sexta-feira, 10 de junho de 2011

Novela


- Entenda. Não é que eu não goste de novela. Eu até assisto quando estou de bobeira em casa, mas não gosto de acompanhar. – explicava o solícito entrevistado a um pesquisador. Já perdera cinco minutos da volta de seu almoço para o trabalho.
- E por que não? – estendeu o outro.
- Por quê? Porque eu não gosto de me sentir obrigado a incluir a televisão na rotina da minha vida. Prefiro passar a noite conversando com minha esposa, brincando com meus filhos, recebendo meus amigos em casa. A tevê não está entre minhas prioridades. Tenha um bom trabalho. – e saiu.
E o que precisaria? – seguiu o pesquisador a passos largos já a largos passos.
- O quê? O senhor ainda está aqui? Precisaria de quê?
- Para o senhor trocar tudo isso por novela.
- Não precisa de nada. Nunca que eu faria essa troca. Não seria eu.
- Não acredito!
- Pode acreditar.
- Só vendo! Onde o senhor mora?
- Acho que isso não está nesse questionário, está?
- Não, mas é que estou impressionado! Quem hoje troca televisão por família? O senhor não sabia que família unida é aquela que assiste junta o jornal, a novela e depois alguma coisa qualquer? O senhor está enterrando essa instituição! – e o outro, com o pesquisador falando, já estava na porta do prédio onde trabalhava. Pediu pra avisar que já já subia.
- Enterrando? Olha aqui, meu amigo, eu e minha família estamos juntos há seis anos e como o senhor fala que estou enterrando minha família? O senhor está por demais inconveniente.
- Escute, e se agente colocasse mais violência na nossa novela?
- Não me interessa.
- E mais mulher pelada?
- Dá bronca em casa.
O pesquisador alcançou e conseguiu entrar no elevador, para miséria do outro.
- E se colocasse mais povo na televisão? O povo adora se ver, se identificar quando assiste a um programa. Sei que nossa novela, às vezes, parece elitista, mas é questão de contexto, sabe? Mas uma guinada está próxima. Posso dizer que será a própria Revolução Bolchevique da tevê brasileira. Vai ser o que há, diz que não!
- Com todo prazer... NÃO! – respondeu descendo dois andares abaixo. Por sorte, o pesquisador ficou no elevador. Enquanto subia os lances de escadas até sua sala, pensava em tudo o que ouviu. Cara chato! Chegou à sua sala, pensou um pouco mais, deu alguns telefonemas. Em quarenta minutos convocava uma reunião. Começou falando:
- Seguinte, moçada, eu soube por fontes seguras que a concorrência anda com uma pesquisa para mudar a orientação da novela deles. Ouvi falar, até, que eles pretendem fazer a Revolução Bolchevique da tevê brasileira querendo colocar o povo na tela. Então é assim: Chama todo nosso elenco pra gravar e os autores pra reescrever os capítulos. Se vai ter Revolução nessa bagaça, o Lênin dela vai ser a gente! Vamos, pessoal, vamos!

Francisco Libânio,
09/06/11, 3:44 PM
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