domingo, 13 de abril de 2014

1604 - Soneto sem ênfase

Se fosse algo ácido, podia dar pra fazer uma limonada, ao menos.

Escreve-se sem ter um motivo,
O soneto sai sem ter a direção
Ideal, vai-se tomando uma mão,
Outra e vai ficando aglutinativo.

Soneto sem razão, só passivo
A qualquer ideia, toda emoção
Que aparece, sem identificação,
Bobo e para soar mais efusivo,

Uma palavra bonita e elegante,
Mas sem razão. E aí se garante.
O soneto já tem o que precisa.

Palavreado e até lição de moral.
Mas espreme a sair o substancial...
Sai uma aguinha e talvez brisa.

Francisco Libânio,
09/04/14, 9:15 AM

1603 - Soneto influente

Aí um gostou. Depois disso só a zorra!

Escreveria um soneto qual Bilac,
Escultor, preocupado com forma,
Usando tudo conforme a norma
A fim de agradar uma fina claque,

Plateia regada a uísque, conhaque,
Mas no andar, o soneto transforma,
Perde a finesse e só se conforma
Se tira violentamente o seu fraque,

Tipo um strip-tease e arrota gutural.
O público se enoja e mantem a tal
Fleuma até pra criticar este soneto.

Mas um no meio aplaude e desafia:
Soltem seus bichos como a poesia!
Eis que rola o rendez-vous completo.

 Francisco Libânio,
08/04/14, 1:13 PM

sábado, 12 de abril de 2014

Poema de fuga 17

Tem hora que é difícil entender.

Uma mulher me negou um beijo
Como se eu quisesse sexo
Outra me deu todo o sexo
Sem que eu pedisse um beijo
Diante de tal ousadia e do pejo
Diametrais e do mesmo ensejo
Digo que tudo é demais complexo
E nessa cama, com uma, eu vejo
Que se se juntam querer e desejo
Vez ou outra faltará o nexo.

Francisco Libânio,
04/01/14, 2:24 PM

1602 - Soneto em sala de espera

Lugar bonito agradável... Vai ver o que te espera.

Dia de dentista, aqui na espera,
Entendo como o boi se sente
Antes do golpe que, no repente,
Fina a vida. Se a coisa acelera

Não é bom. A dor chega. A cera,
No entanto, faz mais deprimente
A presença e o instante presente
São minutos que valem uma era.

Chega a vez, a secretária chama,
A dentista se cuida para a trama,
Te senta e te deita na equipada

Cadeira para cuidar da sua boca,
E põe coisa, tira e depois coloca.
Considera-se vingada a namorada.

Francisco Libânio,
08/04/14, 11:58 AM

1601 - Soneto da arca

Penso a orgia que deve ter sido lá dentro...

Escrevi sonetos de animais,
Visitei e repisei o bestiário
E achei um que o imaginário
Diria ser invenção demais,

Por serem quase surreais
De estranhos. O comentário,
O soneto, quis o anedotário,
Uma piada para esses tais

Mais estranhos bichos. Aí,
Pensei na arca. Como ali
Ficaram em paz os pares?

Quarenta dias abarcados,
E sexo por todos os lados
E dali as cruzas peculiares.

Francisco Libânio,
08/04/14, 9:07 AM

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Vais morrer!

Abre e ouve o que eu tenho a te dizer!

