segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

700 - Soneto setecentista

Orgias bocagianas em meio à natureza. Cairia bem. 

Invejar os árcades? Invejo-os, sim.
Uma vida pura, doce e saudável,
A natureza dá um tom agradável
E nessa manhã, sinto vir a mim

A aura neoclássica. Ao motim!
Abdique-se da vida miserável
E fria da metrópole, da instável
Vida urbana, ranger sem fim.

Entreguemo-nos à natureza,
Aproveitemos dia e beleza.
E dessa forma ela interage.

Transemos sob sons naturais,
Façamos como os animais
Ou como um poema de Bocage.

Francisco Libânio,
31/12/12, 10:24 PM

domingo, 30 de dezembro de 2012

A Amiga de Minas

Que não demore a acontecer...

Chegou uma amiga minha passar uns dias comigo.
Fui buscá-la no aeroporto. Segundo ela, a viagem foi tranquila apesar de acordar cedo. O voo até São Paulo não teve problemas, o que ela achou muito bom. Viu na TV que o tempo pela Pauliceia estaria carregado, mas chuva mesmo ela só viu no aeroporto, e foi pouca. Enquanto esperava o avião para cá, leu um livro sobre mitologia nórdica (que me mostrou e disse que eu iria adorar ainda que o tema não seja lá um dos meus preferidos). De Sampa pra cá, tudo correu bem e, tão rápida a viagem que ela nem notou que tinha voado. Logo ela estava comigo num táxi indo pra minha casa.
Ao chegarmos, apresentei-a aos meus pais. Já tinha falado sobre ela algumas vezes. Ela se interessou, certa vez, pelos artesanatos de minha mãe. Gostou de uma e outra bolsa e queria uma. Minha mãe, meio resistente, acabou prometendo fazer uma, e fez. Depois, fomos tomar um café. Era o meio da tarde. Achei que minha amiga não fosse gostar de coisas mais simples como um café com leite e pão. Sempre a vi como uma mulher muito animada, doida por festas, boa bebedora. Para minha surpresa, ela se mostrou muito afeita a tudo o que estava na mesa. Não tomou leite, mas caprichou numa sanduíche de queijo. Mineirices. Continuamos nossa conversa como amigos que se falam todos os dias mesmo não sendo assim. Pouco a tenho encontrado na Internet nesses últimos dias. Não a culpo totalmente. Eu mesmo ando meio afastado das diversões virtuais atrás de melhoras na minha vida e replanejando projetos. Ela, bem sucedida em seu trabalho também pouco para na Net para papear amenidades. Trabalha demais e quando para ou dorme ou curte a vida.
Somos diferentes e nossas presenças mostram isso da forma mais evidente possível. Como podemos ser amigos sendo tão opostos e em pouco contato? Não sei. Sei que no pouco que conversamos, apesar de nossas diferenças de vida e preferências, surge uma empatia muito grande, algo sincero e, realmente, interessante. Sempre a admirei, mas nossas conversas nunca se enveredaram por temas mais densos. Não porque eu a subestimasse, mas por não me sentir capaz de me sustentar num assunto menos íntimo para mim e de total domínio para ela. Sei que seriam oportunidades ótimas para aprender mais e conhecer coisas novas. Sempre fui muito aberto a novidades e nunca me privei de certos conhecimentos engrandecedores. Só sei que no momento, nossa conversa ficou cabeça demais. Satisfeita com o café, ela me pergunta onde pode se instalar. Levo-a ao quarto de visitas. Avisei de antemão que ele não estava exatamente habitável e ela disse que não tinha problema.
- Quartos, para mim, são onde passo a menor parte do tempo embora costume fazer coisas muito gostosas neles.
E quando me diz isso solta um olhar malicioso e convidativo. Isso estava no programa? Sei que ela não tem nada contra o tal do sexo casual, desde que feito responsável e conscientemente. Atrevo um passo em sua direção, mas vacilo. Quero sem muita convicção o que ela quer. Pode ser que aconteça e seria ótimo que e se acontecesse. Dou uma desculpa:
- Você deve estar cansada. Quer dormir um pouco?
- Não. Se eu dormir agora não durmo à noite. O que você quer fazer?
Boa pergunta. Naquele dia ficamos conversando. Nos outros, levei-a ara conhecer grandes lugares de Prudente. A Universidade onde estudei, o Shopping onde costumo estudar e beliscar alguma coisa, o Centro Cultural Matarazzo (ela se encantou com os filmes alternativos que assistimos), a casa de alguns amigos meus e só. Para uma moça nova que vive numa das cidades mais animadas do Brasil (ela me conta que Belo Horizonte tem o maior número de bares por habitantes do Brasil), a vida numa cidade interiorana pode soar meio chata. Fico meio borocoxô por não oferecer algo a mais para ela. Ela percebe que tento agradá-la e diz:
- Tenho adorado sua companhia. É o que tem de melhor em Prudente.
E me diz isso com o mesmo olhar guloso do primeiro dia em que chegou. Tenho o pé atrás em me envolver com ela sabendo que estamos longe e manter isso será muito difícil. Por outro lado é difícil resistir. Amanhã ela vai embora. Peço desculpas a toda e qualquer culpa que eu venha sentir mais tarde e nos entregamos um ao outro. Foi uma tarde deliciosa a que passamos no motel. Saímos de lá e fomos ao shopping jantar juntos. No outro dia, levei minha amiga ao aeroporto. Oxalá todas minhas amigas, sexo casual à parte, fossem como ela. Eu teria uma vida social mais enriquecedora.

