Um dia pensei que ser poeta
fosse pegar palavras e rimar.
Rimei duas. Certo. A continuar,
rimei mais. A cada rima correta
um passo, mas era de estranhar
que a estrofe rimada assim, reta,
não era uma poesia, mas a abjeta
pretensão de quem quis cantar
sem ter em si qualquer emoção.
Rimado, mas sem algum sentimento,
Frases que eram levadas pelo vento.
Até que o dei pra ouvir o coração,
pensar com amor e viver com alegria
e desde então fui escrevendo poesia.
Francisco Libânio
Quando te amar eu, em ti e profundo, Meditarei em busca da aura inalcançada Num transe absoluto e te sentirei em cada Respiração, deixarei aos deuses o mundo.
Assim, enquanto eu restar em ti meditabundo, Visualizarei-te em outras mil transfigurada E ao meu redor, tudo será a minha amada A alcançar cem mil nirvanas. E ao fundo
Tilintares, sininhos e tu, com meu nome Chamando... Viagens, cores, sons... Some Tudo. Só tu, deitada em meu colo curiosa
Perguntarás por onde estive. Ah, Formosa... Estive onde te havia em contagem infinita, Mas nenhuma lá como tu aqui mais bonita.
E era inacreditável mesmo. O grito que o homem deu ecoou por todo restaurante e ele ia na direção daquele outro que estava anônimo, esquecido pela clientela no fundo do estabelecimento. E estava decidido.
- Cara, eu não acredito que te achei aqui! Quem diria! Você não é aquele famoso escritor, o ...
- Não, não sou. – e deu mais uma golada no seu vinho.
- Ah, sem essa, vai. É você sim, o maior escritor vivo desse país. Ganhou prêmio no mundo inteiro, na Itália, na Argentina, nos Estados Unidos, em Ruanda... É aquele que escreveu ...
- Escritor, eu? Ora, meu amigo, quem me dera!
- Bicho, tô te falando que você é o maior escritor desse país. Conheço toda sua obra, li todos seus livros e não perco uma crônica sua no jornal!
O outro começava a se impacientar. Será que ninguém pode jantar em paz?
- Olha só, meu velho, eu não sou escritor! Nunca escrevi um maldito livro na minha vida. Aliás, nunca escrevi uma linha que não seja relatório técnico. Eu sou engenheiro, entendeu?
- Não pode ser! São parecidos demais. Pô, você tá querendo me enganar. Todos os seus livros têm sua foto na contracapa. Claro que são fases diferentes da sua vida. Em nenhum deles aparece essa cabeça prateada.
- O senhor está me chamando de velho?
- Não! Longe de mim! É que do seu último livro, o Catando Uvas nas Vinhas do Senhor pra essa noite em que eu te encontro já se vão bons sete anos. Tempo o bastante pras pessoas mudarem.
- Agora quem não acredita sou eu!
- Ahá, eu sabia que eu ia desmascará-lo!
- Não... Não acredito que o senhor tenha lido um livro com esse nome. Catando Uvas nas Vinhas do Senhor... Francamente, meu velho? Isso lá é literatura? Ninguém lê um livro com nome tão estapafúrdio e gosta a ponto de falar aos quatro ventos.
- Confesso que o nome, realmente, não é muito bom, mas li uma entrevista na qual você diz que os títulos, quando não têm uma ligação direta com a obra, são perfeitos pra chamar o leitor ao livro. Então a tática foi perfeita!
- Quem deu essa entrevista?
- Vem com essa! Foi você. Aliás, eu não sei porque ainda você fica aí se fazendo de sonso. Coisa rara é leitor encontrar escritor assim no dia-a-dia. Que ator, atriz fique fazendo doce pra ficar anônimo, eu compreendo. Todo mundo assiste novela, filme. Mas escritor... Até se o Jorge Amado fosse vivo, todo mundo ia confundir ele com o tiozinho que vende bilhete na porta da lotérica.
O homem da mesa, enfim, se deu por vencido. Não adiantava querer ser anônimo. Seja quem for, faça o que fizer, sempre vai ter um fã chato pra interromper aquela hora de paz. Ele abriu o jogo:
- Ok, você venceu. Sou eu mesmo, o escritor do Catando Uvas nas Vinhas do Senhor e de Melquisedeque, Traga-me Oito Pãezinhos entre outros. Ganhei, mesmo, os prêmios que o senhor falou e dei a entrevista a qual o senhor se referiu. Queria ficar incógnito porque tive uma semana cheia. O senhor quer um autógrafo?
