domingo, 7 de março de 2010

Frasecas 04 - O Futuro com a Nuca


Acabo de ler um texto no qual o autor fala sobre a saudosa Ferroviária de Araraquara, num jogo daquele time contra o Juventus da Mooca que se deu pela terceira divisão do Paulista. Ele, como eu, parece ser um apaixonado por times pequenos e pelo futebol dito alternativo. Mas peca no excesso de nostalgia. Cita times passados do time grená do interior. Ora, não é uma terceira divisão que derruba a tradição de um time. Ela é apenas um passo. Muitos que já estiveram no topo desceram. É a ordem natural das coisas. Os times de outrora são lembranças gloriosas, não soluções. O passado é um alento para o futuro, claro, mas não constrói o presente, estrada expressa – ou não – para este porvir.


Francisco Libânio,

07/03/10, 12:57 PM


Foto extraída de http://blogs.jovempan.uol.com.br/joaoantonio/2010/02/22/a-forca-da-ferroviaria/

sábado, 6 de março de 2010

Frasecas 03 - Seis bilhões


Eu sei que o mundo é grande, que ainda que três quartos sejam água, o quarto sobrante é terra e mais terra. Mas seis bilhões de pessoas? É gente demais pra caber em tanta terra assim. E se considerar que um tanto dessa terra é gelo, a coisa fica mais restrita ainda. Pra mim, alguma coisa está errada. Mas se tudo estiver certo, for provado que somos seis bilhões – ou mais – não tem problema. Pior problema é gente que, sendo um, queira ter posse pra seis bilhões.


Francisco Libânio,

05/03/10, 10:56 PM


sexta-feira, 5 de março de 2010

Toneco Tavares, o Presidente da Câmara ou A Múmia

(Melhor se lido após Gardel Bardi ou A Mulher Nua)


O dia de Toneco Tavares começou com uma ressaca monstro. O presidente da Câmara, famoso pelos porres homéricos, ontem também exagerou na canjebrina e hoje pagava o preço dela. A mulher foi acordá-lo com um café forte e lembrá-lo que hoje a sua bancada, os oposicionistas ao prefeito Gardel Bardi, tinham uma reunião importantíssima. A desafeição entre o prefeito e o presidente da Câmara era famosa na cidade. Tavares fora prefeito na gestão anterior e foi muito criticado pelo seu sucessor, vereador há alguns mandatos, mas que nunca chegou à cadeira principal. Essa era a carta na manga de Toneco. Mais popular? Difícil saber quem era. Na verdade, a população responderia a essa pergunta elegendo o menos insuportável. Toneco era um beberrão boêmio, mas um vereador atuante de dia. O prefeito Bardi vivia às voltas com acusações de desvio de verbas. Não que a honestidade de Tavares fosse algo exemplar. Os donos dos bares freqüentados pelo senhor presidente já pensaram em cobrar as penduras do ilustríssimo na Câmara Municipal. Ou até bloquear a quantia via juízo. Só não o fizeram porque ia ser notícia de jornal, confusão. E eles eram tímidos, iam ter que sair em foto e poderia espantar a freguesia.

Depois do santo café e do salvador antiácido, Toneco se arrumou para a reunião na casa de um de seus correligionários. Quando se preparava pra sair, a mulher o chamou. Telefonema urgente de um dos seus informantes secretos (ele tinha vários só pra aporrinhar a vida do seu inimigo político).

- Seu Toneco, o senhor não sabe da última! O prefeito Bardi tinha uma múmia na prefeitura.

- Deve ser alguém da família dele.

- Não, seu Toneco. É múmia mesmo. Daquelas de filme, enfaixada e tudo mais. O senhor precisava ver.

- Acha? Onde ele ia arrumar uma múmia? Isso não é coisa que vende em camelô.

- Mas é, seu Toneco. E vou falar uma coisa pro senhor. Ou eu sonhei ou a tal múmia tinha uns peitões. Vou falar, aquela era uma múmia gostosa.

O vereador desligou o telefone quando o informante começou a descrever a tal múmia com aquele jeito de quem tivesse dormido com ela. Múmia com peitão? Esse cara devia estar maluco vendo esses filmes de terror vagabundos. Ou, certamente, o sujeito bebeu mais que ele na ontem e teve essas ilusões. O lance agora era ir até à reunião. No caminho, parou pra abastecer o carro e enquanto o frentista cuidava dos vidros, ele foi tomar mais um café pra espantar a dor de cabeça. E onde ele passava, o assunto era a múmia do prefeito. Toneco Tavares procurou se assuntar mais sobre o tema. Tava aí uma ótima forma de denegrir Gardel Bardi. E começou a espalhar a notícia aumentando, é claro. Disse que um prefeito que coloca uma múmia no seu gabinete ou é maluco ou tem coisa com o Demo. Essas coisas de ficar colocando morto onde ficam os vivos. Não viu o prefeito pela manhã toda, o que era bom. Se o visse, iria cascar de rir da cara do maluco. Abastecido o carro e cheio de idéias, Toneco foi pra casa do nobre colega. Lá encontrou alguns simpatizantes como o doutor Honório Holiveira, médico respeitado na cidade e foi logo perguntando:

- O senhor viu essa da múmia do prefeito?

