Um dia pensei que ser poeta
fosse pegar palavras e rimar.
Rimei duas. Certo. A continuar,
rimei mais. A cada rima correta
um passo, mas era de estranhar
que a estrofe rimada assim, reta,
não era uma poesia, mas a abjeta
pretensão de quem quis cantar
sem ter em si qualquer emoção.
Rimado, mas sem algum sentimento,
Frases que eram levadas pelo vento.
Até que o dei pra ouvir o coração,
pensar com amor e viver com alegria
e desde então fui escrevendo poesia.
Francisco Libânio
Acabo de ler um texto no qual o autor fala sobre a saudosa Ferroviária de Araraquara, num jogo daquele time contra o Juventus da Mooca que se deu pela terceira divisão do Paulista. Ele, como eu, parece ser um apaixonado por times pequenos e pelo futebol dito alternativo. Mas peca no excesso de nostalgia. Cita times passados do time grená do interior. Ora, não é uma terceira divisão que derruba a tradição de um time. Ela é apenas um passo. Muitos que já estiveram no topo desceram. É a ordem natural das coisas. Os times de outrora são lembranças gloriosas, não soluções. O passado é um alento para o futuro, claro, mas não constrói o presente, estrada expressa – ou não – para este porvir.
Eu sei que o mundo é grande, que ainda que três quartos sejam água, o quarto sobrante é terra e mais terra. Mas seis bilhões de pessoas? É gente demais pra caber em tanta terra assim. E se considerar que um tanto dessa terra é gelo, a coisa fica mais restrita ainda. Pra mim, alguma coisa está errada. Mas se tudo estiver certo, for provado que somos seis bilhões – ou mais – não tem problema. Pior problema é gente que, sendo um, queira ter posse pra seis bilhões.
O dia de Toneco Tavares começou com uma ressaca monstro. O presidente da Câmara, famoso pelos porres homéricos, ontem também exagerou na canjebrina e hoje pagava o preço dela. A mulher foi acordá-lo com um café forte e lembrá-lo que hoje a sua bancada, os oposicionistas ao prefeito Gardel Bardi, tinham uma reunião importantíssima. A desafeição entre o prefeito e o presidente da Câmara era famosa na cidade. Tavares fora prefeito na gestão anterior e foi muito criticado pelo seu sucessor, vereador há alguns mandatos, mas que nunca chegou à cadeira principal. Essa era a carta na manga de Toneco. Mais popular? Difícil saber quem era. Na verdade, a população responderia a essa pergunta elegendo o menos insuportável. Toneco era um beberrão boêmio, mas um vereador atuante de dia. O prefeito Bardi vivia às voltas com acusações de desvio de verbas. Não que a honestidade de Tavares fosse algo exemplar. Os donos dos bares freqüentados pelo senhor presidente já pensaram em cobrar as penduras do ilustríssimo na Câmara Municipal. Ou até bloquear a quantia via juízo. Só não o fizeram porque ia ser notícia de jornal, confusão. E eles eram tímidos, iam ter que sair em foto e poderia espantar a freguesia.
Depois do santo café e do salvador antiácido, Toneco se arrumou para a reunião na casa de um de seus correligionários. Quando se preparava pra sair, a mulher o chamou. Telefonema urgente de um dos seus informantes secretos (ele tinha vários só pra aporrinhar a vida do seu inimigo político).
- Seu Toneco, o senhor não sabe da última! O prefeito Bardi tinha uma múmia na prefeitura.
- Deve ser alguém da família dele.
- Não, seu Toneco. É múmia mesmo. Daquelas de filme, enfaixada e tudo mais. O senhor precisava ver.
- Acha? Onde ele ia arrumar uma múmia? Isso não é coisa que vende em camelô.
- Mas é, seu Toneco. E vou falar uma coisa pro senhor. Ou eu sonhei ou a tal múmia tinha uns peitões. Vou falar, aquela era uma múmia gostosa.
