domingo, 9 de março de 2014

1537 - Soneto do bicho-preguiça

Tão bom aqui...

Do alto da árvore, a preguiça
Só observa toda essa correria,
Bicho vindo, indo e todo dia
Aquela loucura pura e maciça,

Mas no alto, a loucura não atiça
A preguiça e sua boa calmaria
Deixa a ela a mais plena alforria
Não tendo inveja nem cobiça

De quem está lá embaixo. O chão
É duro e faz ser pior a sua tração,
A altura pede pouco movimento.

A preguiça quer mais um barranco
Pra morrer encostada, sem tranco
E nada mal se houver adiamento.

Francisco Libânio,
06/03/14, 12:28 PM

sábado, 8 de março de 2014

Poema de fuga 12 - Sobre o Rio

São só prédios.

Nesta cidade há
Cada estranho prédio
E em cada um deles
Há um estranho apogeu
Olho todos sem ver tédio
Neles, pois eles sabem
O estranho aqui sou eu.

Francisco Libânio,
31/12/14, 6:31 PM

1536 - Soneto da anta

Eles são muito feios pra serem antas, não liga.

A anta achava um disparate
O nome de anta a um idiota.
E tão usado o nome esgota
Argumento e vai de arremate

Ofensivo em qualquer debate.
A anta não admitia tal derrota.
Estúpido era o maldito janota
Que usava o “anta” no embate

Como termo mau, depreciativo
E chama esse abjeto adjetivo
Sem nunca ter visto uma anta.

Caso ouvisse um ser chamado
De anta, exortava-o ser honrado,
Estava melhor que o sacripanta.

Francisco Libânio,
06/03/14, 8:19 AM

1535 - Soneto do timbu

Eu não tô... hic... Bêbado!


O timbu, o gambá, seu popular
Nome, nem fedia tanto quanto
Dizem. Era um jeito nada santo
De se defender. Só não atacar

E tudo bem. O mal era o regular
Hábito de ficar bêbado. Espanto?
Pois ele fica e não precisa tanto.
Um copo basta para embriagar

O timbu, e o bicho era chegado
Numa canjebrina. E, bom grado,
Sempre lhe ofereciam um trago.

Olha que bonitinho, bebe gambá!
Mas se via alguém comparar de lá
Um bêbado a ele, feito o estrago.

Francisco Libânio,
05/03/14, 8:43 PM

sexta-feira, 7 de março de 2014

Uma saideira

Ninguém brincando em serviço.

Quarta-feira de Cinzas. Assisto à apuração dos desfiles das escolas de samba com algum interesse. Mais interesse que tive em relação aos próprios desfiles, aos quais assisti até que o sono viesse e acompanhei com a leiguice da maioria e o encantamento de muitos face às belas passagens na Sapucaí. Como leigo que me declarei antecipadamente, não julgo, não dou louros nem deprecio o que vejo. Por mim, haveria um empate técnico e leigo. E todas as escolas seriam campeãs sem contestação.
Também não assisto à apuração com torcida. Tenho as escolas por que tenho mais simpatia e as por que tenho menos. Talvez a tradição me aconselhe invisível a gostar de uma ao invés de outra. Talvez, eu seja ludibriado. Não moro no Rio de Janeiro, logo nenhuma agremiação representa a “minha comunidade”. O chão me é estranho. É algo inexplicável, mas, por outro lado, não vejo necessidade de explicações ou satisfações. Apenas me sento e assisto. Talvez para vir sono ou, melhor, para espantá-lo.
Quando começa o certame, ao ver tantas pessoas que vivem para aquele momento, às vezes, mais do que o desfile em si, percebo que a expressão “brincar o carnaval” serve apenas para os leigos como eu, que veem os desfiles como um festival de beleza, uma ópera ao ar livre ou, maldosamente, uma apologia ao pecado, uma adoração à carne, para merecer o dito nome. Nós brincamos o carnaval, nós damos a ele a relevância necessária à nossa vida de algo a se criticar ou, como disse o Poeta, uma alegria fugaz que nos acalenta por quatro dias. Que faz alguns ficarem acordados ou que faz este Cronista ter sono, mas dormir encantado com a imaginação colorida transposta na avenida. Mas esse sou eu, somos nós, somos muitos. Para aqueles poucos que estão ali debaixo do sol de fim de verão, sob os refletores apagados da Sapucaí e sem o espírito carnavalesco das brincadeiras serão duas horas que decidirão trezentos e sessenta e cinco dias de trabalho, estresses e emoções de uma pequena multidão. Em nome dela, eles sofrerão, pelas próximas horas, com uma voz robótica a soltar números e décimos. Essa voz neutra roubará esperanças as substituindo por imenso júbilo ou por igual e pior consternação. Essa voz nada mais é que um oráculo de alguns pouquíssimos e nada leigos juízes alheios a emoções de comunidades, torcidas esfuziantes e dias de trabalho. Cada um faz a sua parte, diriam em uníssono a quem os criticasse.
Corre a apuração. Os que eram favoritos e são fustigados com notas imerecidas, mas certeiras veem o título fugindo como areia dos dedos. No outro lado, no entanto, está um que, favorito ou não, recebe esses pontos perdidos e os converte em liderança, em sucesso. A liderança ora fica firme ora ameaçada. Um quesito e quem estava na ponta se vê engolido por concorrentes. Na pista, as vaias e hurras multiplicam, aumentam de volume. O título está mais perto, está mais longe. A voz robótica tira os véus postos pelos juízes nos dias anteriores. Os resultados ficam claros, o título se decide e, em duas horas, o primeiro grande campeão brasileiro não vem de um campo de futebol, mas de uma avenida especialmente projetada para aquilo.
Pois agora, uma comunidade sai feliz. A agonia de alguns dentre os poucos presentes vira celebração. O trabalho de um ano foi recompensado. Aquela pequena multidão, entre tantas, pode, finalmente, brincar o carnaval sem compromisso com regras, com julgadores e sem a pressão competitiva da véspera. O dia para esse carnaval está marcado. Será no sábado após a quarta-feira de Cinzas. A Quaresma, para esse vencedor, não poderia começar melhor. Está combinada a saideira carnavalesca para, então, voltar à vida normal, mas dessa vez com um sorriso no rosto e a sensação de dever cumprido.

Francisco Libânio,
05/03/14, 8:29 PM  

1534 - Soneto da capivara

O cheiro é bem melhor.

Roedor enorme, a capivara
Se achou um rato crescido
E como um rato descabido,
Matreiro foi a ser. Uma rara

E insensata ideia. A seara
Da cidade, o esgoto fedido,
Um universo desconhecido
Só deixariam a nítida e clara

Conclusão: A coisa é falha,
O tamanhão mais atrapalha
Mesmo reinando no pedaço,

A capivara deixou o esgoto,
Preferiu o ar puro ao vinhoto
E foi roer no verde espaço.

Francisco Libânio,
05/03/14, 7:34 PM

1533 - Soneto da paca

Seguro morreu de velho.

A paca, pequena, sabia do perigo
Que era para alguém do tamanho.
Ligada em qualquer algo estranho,
Num átimo já estava em seu abrigo.

A paca bem sabia qual o castigo
Se ela não preparasse de antanho
Defesa e atenção. Tanto assanho
Punha um dia longe o seu jazigo

Qual o almoço de algum predador
Que fosse mais esperto. O suor
Valia a pena, pois, tão precavida,

A paca driblava a onça e a sucuri,
Vivia a noite, ia aqui como ia ali
E curtia como protegia sua vida.

Francisco Libânio,
05/03/14, 8:37 AM