- Não, o que a primeira dama fez?

Aqui vale explicar que o dr. Holiveira ainda nutria um ranço de anos por conta da primeira dama nunca ter lhe dado pelota e ter casado com outro. Tavares explicou o caso com as coisas que ouviu enquanto ia pra reunião. O dr. Holiveira achou muita graça e brincou dizendo que deveria ser uma entrevista pra secretário de alguma pasta. Enquanto conversavam, iam chegando os vereadores da bancada simpática ao presidente. A história virou o tema da mini-assembléia. Claro que nenhum dos presentes tinha visto a múmia. Dois vereadores, religiosos ardorosos, ameaçaram se retirar da reunião porque isso tudo era coisa do Diabo e não era pra se tratar como piada. Pensou-se em atacar o prefeito dizendo que ele tinha uma seita secreta que sumia com crianças em oferendas de rituais satânicos. O problema é que fazia anos que nenhuma criança sumia na cidade. Pensaram então em atacar a paixão por relíquias antigas do prefeito e isso atingiu outro vereador, também apaixonado por antiguidades. Conversa que conversa e chegaram à seguinte conclusão. Iriam cooptar a múmia para sua bancada. Onde já se viu tocar uma múmia do gabinete assim? Estava decidido. Com sorte, poderiam até lançá-la candidata no próximo pleito.


Francisco Libânio,

10/01/10, 10:20 AM

quinta-feira, 4 de março de 2010

Da intransigência


Oras, é preciso dar passos à esquerda ou à direita,
Recuar um pouco ou avançar, mas guardando bem
O cerne de sua idéia, é preciso ter a cabeça feita
Sem ficar como um burro empacado na linha do trem.

Francisco Libânio,
04/03/10, 12:55 PM

quarta-feira, 3 de março de 2010

Consórcio


Minha caneta, enquanto eu escrevo,
Parece conhecer o que penso melhor que eu
Culpo-a? Não. Se a surpresa é o enlevo,
Gosto de ler o que ela por si só escreveu,

Pois parece que fui eu. E me atrevo,
Na sua incapacidade, tomar por meu
Cada verso dela, mas se eu a levo
Pela mão e disso o poema nasceu

Por que não reclamar a minha parte
Neste processo em que ela tem a arte
E sou o braço que a transforma em fato?

Posso ter pensado, ter a ideia do escrito,
Mas ela a leu, e num consórcio lícito,
Usa-me enquanto lhe roubo o artefato.

Francisco Libânio,
25/09/09, 10:32 PM


Extraído de http://www.nicasiodesign.com/blog/wp-content/uploads/2009/04/writing1237253437.gif

terça-feira, 2 de março de 2010

Eu


Eu, ser maturado em minhas experiências,
Um produto final ainda em processamento,
Posto a contragosto em novo experimento
A cada dia que se acrescenta às vivências;

Eu, de gametas um rudimentar invento,
Aluno de própria e de alheias docências,
Mera parte na mais humana das ciências,
O existir, ainda estou em desenvolvimento

Que dizer de tudo após estes cartesianos
Testes num mundo mais e mais pragmático
E eu, poeta, imerso em sonhos e recordações?

O que dizer, não sei, mas após experimentações,
Acordam-me do onírico neste mundo fático
E me cumprimentam meus trinta e um anos.

Francisco Libânio,
02/03/10, 12:05 PM


Foto extraída de https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgxxdVVVcOySg3uOzd3OQ73sng7nfu3AZhZtMp7S5mpCdiyv0orBwTZFnbN7LLhg2IsE3d5oJsvSV1E3wy2zxlpq-SZJ9DzaejI6AOdMdHOrrqBJ6Vi38gANPLj2-4YQhXqlenec1O9FBA1/s400/reflexao.jpg

segunda-feira, 1 de março de 2010

Ambígua


Encaro-te e teu olhar me chama,
Tua boca também, mas alguma
Coisa em ti não me quer e exclama
Isso abafada. Sei, pois ouço uma

Ou outra impressão do teu incômodo
Então consulto teu olhar outra vez,
Ele me assegura da intenção que fez,
Mas já tua boca age de outro modo

Àquele que era dela na vez passada
Uma palavra destoa, um silêncio vacila,
O olhar se mantém, mas uma pupila

Repensa a ideia. A boca volta atrás,
De novo, mas agora não quero mais...
Medo de quem está consigo desafinada

Francisco Libânio,
13/09/09, 1:21 AM


Extraído de http://byfiles.storage.msn.com/y1pTviatfbbbuQhNfkNRKQHwrkY55MfpxZknxozIrN3cL0yUeGOuJpHGhhBEaJ9pqBr2KXo8y43-vw