Um dia pensei que ser poeta
fosse pegar palavras e rimar.
Rimei duas. Certo. A continuar,
rimei mais. A cada rima correta
um passo, mas era de estranhar
que a estrofe rimada assim, reta,
não era uma poesia, mas a abjeta
pretensão de quem quis cantar
sem ter em si qualquer emoção.
Rimado, mas sem algum sentimento,
Frases que eram levadas pelo vento.
Até que o dei pra ouvir o coração,
pensar com amor e viver com alegria
e desde então fui escrevendo poesia.
Francisco Libânio
Primogênito, primeiro sucessor, Primeiro umbigo, primeiro filho, Primeiro homem a deixar o rastilho De violência como bem posterior. Francisco Libânio, 30/09/09, 11:27 AM
Pedir ao poeta explicar em detalhe Um poema é maldade, é um incontido Querer de expô-lo ao achincalhe E maior que ele ceda a tal pedido
E divague sobre cada verso a desnudar O poema, algo naturalmente pudico Empobrecendo com uma nudez vulgar Algo que, vestido e secreto, era tão rico
Porque poema não se explica, se lê, Se entende e conquista e se gosta ou não E quem quer que se o explique não entende
De poemas e de sentimentos, apenas crê Que o lido precisa ser alvo de discussão Querendo ser tema o poeta que o atende. Francisco Libânio, 01/08/09, 1:57 AM
Parte do homem, projeto final, Complemento dele, dotada de fertilidade E de força à dor, criação perfeita. Criada para obedecer, mas de tão afeita Ao homem, de subjugada vira autoridade Sobre ele com poder de bem e de mal. Francisco Libânio, 23/07/09, 11:50 PM
Sempre que me sento pra escrever uma crônica é uma tarefa hercúlea pra mim. Algo assustador porque, quase sempre, não sei como começar. E quando sei não sei como ela vai terminar. E isso me inibe.
Veja só esta crônica que você está lendo. Ela já teve um parágrafo que eu pensei de antanho. Fora uma perfumaria ou outra, o sentido dele é esse mesmo. Mas não sei como vou chegar ao próximo. Aliás, não sei nem como já escrevi tanto neste. É preciso um mote, uma sobrevida para esta crônica porque ela, até aqui, não é sobre nada que não seja ela mesma. E não é muito legal ficar escrevendo algo que olhe pra si.
Pronto, findei mais um parágrafo pra começar outro. Estou indo bem. O primeiro parágrafo com uma idéia definida – a dificuldade de escrever crônicas – e o segundo esticado pra dar uma dissecada no outro. Este terceiro é um degrau a mais abaixo. O problema vai ser na hora de voltar por essa escada e de repente, uma avalanche soterrar o buraco que estou cavando. Para um cronista é tudo que ele precisa: Ser soterrado por algo que ele mesmo resolveu inventar. Para a ciência isso pode ser encarado como dar a vida por uma experiência na qual o cientista morreu acreditando. Para o cronista é a prova máxima de sua própria incompetência.
Caraca, quarto parágrafo! Pelo menos no terceiro, mais que enrolar, desenvolvi uma idéia. Muito vaga, daquela sem a qual a literatura universal viveria muito bem, mas foi uma idéia. A crônica vai se formando e criando corpo. Aos solavancos, consigo dizer algo. Não sei muito bem porque escrevi essa crônica. Era a vontade de desenvolver algumas frases ao invés de versos. Faltou combinar com a idéia. Mas as idéias e eu somos assim: marco delas virem me visitar e elas não vem. Aí resolvo escrever assim mesmo. Elas que se lasquem. Mas quando me vêem fazendo algo que julgavam fosse eu incapaz, cedem e ajudam. Não com aquela disposição voraz para tal trabalho duro, mas antes uma meia ajuda que nenhuma. E assim, pobremente ajudado, contrariado, mas resignado com a importância da crônica, toco-me a escrever. Não tem tema? Azar. Não sabe como começar? Enrola-se, fala-se do tempo, do jogo de ontem, enche a primeira linha de xxxxxxxxxxxxxx e a folha em branco deixa de estar em branco. O resto se arruma depois.
Assim, a crônica, não aquela braguiana que de tão lírica vira um poema em frases, mas a crônica dos homens normais se constrói. Tudo bem. Os homens normais são anônimos, têm dificuldades não só em escrever, mas com agruras do dia-a-dia. Rubem Braga, não. Esse podia até ser homem, mas como cronista, era uma espécie de Hércules, de Arjuna, de São Francisco de Assis. E ao quinto parágrafo, junto com o fim dessa crônica, leguei uma comparaçãozinha ridícula.