Bateu à minha porta e quando abri, eu o vi. Nada me disse que não fossem aquelas duas palavras.
- Vais morrer!
O sujeito não estava armado. Nada de coldre com arma ou uma faca na cinta. Também não tinha jeito de saber nenhuma arte marcial capaz de dar cabo de um homem e parecia tão moloide, tão desengonçado que, no caso de nos metermos numa luta corpo-a-corpo, eu, nada atlético nem hábil, poderia com ele sem grandes problemas.
Mas luta corpo-a-corpo não teve. Nenhuma ameaça ou violência. Apenas disse “Vais morrer!”, virou as costas e sumiu. Nunca mais o vi. Mas a ameaça me assustou. Um assassino educado, mesmo um emissário, merece que as devidas providências sejam tomadas. Não posso dizer que minha casa fosse um lugar seguro, ou não teriam esse acesso fácil à porta. Tratei de cuidar disso. Subi um muro mais alto e um portão eletrônico. Quisessem falar comigo doravante, que fosse via interfone.
Também não permiti que esse muro fosse alto o tanto que nada eu visse da rua. Para me precaver, também instalei uma câmera em minha casa. Qualquer movimentação estranha seria sabida por mim.
Quando soube de assaltos nas proximidades da minha rua, o medo tomou conta. Era uma câmera, viraram três. Nenhum dos assaltos terminou em morte. Queriam dos meus vizinhos os bens, mas só de mim, um estranho com hombridade queria a vida, tanto que me avisou disso. Eu morreria. Pois então que eu me cuidasse.
Foi quando percebi que não era só em minha casa que eu deveria ter cuidado. Quase caí pra trás quando soube que desde então passei um arriscado período sem me proteger. Blindei meu carro e tive aulas de direção defensiva. Sabia como me portar em uma situação de perigo no carro. Por via das dúvidas, também tomei algumas aulas de tiro e sempre uma arma no carro para qualquer eventualidade. O assassino até poderia me matar, mas, certamente, iria junto comigo.
Logo descobri outro vacilo da minha parte: a rotina. Para ir ao trabalho, eu sempre usei o mesmo e manjadíssimo caminho. Passei a diversificar as rotas. Nunca o mesmo trajeto por duas vezes seguidas. Um amigo me sugeriu, não sei se de gozação, que eu variasse os carros também. Considerei isso, mas logo todos os carros que eu tivesse ficariam marcados. Para evitar isso, procurei ir ao trabalho a pé ou de ônibus. Seria muito risco me expor assim, mas saberia como me portar caso algo acontecesse.
Nunca aconteceu. Minha casa nunca foi violada. Durante as idas ao trabalho, o máximo que acontecia era alguns garotos lavarem meu vidro atrás de uns trocados, que nunca dei. E quando me sentia ameaçado, acelerava os assustando. Certamente não seriam eles que me matariam. Nem mesmo na vez que me meti, com toda a coragem do mundo, a viajar de férias aconteceu um problema. Pensei encontrar minha casa incendiada na volta. E eu a encontrei tão ilesa quanto a deixei.
Do dia em que recebi aquela temerosa visita até hoje em que escrevo essas linhas, passaram-se quarenta e três anos. Não acredito que o homenzinho que tenha me ameaçado tenha durado esse tempo todo. Não aparentava boa saúde e parecia ter certa idade. Não vou mais ao trabalho, me aposentei. Hoje meus dias são tediosos. Por conta do ocorrido, evitei contato com muitos estranhos, mulheres inclusive. Logo não tenho esposa ou filhos. No fim das contas, acho que aquele salafrário veio me avisar de algo que eu sabia desde sempre que ia acontecer: Eu morrerei, um dia. Mas graças a esse grande animal, eu me apavorei, tomei providências exageradas e me recluí do convívio social. Deixa estar. Quando eu realmente morrer, onde estiver esse cretino, pegarei pelo pescoço e ele morrerá como me disse um dia que eu ia morrer. Mesmo depois de morto, porque se ele fala, eu faço!

Francisco Libânio,
17/01/14, 9:01 PM

1600 - Soneto do cachorro

A gente podia resolver isso sem ninguém ser ofendido, não acha?

O cachorro ficava em dúvida cruel
Como podia ser um melhor amigo
Enquanto esse amigo, por castigo,
Por ofensa pesada e sem ter mel

Chamava de cachorro pondo fel
No nome desde um leve inimigo
Até um desafeto do mais antigo.
Logo o cachorro, o parceiro fiel,

Companheiro de guardar a casa,
Agora vai virar uma ofensa rasa?
Muito melhor seria ser ele sócio

Do que xinga, falar quem é o tal
Que levará o nome, contar o mal
E uma mordida resolve o negócio.

Francisco Libânio,
07/04/14, 7:28 PM