Um dia pensei que ser poeta
fosse pegar palavras e rimar.
Rimei duas. Certo. A continuar,
rimei mais. A cada rima correta
um passo, mas era de estranhar
que a estrofe rimada assim, reta,
não era uma poesia, mas a abjeta
pretensão de quem quis cantar
sem ter em si qualquer emoção.
Rimado, mas sem algum sentimento,
Frases que eram levadas pelo vento.
Até que o dei pra ouvir o coração,
pensar com amor e viver com alegria
e desde então fui escrevendo poesia.
Francisco Libânio
Uma voz fala baixo quando meu desespero Toma conta de mim, mas ela não é ouvida. Sem se transtornar, ela se cala com a devida Paciência e sapiência. Calada, com esmero,
Ela ouve sem falar, fica quietinha, escondida Enquanto eu, atribulado, choro e vocifero Até que me canso e ela, num ato sincero E sábio, toma a palavra em minha alma doída
E fala branda, confortante igual a uma brisa, Enche-me de ânimo e mostra o que há de bom Na vida além de apontar no horizonte uma bonita
Paisagem. É ela quem me fala clara e precisa E se apresenta à minha vista e em tímido som: “Sou Deus, deixa-me cuidar da tua alma aflita!” Francisco Libânio, 28/05/10, 8:19 PM
Pureza é um negócio estranho. A gente elogia a das crianças, chama de inocência e fala que precisamos ter se quisermos estar mais próximos de Deus. Não nego. Se Jesus disse que é preciso ter coração de criança para entrar no Reino dos Céus, é sinal de que ela é muito importante. E o mundo é um convite à pureza. Mesmo os animais quando são maldosos, cruéis ou inclementes é porque são puros. Ninguém ensinou a eles matar. Ninguém a não ser eles mesmos, mas o tamanho da maldade deles é a mesma desde sempre. Nenhuma fera criou artimanhas ou artifícios para matar mais presas além do necessário.
Na verdade foi o homem quem deturpou a pureza com o tempo relegando-a a um papel secundário em suas vidas. Quase inexistente. Então agora falar de pureza é complicado. O homem sabe que ela existe, mas não a pratica. Medo de não ser racional, medo de ser menor. Medo de ser animal. Mas prega isso.
E se é verdade o que Jesus disse, temo encontrar no Dia Final diversos animais, inclusive feras como leões, tigres e hienas serem absolvidas enquanto muitos homens, muitos que pregavam pureza, não sendo ouvidos. Mas há tempo de mudar.
Entre a sombra e a tua pele, qual a divisa Em que se encontram ambas escuridões? Qual e como é a linha adjacente precisa Para que o olho capture de ti só as feições?
O que é mulher e o que é sombra e irreal, Imagem, impressão, o que é e o que não é teu Ante a penumbra que faz de ti exata e igual Ao quarto em que a luz diante de ti empalideceu?
Não sei, a imagem é tênue. Há uma mulher Embrenhada nessa escuridão à minha espreita E vem devagar em minha direção e me quer
Depois, senta-se à minha frente e, suave, toca Minha pele consagrando esta parceria perfeita Percorrendo-me oculta e beijando-me a boca. Francisco Libânio, 20/05/10, 12:47 AM
Essa pele negra, tão diferente da minha, Não me tolhe, muito menos me afasta, Apenas me encanta e melhor sublinha Quando minha pele com a tua contrasta.
Mais que isso nada. Não me impressiona A diferença, o desigual. Aliás, me atrai. Ao mirar-nos, tudo de negativo se esvai Enquanto tudo de melhor vem à tona
A oposição de peles, a escura e a clara, Precisava mesmo ser ponto de confronto Entre essa humanidade que tanto separa
Iguais apenas por pequenas diferenças Usando o outro como seu contraponto Enquanto admiro tuas tonalidades intensas. Francisco Libânio, 16/05/10, 11:13 AM
É como se cada trança tua fosse uma serpente E como se fosses uma Medusa com o teu olhar, Mas ao oposto da Górgona, mirar-te de repente Petrifica, mas não amaldiçoa, e sim faz apaixonar
E quem te admira, encanta-se e logo vai brincar Com tuas tranças. A mão, ávida, toca-as rente De tua cabeça que se graceja a inspira a acariciar Também quem acaricia. Faz-se troca freqüente
De carinhos em tuas serpentes negras e doces Que não picam nem matam, mas tem seu feitiço Mais fundo deixando vulnerável a vítima delas
Que se entregam a ela tomando-a. Feitas as posses, Tu, medusa retinta, abraça teu homem castiço E envolve-o com as tranças e ele ama estar nelas.
