terça-feira, 5 de maio de 2015

1863 - Soneto atrás de calma

Porque todas as tensões têm,
Naturalmente, a coisa inimiga,
Coisa negativa que só dá liga
Com outras e uma puxa cem,

No maremoto já nos faz refém,
Na tranquilidade arruma briga,
Qualquer coisa já a empertiga
Dando mal a si e a mais quem

Esteja perto. Então na tensão,
Fujo de gente, evito invenção,
Tento sonetear a ver se volta

A paz, mas paz não já existe
Quando se está o tanto triste
E as tensões estão aí a solta.

Francisco Libânio,
29/04/15, 12:22 PM

sábado, 2 de maio de 2015

Indecisão

É esse dilema
Amar você como está
Ou não
Já que amar mais
Também dá.

Francisco Libânio.
09/06/14, 10:38 PM 

1862 - Soneto despido

Que ideia fixa essa com a nudez
Tem o poeta. Que ele a explique.
Eu já a explico no mesmo pique
Para que não perder nem a vez

Nem a dúvida. Parece insensatez,
Mas é admiração. Que petrifique
No soneto o que talvez não fique
Na escultura com toda sua altivez

Renascentista. A forma tão exata
Física e estética, vezes até chata,
É preterida. Venham as informais

E humanas formas livres, cheias
Longe dos modelos ou até feias.
O poeta ama nudezes normais.

Francisco Libânio,
28/04/15, 12:32 PM

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Sísifo

Um homem viu Sísifo em sua sina eterna de rolar sua pedra montanha acima pra ela desafortunadamente rolar pra baixo e a empresa se fazer outra vez. Foi uma semana em que a cena se repetia sem nenhuma novidade e uma resignação nunca vista antes. Nada mudava. Nem mesmo Sísifo se queixava desse mister. Se foi assim até agora por que haveria de mudar e pra quê?
Só que o homem, com uma dessas mentes vanguardistas, achou que a mesma coisa se repetindo, mesmo que fosse uma ordem dos deuses, podia ser feita de forma otimizada. Um homem que rola uma pedra montanha acima se cansa demais e fará a mesma amanhã terá, evidentemente, uma produtividade menor. Cansado de ver sempre a mesma cena, o homem chegou a Sísifo e perguntou há quanto tempo ele fazia aquilo. Há muito tempo, séculos, milênios. Sem sábado, domingo ou feriado perguntou o homem. Sísifo não sabia o que era isso. Apenas empurrava a pedra. Era castigo dos deuses e pronto. O homem se indignou diante daquilo. Com indevida vênia (que arrumou sabe-se lá como), dispensou Sísifo de empurrar sua pedra no dia seguinte.
- Vai pra casa e descansa. Vem depois de amanhã, ok?
Claro que, assim como Prometeu no alto da montanha e com o fígado semidevorado, mas que se regenerava sempre, Sísifo, como “feriado”, também não sabia o que era “casa”. Sua casa era o pé da montanha onde estava a pedra que ele rolava pra cima e para onde ela rolava após a tarefa. Mas, tudo bem. Acabou se convencendo que precisava mesmo de férias (que ele também não sabia o que era), nem que fosse de um dia. Deixou sua montanha e sua pedra para o homem que lá ficou.
Quando voltou tudo estava quase como havia deixado não fosse uma engenhoca, que também desconhecia.
- O que é isso? – perguntou Sísifo ao homem.
- Isso se chama catapulta. Vai facilitar seu trabalho sobremaneira.
Explicou como funcionava o aparato ali construído, fez demonstrações simuladas. Disse que Sísifo não precisava mais cansar os músculos. Mais que isso. Mandaria a pedra para o alto da montanha e teria a Eternidade toda para fazer o que quisesse. Nunca mais pedra e montanha. Nunca mais suor. Teria férias eternas. Viveria na Terra como os deuses no Olimpo. O castigo estava encerrado. A tecnologia o livraria dessa triste rotina sem sentido. Tentado pela facilidade da máquina e seduzido pela vida dos deuses na Terra prometida pelo homem, Sísifo seguiu as instruções e procedeu como fizera no simulacro.
Um desastre. A catapulta, tão imponente, tão engenhosa, não suportou o peso da pedra. Ruiu como se fosse de papel. Sísifo olhou para o homem que não entendia o que podia ter havido. Fez todos os cálculos meticulosamente, os testes feitos no dia de folga de Sísifo foram perfeitos. Não conseguia achar onde estava o erro.
A história acaba aqui. Sísifo continua rolando sua pedra do pé ao topo da montanha como sempre fez. Próximo dele, o homem reconstrói teimosamente a catapulta sempre atrás do erro que possa haver, mas não existe. Quando a pedra desce do alto da montanha, a catapulta está pronta. O homem pede a pedra rolada para fazer o teste de sua construção, que, igual ontem e igual amanhã, desmonta não suportando o peso da pedra. Tudo se repete eternamente.
Numa montanha próxima, o fígado de Prometeu está novamente refeito para servir de refeição às águias.

Francisco Libânio,
27/03/14, 8: 21 PM

1861 - Soneto de luz apagada

É no breu completo e irrestrito
Que ela resolveu ser a mulher
E se entregar com total prazer,
Por condição havia o requisito:

Vê-la nua de saída era proscrito.
Primeiro amor não precisava ver.
Quero ver se você vai me querer
Ou querer o que vê. Tal conflito

Foi vencido. Amamos no escuro,
Caiu dela o intransponível muro
E revelou-se para mim a surpresa:

Algo imprevisto que não obstou
O amor, só requintou esse show
Cheio de amor, cheio de destreza.

Francisco Libânio,
28/04/15, 9:28 AM

Sabedoria

Calar quando o silêncio fala
Ou ser uma voz solitária
Que atrevidamente estrala?

Francisco Libânio,
09/06/14, 10:41 PM

1860 - Soneto fechado

Não se admitirá aqui um conselho,
Uma dica, nada. Não meta a colher
Nesse soneto. Deixe-me o escrever.
Ouvir demais e eu me destrambelho.

O silêncio, então, é o maior aparelho
Para que flua o soneto e esse lazer,
De rimar, de experimentar, de torcer
E de, numa sacada, tirar um coelho

Da cartola é algo assim inenarrável!
Então, estar comigo e incomunicável
Não é antipatia, mas a necessidade

Breve para uma convivência intensa
Com o poema, mas não se dispensa
Um recreio para que se faça maldade.

Francisco Libânio,
27/04/15, 11:02 AM