domingo, 8 de maio de 2011

Dia das mães


Sempre achou o Dia das Mães uma data comercial. Para ele, o segundo domingo de maio tinha um significado tão relevante quanto qualquer outro domingo do ano. Os domingos de dia das mães em casa eram bem normais. Sua mãe era uma mulher dura, mas com relances de carinho e boa simpatia, mas raramente alguma coisa marcava o dia. Lembrou que, quando criança, fez um vasinho de argila e colheu uma flor. A mãe viu, deu um beijo e o vasinho e a flor ficaram esquecidos. Nunca mais se preocupou com isso.
Na adolescência, a mãe seguia fria em relação a tudo. Na verdade, ela desestimulava qualquer lembrança especial para o dia das mães. Dizia aos filhos que não precisava de presentes, de almoço especial. Ficava feliz em ser lembrada no aniversário, quando todas as homenagens eram celebradas. Com o passar do tempo, foi perdendo o brilho do dia. Os festejos eram transferidos para o almoço na casa da avó, mas durou até a velha morrer. O pai, órfão, também não dava muito pela data. O irmão se casou e se mudou de cidade. No dia das mães ligava para a mãe, mas nem lembrava do dia. Nos aniversários, ele trazia os netos e a mãe adorava.
Com tudo isso foi pegando certa antipatia pelo Dia das Mães. Concluiu mesmo que era uma data comercial para encher cofres das grandes lojas, das floriculturas, do diabo. Achava uma grande bobagem as reuniões de família pelo dia. Por que não se reuniam sempre ao invés de um dia específico, imposto? Às vezes era chamado para passar o dia das mães na casa de algum amigo, de uma namorada e recusava. Se não se sentia em família comemorando o dia com a sua família por que faria isso com outra? Melhor ficar em casa e levar um almoço como qualquer outro.
Pouco antes do sexagésimo primeiro aniversário de sua mãe, o coração daquela mulher resolveu que já era hora de descansar e descansou junto com ela. Como o aniversário estava próximo, o dia foi pouco lembrado, mas teve missa de sétimo dia. O filho já era homem feito, casado e passou o primeiro dia das mães sem mãe. Deveria ser um dia normal como qualquer outro. Mas não foi. Mesmo sem nunca ter dado pelo dia faltava alguma coisa naquele segundo domingo de maio. Mas nem tudo estava perdido. Na segunda após, sua esposa contou que estava grávida. O próximo dia das mães teria muitos conceitos revistos, ah se teria...

Francisco Libânio,
08/05/11, 1:15 PM

sábado, 7 de maio de 2011

Maravilhoso!


Esse blogue é basicamente autoral, Não sou de ficar colocando textos de terceiros até porque isso feriria meu lado poético diante de tanta gente boa que já escreveu por aí, mas abro uma exceção ao Chico Anysio, um cara que eu digo sempre ter tido um único azar em toda sua vida: Ter nascido no Brasil. Fosse ele inglês, sozinho, ele daria um baile no Monthy Python, que é ótimo. Fosse estadunidense, deixaria o eterno Jerry Lewis no chinelo. Criar pra lá de duzentos personagens, todos eles com especificidades e características próprias não é coisa pra qualquer um. Precisa ser Chico Anysio mesmo.
Mas mais que um grande humorista, Chico também é um ótimo escritor e navegando por aí encontrei esse vídeo em que ele recita o maravilhoso Mundo Moderno, de sua autoria. Eu sabia que ele tinha escrito algo desse tipo. Quando era mais novo, eu e alguns amigos procuramos esse texto, em que ele só usa palavras com a letra M, para servir de abertura ao Prêmio M, uma brincadeira que fazíamos entre a família e os amigos. Infelizmente, sem saber nome certo, não o achamos àquela época. Fiquei muito feliz por ter encontrado hoje. Vai o vídeo aqui e abaixo o texto transcrito. Esse cara é realmente, inigualável!

Mundo Moderno
Chico Anysio

Mundo moderno, marco malévolo, mesclando mentiras, modificando maneiras, mascarando maracutaias, majestoso manicômio. Meu monólogo mostra mentiras, mazelas, misérias, massacres, miscigenação, morticínio – maior maldade mundial.

Madrugada, matuto magro, macrocéfalo, mastiga média morna. Monta matungo malhado munindo machado, martelo, mochila murcha, margeia mata maior. Manhãzinha, move moinho, moendo macaxeira, mandioca. Meio-dia mata marreco, manjar melhorzinho. Meia-noite, mima mulherzinha mimosa, Maria morena, momento maravilha, motivação mútua, mas monocórdia mesmice. Muitos migram, macilentos, maltrapilhos. Morarão modestamente, malocas metropolitanas, mocambos miseráveis. Menos moral, menos mantimentos, mais menosprezo. Metade morre.

Mundo maligno, misturando mendigos maltratados, menores metralhados, militares mandões, meretrizes, maratonas, mocinhas, meras meninas, mariposas mortificando-se moralmente, modestas moças maculadas, mercenárias mulheres marcadas. Mundo medíocre. Milionários montam mansões magníficas: melhor mármore, mobília mirabolante, máxima megalomania, mordomo, Mercedes, motorista, mãos… Magnatas manobrando milhões, mas maioria morre minguando. Moradia meia-água, menos, marquise.

Mundo maluco, máquina mortífera. Mundo moderno, melhore. Melhore mais, melhore muito, melhore mesmo. Merecemos. Maldito mundo moderno, mundinho merda.