- Autógrafo? De jeito nenhum! Meu sonho sempre foi encontrá-lo pra dizer o quanto seus livros são horríveis. Do título ao último ponto final. Cada coisa sem nexo. Fala sério, você deve fumar cocô de lagartixa pra escrever tanta bobagem! Você e a turma que lhe dá esses prêmios. Olha, com todo respeito, mas se você é o maior escritor desse país, como dizem os críticos, eu sou um orangotango.
No dia seguinte, o jornal que traz diariamente uma crônica do famoso escritor estampava na primeira página a pancadaria generalizada na qual ele se envolveu com um homem num restaurante. Cadeira quebrada na cabeça e tudo mais. Nem a Amy Winehouse faria tamanha baixaria.
Há uma coisa, um quê de barbarismo Em ver soldados em marcha alinhados. Vão eles em paz, mas estão armados. Intimidação travestida de civismo Francisco Libânio, 07/09/09, 12:13 AM
Havia um homem no telhado da casa da esquina, Para susto de um transeunte por lá desavisado. Toca a ligar pra polícia sobre o crime praticado Pelo homem que parecia agir esperto na surdina
E dali a pouco, o homem pela multidão acuado, É acossado pelos Homens, segue-se a sabatina Com ofensas e tapas, o que é chamado de rotina Pela Autoridade que fica sabendo de todo o riscado
O homem em cima do telhado lá colocava telhas, Fora contratado para exercer seu simplório ofício E naquela tarde estava trocando todas as velhas.
A multidão acerca da casa foi embora envergonhada Com esse hábito ruim, esse desprezível vício De julgar pessoas humildes de forma errada. Francisco Libânio, 25/11/09, 11:16 AM
O Sempre precisa de uma rima que lhe ajeite, Mas é difícil. Nenhuma há com tal terminação E mesmo uma parecida na pronunciação Não sei de alguma que de bem lhe aceite
Então penso no Sempre e nesta reflexão, Vejo-me para ele como um mero enfeite Descartável. Vejo que por seu puro deleite Ele se mostra para mim uma vã interrogação
Porque o Sempre, me prometem, dura Sem acabar indo fácil até o infinito Onde sua boca beija a do Universo
E tanto ele zomba desta minha procura Fazendo pouco dela e do que já foi escrito Que não sei como ainda lhe dedico este verso. Francisco Libânio, 13/08/09, 11:38 AM
Essa aconteceu comigo num desses dias que eu voltava pra casa de ônibus. Eu estava no meu canto, já tinha passado a roleta muito bem vindo de algum lugar, como diria o poeta, com o carro parando no centro. Ele não estava muito cheio. Éramos eu e mais uns sete quando entra um sujeito maltrapilho, de camiseta aberta, calça rasgada e um boné seboso que pintaria de verde vivo qualquer bafômetro. Entrou por trás e queria que o motorista esperasse entrar, além dele, dois cachorros, o que o chofer achou um abuso. Um sem pagar o bilhete ainda vai, três não. Quando pôs o carro em marcha, ele foi interrompido por outro passageiro, esse mais bem alinhado, mas em igual estado de canjebrina.
- Esse ônibus vai pra Washington Luís?
- Não senhor, ele só cruza ela. Nem pára. – respondeu o paciencioso motorista.
- Qual o ponto final dele?
- O estádio.
- Então vambora! – ordenou o outro entrando pela frente estabelecendo um caminho lógico como se entre São Paulo e Rio de Janeiro estivesse Porto Alegre. O motorista, que não tinha nada a ver com isso cumpriu seu papel. Ao se sentar e olhar pra trás, encontram-se os dois que devem ter se desencontrado no mesmo bar por questão de minutos. A conversa fluía com aquela intimidade que só os manguaçados sabem. Mas por pouco tempo.
- Bão? E aí? Como vai a família?
- Vai bem, graças a Deus. Mulher bem, filhos bem. Todo mundo só me dando orgulho.
- Deus abençoe. Minha família vai bem também. Só minha mulher que me preocupa. Ela tá bem até demais, mas desconfio que ela tá me passando a perna com um zé-ruela que...
