terça-feira, 22 de outubro de 2013

1237 - Soneto classificativo

Você faz o que você lê e o que você lê faz você.
Para Carlos Castelo

Há dois tipos de livros, diz Castelo,
Uns que são prolixos e uns pro lixo.
E cada qual dá a seu próprio nicho
O que ele pedir de melhor e de belo,

Um quer ser insultado, vai recebê-lo,
Outro quer ser induzido ao capricho
Da grã-inteligência, tem o cochicho
De outros e deles ganhará esse zelo.

Castelo tem razão, eu concordo, sim,
Livro e leitor se classifica bem assim
Mas ambos endossam a classificação.

Leitores fazem um livro lixo sucesso
Como o prolixo vira o mero adereço
De quem se fia em querer erudição.

Francisco Libânio,
22/10/13, 12:24 PM

1236 - Soneto partilhado

Agora você sabe onde é. Mais que isso, leia.

Do petróleo, de Libras e do pré-sal?
Sei tão pouco, pouco vale opinião,
Falta embasamento e certa noção
Para um palpite, ao menos, racional,

Mas vejo aí uma porradaria verbal!
Morte à Dilma e não à privatização,
Mas fala mais entoando repetição
Que com a própria cabeça. É pau

Sem saber bem o que é a partilha
E a privatização. Tome ler cartilha
Da mídia que fala o que não sabe,

Reproduz o que bem lhe interessa,
Inventa a qualquer falsa promessa
E quem a admira que muito babe.

Francisco Libânio,
22/10/13, 8:44 AM

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

1235 - Soneto sub-real

Por que não posso sonhar em ter um mulherão?

Prender-se à realidade, ser pragmático,
O que é, é e o que não, não é e pronto!
Ou se faz assim ou logo me desaponto
Com um belo infortúnio psicossomático.

A realidade ordena que se seja prático,
Que não se faça da sua vida um conto,
Uma poesia.  A vida não dá desconto,
E desafiá-la é tomar no cu automático.

Talvez por isso, eu prefira a fantasiosa
Hora em que me vejo com uma gostosa,
Para me fazer companhia e dar prazer.

É uma realidade rasteira, circunstancial
Mas que nos minutos me afasta do mal
E a imaginação me basta para entreter.

Francisco Libânio,
21/10/13, 7:23 PM

1234 - Soneto cinófilo

Já pensou fazer isso pra resgatar crianças escravas?

Salvar cachorros de pesquisa é legal,
É nobre, merece a atenção e a palma
De quem, franciscano com toda alma,
Não quer tortura para nenhum animal.

Mas aquela atitude, fantástica e ilegal,
Instantaneamente e fácil se desalma
Fazendo o dito herói perder a calma
Se vir uma criança pobre a estar mal,

A pedir comida, pois está com fome,
Querendo sair do vício que consome
Sua infância ou uma nesga de carinho.

O tal franciscano não nada, e a xinga,
Amaldiçoa. Tal bondade não respinga
Na miséria humana, só no cachorrinho.

Francisco Libânio,
21/10/13, 12;08 PM

sábado, 19 de outubro de 2013

1233 - Soneto róseo

Porque são muito mais que meras decorações para os machistas. Vale a pena cuidar e se prevenir sempre.

Em outubro tudo se pinta rosa,
O combate ao câncer de mama
Vem à baila e acentua a chama
De nobreza e é muito dadivosa

A iniciativa, mas aí, todo prosa,
Um gaiato aproveita e já clama:
Mostrem os peitos, da mucama
À madame! É atitude corajosa,

Apalpem às vistas para a nobre
Causa. Não deixem nada sobre
Eles, ponham essa peitaria a nu!

Uma moça, a tal vadio membro,
Diz: mês da próstata, novembro,
Vem. Pois, enfie o dedo no cu!

Francisco Libânio,
19/10/13, 7:44 PM

1232 - Soneto pelo centenário de Vinicius

Eterno!

Poetinha, não fossem teus sonetos,
Tenho certeza, eu seria incompleto,
Faltaria aquele toquezinho de afeto
E meus versos ficariam aos guetos,

À sujeira e ao sabor só dos dejetos
Do Mattoso, o outro autor que meto
A imitar quando via quarteto, terceto
E rima em poemas simples e diretos.

Mas tu, com todo esse romantismo,
Colocou no mattosiano o tal lirismo
Que refreia o chulismo desbaratado,

Então, Poetinha, aqui esse diminutivo,
Eu o tiro. É Poetaço e no dia festivo
Pelos cem, eu digo aqui um obrigado.

Francisco Libânio,
19/10/13, 3:48 PM

1231 - Soneto bravateiro

Porque perfeito só o Davi de Michelangelo. Não fala besteira e tem corpo escultural.

Querer fugir de si, que aventura!
Ser quem não se é, ser o avatar,
O cara da foto, o foda a arrasar
Multidões, aquele a quem a dura

Vida não aflige e o bem perdura,
O bom da oficina, o chefe do lar,
Querido entre amigos e lá no bar
Ser camarada e deixar a pendura

Por ser bacana, É legar ser assim,
Júbilo e alegria a não ter mais fim
E não eu, sujeito mais desditoso.

Só que aquele lá tem um defeito,
Um só, e um feio e dos sem jeito,
Ele é tudo e um baita mentiroso.

Francisco Libânio,
19/10/13, 12:10 PM