quarta-feira, 7 de maio de 2014

1652 - Soneto nojento

Cada um usa a nojeira que lhe apetece. Eu uso as que eu passo.

Se diarreia foi introduzida por Gullar
Na poesia, muito, fico eu, à vontade
Em colocar outra de igual fealdade
E incomum no lirismo, mas popular...

Introduzo a palavra vômito no trovar
E nesse momento noto a identidade,
Já que fora do papel minha realidade
É de um terrível e apoético mal-estar.

Não sei se o Gullar sofria de diarreia
Quando ele teve tão excêntrica ideia
E pôs o lado social n’A Bomba Suja,

Mas aqui o estômago deu inspiração,
A palavra abstrata e uma contribuição
Fática, o troço vomitado de lambuja.

Francisco Libânio,
24/04/14, 4:39 PM

1651 - Soneto do fato corriqueiro

Como pude não reconhecer?

Acontece, e acontece bastante!
Eu pela rua e ouvir “Fala, Chico!”
E procurando de onde vem fico
E acho, é alguém que, já distante,

Numa moto. Conhece e diante
Do encontro rápido abre o bico
E saúda, mas quando me estico,
Se vejo há lá um muito relevante

Capacete que oculta o educado
Ou até ver de onde veio o brado,
Seu dono já está longe e não vi.

Segurança e rapidez... Necessárias
Nos dias atuais, mas autoritárias
Com a gentileza, que já falta por aí.

Francisco Libânio,
24/04/14, 4: 24 PM

terça-feira, 6 de maio de 2014

1650 - Soneto da fórmula esdrúxula

Você usou ela hoje? Eu também não.

Para as equações de segundo grau,
Usa Báskara e será a mão na roda.
De fato, ela nos facilita como poda
Nesse cálculo o possível rosto mau,

Mas tirando os vestibulares, afinal,
Onde mais a equação se acomoda
E tal fórmula, que por si só é foda,
Pra que servirá ao fim do colegial?

Como a poesia, muito do formulário
Matemático, que foi terrível calvário
De muitos, serve mais em pesadelo.

O trauma que deixou o delta maldito,
Já vencido, levou pra além do infinito
A inimizade com esse terrível flagelo.

Francisco Libânio,
23/04/14, 7:00 PM

1649 - Soneto paralelepipedal

Depois de anos e anos pisados, dois Chicos os poetizam.

Precisa ser Chico, mas ser Buarque,
Pra por paralelepípedo em poesia.
Já eu ponho o termo sem primazia,
Pois não deixo que a música arque

Mais prejuízo. Que o verso marque
A palavra sem canção. É covardia
Além de escrever pedir a maestria
Da musicalidade. Que se embarque

No soneto como imigrante irregular,
Você o vê, mas nada ali faz pensar
Que ele tenha que ser protagonista.

Como o xará, pus o dito no soneto,
Ele, na música. Nada mais prometo.
O paralelepípedo se repetiu na vista.

Francisco Libânio,
23/04/14, 2:11 PM

segunda-feira, 5 de maio de 2014

1648 - Soneto de (im)probabilidades

Isso pode ser uma moeda viciada. Em cerveja. D'oh!

Estuda-se nessa área das Exatas
Casos e acasos. Vê uma moeda
“Honesta” e os lados que hospeda,
Cara e coroa. Haverá sem erratas,

Chances óbvias, reais e sensatas
De que ou o lado cara se suceda
Ou, contrário, o coroa se proceda
Meio a meio e daí vêm os didatas

Com exercícios, moedas e dados,
Princípio que sejam não viciados.
E vem a pergunta que a resposta

Não se acha. Pra que serve isso?
Pior, quem garante não ter feitiço
Nem vício numa moeda ali posta?

Francisco Libânio,
23/04/14, 10:00 AM

1647 - Soneto esdrúxulo

Nunca subestime o ser humano, pois os filhos da puta são imprevisíveis.

Já que tem pai matando filho,
Madrasta ajudando e amiga
Ganhando pra isso, não diga
Nem duvide nunca do brilho

Da mente humana. Um estilho
Sobrará para que se consiga
Surpreender e tombar a viga
De fé no homem, no gatilho,

Estará lá pronto. Nesse poço
O fundo acha sempre o fosso
Para ficar um pouco mais fundo.

Um médico que salvaria vida
Aniquila uma por ele nascida...
E ainda não é o fim do mundo!

Francisco Libânio,
23/04/14, 9:09 AM

domingo, 4 de maio de 2014

1646 - Soneto literato

Ler Shakespeare só não dá. Tem que entender.

Meu velho, fico muito feliz
Em ver que muitos autores,
Poeta, cronistas e maiores
Da língua. Se você me diz

Que os leu, não serei o juiz
A questionar. Bons leitores
São notados nos menores
Detalhes. A postura condiz

Com o hábito. Eu desfaço
Leituras em versos e faço
Entre ambos uma atração.

Já do mau leitor cai a cara,
O cabedal se desmascara
No simples erro de citação.

Francisco Libânio,
22/04/14, 6:22 PM