domingo, 9 de janeiro de 2011

Poema Simples


Não industrializes os versos
Nem faças das rimas banalidades,
O poeta é um artesão sem ofício
Acima dos fumos das cidades

Estes que produzem tantos bens
E numerosos para se vender a bom preço
E aumentar lucros e engordar barões
Repetindo à exaustão este processo

Pobres são os poetas, mas felizes
Por esculpir rimas únicas e belas
E tão puros seus corações, quase bobos,
Que não cobram nada por elas.

Francisco Libânio,
10/01/10, 11:39 PM

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

A musa da Zona Norte


- O senhor precisa conhecer a Micaela, seu Wallace. Uma moça das mais lindas que eu já vi. E não é opinião só minha, não. Lá na comunidade, todo mundo acha a mesma coisa. Os caras são vidrados nela. Se o senhor quiser, trago ela pra apresentar pro senhor.
O conselho foi dado pelo Zacarias, office-boy daquela agência de modelos num dos pouquíssimos encontros com o chefe supremo do lugar. Óbvio que ele conhecia mulher bonita de longe. O problema é que, na cabeça dele, havia um protótipo de beleza definido, bem acabado e que existia aos montes. Todas na Zona Sul, é claro. Ele andava pela orla e via centenas dela. Algumas achavam que era cantada barata e mandavam o moço passear quando não mandavam os namorados, maridos, noivos e congêneres resolver o assunto na brutalidade. Outras, loucas pelo sucesso fácil e pelas portas que se abririam com o corpo escultural, não pensavam duas vezes. Fosse preciso tirar a roupa em plena Avenida Atlântica não tinha problema. Mas na Zona Norte? Wallace conhecia quase nada de lá. Subúrbio nunca foi seu forte. Era arraigado demais à sua realidade e deixava o mundo exterior para os subalternos, com quem pouco conversava sobre até essa conversa.
- Sei não... – respondeu ele – Acho que ela não deve ter o perfil que a nossa clientela espera.
Ah, sim... Tinha esse lado, a clientela. Como toda agência de bacana que ficava em Ipanema, a clientela que procurava os serviços era da vizinhança. Gente que não precisava andar de trem pra trabalhar, não tinha esse perfil nem precisava dele. No entanto, Zacarias, que devia conhecer bem a Micaela, insistiu:
- O doutor tá perdendo uma chance de ouro, seu Wallace. A Micaela pode num ser que nem as moças que o doutor contrata, mas garanto que põe todas elas no bolso quando o assunto é beleza! E de mais a mais, o que o senhor ia perder? Se não gostar dela, o senhor não gostou e pronto. Ela volta pra casa e segue a vida como vendedora. É que ela sempre quis ser modelo, manja?
A insistência e os bons antecedentes de Zacarias valeram a pena. Ele não era desses que arrumavam mulher em qualquer buraco, nos bailes mais podrões da periferia que nem já viu com outros colegas dele. Feito, marcou uma entrevista com Micaela para dali dois dias. Se ela agradasse, seria contratada. No dia marcado, eis que aparece Micaela. Negra retinta, olhos vivos, cabelos com tranças rastafári (naturais, ela dizia, nada de aplique) e um sorriso sempre aberto. Tinha vinte e um anos. Estava com Zacarias. A intimidade dos dois fez um monte de gente perguntar se tinha alguma coisa ali:
- Tem nada! Ela é uma irmã pra mim.
Quando “seu” Wallace chegou à agência, topou com a moça e ficou espantado. Tá certo, ela era bonita, tinha um rosto perfeito. Claro, não era loira nem tinha jeito de rata de praia ou de academia como a maioria das suas contratadas, mas tinha algo sobre o qual ninguém tinha falado. Chamou Zacarias numa sala à parte e disse:
- Zacarias, você disse que a moça é bonita e tal, mas não contou disso que eu vi agora.
- O quê, Doutor?
- Zacarias, essa menina está acima do peso de modelo, não percebeu?
- Gorda?
- É, gorda. Não serve! A gente trabalha para um público de geração saúde. Uma mulher dessas que não pode ser. Ia jogar contra nossa agência, entendeu?
- Mas, doutor... A Micaela é uma gata!
- Gata, coisa nenhuma. Ela não serve, Zacarias. Nem adianta entrevista com ela. Não serve pro nosso público alvo. Peça desculpas à sua amiga e diga que não dá, tá?
Zacarias é que não ia discutir ordem de chefe. Conversou com Micaela e foram embora. Wallace, talvez, tivesse sido duro demais, mas não podia trair seu público. Tocou sua vida e Micaela a sua. A vendedora da Zona Norte, por sua vez, não ficou muito tempo no comércio. Um outro olheiro achou a moça por aí, gostou dela e apostou numa vertente nova, as modelos para as mulheres reais. E deu certo. Em seis meses, ela deixava Madureira para se instalar num apartamento pequenininho na Zona Sul. E com vários convites para trabalhos pelo Brasil.