Mattosianas 028 - Para a negra capa de revista


Após mil brancas loiras e morenas,
Algumas brancas ruivas eventuais,
Mas brancas e algumas até demais,
Outras menos mudando as melenas,

A revista na capa anuncia cenas
De nudez com uma negra. Quais
Outras foram peças principais?
Não lembro, mas outras centenas

De brancas foram alvos masculinos
De sonhos grosseiros e onanistas,
Vendendo, assim, milhares de revistas,

Mas as negras de traços menos latinos
Mais africanos superam, com certeza,
Para este poeta, tal estereótipo de beleza.

Francisco Libânio,
06/05/11, 12:28 PM

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Mattosianas - 027 - Da unanimidade vista com os olhos


A Suprema Corte do País, em unanimidade,
Autorizou a união civil entre homossexuais,
Agora poderão ser casal diferentes e iguais,
Direitos garantidos e garantida igualdade,

Senhores togados, agradece a comunidade
E aplaude a coragem que entra para os anais
(Sem trocadilhos nem a malícia, males usuais)
Da Justiça e que põe o Brasil em paridade

Com as sociedades que andaram para frente
E trouxeram junto a elas no reboco o Direito
Que em muitos lugares vê evolução por defeito

Ainda há muitos obstáculos. Que se enfrente!
Ódios, mentes, conceitos e igrejas medievais,
Mas, agora com a Justiça, poderemos mais.

Francisco Libânio,
06/05/11, 9:39 AM

Mattosianas - 026 - Da unanimidade vista com a nuca


A Suprema Corte do País, em unanimidade,
Autorizou a união civil entre homossexuais,
Agora poderão ser casal diferentes e iguais,
Direitos garantidos e garantida igualdade,

Mas vejam lá, senhores togados, isso invade
E fere a família, as instituições. Esses tais
Que acham o errado certo querem ser casais
Como nós, que somos casais de verdade

Homem e mulher, macho e fêmea Deus criou
O homem não pode ir contra a voz divina
Com essa mania, esse desvio que alucina

As gentes e desvirtua o que de bom restou,
Por isso, vocês deviam segurar bem a rédea
Ou nunca voltaremos ao que era Idade Média.

Francisco Libânio,
06/05/11, 9:24 PM

O dominó


Na ideia de agradar o filho de sete anos, o pai resolve aproveitar uma data aleatória para lhe dar um presente. Esperou o filho chegar da natação, uma das poucas atividades físicas que fazia e lhe chamou de lado:
- Aqui, Róbson. Um presente do teu pai. Um jogo de dominó. – Era uma caixa de madeira bonita, peças de ébano muito bonitas, enfim, um dominó tradicional como os da época em que o pai tinha aquela idade.
O menino pegou a caixa, abriu, tirou as peças as deitando no chão e ficou olhando aquilo com surpresa e dúvida. Dominó? Sim, mas como se faz agora? Um monte de peças pretas e pontinhos coloridos pintados e pra quê? As perguntas do menino não eram pescadas pelo pai que contava como se divertia quando era mais novo ao jogar quedas e mais quedas de dominó com os colegas da escola. Foi quando o menino interrompeu as reminiscências do pai:
- E como o senhor jogava isso?
- Como? Ora, coisa mais simples! A gente começa sempre com o carroção de seis ou outro. Aí tem que juntar as peças iguais.
- É tipo Tetris? – perguntou o menino.
Parada dura. Tetris? Na época do pai, esse negócio de Tetris não existia, mas para o filho era o jogo mais simples que se podia haver. Só que ele nunca jogou com peças desse jeito. Sempre no computador, no vídeo game. Ensinar o menino tão afeiçoado a botões e a playstation ia ser difícil. Mas se muniu de boa vontade e foi adiante:
- É assim, a gente pega seis peças cada um – e distribuiu com o filho – e quem tiver um carroção, a peça com números iguais, começa. – por acaso, o pai tinha o carroção de seis e jogou na mesa.
- Agora, se você tiver uma peça de seis pode colocar em qualquer um dos lados. – ensinou.
O menino tinha lá um seis e tacou na mesa. O pai seguiu a jogada com o dois disposto. Na sua vez, o menino tirou as duas peças coladas de dói.
- O que esta fazendo, Robson?
- Eliminando as peças, papai. No Tetris, quando acontece algo assim, elas se eliminam sozinhas. Aqui quem tem que fazer isso sou eu, né?
É claro, o pai esqueceu de falar para o filho que dominó e Tetris não tinham nada ver coisa com outra. Voltou as peças para o lugar e explicou que não tem que eliminar nada. Que agora, na sua vez, o menino tinha que jogar uma peça com qualquer uma das extremidades.
- Mas eu não tenho.
- Então compra.
Antes que o menino fosse esvaziar o cofrinho, o que estava em vias de fazer, o pai explicou que era pra ele pegar uma peça no monte. Pegou três e nada. Passa a vez para o pai que joga. E assim a primeira partida de dominó da vida de Róbson significou uma retumbante derrota. O pai explicou que é assim mesmo, mas que logo ele ia pegar o jeito e seguiria a saga vencedora do pai, campeão do bairro há trinta anos, um grande orgulho para o pai. Depois da partida, foram jantar, conversaram sobre outras coisas. O pai perguntou sobre a natação para o filho, que estava de poucas palavras.
Quando o pai estava vendo o jornal, o filho o chamou do seu quarto e intimou:
- Papai, quero jogar Guitar Hero com o senhor!
- Mas eu... – e nem adiantou dizer que não sabia como se jogava aquilo. O menino também não sabia jogar dominó e aprendeu meio a contragosto e perdeu. O pai, na mesma situação, cedeu. Tiraram uma música e o pai foi humilhado na primeira vez que se metia com o jogo predileto do filho que se sentia leve e vingado.

Francisco Libânio,
01/05/11, 7:42 PM

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Hai-kai 06


Sol impávido num dia frio,
Calor bom pra lagartear,
Frescor que não deixa suar.

Francisco Libânio,
05/05/11, 9:37 AM