quarta-feira, 4 de maio de 2011

Mattosianas 021 - Do pretenso beijo maldito


Uma novela irá transmitir um beijo em rede aberta,
“Oras, mais um beijo?” dirão os leitores, “Mas e daí?
Quantos tantos beijos em novelas e filmes eu já vi!”
Se tem beijo é porque a eles se quer, daí a oferta,

Mas um beijo lésbico, senhores? Quem se acerta
A ver, aceitar como normal sem aquele terrível tititi
De senhoras de Santana quase a cometer haraquiri
Em nome da moral e costumes? Isso mais acoberta

A hipocrisia que se guarda em casa, que não fala
Nem dá nomes. Quem se assume hipócrita afinal?
Não temos males, apenas combatemos o que é mal

Por isso, o beijo lésbico é malvisto e se propala
Contra ele cruzada veemente, inquisidora e falaz
Em vez de deixar as mulheres se beijarem em paz.

Francisco Libânio,
04/05/11, 10:54 AM

Perdoa, não perdoa


E por mais que eu quisesse te ver,
Te tocar, te beijar e dizer meu amor
Uma porta entre nós, um corredor
Fazem uma parede fria a arrefecer

Minha voz e ainda, para ser pior,
Teus ouvidos recusam meu dizer,
Teu coração se nega a entender
Que o meu traz consigo uma flor

Para te dar como pedindo perdão
E pede chance para ser ouvido
E quem sabe poder ser reconsiderado

Mas não gostas de flores nem não
Ouves que um erro pode ser remido,
Simplesmente, as retiras do meu lado.

Francisco Libânio,
08/04/11, 6:03 PM

terça-feira, 3 de maio de 2011

01 - 05-02-11 - É claro que o amor é mais que o amor


É claro que o amor é mais que o amor,
Mais que os apaixonados de mãos dadas,
Bem mais que beijos e carícias roubadas
E que as juras vazias, claro, ele é maior

Óbvio que o amor conserva, é protetor,
Que é forte se o fizermos às bordoadas
Inevitáveis do mundo, mas às inesperadas
Casualidades é que deve se sobrepor

E proteger não dos infortúnios poéticos,
Do mal que os amantes sonham enfrentar
Triunfando com a resistência em amar

E sim do cotidiano, da rotina, céticos
E amargos não por não querer aos amantes,
Mas por serem reais, presentes e constantes.

Francisco Libânio,
05/02/11, 11:47 PM

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Mattosianas 015 - Para a morte mais esperada 02


Morreu Bin Laden, comemoração no Norte,
Famílias alijadas naquele fatídico atentado
Mandam-no ao inferno e, de peito aliviado,
Festejam como um nascimento essa morte

Obama anunciou o fato com estilo e porte,
Bush Filho disse que ele seria encontrado
E pagaria com juros todo o mal causado
À “nação americana”. Vingança bateu forte!

Mas peraí, meu amigo, vamos com calma!
Antes de comemorar com furor esta palma,
Mostra aí o homem, manda pro mundo a real!

Porque barbudo, magrelo e com turbante
Não tinha só o Bin Laden, tem é bastante
Muçulmano desse tipo. E se não for o tal?

Francisco Libânio,
02/05/11, 9:05 AM

Mattosianas 014 - Para a morte mais esperada


Morreu Bin Laden! Anúncio em rede mundial,
Vitória das forças do bem, enfim vingança
Contra o onze de setembro, contra a matança,
Caiu a peça que sustentava o eixo do mal

Vasculhou-se o Iraque, o Afeganistão e tal
Inimigo do Ocidente levava-o em dança
Aqui, ali, um vídeo, ameaça, ele descansa
Enquanto muitos nem dormem. Afinal

Onde estava esse maldito assassino xiita?
Onde está o corpo? Que alguém apresente
O cadáver e nos mostre prova convincente,

Os ianques dizem, mas a gente só acredita
Com algo que comprove tal afirmativa
Ou veremos no tal Bin uma neurose coletiva.

Francisco Libânio,
02/05/11, 8:41 AM

domingo, 1 de maio de 2011

Mattosianas 009 - Para o Papa beatificado


Hoje, na Praça São Pedro, no Vaticano,
O Papa Bento beatificou o antecessor
João Paulo Segundo sob forte clamor
Do povo que amava em vida o puritano

Polonês, mas que tinha o insight humano
Numa Igreja que leva pra trás o andor,
O velho Karol canonizou e deu fervor
A santos, misturou o sacro e o profano

Em discos que viraram febre nas pistas,
Lidou com quedas de regimes socialistas
E viveu a exortar paz entre as religiões

Morreu Papa e a um passo de ser santo,
Beatificado, tem na praça louvor e canto
Enquanto se espera da Sé outras revoluções.

Francisco Libânio,
01/05/11, 11:07 AM

Um pouco de sujeira


Quem tem o hábito de ler esse blogue percebeu que o Poeta adora sonetos. Isso é fato. Desde que li, nos tempos de colegial, uma coletânea de Camões, percebi que, sim, eu podia ser poeta também (não genial como o português) e que a forma legal pra isso seriam os sonetos. Desde lá, entre um poema e outro, os sonetos se multiplicaram. Também tomei gosto por sonetistas. E aí entrou gente do calibre de Vinicius de Moraes, Augusto dos Anjos, Bocage e Florbela Espanca. Uma tendência ao clássico e ao rebuscado como se nota. E assim, fui levando minha vida poética.
Recentemente, comprei o livro As Mil e Uma Línguas do Glauco Mattoso, um poeta sobre o qual eu já tinha ouvido falar e de quem eu já tinha lido alguma coisa aqui e ali, mas sem me chamar a atenção como os supracitados. No entanto, ao lê-lo, fui começando a ver uma sujeira que nunca encontraria nos clássicos. Foi o que me deixou inspirado. Mais que a tal sujeira, também vi que o poeta não se furta a escrever sobre temas cotidianos, situações apoéticas, algumas um tanto grosseiras. Sobre tal temática o próprio poeta faz questão de explicar – em sonetos – e de defendê-la como a se dar ao direito. Está certo. Nem todo soneto precisa ser camoniano ou viniciano. A dita poesia marginal de Glauco Mattoso, que tem em seu blogue todos os 4000 sonetos, merece destaque. Se não dos críticos mais conservadores que abominam palavrões, cenas tórridas, alusões à pederastia, a tal sujeira, que venha de um poeta nem marginal nem célebre, mas que anonimamente sempre se deu à criação de sonetos por gosto e que assimilou essa nova forma de escrever. Forma mais livre, menos apegado a sentimentalismos e mais uma forma de soltar palavras. A sujeira na poesia fica lírica e tem valor.
Será que com esse novo gás chegarei eu a quatro mil sonetos? Não sei. Nunca me dei ao trabalho de contar quantos sonetos já escrevi por minha vida, mas acredito que mesclando o refinamento dos clássicos e o bruto do poeta marginal, pelo menos mais de dez sonetos virão. Que sejam bem vindos. Quem não copia e se inspira sempre contribui. E espero dar minha contribuição com esse novo viés de poesia que passei a admirar e me deu um novo rumo sem abandonar os outros.

Francisco Libânio,
01/05/11, 10:40 PM

PS – Poderão pipocar nesse blogue poemas que venho chamando de Mattosianas. Tais poemas serão classificados como exercícios. Espero que quem os ler goste deles.