Sabia que tinha um compromisso, Um não, vários. Não os negava nem os podia. E de sonso, prometia pra “um dia” Ao responder a quem pedia: “E eu com isso?” Francisco Libânio, 16/09/09, 8:43 PM
Num momento em que amei demais Ou talvez me faltasse algum amor Prometi a ela que eu seria o melhor E lhe pedi a mão para a minha paz
Enquanto estive sob efeito de tais Exageros ou ausências, aquele calor Aqueceu-me e foi, de todos, o maior Amor e não quis do mundo mais
Mas quando voltei ao meu exato, Vi que não era ela nem nunca seria A famosa “mulher da minha vida”
Desse doce sonho fez-se amaro fato E, certíssima, ele fez, a partir desse dia, De mim, uma criatura horrenda e desvalida Francisco Libânio, 23/09/09, 3:07 PM
Dormiu de novo. Acordou, nada havia. Soube que parte sua fora extraída Por um cirurgião com tal maestria Que deu ao que era seu o dom da vida. Francisco Libânio, 23/07/09, 11:43 PM
De barro se montou e se encheu, Num sopro, abriu os olhos e viveu. Obra prima, divina semelhança Humana com imperfeições futuras, O homem deitou-se qual criança E auto-investido de poder, brincou de Deus Dando nome às criaturas. Francisco Libânio, 23/07/09, 11:37 PM
Amaro Amor de influências permanentes, Dores profundas e eternas lembranças, Diz como viver a ti em minhas andanças E como revives dias idos nos presentes
Eu devo a ti homenagens entrementes Teus augúrios suscitassem esperanças Que não brotaram. Já planejei vinganças Contra ti, já te vi com os olhos quentes
Da brasa da mágoa, mas quem sou eu, Homem ingrato agora contra tuas decisões Após tantas e bem injustas bonificações?
Amaro Amor, se me tomaste o que é meu, Não te pergunto o porquê. Houve razão, Mas peço-te pelo tomado uma compensação Francisco Libânio, 16/09/09, 11:56 AM
Não dependia de mim não ser poeta. Por mim, eu não seria. Nunca quis, Escrevia sem saber falar como os doutores Quem era eu pra incomodar os autores, Verdadeiros poetas?, mas lá fui eu de feliz. Li um, li dois e, atrevido, tomei uma caneta, Escrevi uma quadrinha e outras mais E quando não quis ser poeta... Era tarde demais. Francisco Libânio, 20/07/09, 12:01 AM
Ousou dizer um palavrão como bendissesse A melhor das sortes ao melhor amigo. A grosseria lhe escapou deste abrigo Incômodo que era a vergonha. Houvesse
Rompido antes a casca em que era envolta, A grosseria deixaria ovos já eclodidos, Seria mãe de outros nomes proibidos E sua genética estúpida e suja estaria à solta.
Mas, ao mesmo tempo em que se arrependeu, ele, De falar o indevido, aliviou a alma reprimida E nunca algo condenável lhe fez tanto bem
Assim, quando se ferve, um palavrão expele, Deixando correr a raiva em si contida Pedindo perdão pelo nome feio a alguém Francisco Libânio, 20/07/09, 9:26 AM
Meu francês não é coisa que preste, Já foi melhor. Meu inglês sabe ler, mas não é de falar, Medo de se expor. Meu espanhol é vivo, mas até que se desperte Vai tempo maior. Meu lado poliglota, então, deu de votar E em três votos a um, esta (in) culta maioria Mandou meu português escrever esta poesia. Francisco Libânio, 14/07/09, 1:55 PM
Estou no ônibus, voltando pra casa. São algo como nove e meia da noite quando o carro para numa das avenidas mais movimentadas de Prudente e sobem duas mulheres, mãe e filha, negras, bonitas. Uma aparenta ter seus trinta e tantos anos. A mãe aparenta ter cinqüenta, sessenta, mas sempre com o fisionomia de alguns anos menos que a melanina preserva. Sentam-se à minha frente e, num ônibus vazio e noite sem trânsito, fica fácil ouvir a conversa. A filha conta à mãe de um rapaz com quem esteve há pouco. Se namorado ou um amigo não saiu. E conta de uma boa conversa que tiveram até a mãe chegar. Parece que elas sem encontrariam, iriam fazer compras e voltariam pra casa. A mãe pergunta alguma coisa sobre o moço (devem ser só amigos mesmo) e é respondida. Mas só trivialidades, coisas cotidianas, aquelas de pessoas que se conheceram no carrinho de bebê enquanto as mães conversavam na praça. Aí a filha pergunta algo sobre a mãe, onde ela estava antes de se encontrarem.
