segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Série Sentidos 01 - Visão


Extraído de http://4.bp.blogspot.com/_ewq82pMqAhg/SE2mxi-qRaI/AAAAAAAAAZY/8sdDA4mT5Pw/s400/mulher+deitada.jpg

Vejo a Amada ali, imponente e bela,
O sol no quarto realça tal figura
E é ela deitada de tamanha candura
Que posso, ao lado da Amada vê-la

Também. Eis que então se transfigura
A olhos vistos a pureza de donzela
Numa nudez plácida. A cama vira tela
E ela, deitada de lado, é a pintura

Contemplo a Amada e comparo a cena
De agora com a dela vestida em recato
Qual a melhor? Vem meu peito e fala:

Duas viste, mas é uma a tua pequena
E o melhor que fazes agora, após o prato
Que comeste com os olhos, é amá-la

Francisco Libânio,
12/07/09, 12:04 AM

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Obliquidades


Voltando a falar de Machado de Assis, sobre o qual falei noutra crônica, esses dias, estava me lembrando de quando li o Dom Casmurro e associei a uma aula de português que tive no cursinho que por ora faço pro concurso de Oficial de Justiça. Não que Machado pontuasse a aula, mas é que caímos num tema que não domino muito bem: Pronomes. O que é um pronome do caso reto ou do caso oblíquo? Mais ainda: O que é algo oblíquo, que nunca soube muito bem? Talvez uma vergonha pra mim, que me pego me chamando de poeta. E nisso, ato-contínuo, veio a perfeita descrição de Capitu “Olhos de cigana oblíqua e dissimulada”. E o que é um pronome do caso oblíquo, afinal? E por que seu oposto é o reto?

Perguntei para a professora o que, afinal, é isso? Ela respondeu que o pronome oblíquo substitui o nome indiretamente, obliquamente. Eu seria um pronome do caso reto. Me do caso oblíquo. Por isso, a substituição do nome na frase se faz de duas formas. Em “Eu escrevo esta crônica.”, o Eu substitui o cronista a contento e deixa claro qual é sua função na oração. Noutro exemplo “Fez-me acreditar que isso seria útil.” temos o danado do oblíquo substituindo, de novo, o cronista que nesse caso foi engabelado acreditando em algo inútil.

Mas voltando à Capitu? Será isso? Será Capitu uma mulher indireta? Uma mulher que, como o pronome, se esconde mas faz a contento seu papel? Não creio nisso. Insisti e fui pro tio Aurélio procurar uma explicação mais a contento. Segundo o velho Aurelião, algo oblíquo pode ser tanto algo indireto como o pronome quanto algo malicioso quanto algo vesgo. Interessante isso. Então a simpática Capitu era uma mulher estrábica, mas de olhar lânguido? Sensacional! O pobre Bentinho foi vítima desse olhar 43 (que, segundo consta, também acertou seu amigo Escobar). Sei como eles se sente... Quantas não são como a Capitu cujos olhos oblíquos podem ter qualquer um dos três (ou todos) significados do Aurélio.

E eu que pensei tantas obliqüidades dobre o assunto.

Francisco Libânio,

20/08/09, 3:11 PM

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Do Paraíso


Extraído de http://imagensbiblicas.wordpress.com/2008/07/23/adao-no-jardim-do-eden-2/

Todos têm um Éden imaginário
Muito verde, o manso em paz com a fera...
Melhor seria se o antigo proprietário
Conotasse como o criou e onde ele era.

Francisco Libânio,
12/07/09, 12:20 AM

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Eu dormia enquanto o silêncio era tudo


Extraído de http://imagecache5.art.com/p/LRG/17/1738/X4Y3D00Z/h-pisan-god-creates-light.jpg

Eu dormia enquanto o silêncio era tudo
E tudo era uma coisa só e não era nada,
De repente, daquele todo escuro e mudo
Ouviu-se um grito e estava iluminada

A terra que existia. Noutro, a água se pôs num lado,
A terra noutro e na água apareceram seres,
No céu outros e, sozinho que era, vi-me cercado
Enquanto os gritos ordenavam os afazeres.

O tudo agora era tudo, mas não estava feito,
De repente, ouvi murmúrios e um pigarro
Antes de se idealizar um ser dito perfeito

Que cuidasse da obra e de aparência parecida.
Eis que vigorosa mão moldou-me no barro,
Chamou-me homem e soprou-me a vida.

Francisco Libânio,
12/07/09, 12:56 AM

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Anda!