- Repete se for homem!
- É um zé-ruela que parece que me enfeita a cabeça e...
- Escuta aqui, como você me chama de zé-ruela, seu imbecil?
- Eu não estou falando do senhor.
- Ah, sem essa! Coisa que eu odeio são esses engomadinhos que olham a gente e só porque a gente somos pobre, o cara fica tirando. Isso não vai ficar assim!
O clima esquentava conforme o ônibus rodava. A situação ficava tensa ao mesmo passo que tomava ar de tragicomédia. E pior que encrenca gratuita em ônibus é gente que a fomenta. E nem isso faltava. O almofadinha da frente e o indigente de trás, rápido, já constituíam seus respectivos partidos. Dois moleques que chegaram um ponto depois deles e estavam sentados no banco da frente e outros três vindos comigo acomodados na parte de trás eram uma assistência vip para o embate que se arrumava:
- Ih, xingou a mãe. Ah, eu não deixava!
- Olha lá, te chamou de corno, rapaz! Vai deixar barato?
- Percebe a cara de sarcasmo que ele tá fazendo, nego. Ele quer cuspir em você.
Em dada hora, o maltrapilho, movido pelo álcool e pela exortação da torcida, não se segurou:
- Então vamos resolver isso que nem macho! Agora a coisa é no muque!
- Ah, sai pra lá, tio! Quebro sua fuça com a mão nas costas!
Se quebrou ou não quebrou, eu não sei. A valentia dos dois em ameaçar era tão grande e cerimoniosa que meu ponto chegou antes que os dois saíssem no braço. No dia seguinte, de manhã, perguntei para duas moças que estavam comigo àquela hora que fim teve a briga. Uma delas disse que um desceu num ponto, o outro desceu dois pontos depois dizendo que ia estraçalhar o primeiro. O que eu vi, ao chegar ao trabalho, foi a foto dos dois no jornal ilustrando a matéria em que dois homens foram internados com coma alcoólico, cada um em um bar diferente e, mais abaixo, os malefícios da bebida na vida moderna.
Oh, abstrata palavra inanimada, De significado pleno, mas vazio Cuja ilustração houvesse no dicionário Vergonhosamente seria um nada Francisco Libânio, 09/08/09, 1:53 AM
Meu lado cristão é um nanico marrento, Sabe que é baixinho e não pode com o forte Se a coisa descambar pro lado violento, Fica no seu canto vendo os socos e o corte
Mas se não sabe brigar, ele tenta, de outra sorte, Entrar no embate. Assiste e escolhe o momento Para encarar o bruto já exausto. E por esporte, Humilha só na base da ofensa e do argumento
O brucutu em si exaurido e por ele derrotado É ou meu desejo ou meu bom-senso que, melhor, Devolve a afronta que o lado cristão lhe fez
Mas este, mesmo pelo forte tanto surrado, Não desiste. Espera da nova briga o vencedor, Quieto, e com ele cansado, derrota-o outra vez. Francisco Libânio, 18/11/09, 1:18 AM
Deus e o Diabo, numa animosa conversa, Disputavam quem tinha mais influência No mundo. O Demo aludiu que a ciência Desenvolve-se sob a existência perversa
Da guerra. “Cria-se para o melhor ataque, Para dizimar o inimigo, eivá-lo, destruí-lo Mais que para a defesa. Este o meu estilo E para se ir adiante faz-se preciso o baque
Das armas!” Deus se fez, então, reflexivo, Calou-se e olhou os homens em guerra E uma criança e um velho que perdera
A casa, a família e tudo o mais que era Seu. E sentiu sua influência na Terra Ao ver a criança sendo um ombro amigo. Francisco Libânio, 05/08/09, 1:45 AM
Tá legal. É preciso que eu escreva uma crônica, um conto, uma poesia, um verso que seja – desde que não seja batatinha-quando-nasce – pra cumprir a cota de hoje. Vamos a ela. Ou ele. Como fazer? Pergunto pra minha consciência, e ela, naquela preguiça de sexta-feira, responde com educação marinheira:
- E eu que sei? Quem se meteu a ser escritor aqui foi você, não eu! Cuida aí dos seus poemas que eu tenho mais o que fazer. E não se esqueça de me chamar pra hora do almoço. Passe bem!