Achava sua vida normal demais. Todo dia acordar às seis e meia da manhã, café preto, ônibus para o trabalho e trabalho até as cinco da tarde. Depois, ônibus pra casa, jantar com a esposa, jornal à noite, novela com a esposa e cama. O dia seguinte, la même chose. Encheu dessa coisa igualzinha em que o que mudava eram a janta, as notícias e a novela. Resolveu que precisava por um ponto final nisso.
Para tanto, primeiro, se separou da mulher e mudou de casa. Depois pediu as contas do trabalho e depois mudou de cidade, de país e de nome. Também mudou de história. Inventou um passado mirabolante. Do simples homem classe média de sempre, passou a dizer que era um príncipe abandonado pelos pais, reis europeus depostos, e criado por camponeses que lhe ensinaram as artes da guerra e da paz. Contou que conhecia um sábio ermitão que contou todos os segredos do universo e que uma tribo de homens alados o ensinou a voar. Contou, ainda, que foi casado com uma deusa asteca com quem teve um filho invisível que andava com ele por onde fosse. Isso e mais um monte de bossas, mas era tão eloqüente que seus novos conterrâneos acreditavam em tudo o que dizia. O prefeito da cidade onde morava logo fez aliança política com ele, com seu filho invisível e com sua esposa asteca que, por ser uma deusa, só o encontrava em noites de lua cheia numa clareira onde só eles podiam estar. Alguém resolveu perguntar sobre a clareira e procurá-la. Quando soube que isso despertaria a ira de sua esposa e que isso custaria todas as vidas da cidade, a começar pelas crianças, as mães do lugar, desesperadas, amarraram o incrédulo. Todos os dias era procurado por autoridades e consultado sobre os mais diversos assuntos. Também tinha em sua cama as mais formosas mulheres. Perguntado sobre seu casamento com a deusa asteca, respondia que ela permitia que ele as tivesse. Dessa forma poderia ungi-las e dar filhos de linhagem nobre àquela pequena cidade esquecida por Deus. Tanto que teve quarenta e sete filhos com vinte e oito esposas. Houve quem achasse um absurdo, mas ele era da mesma forma admirado e odiado pelos homens como amado pelas mulheres.
Um dia, anunciou a todos que teve um encontro com sua esposa e ela viria buscá-lo para ficar eternamente ao seu lado e que ela, agradecida com o carinho e a devoção que a cidade rendera a ele, faria chover ouro e flores. Estranhamente, dois dias depois disso, o homem desapareceu. Foi encontrado morto numa outra paragem, muito distante daquela onde passou sua nova vida, com outra identidade. Diziam que ele era filho de uma humana com um urso sagrado, casado com uma ninfa e fora baleado por um pagão que o encontrou com a esposa. O assassino disse que as últimas palavras dele foram “Irás para o Inferno!” e ele respondeu “Tudo bem, lá eu termino o que vou começar agora”. E acertou quatro tiros a queima roupa.
Não te inquietes se o que queres tens apenas Por uma ideia ou letras ou se o que os separa É uma tela. Nem mesmo a olhos vistos é clara A palavra dita e, às vezes, nem sincera ou plena. Francisco Libânio, 13/05/10, 11:37 AM
São como horas os segundos antecedentes Do beijo, o primeiro beijo tão querido e esperado E são rápidos, repentinos, mesmo que demorado Seja, os segundos do beijo tão bons e quentes
Bendito e eterno seja este curtíssimo hiato Que faz da espera e da apreensão um fato E planta uma deliciosa e saudável espera Enquanto o sabor do outro em nós prospera.
Deus, quando fez a mulher disse: Doçura, Entrarás primeiro e terás a melhor morada. Para dizer: Compreensão, faz acompanhada E protege tua colega para lhe deixar segura
Neste corpo. E convocou também a ventura, A bondade, a sensibilidade e a abençoada Vocação de ser mãe além de uma selecionada Quantidade de virtudes e por esta abertura,
Numa distração de Deus, entraram a luxúria, A sensualidade e, acobertadas pela beleza, Usariam as virtudes para uma intenção espúria,
Mas as virtudes, sábias, já tinham pensado além, Deixaram as más usar a mulher para a vileza Para a partir do mal converter tudo para o bem. Francisco Libânio, 06/05/10, 10:50 PM
Ah, o decote, este bandido de dupla atividade Ora escondendo, mas à revelação um convite Ora revelando enquanto sugere e pede palpite Esperando angelicalmente vir alguma maldade
Para que ele possa acusar bem como obstruir O que ele mais deseja: Revelar o que segura, Mas espera ser convencido com a palavra pura Sendo subterfúgio para o fogo louco a consumir
O corpo no qual ele é empecilho pouco e aparente, Mas que cumpre seu papel honesta e dignamente Querendo mais ser dispensado deste árduo labor
Ah, decote... Sabemos que te quero jogado no chão, Por isso te dispenso, peço que vá para a posição Em que possas ser testemunha do iminente amor.