Extraído de http://cantinhodumaalma.blogs.sapo.pt/arquivo/imagem-mulher-mar.jpg

Anda, que não há tempo a ser perdido,
Já gastei anos de vida até tua chegada.
Uma infância de felicidade imaginada,
Uma adolescência em que parecias ter surgido,
Mas cada uma que eras não eras nenhuma,
Cada uma que eras surgia em rósea bruma
E dá festa que te fazia ias ao esquecimento
Não sem o choro que causavas nos teus até-logos
Disfarçando adeuses, mas tinha a minha crença
Comigo de que virias com teus rostos em desavença
Até que viestes, atendeste aos meus rogos
Com teu belo rosto e teu corpo definitivo
Então anda porque perdi demais e quero repor
O que com as outras de ti chamei de amor
E te amar pelo resto do meu tempo vivo.

Francisco Libânio,
14/07/09, 12:32 AM

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

43 - Morte... É no que pensam os vivos


Extraído de http://www.uniblog.com.br/img/posts/imagem38/389187.jpg

Morte... É no que pensam os vivos
No primeiro susto que aparece
Ou quando estão em nada pensativos
Ou quando fazem alguma prece.

Natural, pois é quando estamos esquivos
Ao perigo ou se nos apetece
A vaidade de jazer lembrados e altivos
No último adeus e se impusesse

A obrigação de ser o inesquecível instante.
É quando pensamos na morte. O medo
E a vaidade vivem à nossa última hora.

Mais valem os que oram por quem, diante
Dela, podem vencê-la ou, com o enredo
Traçado, pedem para que o pior vá embora.

Francisco Libânio,
10/07/09, 12:28 AM

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Extra Few Pounds



Não sou advogado da Preta Gil. Sequer ganho para defendê-la (nem um beijo de muito obrigado, cáspita!). Mas a usarei como ilustração bem realçada de algo que, sinceramente, não consigo compreender muito bem: A contínua perseguição com as mulheres um tantinho acima do peso.

Veja bem: Chegamos num nível humano em que os homens querem as mulheres a régua e compasso, mas com o compasso nos lugares certos. Curvas, elipses e hipérboles em ponto errado de corpo de mulher desvalorizam completamente o material na cotação masculina.

Aí, de repente, aparece uma moça que tem, por acaso, os seus extra-few-pounds, suas gordurinhas localizadas, mesmo que elas estejam localizadas entre a testa e o dedão do pé, mas que, mesmo assim, conserva um rosto bonito, um sorriso atraente, uma conversa envolvente. Não interessa. A essas, a pecha de gorda fica como se marcada a ferro nas ancas dessas mulheres. Os maledicentes diriam que nessas ancas, além de gorda, daria pra escrever, pelo menos, mais uns quarenta sinônimos. Eu já vejo que nelas daria pra escrever um soneto. Quiçá sobre as próprias ancas.

Especificamente falando da Preta Gil, alvo preferido dos detratores da gordura feminina e dos esquadrões pela perfeição curvilínea, pouco conheço sua obra enquanto artista, mas das vezes que a vejo em programas ela me passa alguma simpatia pela beleza conjuntural e pela desinibição. Sou muito mais isso às mocinhas bonitinhas, enquadradinhas numa modelo e que seguem um roteiro prévio até pra respirar.

E então volto ao meu dia-a-dia sem Preta Gil, mas, principalmente, sem as modelinhos. Saio na rua e vejo culotes saltando de blusinhas que, originalmente, deveriam mostrar só o umbigo. Moças brancas, morenas, negras, mestiças todas muito longe do Bündchen style que nos jogam na cara e fico pensando se – realmente – é preciso viver só de alface e suco de soja pra ser feliz. Antigamente, mulheres robustas traziam o sinônimo de fertilidade e boa saúde. Hoje a delgadeza traz o bonito e, até mesmo, a saúde simbolizada pelo seu oposto. E, esperando chegar nessa perfeição traçada em linha reta, muitas meninas encontram uma anorexia fatal.

Por isso, vejo em mulheres como a filha do nosso ex-ministro e bom baiano as mulheres que encontro no ponto de ônibus, na fila do supermercado, na rua... E o mais engraçado é ver mulheres que estão com aqueles três, cinco quilinhos acima do que elas acham ter e se comportam como se fossem moçoilas nas passarelas. Essas, sim, merecem o devido esculacho.


Francisco Libânio,

15/08/09, 10:42 AM