segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

O Último Olhar Amigo


O último olhar amigo que eu te daria
Teria o valor que teve o primeiro,
Com o desejo de ser eterno e o seria
Não fosse nosso confuso nevoeiro

Que te fez deusa sendo que te faria
Princesa. E confundiram por inteiro
Intenções e amores, e quem não amaria
Um coração amigo e verdadeiro?

Eu amei e hoje sou só arrependimento,
Quis te fazer feliz sem me medir pra isso
Até que o desejo virasse rompimento

Por isso te dou o último olhar amigo
E nenhum mais com o compromisso
De te dar o que trago de bom comigo.

Francisco Libânio
13/12/07
11:21 PM

Soneto que madrugou


Edvard Munch - Manhã

Acordou entre estrelas o poeta,
A cama lhe bebeu o sono antes
Que o sol chegasse e os cantantes
Passarinhos oferecessem uma opereta

Tomou suas idéias e uma caneta,
Fez quatro versos soltos e adiante
Esculpiu formas de dois amantes
Que não se amaram. Era a vendeta

Perfeita contra o poeta. A aurora,
Surpreendida, espreitava a poesia
Que nascia do poeta que, acordado

De antanho, colocava de si pra fora
O sonho que tivera e que no papel se fazia
Espectro de um amor não alcançado.

Francisco Libânio
23/10/07
6:40 AM

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Do Amor Sátiro


Cena Erótica de um homem e três Mulheres, Henry Fuseli. extraído de http://www.tate.org.uk/britain/exhibitions/gothicnightmares/rooms/room6.htm

Nada seria o amor sem as eventuais
Libertinagens que a dois se passa,
Loucurinhas estas que sem as quais
Amar não teria nenhuma graça

E daí se é ela para ti uma devassa
Ou se teu prazer corre noutros canais?
Amai-vos. A intimidade vos abraça
E o amor acalenta estes rituais

Que na luxúria são embebidos
Mas se feitos amando na essência
Converte em bem o que se pinta mal.

Ora, não foi assim em tempos idos,
Quando o homem, refém da inocência,
Amou no que foi o pecado original?

Francisco Libânio
08/11/07
12:48 AM

São Paulo


Da janela vejo teu céu cinzento
Vejo teus carros frenéticos
Respiro teu ar de cimento
E sinto teus ventos morféticos
Há uma flor em cada coração
Dos que em ti moram
E de ti tem proteção
A caridade voa com o vento
Ao alto dos edifícios
Na terra, o medo e o tormento
Dos que sonham, apesar da vida difícil
Há um charme em tuas avenidas
Em teus museus e teus cinemas
Em teus largos e tuas subidas
Tu que és mote de poemas,
De músicas e de novelas
Tens mil faces a mostrar
E são todas muito belas
Seja a do executivo a voar
Nos teus céus de brigadeiro
Seja a do pobre da favela
Que sofre o tempo inteiro
Seja a da moça do Paisandu
Que vende o corpo a dinheiro
Seja a do nordestino trabalhando
Na obra civil te fazendo crescer
Todos são tu, São Paulo
Que em ti vêem o Eldorado
E vem para enriquecer
Nas tuas nuvens de sonho e concreto
Onde muitos vêem no errado o correto
Onde há jogos todo santo domingo
Onde há verde apenas ao lado
Da Barra Funda, no Palestra
Donde surge o alviverde imponente
Menos apenas que no Ibirapuera
Que anima o coração da gente
Do interior que ansiosa espera
Um dia poder voltar

E eu que nasci em teu chão
E nem tempo tive de me apresentar
Estou longe, com medo de ti
Tenho vontade de te visitar
Terra que amo de paixão
E que temo as tuas surpresas
Some o medo à primeira esquina
Que na entrada logo fascina
Pois tantas são as belezas
Quase todas urbanas
Quase todas de pedra
Impressiona que nesta selva de pedra
Ainda haja criaturas humanas

Francisco Libânio
17/02/01
5:15 AM

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Do amor às causas


Se crês em algo, crê com a alma plena.
Não deixes que te abale quem duvida
Nem faças da tua fé matéria polida
Por que a fé cega é a que envenena.

Ama teus princípios, mas faz serena
Tua devoção. O amor no credo olvida
As razões mais prosaicas da vida
Transformando tua crença na pena

Que cumprirás se fores inflexível
Sendo na sentença juiz e culpado
Se reservas a ti tão vã vigilância.

Ama as causas de forma visível,
Mas com sensatez. Ela é o cuidado
Para o amor não perecer em ignorância.

Francisco Libânio
11/10/07
11:40 AM

Apelo ao meu passado


Valei-me, oh, ido tempo de criança
Em que as graves preocupações
Eram apenas as dificílimas lições
E provas me roubando a confiança

Unge-me com as horas de diversões,
De brincadeiras e de fala mansa
De mãe e da infindável esperança
Dos presentes nas comemorações

Guarda-me do futuro perigoso
Com tua fantasia doce e pueril
De que no fim tudo acaba bem

Assim, talvez, o porvir raivoso
Veja fracassado seu feroz ardil
E seja ele uma criança também.

Francisco Libânio
22/08/07
8:00 PM

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

De vidas


De quando nos vimos até agora
Outra vida se fez em minha vida
E num dia por segundo e um ano por hora
Infinita tem sido sua corrida

E se, acaso, vejo eu a tua límpida
Figura tão encantadora em mim aflora
Outra vida que vem a sorrir-te incontida
Seguindo assim existência afora.

Por ti quantas vidas já gerei
E cada beijo que eu já te dei
De quantas eu saciei a fome

Só serei pleno eternamente
Se me deres uma vida de presente
Com teu sangue e nosso sobrenome.

Francisco Libânio
22/01/08
5:40 PM