Francisco Libânio,
07/01/11, 8:27 PM

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Hai-kai de Dia de Reis


Trazem à mão violão e pandeiro,
Trazem no coração algo antigo
Que se vê menos no chão brasileiro.

Francisco Libânio.
06/01/11, 6:03 PM

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

85 - Pressinto que os amores que eu tive


Pressinto que os amores que eu tive,
Cada qual com sua peculiaridade,
Seu encanto e forma de amar, inclusive,
E se foram, construíram na verdade

Um novo Francisco, mais maduro,
Mais poeta e mais homem enfim,
Forjaram um coração mais duro,
Ensinaram a viver e amar assim

Alguém melhor? Depende... Talvez...
Aprendi, ensinei, ganhei altivez,
Sofri, chorei, ri muito e o mais:

Cada um desses amores singulares,
Diferentes deram novos olhares
Para seguir novo apesar dos sinais.

Francisco Libânio,
05/01/11, 10:55 AM

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Denso


Cada vez que peço à vida um amor denso,
Ela me oferece o oposto, assim superficial,
Que me faça ver próximo o chão mais real
Em que eu possa andar sem perder o senso

Mas se é justamente isso o que dispenso
Já que quero me entregar ao mais irreal
Dos envolvimentos, um que seja sem igual,
Tal pouco me incomoda, mas aí repenso

Se este pé do chão não seria um começo,
Um caminho por onde trilhar seja preciso
Para conhecer deste amor dor e sorriso,

Se este chão não está a formar o apreço
Por quem eu amo. Aceito e me debulho
Neste chão até ele se abrir ao mergulho.

Francisco Libânio,
04/01/11, 2:50 PM

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Visita


A Devassidão em ter outra me visita na ausência
Da mulher amada com vasto catálogo de opções
E um leque inimaginável só seu de combinações:
Duas mulheres, três, um harém à minha preferência

Até gasto tempo correndo todas aquelas páginas,
Observo e comento sobre algumas delas a beleza,
A vendedora brilha os olhos e materializa à mesa
As que gostei. Até vislumbro os beijos das meninas

Penso as loucuras na cama e eis que a Amada chega,
Beija-me a boca, conversa, entretém e me carrega
Para o banho e para o amor com tantas e tão belas

Palavras que, mesmo sendo ela uma mulher normal
E sem ser tão lasciva quanto às mulheres do mal
Ainda assim, ela é melhor que qualquer uma delas.

Francisco Libânio,
06/01/10, 7:12 AM

sábado, 1 de janeiro de 2011

Nunca antes na história desse País


Deixando de lado todos os partidarismos, todas as antipatias e todos os ranços que o acontecimento traz em si, o primeiro dia de 2011 é um dia para ser guardado ad-eternum na história do Brasil, sobretudo em sua fatia mais recente: Goste-se ou não, pela primeira vez, o Brasil assiste a uma mulher tomando posse do cargo mais alto do país.

Isso é algo para se orgulhar, afinal vivemos num país marcadamente machista onde as mulheres conseguiram direitos recentemente. O do voto, inclusive. Se o leitor menos atencioso souber que o fato se deu em 1932 vai questionar sobre o ser recente. Mas, comparado com outros países, a coisa pode valer como um ontem.

Mas a eleição da presidente (ou presidenta? Escolha o leitor a forma que melhor apetecer) Dilma Roussef merece, mesmo, uma atenção festejada. Quem não simpatizar com a ex-guerrilheira, seja pelo motivo que for, terá que colocar o fato desta eleição ter contado com duas mulheres. Poderiam ser outras, pois mulheres competentes para presidir um país este tem várias. Uma foi escolhida. A outra não seria má escolha. E o resto é discussão passional envolvendo ideologias.

Mas já que entramos em ano novo e década nova de presidente (ou presidenta, valem os dois?) nova, o lance é torcer. Quem votou na primeira mulher precisa fazer valer sua convicção e provar que estava certo para não se decepcionar depois e ouvir “eu não disse” em profusão da ala contrária. A ela, que democraticamente foi subjugada nas urnas, cabe a fiscalização rígida, mas consciente sobre os anos que virão. E, acima de tudo, é preciso que se torça, torça muito pelo sucesso não da pessoa que preside, mas pelos bons resultados que podem vir. Quem for brasileiro de verdade não quer o mal do país. E ele é muito maior que uma presidente, uma mulher ou um evento, mesmo que ele seja inédito na história.


Francisco Libânio,

01/01/2011, 1:01 PM