora que se dane.
Calaram-se. O ônibus não chegava. Será que até as empresas de ônibus deram folga temporária pros seus choferes? Nosso amigo dava tudo por um banho fresco, um prato quente e uma poltrona. O outro estava com o olhar perdido no mundo. Nosso amigo puxou papo de novo.
- Acho que ninguém fez gol ainda. Não ouvi rojão estourando.
- Deve ser. Casa de fogos ganha uma baba em tempo de Copa. Cachorro é que não gosta. Lá onde eu moro, quando solta rojão, a cachorrada faz um barulho que vou te contar.
- Onde o senhor mora?
O outro se calou. Era discrepante as duas figuras. Nosso amigo todo arrumado e com roupas bem gastas. Talvez não quisesse falar onde morasse por vergonha de ser pobre. Coisa boba. Mas, com o assunto interrompido, o que estava no ponto retomou a conversa:
- Você trabalha onde?
- Sou funcionário público do governo do Estado. Trabalho num prédio virando a rua que cruza essa. Não é longe daqui.
- Sei qual é.
- E o senhor, trabalha em quê?
- Olha, eu trabalhava como auxiliar de limpeza numa empresa lá no Brás, mas aí teve corte de gente, fui mandado embora. Fiquei desempregado por um ano e virei assaltante. Agora me passa o relógio e a carteira que meu ônibus tá chegando e talvez dê tempo de eu pegar a metade do segundo tempo. Vai logo, playboy!
Francisco Libânio!
Negócio interessante esse dos sobrenomes, que oficialmente são conhecidos por nomes. Conta-se que eles não existiam na Antiguidade. As pessoas tinham apenas o nome e, para designar a família ou a origem, associava-se à pessoa ou o local onde ela nasceu (daí vários sobrenomes com a partícula “de”) ou o local onde vivia (o que resulta os vários Costa, Ribeiro, Silva – que vem de selva – dentre outros) ou, ainda, a profissão do sujeito, um bom exemplo disso é o Ferreira, que vem de ferreiro, que no inglês vem de Smith, o Silva deles de tão comum que é por aqueles lados. Por exemplo, o heptacampeão de Fórmula Um, Michael Schumacher, traz consigo uma corruptela do inglês shoe maker, sapateiro. E por aí vai.
O legal é que hoje, ainda, vários sobrenomes poderiam casar muito bem com a profissão do seu detentor. Pense só como podem ser prósperos os pomares da sociedade Pereira & Nogueira, cujos sócios nasceram pra tal feitio. E que juiz sensacional seria aquele que tem por sobrenome Justo. Advogados com tino marqueteiro poderiam explorar genialmente esse acaso familiar. Um marinheiro da família Marinho, ou mesmo Lemos, com a devida adaptação, poderia ser contratado por qualquer navio mercante de qualquer nacionalidade. Não haveria numerologia mais eficiente. O senhor Leite seria dono da Batavo ou da Parmalat e teria sucesso. Por fim, a família Casagrande, além de um craque no futebol, teria arquitetos mundialmente conhecidos.
Claro que os sobrenomes, dependendo da combinação, poderiam ser o jazigo moral e social de alguém. E a criatividade do brasileiro ajuda pra isso. Pense o incômodo que sofreria o jovem Rolando Rocha na hora da chamada? Outro nome, cujo sobrenome bem encaixado pode gerar problemas é Armando. E para os maliciosos de plantão quão não devem ser divertidos os Pintos, Regos e Costas da vida.
O mau sobrenome na profissão também pode acontecer. É o caso do dr. Roberto Durão, que, apesar do sobrenome, teve cacife e competência pra se formar em medicina e ser ginecologista. Seu nome estampado na fachada do consultório era um tanto incômodo, mas, se a má associação não matou o dr. Durão de fome, reduziu bem sua clientela. Mulheres mais pudicas e conservadoras não iam se tratar com ele, pois achavam que tudo não passava de uma piada de mau gosto. As que tomavam coragem de vencer os preconceitos e os fantasmas das gracinhas posteriores eram obstadas pelos maridos ciumentos que preferiam ter uma úlcera a ver suas esposas sendo tratadas por um Durão da vida. Assim, as pacientes do dr. Durão eram mulheres solteiras, sem preconceitos, de cabeça aberta e as casadas cujos maridos eram dobrados por elas, pois conheciam de antanho a competência do seu ginecologista. E, sem qualquer maldade, segunda intenção ou linguagem figurada, não trocavam o Durão delas por nenhum outro. Pior que a cabeça pequena das pacientes em potencial perdidas, era a gozação dos colegas. Toda reunião na Casa do Médico, o dr. Durão era alvo de chacota. Os novatos recém saídos da residência faziam questão de conhecê-lo pessoalmente, achavam que era gozação. E ele não estava nem aí. Essa fama de durão nem lhe mordia os pés. Era orgulhoso do seu sobrenome e o foi até o dia em que resolveu abandonar o sacerdócio da saúde feminina. Outra festa na Casa do Médico e depois dos brindes de despedida, do discurso (que a cada vez que se citava o nome do homenageado, um risinho ecoava no salão), seus amigos mais próximos foram ter com ele:
- Roberto (os amigos não lhe chamavam de Durão por nada), depois de quarenta anos clinicando, mesmo não tendo tantas clientes, você nunca se deixou levar pela gozação. Todos os encontros, simpósios você era o alvo e você nunca se abalou, como conseguiu isso?
- Não deixo me atingir. Durão é meu nome, trago comigo a marca da família portuguesa da qual descendo. Fui um ótimo ginecologista, minhas pacientes, mesmo sendo poucas, nunca tiveram uma reclamação de mim. Poderia ser pior. Eu podia ser proctologista e, aí sim, morrer de fome. Ou algum de vocês deixaria o Durão fazer o exame de próstata?
Os amigos, mesmo médicos cultos e conscientes da importância de tal exame não responderam. Essa era uma hipótese deveras constrangedora.
Francisco Libânio,