sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

663 - Soneto acintoso

Isso não vai parar aí... Eu sei.


Quando eu a chamei para um pouco mais,
Obviamente havia uma maldadinha no ar
E ela bem sabia, principalmente ao aceitar
Sem perguntar nem se alongar demais

Subimos pelo elevador, pessoais normais,
Entramos no apezinho de forma elementar,
Cada um tomou sem insinuações seu lugar
E não houve malícias ou induções sexuais

Tomamos o último drinque tranquilamente,
O álcool, a conversa tornaram envolvente
O clima e ela se aproximou de mim e, tesa,

Desnudou-se e me atacou, perdeu a linha!
Houve o que houve e não foi culpa minha,
Tenho a testemunha e o prazer por defesa.

Francisco Libânio,
07/12/12, 8:14 PM

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

662 - Soneto abalizado

Aí ele defende as ideias do Bolsonaro e acabou...


Aí você imagina que a pessoa sabe
Tudo, tudo, um verdadeiro cabedal,
Uma fonte de onde jorra sem igual
A quem nenhum elogio justo cabe.

A ignorância, parece, lhe descabe,
Mas esse castelo de marfim é irreal,
Dê-lhe um tema político ou moral
E deixa que ele por si só desabe

O vil conservadorismo tanto exala,
Escorre pela boca que não se cala
E dá vez a um aprendiz de ditador

O mundo que ele quer é retrocesso,
A sabedoria que soava em excesso
É tão ausente que nos causa dor.

Francisco Libânio,
06/12/12, 8:07 PM

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Monet para todos

A beleza é universal.


Tenho pra mim que nada alimenta mais a alma que a Arte. Mais até do que nos alimenta uma excelente iguaria culinária. Seja como for e tomando por verdadeira essa boba comparação, estou num ótimo restaurante – um museu – a me fartar com uma grande iguaria francesa, um cardápio recheado com pratos modernistas servidos, principalmente, pelo chef Monet. É um extenso self-service em que muitas pessoas, a maioria aparentando muito mais garbo, muito mais classe que eu, sorvem suas refeições da forma mais fleumática possível. Discretos “oh” pipocam. Pequenos grupos, quase sempre pares, trocam impressões sussurradas sobre o cardápio. Eu estou sozinho e não conheço ninguém com quem possa dividir meu parecer sobre os quadros. Nem sei se isso é necessário. Minha alma está sendo bem servida em sua solitude e prefere não ouvir outras opiniões. Estou satisfeito como todos no recinto. O chef Monet está de parabéns. Assino embaixo de todas as boas referências que lhe deram durante todos esses anos. Em meio do meu prazer artístico-alimentar sou interrompido por uma fala alheia mais alta que o habitual:
- Bonitos esses quadros, né, moço?
Viro-me ao dono da voz. Um senhor de (suponho) quarenta anos chegando tortuosa e descuidadamente aos cinquenta. A barba por fazer e os cabelos desgrenhados conflitam com a pasta que envolve o local. Homens imberbes ou de polidos e cuidados bigodes olham o meu interlocutor com desagradável surpresa. Mulheres em tailleurs finos e bem recortados estranham-no como um verdadeiro invasor. A presença incomoda. Vejo que a digestão cultural de muitos foi solenemente agredida. Meu interlocutor não dá pelo que provoca, mas percebo que estranha o meu silêncio. Oras, ele me fez uma pergunta. É de bom tom que seja respondido.
Observo um pouco mais o ambiente. O mal-estar, ainda que fleumático como pede a ocasião, é indisfarçável. Indisfarçável e passível de ser eliminado. Perto do meu interlocutor dos seguranças o medem com uma postura impassível, mas defensiva. De onde surgiu esse homem? O que ele quer aqui? Ao meu destoado interlocutor, dois sentimentos o abstraem: A beleza do quadro que ele mira como se procurasse um detalhe, uma nuance e a minha grosseria. Ele me fez uma pergunta. Um mero aceno de cabeça servia como resposta. Não precisa falar. Noto que todo o estranhamento dirigido pela assistência encantada com Monet e agredida com sua presença não ofende mais que o meu silêncio. Sinto-me desaprovado. Certamente, se soubesse que eu fui perguntado, ainda que de forma tão simples, o público não veria mal nenhum em não responder. Ele não é um dos nossos. Aqui não é o lugar dele. Mas a mim me incomoda. O velho me fita com uma ponta de mágoa. Não posso com isso.
- Sim, são realmente muito bonitos. – respondo. O mal-estar no ambiente não está desfeito, mas o meu mal-estar desapareceu com essa janela que abri. Um interlocutor e eu continuamos a admirar Monet e degustar cada um de seus quadros. Mais uma vez observo o salão. Senhoras bem vestidas e maquiadas conversam apontando meu interlocutor, sua roupa maltrapilha, ainda que deva ser a melhor. Do outro lado, o incômodo é flagrante. Ouço reprovações mais audíveis. Talvez para serem ouvidas pelo meu interlocutor que nem faz caso.  Continua contemplando cada quadro com o apetite de quem não come há dias. Certamente, um almoço dessa magnitude ele nunca teve. Da minha parte, de repente, cada prato tem um tempero a mais. Meu interlocutor não me dirige mais a palavra. Não pergunta, não comenta. Porta-se como um conhecedor de arte. Não nota nada o que o rodeia. Nem a mim. Até eu deixei de existir. Sou eu que, além de Monet, também aprecio o interesse do senhor que se sacia com tão bem posto cardápio.
Após o último quadro, me preparo para ir embora. Estou empanturrado de Monet. Minha dieta artística está em dia. À porta da saída do museu, meu interlocutor daquela hora me aborda pela segunda vez:
- O nome do pintor, moço, qual é mesmo?
- Claude Monet, francês. Precursor do Impressionismo.
Ele me agradece e sorri. Volta ao seu mundo árido de belezas, mas com a alma repleta de belezas. E essa beleza o fez maior que tudo, maior que a reprovação, que a chacota, só não maior que Monet.

