quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

João de Deus


A mãe teve uma gravidez difícil. Era seu primeiro filho e, de todas as tentativas, a que chegou mais longe e desaguou no parto apesar de todas as expectativas contrárias. Mulher simples e devota que era, se apegou a todos os santos e prometeu mil intenções. O filho seria padre, seria casto, seria Papa se nascesse. O pai, mais pragmático e menos fiel, achou que não devia fazer promessa com a vida e a vontade do filho. A custo conseguiu convencer a esposa. Muito bem. Nascido, a promessa que ficou foi a do nome. Chamaria João de Deus. João, que era o apóstolo preferido de Jesus. Deus porque só ele para iluminar e vencer toda a adversidade. Mal nasceu, já levaram para batizar. De uma coisa a mãe não abria mão. Seria católico.
Cresceu sob cuidados de todos os anjos que a mãe pedia em orações. O pai achava bonitinha toda essa devoção que a esposa tinha. Sempre fora assim e não ia mudar agora que era mãe. E o menino cresceu forte, sadio sem nunca ter pego uma gripe. Catapora, sarampo, caxumba passavam longe. Também passavam longe apelidos. Na casa era lei. Ninguém chamava o menino de Joãozinho. Era João de Deus e pronto. Brigou até com a mãe que chamou o neto assim uma única vez.
Aos seis anos, o menino começou a freqüentar a escola e lá não tinha mãe devota que impedisse as tias, os amiguinhos ou quem quer que fosse de chamá-lo de Joãozinho. Reclamou na reunião de pais, mas nem foi ouvida. E, pelo menos na escola, esse laicismo irritante foi limando o Deus do nome cotidiano do menino. E seguiu até os dez anos quando ninguém sabia quem era o João de Deus, mas o Joãozinho da dona Edna, esse todo mundo conhecia. Mais velho, dona Edna entrou com os dois pés nessa mania de Joãozinho da dona Edna. Era João de Deus e pronto.
Crescido, João de Deus teve uma adolescência bem pouco cristã. Conheceu a noite na Lapa e passava lá todos seus fins de semana enquanto a mãe peregrinava pelas igrejas, sempre amiga dos padres que perguntavam do menino que ela sempre sonhou devoto a nosso Senhor. A mãe sorria amarelo. O pai arrumou um trabalho pra ele num escritório de um amigo e João pegou o posto com unhas e dentes, mas sem se esquecer da Lapa, da boêmia e das mulheres. Ah, as mulheres. Essas eram a miséria de dona Edna. Não que ela não quisesse que o filho arrumasse uma já que ele não queria ser padre. Mas precisava ser dessa? Cada uma mais assustadora que a outra e com cada roupa, meu Deus? Dona Edna pensava se as mães dessas meninas nunca lhe deram modos. Pelo visto não. E se tivessem dado passariam longe dos braços do filho. Vai gostar de mulher mal vestida e de cara estranha lá longe!
O trabalho de João de Deus (que, diga-se, era boêmio porta fora. Dentro até que dava conta do recado) levou ele a ser promovido, ganhar mais comprar apartamento, carro e, melhor que isso, dar festas em casa. Eram eventos que dona Edna tinha verdadeira paúra. Nunca viu tanta gente esquisita. Foi numa dessas que João de Deus, ao receber os amigos – e amigas – para festejar sua promoção pra gerente, recebeu a desagradável visita da Polícia. Um colega seu judas teria passado a fita de uma festa de arromba com muita bebida, mulheres e drogas no apartamento X, na rua Y. O caso da denúncia foi parecido com a Santa Ceia. A Polícia chegou estourando tudo e pondo o apartamento de pernas pro ar. Mas o santo de João de Deus era mais forte. Esclarecida a confusão, os policiais pediram desculpa pela averiguação, chegaram à casa do colega traíra e prenderam o sujeito pela confusão e pela falsa denúncia. E ao terceiro dia, João de Deus ressuscitou chamando os amigos para uma cervejada na orla.

Francisco Libânio
29/12/10: 10:43 AM
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