sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

739 - Soneto grito

O carnaval o alegraria

O que Munch e a véspera de Carnaval
Tem em comum? Penso ser o tal grito,
Mas o pintor deu lá o tom todo maldito
E apreensivo ilustrando um grande mal

No Carnaval, o grito anda pelo informal,
Liberando aquele som preso e inaudito
Numa forma mais contagiante de agito
A liberar de nós tudo que é baixo-astral,

Volto ao quadro, o homem atormentado,
Sinto pena dele, desse peito angustiado
Tão aflito e carente de qualquer alegria

E troco aquele fundo pelo carnavalesco,
Num cenário alegre, leve e mais fresco
Que puxador aquele gritante não daria?

Francisco Libânio,
08/02/13, 10:00 AM

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

738 - Soneto cheio de dedos

Ruim é voce mesmo fazer isso.

Escrever de forma mais cuidadosa
É complicado. Manter autocensura,
Escolher palavra é tarefa mais dura
E penso, para mim, muito perigosa

Porque a tal escrita, de cor-de-rosa,
Nada tem. A caminhada já é escura,
Procurar rima por si só muito apura
O que é escrito e faz bem imperiosa

Essa tarefa que o poeta ainda acha
De pôr outro filtro que mais atarraxa
A poesia para fazê-la mais educada.

Pois aqui não se filtra, se fala na lata!
Sem censura, asterisco e sem errata,
Não gostou? Que venha para porrada!

Francisco Libânio,
07/02/13, 8:16 PM

737 - Soneto que trepa

Como ser indiferente a isso?

Maldita seja a putaria torpe e desenfreada,
Aquela gratuita e sem razão alguma de ser,
A que não procura nada que não o prazer
E se simboliza na clássica mulher pelada!

Maldita? Ora, que conversa mais quadrada,
Mais absurda. Como é vencido esse parecer
De demonizar o desejo, demonizar a mulher
E fazer dela ou do sexo a mais amaldiçoada

Entre todas as criações. Oras, claro! Putaria
E promiscuidade não têm qualquer harmonia
Com o bom ser, mas nem por isso é errado

Usufruir do corpo se houver as precauções,
E a consciência. E quem não faz menções
A coisas piores que nem se diz ser pecado?

Francisco Libânio,
07/02/13, 11:51 AM

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

736 - Soneto que inveja

Não se roa... Faça.

O olho que deseja o que não é seu
É doente e doentio por são que seja,
A mente que nada faz e muito almeja
Há muito em algum ponto se perdeu.

Querer não é pecado. Quer o judeu,
O cristão e mesmo este que verseja,
Porém, do meu lado, não há inveja,
Se o outro teve foi porque mereceu.

Inveja tem este soneto que cá digito,
Eu sei, ele queria ser melhor escrito,
Ser lírico, metrificado, ser camoniano!

Mas veja só, nem ele teve essa sorte,
Mas seja lá feliz com o modesto porte
Assim afasta esse defeito tão profano.

Francisco Libânio,
06/02/13, 9:00 PM

735 - Soneto que odeia

Será que o povo do fundão ouviu direito?

Amar uns aos outros, eis o que manda
Jesus no famoso Sermão da Montanha.
Ordem de uma grandeza tão tamanha
Que como alguém pode nutrir nefanda

Vontade de ver mal? Se a Ira comanda,
A pessoa mesma se chafurda na sanha
Do mal. Não evolui nem nada se ganha,
A vida dela própria muito mais desanda

Que outra coisa. Mas ela, de feliz, odeia,
Crê que seu ódio atinge a pessoa alheia
Aponta e nunca vê três dedos contra ela.

De boa? Não sou católico, sequer cristão,
Mas essa passagem, tomo-a por solução
E lamento por quem no oposto se refastela.

Francisco Libânio,
06/02/13, 12:14 PM

734 - Soneto que procrastina

Esperar é o melhor... Será?

Ah, a velha arte de deixar pra lá,
Mania brasileira? Acho que não!
Todos fazem, uns sem inspiração
Outros que, igual a eles, não há.

São os filhos da preguiça. Será?
Talvez a contínua procrastinação
Seja a tímida forma de percepção
De que o projeto dado naufragará.

O melhor a fazer é adiá-lo sine die.
E aí se mata de cara todo frenesi
E um possível desgosto no futuro,

Eu sei: a preguiça é má conselheira,
Mas o depois é conselho de primeira!
Siga-o e não há chance de ter furo.

Francisco Libânio,
05/02/13, 12:44 PM

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

733 - Soneto que se acha

Amor é fogo que arde sem se ver? Tá de brincadeira, né Luisão?

Sonetear não é apenas dom, é treinamento,
É prática, inspiração além de alguma leitura.
E ainda que se domine tal arte com soltura,
Isso não é o bastante. Mas ao se ver talento,

Mesmo uma nesga, cheio de contentamento,
O novo poeta, crendo ser nova imortal figura,
Faz pouco de Camões e ainda taca censura
A Vinicius lhe propondo algum complemento.

O sonetista é de tal presunção e arrogância
Que não vê quão imensurável é a distância
Entre seus sonetos bonzinhos e os imortais,

Fosse bom mesmo esse meu nobre colega,
Desceria da torre de marfim em que se cega
E, com os mestres, aprenderia muito mais.

Francisco Libânio,
04/02/13, 8:09 PM