O vereador desligou o telefone quando o informante começou a descrever a tal múmia com aquele jeito de quem tivesse dormido com ela. Múmia com peitão? Esse cara devia estar maluco vendo esses filmes de terror vagabundos. Ou, certamente, o sujeito bebeu mais que ele na ontem e teve essas ilusões. O lance agora era ir até à reunião. No caminho, parou pra abastecer o carro e enquanto o frentista cuidava dos vidros, ele foi tomar mais um café pra espantar a dor de cabeça. E onde ele passava, o assunto era a múmia do prefeito. Toneco Tavares procurou se assuntar mais sobre o tema. Tava aí uma ótima forma de denegrir Gardel Bardi. E começou a espalhar a notícia aumentando, é claro. Disse que um prefeito que coloca uma múmia no seu gabinete ou é maluco ou tem coisa com o Demo. Essas coisas de ficar colocando morto onde ficam os vivos. Não viu o prefeito pela manhã toda, o que era bom. Se o visse, iria cascar de rir da cara do maluco. Abastecido o carro e cheio de idéias, Toneco foi pra casa do nobre colega. Lá encontrou alguns simpatizantes como o doutor Honório Holiveira, médico respeitado na cidade e foi logo perguntando:
- O senhor viu essa da múmia do prefeito?
- Não, o que a primeira dama fez?
Aqui vale explicar que o dr. Holiveira ainda nutria um ranço de anos por conta da primeira dama nunca ter lhe dado pelota e ter casado com outro. Tavares explicou o caso com as coisas que ouviu enquanto ia pra reunião. O dr. Holiveira achou muita graça e brincou dizendo que deveria ser uma entrevista pra secretário de alguma pasta. Enquanto conversavam, iam chegando os vereadores da bancada simpática ao presidente. A história virou o tema da mini-assembléia. Claro que nenhum dos presentes tinha visto a múmia. Dois vereadores, religiosos ardorosos, ameaçaram se retirar da reunião porque isso tudo era coisa do Diabo e não era pra se tratar como piada. Pensou-se em atacar o prefeito dizendo que ele tinha uma seita secreta que sumia com crianças em oferendas de rituais satânicos. O problema é que fazia anos que nenhuma criança sumia na cidade. Pensaram então em atacar a paixão por relíquias antigas do prefeito e isso atingiu outro vereador, também apaixonado por antiguidades. Conversa que conversa e chegaram à seguinte conclusão. Iriam cooptar a múmia para sua bancada. Onde já se viu tocar uma múmia do gabinete assim? Estava decidido. Com sorte, poderiam até lançá-la candidata no próximo pleito.
Oras, é preciso dar passos à esquerda ou à direita, Recuar um pouco ou avançar, mas guardando bem O cerne de sua idéia, é preciso ter a cabeça feita Sem ficar como um burro empacado na linha do trem. Francisco Libânio, 04/03/10, 12:55 PM
Minha caneta, enquanto eu escrevo, Parece conhecer o que penso melhor que eu Culpo-a? Não. Se a surpresa é o enlevo, Gosto de ler o que ela por si só escreveu,
Pois parece que fui eu. E me atrevo, Na sua incapacidade, tomar por meu Cada verso dela, mas se eu a levo Pela mão e disso o poema nasceu
Por que não reclamar a minha parte Neste processo em que ela tem a arte E sou o braço que a transforma em fato?
Posso ter pensado, ter a ideia do escrito, Mas ela a leu, e num consórcio lícito, Usa-me enquanto lhe roubo o artefato. Francisco Libânio, 25/09/09, 10:32 PM
Eu, ser maturado em minhas experiências, Um produto final ainda em processamento, Posto a contragosto em novo experimento A cada dia que se acrescenta às vivências;
Eu, de gametas um rudimentar invento, Aluno de própria e de alheias docências, Mera parte na mais humana das ciências, O existir, ainda estou em desenvolvimento
Que dizer de tudo após estes cartesianos Testes num mundo mais e mais pragmático E eu, poeta, imerso em sonhos e recordações?
O que dizer, não sei, mas após experimentações, Acordam-me do onírico neste mundo fático E me cumprimentam meus trinta e um anos. Francisco Libânio, 02/03/10, 12:05 PM