De fato, de fato, essa história não aconteceu. Tenho, realmente, uma amiga de Minas, mas ela não veio me ver. Por várias vezes, já combinamos de nos encontrarmos, mas dificilmente dá certo. Esse ano mais uma vez não deu. Ela tem vontade de conhecer Prudente e, claro, vir me conhecer. Não sei o que aconteceria desse encontro e não costumo pensar muito nisso. Só sei que, apesar de nossas diferenças etárias e de gostos, nos damos bem e certamente um encontro mudaria nossas vidas. Valeria muito a pena, mesmo que não acontecesse nada disso que escrevi, apenas uma crônica a mais.

Francisco Libânio,
30/12/12, 2:40 PM

699 - Soneto bolado

Que eu ganhe, mas que não me transforme em alguém pior.

Joga-se na mega da virada
E sonha-se com os milhões.
Ideias surgem de borbotões
Ganha! A vida está arrumada

É a mansão nova, mobiliada
E na garagem vários carrões.
Viagens e outras alucinações
Pipocam diante de tal bolada!

Quanto é? Mais de duzentos!
Grana para todos os alentos,
Prato perfeito para a avareza.

Eu, que apostei, espero ganhar.
Se sim, Ganância, não dê o ar
Não quero ser pobre com riqueza.

Francisco Libânio,
30/12/12, 1:49 PM

698 - Soneto retrospectivo

Não será tão diferentes, só terá menos gente de peso pra morrer...

Esse ano teve muitas mortes,
Muitos momentos históricos,
Instantes absolutos, eufóricos,
Episódios de todas as sortes.

Esse ano permitiu os recortes
Mais absurdos. Teve teóricos
Do apocalipse catastróficos
E doidos varridos dos portes

Mais inimagináveis. Diferença?
Nenhuma. Salvo a cega crença
Noutro fim do mundo foi igual

Este ano de outro e outro ano.
Só sei que este dará mais pano
Para mais loucura, mais surreal.

Francisco Libânio,
30/12/12, 10:19 AM

sábado, 29 de dezembro de 2012

697 - Soneto perspectivo

Se tiver fogos já é alguma coisa. O resto se vê depois.

O que pode se esperar do ano novo?
Eu espero apenas mais meses. Doze,
Um monte de dias dos quais se goze
O melhor. Esperança? Eu me demovo

Disso. Apenas soneteio e promovo
Em meus sonetos uma positiva pose
Para cada dia e, assim, por osmose,
Venha o bem para mim e para o povo

O positivo traz o bem, isso é um fato.
Esperança não. Ela ilude pelo abstrato,
Depende de fé e isso eu não cultivo.

De qualquer forma, do ano, que esperar?
Apenas que à meia noite ele possa deixar
Seu legado e que eu continue aqui. E vivo.

Francisco Libânio,
29/12/12, 7:30 PM

696 - Soneto introspectivo

Fim das contas, não foi muito diferente disso...

Recolho-me à minha nobre casca
E nela penso sobre meu ano todo.
Foi um passo a frente ou engodo?
Tirei, de experiência, alguma lasca?

Fiquei bastante descendo a guasca
No que discordo. Tudo que é modo!
No campo poético, soneteei a rodo
E houve lá uma sorte mais carrasca

Outra que temi e foi, até, mais branda,
Mas é pra frente que o mundo anda
Então, a introspecção tem fim lógico:

Vivi, escrevi e aprendi. E lá vem mais!
Este ano (perdão pleonasmar): aos anais!
E não o leia como algo escatológico.

Francisco Libânio,
29/12/12, 6:20 PM

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

695 - Soneto quase feliz

Não quero ser feliz no reveillon, e daí?

A obrigação impositiva em ser feliz
No fim do ano, esperança opressora,
Votos de feliz ano novo a toda hora
Me deixam puto até a mais funda raiz

Se não quero ficar feliz, onde se diz
Que isso é errado? Mandar embora
Toda esperança, pôr do lado de fora
O otimismo e não ver como motriz

O início do ano? Quero fazer isso,
E não esse frustrante compromisso
De ano novo ser um novo começo.

Feliz eu estou agora que soneteio,
Se me deixar seguir nesse esteio
De ser feliz por ordem enlouqueço.

Francisco Libânio,
28/12/12, 3:07 PM