- Fui ver meu preto. – Responde a mãe com um sorriso de lado a lado.
E a filha solta aquele olhar cúmplice de “A senhora, hein?”. Pode parecer impressão, mas o que ficou é isso. A filha, mais jovem, mais bonita – que deu a entender na conversa ser solteira, mas não à solta – poderia até ter lá seus namoros, mas não foi o que ela foi fazer àquela hora. A mãe, senhora de mais idade, óculos, jeito de ser recatada e carinha de avô bonachona que adora pegar neto no colo, estava namorando e estava toda pimpona com o encontro. Gerações distintas de comportamentos inversos? Não. Mulheres corretas, discretas e satisfeitas cada qual com seu encontro com um homem. Mãe e filha contentes por ver uma à outra que a tarde que tiveram foi muito bem aproveitada.
Dois caminhos a seguir: O bem à direita, O mal à esquerda ou vice-versa. Pior que não saber se um deles se aceita É ver vir do meio a besta perversa Francisco Libânio, 10/09/09, 11:25 AM
Ao escrever um poema, assim que o termino Há outro poema louco querendo vir à luz. Ele luta pela sua sobrevivência ante ao capuz A amordaçá-lo no escondido onde o confino.
Porque, se um nasce, ele acha que faz jus A nascer também. E está certo. É genuíno O que quer. Então luta por ele com tigrino Instinto de se ver livre. E eu que me opus
A isso, convenço-me meio na força bruta, Força pela qual fui subjugado e é irresistível Se eu me meter enfrentá-la em justa luta.
Ao poema abro as portas, faço sua vontade Sem saber como lhe negara o inamovível Direito quem qualquer um tem à liberdade. Francisco Libânio, 05/09/09, 10:33 AM
Do Ipiranga às margens plácidas Ouviu-se um brado retumbante. Foi um feito em si estimulante Mas de palavras em nada válidas Francisco Libânio, 06/09/09, 3:14 PM
A Amada me via ali, a tudo distraído, A falar. Eu achava que prestava atenção No que eu dizia com mais empolgação Conforme o assunto era transcorrido
Mas não... Esperava minha distração Fazendo o seu pendor como prendido À minha fala, mas num rompante definido Ela, com um beijo, me cala a exaltação
E nesse beijo perdem-se assunto e meada, Morrem exaltação, interesse, enfim, tudo O que era antes. O beijo agora é o senhor.
Muito engenhoso este golpe da Amada... Sabia que distraído, surpreso e mudo Eu sentiria com os cinco sentidos seu sabor. Francisco Libânio, 20/07/09, 11:50 AM
Estou na sala, alheio a tudo que acontece, Abre-se uma porta próxima. Invade um aroma De eucalipto. A ele outro perfume se assoma E a sala é só odores. Na porta me aparece
A Amada num roupão. E ela me toma De assalto num abraço que bem favorece Meu nariz. A ele, seus cheiros ela oferece Enquanto saca da outra mão uma goma
Sabor hortelã, um aroma verde e forte. Ela sussurra. Misturam-se eucalipto, hortelã, Aromas da pele, da boca, do corpo inteiro
E é quando eu tenho, num lance de sorte, Um beijo da Amada em seu doce afã De mostrar que beijo também tem cheiro. Francisco Libânio, 13/07/09, 12:29 AM
Durmo. A Amada me recita um bom dia Tão melodioso que como ele não seria bom? É que é só dela esse delicioso dom De me transmitir na fala a sua alegria
Fazendo-o num dulcíssimo tom Em que me despertar se inebria E meu ouvido, ao ouvir dela a melodia, Quer mais ainda desse som
Ela o atende e fala até a despedida Para me receber com um cumprimento, Uma história e me chamar de querido.
Como poderia eu querer outra vida Se minha felicidade e meu contentamento Chegam de forma amável pelo ouvido? Francisco Libânio, 12/07/09, 1:47 AM