Certo, certo... Segunda, vou colocar essa subversiva numa escola de bons modos. Já que ela não pode me ajudar, vamos buscar inspiração em outro lugar. Nessas horas, um livro do Drummond sempre ajuda. Leio duas crônicas dele, dou boas risadas e alguma idéia aparece. Isso é bom. Já dizia o Chacrinha que nada se cria, tudo se copia. Mas não vou ser desonesto em copiar Drummond. Vou apenas pegar dele um fio, uma imagem que possa me fazer desenvolver uma idéia. Vamos lá...
Aliás... É isso! IMAGEM! Tudo o que eu preciso é uma imagem. Mas não imagem de foto ou procuraria um livro do Sebastião Salgado. Vou dar uma volta pelas redondezas e ver o que meus olhos captam. Para que a coisa saia a contento, dou um rolê pelo São Judas, que é perto de casa, mas termino indo ao Parque do Povo mesmo. O que vejo são jovens correndo, madames levando cachorrinhos pra passear e sol. Muito sol! A primavera chegou aqui nos rincões do Oeste com o cartãozinho do verão. A coisa vai ser tórrida. O lado bom é que calor e roupa são grandezas inversamente proporcionais, principalmente para as mulheres, e ver o mulherio andando com tops e shortinhos é um colírio para os olhos. Mas não dão um bom texto. Melhor voltar pra casa.
Mais Drummond, um pouco de conversa. Alguém precisa ter uma idéia para eu roubar. Roubar, não, que é muito feio. Tomar emprestado surdinamente é melhor. Mas parece que tanto a TV quanto os que me cercam andam tão vazios de idéias quanto eu. Mais Drummond. A idéia que eu tive no primeiro encontro com o poeta mineiro caiu em algum lugar do meu passeio e não vou procurá-la na rua. O solo onde eu devia plantar uma coisa escrita está nu. O rei está nu, mas ele pelo menos tinha um orgulho enganado pela vaidade. Eu não posso ficar pimpão por estar nu. Nem tenho motivos pra isso.
Vou ao computador e ele custa a ligar. Nem ele me ajuda. A sexta promete... Uma folha branca aparece na minha frente e hoje a tática vai ser oposta. Normalmente escrevo pra depois dar nome. Hoje vou dar nome e escrever. Assim, o título já existe: Desenvolvendo. Mas desenvolvendo o quê?Não sei... Ô inferno! Então, eu me meto num colóquio telepático entre mim, minha necessidade de escrever e o computador com a tela branca virgem esperando ser deflorada com alguma idéia: “Tá legal. É preciso que eu escreva uma crônica, um conto, uma poesia, um verso que seja – desde que não seja batatinha-quando-nasce – pra cumprir a cota de hoje...”
Não penses que é por ti que me quedo Acordado enquanto se dorme o sono justo Ou se ama por aí seja a amor ou a custo, Amada, mas saberás parte do segredo
Sim, teu vazio ao lado me é um susto, Uma dura falta com a qual me enredo, Mas eu a venço e mais ao sabido medo De não te suplantar, subjugo-os e degusto
Com prazer sem igual ao me envolver Ardente com outra, seja ela imaginada No verso ou deitada em minha cama
E enquanto escrevo, ela se esparrama No teu vazio e eu desperto na madrugada Refazendo-me pra ela ao te escrever. Francisco Libânio, 08/08/09, 1:51 AM
Quantos nomes eu queria que tivesse Esse simples ato de beijar tua boca Durante o abraço, mas um que eu desse Seria grande em escrita e teria pouca
Significação real. Um beijo e um abraço, Substantivos simples e em si abstratos, Mas quando nossos e concretos num espaço Real, de palavras se fazem em fatos
É pouco o que diz deles o dicionário E não me venha um filólogo ordinário Criar um neologismo deste meu instante.