Menino chegou em casa com uma cara um terço assustada, um terço impressionada e um terço feliz. Não conseguiu segurar e foi falar com sua mãe:
- Mamãe, acabei de ver um ciclope vendo revista de mulher pelada e fumando charuto!
A mãe quebrou o prato que lavava:
- Que história é essa, Pedro Augusto?
- É, sim, mamãe. Ele até me mostrou a revista. Era de uma loira altona, cabelo liso, peitão...
Um croque materno fez com que o menino cessasse a descrição. Onde já se viu?
- Deixa de conversa, Pedro Augusto! Ciclopes não existem. Como um ia ler uma revista de mulher pelada? Onde você viu isso?
- Na despensa, lá fora, mamãe.
Agora foi. A história toda se deu na casa, no sacrossanto lar dessa pacata família avessa a mitologias. A mãe recobrou a calma. Não podia desfazer assim da fantasia do filho. Mas precisou explicar que para tudo havia hora. Serenados os ânimos, a história caiu no esquecimento e a mãe, a fim de incutir responsabilidades no filho, mandou-o fazer algumas compras na mercearia. Ele comprou e devia guardá-las. Na volta, o menino conta:
- Mamãe, agora o ciclope estava lendo outra revista de mulher pelada e tomando cerveja!
Outra vez? Esse menino estava passando dos limites! Decidiu que ele não ia mais ver televisão até tarde. Nem com os pais. Ela tentou ser uma mãe moderna, mas é preciso impor limites ou esse garoto passaria por mentiroso. Ou por maluco. Mandou o menino fazer o dever de casa e não queria mais ouvir falar nisso.
E até a noite, já com o pai em casa, não se falou mais em ciclope. Pôs o menino para dormir quando depois do beijo de boa noite, ele perguntou:
- Mamãe, e o ciclope?
- Dorme, Pedro Augusto!
A mulher foi pra cama matutando. Resolveria as visões do filho no dia seguinte enquanto ele estivesse na escola. E assim fez. Saiu e foi contar para um amigo o caso todo.
- E o senhor acha isso certo? Me responda!
- Olha, dona Maura, o menino precisa aprender as coisas da vida.
- Mas ele tem só oito anos! Assim ele fica assustado e aprende as coisas de forma errada. Agradeço sua preocupação com a educação do garoto, mas dessa parte cuido eu, tá bom?
- Desculpe, a senhora tem razão.
- Então, que isso não se repita.
- Pode deixar, desculpe mais uma vez.
Ela ia saindo quando se lembrou de algo:
- E tem mais uma coisa!
- O quê?
- Que o senhor veja as revistas do meu marido, tudo bem, eu não me importo. Mas quando quiser beber cerveja, peça antes. Odeio gente bêbada. Agora, se eu pegá-lo fumando esses charutos fedorentos outra vez, eu me esqueço que o senhor tem dois metros e meio de altura e força sobre-humana e furo esse seu olho, está me ouvindo?
Não que a virtude seja algo a ser esquecido Ou que os bons valores deixem de bem valer Nem que o mal contra o bem tenha vencido, Ele jamais vencerá e nem nunca irá vencer
Não, não quero ser pelo Mal pego e seduzido Nem deixar que más idéias venham acometer Meu dia-a-dia normal, mas por elas sugerido A coisas menos ortodoxas atrás só de prazer
Resisto, combato, enfrento e não dou ouvidos, Minha vida pacata não é santa nem monástica Mas tento afastá-la de qualquer pecado capital
Só tombo quando estamos eu e ela envolvidos Num abraço e me toma uma sensação fantástica Que até peco, mas com ela isso se torna divinal.
Eles querem que pensemos o que for deles E dizem que, para nós, isso é o melhor, Eles querem que vistamos as suas peles, Querem nos moldar e querem nos compor
Eles querem que não sejamos diferentes, Querem igualdade e querem mente vazia E assim, evitar o risco de haver dissidentes Para que eles possam enchê-las dia após dia
De tudo o que eles querem e julgam certo Pensamentos, ideias, gostos e convicções; Preconceitos e torpezas; isso tudo coberto
Com uma essência de sabedoria irrefutável, Mas a alguns, tantas incongruências e incorreções Incomodam, mas aquietar-se é mais agradável.