domingo, 11 de maio de 2014

1657 - Soneto matrimonial na high-society

Coisas que os convidados não veem, mas sabem...

Aluga-se chácara, castelo ou lugar
Que valha menos o dito casamento,
Mas não deixe cair no esquecimento
O casal nem o evento. Assim, a jogar

Na cara da sociedade o quão vulgar,
Injusta e fútil ela é, o acontecimento
Entre famílias graúdas dá polimento
A um comum fato, mas para exaltar

O nome que ostenta, o seu pedigree,
O enlace precisa de chamar para si
A atenção uma vez que os nubentes

Ela, com o nome sujíssimo na praça,
Ele, violento e de moral bem escassa,
Aparecerão na mídia como contentes.

Francisco Libânio,
28/04/14, 9:49 AM

sexta-feira, 9 de maio de 2014

A cicatriz

Feia, mas com história.

Podia até ser uma pessoa bem intencionada e que bom se fosse. Mas algo ali afastava qualquer possibilidade de boa impressão. Certamente era a cicatriz que lhe vazava a testa. Um traço reto, rente aos olhos. Um corte feio, profundo e que cirurgia alguma foi capaz de remover ou, ao menos, disfarçar. Agora essa pessoa estava sentada à minha frente num balcão de bar em forma de U. E como sou péssimo em simulações, percebeu que eu o fitava e logicamente decifrou o motivo. Veio ter comigo e a primeira reação que pensei em ter foi correr. Só que eu me convenci que não devo me levar pelas impressões. E que também não tinha terminado o meu caldo. Não teria tempo de correr e sair sem pagar. Seria complicação.
- Eu sei por que o senhor está me olhando. – veio ele sem qualquer cerimônia. – E sei que o senhor deve estar pensando aí “Olha, parece o Frankenstein!”.
Frankenstein! Sabia que a figura não me era estranha. Foi o que pensei no breve tempo dele respirar para continuar:
- Essa cicatriz, o senhor acredite ou não, foi de uma briga feia que tive com um par de valentões que, só por eu ser baixinho, resolveu vir de bullying pra cima de mim. Me cercaram, vieram com onda e até queriam me fazer de mulher deles. Foi quando joguei um pro chão que a porca torceu o rabo.
A descrição da desinteligência foi feita em seus mínimos e desnecessários detalhes. Vinham de dois pra cima do narrador e caíam de quatro para tentar nova arremetida e ter igual sucesso ao chão.
- Não sou homem de violência, meu senhor. Respeito religião, respeito opção sexual, posição política, filosofia, respeito tudo, mas me deixa na minha. Aqui não é pessoa de guerra, mas se me chamar pra uma, que esteja disposto. Licenciosidade comigo não cola. E covardia muito menos. E se vierem de dois pra querer abuso só porque tem vantagem numérica, aí vão ver que número nem sempre conta a favor.
Continuou a narrativa da contenda. Os tais dois ou não se tocaram que a maré estava ruim pra eles ou gostavam mesmo de apanhar. Foi quando um deles resolveu usar de uma navalha pra, além de machucar matar.
- Um deles deu uma cutilada na minha testa e deu nisso que o senhor vê. Tive é sorte, porque podia me pegar no olho, mas não me abateu. Ainda estava vendo e estava bom pra continuar a brincadeira. Foi uma traulitada que dei no da navalha que ele caiu, perdeu navalha, perdeu sentidos e se eu não fosse um homem do bem, teria feito um corte igual, mas na jugular do sujeito. Quando ele se levantou e me viu com o negócio na mão, combinou com o colega de me pegarem e tomar a navalha de volta. Vieram pra cima pra terminar. Um do lado e outro do outro. Iam fazer sanduíche de mim. Só que eram fortes demais e sabidos de menos. Correram e quando chegaram perto só tive o tempo de sair do meio. Uma trombada que o senhor precisava ver. Um beijo que acabou com tudo que foi dente ali. Ainda meio zonzos, dei mais um par de tapas em cada um que beijaram a lona. Passava um guarda ali e dei parte deles. Entreguei a navalha, pedi pra fazerem exame em mim. Processo tá correndo e os caras estão soltos em condicional. Se se meterem em alguma confusão é cadeia sem perdão pra eles. De qualquer forma, ficou a cicatriz pra contar a história. Pra eles acabou dente, sobrou roxo e osso quebrado.
O valente Frankenstein realmente era uma pessoa de boa paz e boas intenções como levantei ser. O cenho fechado e a cara de poucos amigos ajudavam a construir um aspecto suspeito, mas de suspeito tinha nada. E nem Frankenstein lhe valia a alcunha. Era feio, mas não era monstruoso. Não mais que os dois que resolveram se meter com ele esquecendo que baixinho nem sempre é um indefeso. Agora, a cicatriz era um prêmio de guerra. Não se envergonhava dela, mas não sentia orgulho. Como disse, não era homem de briga. Pelo contrário. Após contar a história, se ofereceu a pagar uma rodada e quis porque quis pagar o caldo que era meu almoço, o que a muito custo convenci que não. Fiz bem em não sair correndo.