Se ele é meu e se eu não lhe dei um nome Não é falta de idéia. O fato me consome E a ser poeta, nessa hora, prefiro ser amante. Francisco Libânio, 07/08/09, 12:10 AM
E o Altamirano, hein? Sujeito que tinha aquele dom da simpatia criativa que nasce com muitos e é aprimorado por poucos era um sambista de porta de boteco que não teve a sorte de ser encontrado por um figurão. Se ao invés de fazer seus batuques e suas rimas no Bar do Mirto os fizesse no Bar da Brahma, no cruzamento da São João com a Ipiranga, seria o novo Zeca Pagodinho. Mas onde ele os fazia era ruim de pintar um empresário influente ou um bonito que conhecesse o produtor do Domingão do Faustão. Achavam que o Altamirano ligava pra isso? Pois, ligava! E muito. Essa coisa de trabalhar como porteiro naquele prédio comercial não era a pior do mundo, mas o salário deveria ser condenado pela Convenção de Genebra. E ele via no domingão aquela turma de pagodeiro pastinha fazendo sambinha de quinta enquanto ele nada. O Altamirano não era do tipo que se gabava. Nunca pleiteou o prêmio de Porteiro do Ano, de Operário Padrão, de Honra ao Mérito. Era discreto até. Mas quando tratava de samba, mandava a modéstia pra casa do chapéu e dizia consigo mesmo:
- Eu não sou o Cartola, mas sou melhor que essa molecadinha de condomínio fabricada aí.
E era mesmo. Os amigos do boteco se cotizaram várias vezes pra tentar alçar a vôos mais altos o mais talentoso dos assíduos do Bar do Mirto. Uns concursos de talentos que rolaram, inscreveram o Altamirano, mas ele nem passou dos testes. Essa turma não entende pipocas de samba. E o Altamirano curtia no cavaquinho a fossa de não ser olhado pela sorte.
Aí, aconteceu que o Altamirano ficou umas duas semanas, três talvez, sem aparecer no boteco pra tomar uma com os amigos. Deixou saudade dos sambas que criava na hora.
- Fala dessa morena que chegou.
- Altamirano, rolou uma treta assim e assim comigo, dá samba?
Tudo era mote para um refrão, uma paródia, algo realmente interessante, mas já fazia tempo que o Altamirano não dava as caras no bar. Um dia, alegria geral. Aparece o sambista no meio da roda, pede a de sempre e anuncia:
- Eu andei meio afastado porque acordei dia desses com uma idéia, um samba que vai me tirar do anonimato. Esse eu vou divulgar, gravar, entregar fita em tudo que é lugar pra que me conheçam. Chama Samba do Passarinho. Até escrevi a letra. – e tirou um almaço dobrado do bolso.
Pra turma isso foi, simplesmente, sensacional. Se quando improvisava, o Altamirano arrebentava a boca do balão, imagina o que não sairia se ele resolvesse trabalhar numa coisa sua? De escrever, reescrever, apagar, encaixar, metrificar... O pessoal era unânime. Vinha aí uma sinfonia de entrar pra história. Já se gastou demais em conversa fiada, mandaram o Altamirano mostrar logo o samba pra galera. E ele fez aquele charme de “minha voz não tá lá essas coisas, mas nada que uma molhada no bico não resolva”. Uma golada na cerveja e o Samba do Passarinho saiu pra apreciação pública.
No pam-pam final, silêncio. Aquela coisa que chegava a ser incômoda, mas – diferente de sempre – não rolou um aplauso, um viva, um bravo. Consternação geral. Ninguém falava nada até que um valente resolveu se pronunciar:
- Tamirano... Isso tá uma droga! – O veredicto foi a locomotiva de iguais impressões.
- Minha avó escreve coisa melhor que essa joça!
- Nojento!
- Tanto tempo pra isso?!
O apupo foi geral. Altamirano decidiu que nunca mais ia pegar num cavaquinho na vida. Ia ser porteiro até o fim dos dias porque, se quando ele faz a coisa de instantâneo e sai coisa boa, ele arrasa e quando lapida sai um monstro, melhor deixar pra lá. Empresário nenhum ia querer saber disso e ele ainda corria risco de levar umas bolachas.
Acham que acabou? Não acabou, não. Altamirano matou o Passarinho e a folha e jogou longe os dois. Continuou sendo porteiro e bebendo com os amigos no Bar do Mirto. Acontece que o cara que fez o primeiro comentário pegou o papel, guardou, na moita, e no dia seguinte o passou pra um amigo seu que maltratava um pandeiro. Mudou uma palavrinha aqui outra lá, substituiu todos os “minha nêga” por “minha pombinha” e, de Samba do Passarinho, mudou o nome pra Samba da Minha Pombinha. Hoje seu amigo é dado como o futuro do pagode e ele ganha vinte por cento do cachê de cada show.