Francisco Libânio,
04/12/12, 10:50 PM

661 - Soneto absuado

Achava que ela fosse ficar mais braba...


A mulher que chamei de peituda
Não gostou do nome, evidente!
Também não disse nada frente
A isso. Uma repreensão aguda,

Uma atitude mais dura e sisuda,
Apenas me encarou seriamente
Sem reclamar mais do incidente,
Apenas se quedou ela lá, teúda,

Altiva e paciente. Esperava mais?
Alguns outros elogios eventuais
Aos seus peitos fartos e belos?

Não os fiz. Atingi a cota de abuso,
Poderia pedir a licença de uso,
Mas estava bom só enaltecê-los.

Francisco Libânio,
04/12/12, 7:08 PM

660 - Soneto abastado

Se eu fosse como ele, teria milhões, mas seria feliz?


Não tenho posses, não sou milionário
Quem dera a poesia assim me fizesse,
Mas creio que seja para quem merece
E não um dom, título assim arbitrário

Mas fosse eu um, do tipo perdulário
É que não seria. Dinheiro não cresce
Em árvore. Rapidinho a grana fenece
E quase nunca se iguala o numerário.

Tudo bem, não sou rico, e nem quero,
Prefiro o suficiente e usar do esmero
Para não vê-lo reduzido logo a nada.

E já que esses milhões não me dão
O prazer da posse, que todos vão
Pro inferno ou pra pessoa precisada.

Francisco Libânio,
04/12/12, 12:29 PM

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

659 - Soneto preocupado com o cu alheio

Será que ele é? E se for? Interessou, machão?


Aí vem um e fala que o Gianecchini
É viado. Eu acho bem interessante
Essa curiosidade demais incessante
Sobre aqueles que a patuleia define

Serem gays. Normal que se opine,
Se presuma, se especule bastante.
Celebridades causam o desplante
De serem invejados e essa vitrine

Em que vivem expostos é secada
Sempre. Mas, na miúda, na calada:
Sujeito ser gay, isso muda em quê?

Caso ele venha a público e assuma,
Acha que ele, que só bem se arruma,
Vá te dar essa moral e namore você?

Francisco Libânio,
03/12/12, 8:05 PM

sábado, 1 de dezembro de 2012

658 - Soneto hedonista e cuidadoso

Juízo e precaução nunca fizeram mal

Não discuto: Sexo é algo delicioso,
A monogamia tem também a delícia,
Mas se se curte variedade e malícia,
Curta-se. Se o que busca é o gozo

Descompromissado e pecaminoso,
Faça-o. Pratique-se com tal perícia
Nessa luxúria ou use toda a carícia
Se prefere e pratica sexo amoroso

Não se deve olvidar nunca, entanto,
Que na fidelidade a um ou no tanto
Quantitativo que sempre se avizinha

O perigo. Prazer pede boa maneira
Para não se perder uma vida inteira
E nos exige o cuidado da camisinha.

Francisco Libânio,
01/12/12, 12:33 PM