Francisco Libânio,
13/03/14, 2: 44 PM

1656 - Soneto gratinado

Gratinado de batata e atum. Não tem como ser ruim!

Se queijo é o que agrada rato,
Digo com certeza: O rato tem
Bom gosto, pois eu também
Amo queijo. E isso é um fato

Tão verdadeiro que é no ato
Quando o queijo à mesa vem
O melhor momento e eu bem
Dispenso vinho. Se for chato,

Peço perdão, mas a bebida
Não seduz como a mordida
Deliciosa no pedaço de leite.

Parmesão, provolone, montês...
Um bom queijo tem sua vez
E faz um favor ao meu deleite.

Francisco Libânio,
25/04/14, 8:22 PM

1655 - Soneto absolvido

Minha gente não sorriu disso.

Nossa Justiça em seu maior
Órgão deu ao ex-presidente
Absolvição. Zombou da gente,
De quem foi à rua pra depor

O larápio. Eis nosso Superior
Tribunal que julga prontamente
Sem provas o que é dissidente,
Quem ergueu a vida no labor

E por ser gente da atual situação
Condena querendo dar a lição,
Mas safado contra quem existe

Prova e foi historicamente apeado,
Esse é absolvido e desculpado.
Fica feliz, já minha gente fica triste.

Francisco Libânio,
25/04/14, 12:40 PM

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Hai-kai qualquer 10

Poesia e tanta!

Daqui a pouco um traço
Será lindo, será epopeia
De ler em tempo escasso.

Francisco Libânio,
05/05/14, 10:31 AM

1654 - Soneto desorientado

Uma bela bbw sempre salva.

Como se caísse de um caminhão
De mudanças, em convalescência,
O Chico, após dar em sequência
Três sonetos, depara com um vão

Imenso. Cadê tu, dona Inspiração?
Preciso de sonetos, com urgência!
Um vai se fazendo em reminiscência
Do mal estar passado e da explosão

Sonetista. E vem um velho problema
Batido como a rima: Que será o tema?
O Chico pensa numa musa de Botero.

Pronto! O terceto salva todo o soneto,
Uma gordinha no final vira meu objeto
Inspirador e terá por isso todo esmero.

Francisco Libânio,
25/04/14, 9:03 AM

1653 - Soneto hat-trick

Três sonetos seguidos, eu peço uma música dos Engenheiros do Hawaii.

Em dado programa dominical,
A parte que fala sobre esporte,
Para agraciar o feito de porte
Que é fazer três gols, dá a tal

Atleta pedir uma música legal,
E o rapaz usa desse suporte,
Faz os três gols e, por aporte,
Faz contente o gosto musical.

Três sonetos por dia escrevo
Muitas vezes, nem dou relevo,
Mas como hoje, três seguidos!

Que música pedirei? Tem tanta
Legal que uma só não adianta.
Escreverei trinta pelos ouvidos.

Francisco Libânio,
24/04/14, 4:54 PM